O professor pesquisador e reflexivo
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Nome: Antonio Nóvoa Formação: Doutor em Educação e catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
Alguns livros publicados: |
O paradigma do professor reflexivo, isto é, do professor que reflete sobre a sua prática, que pensa, que elabora em cima dessa prática, é o paradigma hoje em dia dominante na área de formação de professores. Por vezes é um paradigma um bocadinho retórico e eu, um pouco também, em jeito de brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me importa mais é saber como é que os professores refletiam antes que os universitários tivessem decidido que eles deveriam ser professores reflexivos. Identificar essas práticas de reflexão – que sempre existiram na profissão docente, é impossível alguém imaginar uma profissão docente em que essas práticas reflexivas não existissem – tentar identificá-las e construir as condições para que elas possam se desenvolver .Entrevista
com Antônio Nóvoa Salto:
Professor, o que é ser professor hoje? Ser professor atualmente é mais
complexo do que foi no passado? Nóvoa:
É difícil dizer se ser professor, na atualidade, é mais complexo do que foi
no passado, porque a profissão docente sempre foi de grande complexidade. Hoje,
os professores têm que lidar não só com alguns saberes, como era no passado,
mas também com a tecnologia e com
a complexidade social, o que não existia no passado. Isto é, quando todos os
alunos vão para a escola, de todos os grupos sociais, dos mais pobres aos mais
ricos, de todas as raças e todas as etnias, quando toda essa gente está dentro
da escola e quando se consegue cumprir, de algum modo, esse desígnio histórico
da escola para todos, ao mesmo tempo, também, a escola atinge uma enorme
complexidade que não existia no passado. Hoje em dia é, certamente, mais
complexo e mais difícil ser professor do que era há 50 anos, do que era há 60
anos ou há 70 anos. Esta complexidade acentua-se, ainda, pelo fato de a própria
sociedade ter, por vezes, dificuldade em saber para que ela quer a escola. A
escola foi um fator de produção de uma cidadania nacional, foi um fator de
promoção social durante muito tempo e agora deixou de ser. E a própria
sociedade tem, por vezes, dificuldade em ter uma clareza, uma coerência sobre
quais devem ser os objetivos da escola. E essa incerteza, muitas vezes,
transforma o professor num profissional que vive numa situação amargurada, que
vive numa situação difícil e complicada pela complexidade do seu trabalho,
que é maior do que no passado. Mas isso acontece, também, por essa incerteza
de fins e de objetivos que existe hoje em dia na sociedade. Salto:
Como o senhor entende a formação continuada de professores? Qual o papel da
escola nessa formação? Nóvoa
– Durante muito tempo, quando nós falávamos em formação de professores,
falávamos essencialmente da formação inicial do professor. Essa era a referência
principal: preparavam-se os professores que, depois, iam durante 30, 40 anos
exercer essa profissão. Hoje em dia, é impensável imaginar esta situação.
Isto é, a formação de professores é algo,
como eu costumo dizer, que se estabelece num continuum. Que começa nas
escolas de formação inicial, que continua nos primeiros anos de exercício
profissional. Os primeiros anos do professor – que, a meu ver, são
absolutamente decisivos para o futuro de cada um dos professores e para a sua
integração harmoniosa na profissão – continuam ao longo de toda a vida
profissional, através de práticas de formação continuada. Estas práticas de
formação continuada devem ter como pólo de referência as escolas. São as
escolas e os professores organizados nas suas escolas que podem decidir quais são
os melhores meios, os melhores métodos e as melhores formas de assegurar esta
formação continuada. Com isto, eu não quero dizer que não seja muito
importante o trabalho de especialistas, o trabalho de universitários nessa
colaboração. Mas a lógica da formação continuada deve ser centrada nas
escolas e deve estar centrada numa organização dos próprios professores. Salto:
Que competências são necessárias para a prática do professor? Nóvoa
– Provavelmente na literatura, nos textos, nas reflexões que têm sido feitas
ao longo dos últimos anos, essa tem sido a pergunta mais freqüentemente posta
e há uma imensa lista competências. Estou a me lembrar que ainda há 3 ou 4
dias estive a ver com um colega meu estrangeiro, justamente, uma lista de 10
competências para uma profissão.
Podíamos listar aqui um conjunto enorme de competências do ponto de vista da ação
profissional dos professores. Resumindo,
eu tenderia a valorizar duas competências: a primeira é uma competência de
organização. Isto é, o professor não é, hoje em dia, um mero transmissor de
conhecimento, mas também não é apenas uma pessoa que trabalha no interior de
uma sala de aula. O professor é um organizador de aprendizagens, de
aprendizagens via os novos meios informáticos, por via dessas novas realidades
virtuais. Organizador do ponto de vista da organização da escola, do ponto de
vista de uma organização mais ampla, que é a organização da turma ou da
sala de aula. Há aqui, portanto, uma dimensão da organização das
aprendizagens, do que eu designo, a organização do trabalho escolar e esta
organização do trabalho escolar é mais do que o simples trabalho pedagógico,
é mais do que o simples trabalho do ensino, é qualquer coisa que vai além
destas dimensões, e estas competências de organização são absolutamente
essenciais para um professor. Há
um segundo nível de competências que, a meu ver, são muito importantes também,
que são as competências relacionadas com a compreensão do conhecimento. Há
uma velha brincadeira, que é uma
brincadeira que já tem quase um século, que parece que terá sido dita,
inicialmente, por Bernard Shaw, mas há controvérsias sobre isso, que
dizia que: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Hoje
em dia esta brincadeira podia ser substituída por uma outra: “quem compreende
o conhecimento”. Não basta deter o conhecimento para o saber transmitir a
alguém, é preciso compreender o conhecimento, ser capaz de o reorganizar, ser
capaz de o reelaborar e de transpô-lo em situação didática em sala de aula.
Esta compreensão do conhecimento é, absolutamente, essencial nas competências
práticas dos professores. Eu tenderia, portanto, a acentuar esses dois planos:
o plano do professor como um organizador do trabalho escolar, nas suas diversas
dimensões e o professor como alguém que compreende, que detém e compreende um
determinado conhecimento e é capaz de o reelaborar no sentido da sua transposição
didática, como agora se diz, no sentido da sua capacidade de ensinar a um grupo
de alunos. Salto:
O que é ser professor pesquisador e reflexivo? E, essas capacidades são
inerentes à profissão do docente? Nóvoa
– O paradigma do professor reflexivo, isto é, do professor que reflete sobre
a sua prática, que pensa, que elabora em cima dessa prática é o paradigma
hoje em dia dominante na área de formação de professores. Por vezes é um
paradigma um bocadinho retórico e eu, um pouco também, em jeito de
brincadeira, mais de uma vez já disse que o que me importa mais é saber como
é que os professores refletiam antes que os universitários tivessem decidido
que eles deveriam ser professores reflexivos. Identificar essas práticas de
reflexão – que sempre existiram na profissão docente, é impossível alguém
imaginar uma profissão docente em que essas práticas reflexivas não
existissem – tentar identificá-las e construir as condições para que elas
possam se desenvolver. Eu
diria que elas não são inerentes à profissão docente, no sentido de serem
naturais, mas que elas são inerentes, no sentido em que elas são essenciais
para a profissão. E, portanto, tem que se criar um conjunto de condições, um
conjunto de regras, um conjunto de lógicas de trabalho e, em particular, e eu
insisto neste ponto, criar lógicas de trabalho coletivos dentro das escolas,
a partir das quais – através da reflexão, através da troca de experiências,
através da partilha – seja possível dar origem a uma atitude reflexiva da parte
dos professores. Eu disse e julgo que vale a pena insistir nesse ponto. A
experiência é muito importante, mas a experiência de cada um só se
transforma em conhecimento através desta análise sistemática das práticas.
Uma análise que é análise individual, mas que é também coletiva, ou seja,
feita com os colegas, nas escolas e
em situações de formação. Salto:
E o professor pesquisador? Nóvoa
– O professor pesquisador e o professor reflexivo, no fundo, correspondem a
correntes diferentes para dizer a mesma coisa. São nomes distintos, maneiras
diferentes dos teóricos da literatura pedagógica abordarem uma mesma
realidade. A realidade é que o professor pesquisador é aquele que pesquisa ou
que reflete sobre a sua prática. Portanto, aqui estamos dentro do paradigma do
professor reflexivo. É evidente que podemos encontrar dezenas de textos para
explicar a diferença entre esses conceitos, mas creio que, no fundo, no fundo,
eles fazem parte de um mesmo movimento de preocupação com um professor que é
um professor indagador, que é um professor que assume a sua própria realidade
escolar como um objeto de pesquisa, como objeto de reflexão, com objeto de análise.
Mas, insisto neste ponto, a experiência por si só não é formadora. John
Dewey, pedagogo americano e sociólogo do princípio do século, dizia:
“quando se afirma que o professor tem 10 anos de experiência, dá para dizer
que ele tem 10 anos de experiência ou que ele tem um ano de experiência
repetido 10 vezes”. E, na verdade, há muitas vezes esta idéia. Experiência,
por si só, pode ser uma mera repetição, uma mera rotina, não é ela que é
formadora. Formadora é a reflexão sobre essa experiência, ou a pesquisa sobre
essa experiência. Salto:
A sociedade espera muito dos professores. Espera que eles gerenciem o seu
percurso profissional, tematizem a própria prática, além de exercer sua prática
pedagógica em sala de aula. Qual a contrapartida que o sistema deve oferecer
aos professores para que isso aconteça? Nóvoa
– Certamente, nas entrelinhas da sua pergunta, há essa dimensão. Há hoje um
excesso de missões dos professores, pede-se demais aos professores, pede-se
demais as escolas. As
escolas, talvez, resumindo numa frase (...), as escolas valem o que vale a
sociedade. Não podemos imaginar escolas extraordinárias, espantosas, onde tudo
funciona bem numa sociedade onde nada funciona. Acontece que, por uma espécie
de um paradoxo, as coisas que não podemos assegurar que existam na sociedade, nós
temos tendência a projetá-las para dentro da escola e a sobrecarregar os
professores com um excesso de missões. Os pais não são autoritários, ou não
conseguem assegurar a autoridade, pois se pede ainda mais autoridade para a
escola. Os pais não conseguem assegurar a disciplina, pede-se ainda mais
disciplina a escola. Os pais não conseguem que os filhos leiam em casa,
pede-se a escola que os filhos aprendam a ler. É legítimo eles pedirem sobre a
escola, a escola está lá para cumprir uma determinada missão, mas não é legítimo
que sejam uma espécie de vasos comunicantes ao contrário. Que cada vez que a
sociedade tem menos capacidade para fazer certas coisas, mais sobem as exigências
sobre a escola. E
isto é um paradoxo absolutamente intolerável e tem criado
para os professores uma situação insustentável do ponto de vista
profissional, submetendo-os a uma crítica pública, submetendo-os a uma violência
simbólica nos jornais, na sociedade, etc. o que é absolutamente intolerável.
Eu creio que os professores podem e devem exigir duas coisas absolutamente
essenciais que são: ·
Uma, é calma e tranqüilidade para o exercício do seu trabalho, eles
precisam estar num ambiente, eles precisam estar rodeados de um ambiente social,
precisam estar rodeados de um ambiente comunitário que lhes permita essa calma
e essa tranqüilidade para o seu trabalho. Quer dizer, não é possível
trabalhar pedagogicamente no meio do ruído, no meio do barulho, no meio da crítica,
no meio da insinuação. É absolutamente impossível esse tipo de trabalho. As
pessoas têm que assegurar essa calma e essa tranqüilidade. ·
E, por outro lado, é essencial ter condições de dignidade
profissional. E esta dignidade profissional passa certamente por questões
materiais, por questões do salário, passa também por boas questões de formação,
e passa por questões de boas carreiras profissionais. Quer dizer, não é possível
imaginar que os professores tenham condições para responder a este aumento
absolutamente imensurável de missões, de exigências no meio de uma crítica
feroz, no meio de situações intoleráveis, de acusação aos professores e às
escolas. Eu
creio que há, para além dos aspectos sociais de que eu falei a pouco – e que
são aspectos extremamente importantes, porque no passado os professores não
tiveram, por exemplo, os professores nunca tiveram situações materiais e econômicas
muito boas, mas tinham prestígio e uma dignidade social que, em grande parte
completavam algumas dessas deficiências – para além desses aspectos sociais
de que eu falei a pouco e que são essenciais para o
professor no novo milênio, neste milênio que estamos, eu creio que
pensando internamente a profissão, há dois aspectos que me parecem essenciais.
O primeiro é que os professores se organizem coletivamente – e esta organização
coletiva não passa apenas, eu insisto bem, apenas pelas tradicionais práticas
associativas e sindicais – passa também por novos modelos de organização,
como comunidade profissional, como coletivo docente, dentro das escolas, por
grupos disciplinares e conseguirem deste modo exercer um papel com profissão,
que é mais ampla do que o papel que tem exercido até agora. As questões dos
professorado enquanto coletivo parecem-me essenciais. Sem desvalorizar as questões
sindicais tradicionais, ou associativas, creio que é preciso ir mais longe
nesta organização coletiva do professorado. O
segundo ponto – e que tem muito a ver também com formação de professores
– passa pelo que eu designo como conhecimento profissional. Isto é, há
certamente um conhecimento disciplinar que pertence aos cientistas, que pertence
às pessoas da história, das ciências, etc., e que os professores devem de
ter. Há certamente um conhecimento pedagógico que pertence, às vezes, aos
pedagogos, às pessoas da área da educação que os professores devem de ter
também. Mas, além disso há um conhecimento profissional que não é nem um
conhecimento científico, nem um conhecimento pedagógico, que é um
conhecimento feito na prática, que é um conhecimento feito na experiência,
como dizia há pouco, e na reflexão sobre essa experiência. A
valorização desse conhecimento profissional, a meu ver, é essencial para os
professores neste novo milênio. Creio, portanto, que minha resposta passaria
por estas duas questões: a organização como comunidade profissional e a
organização e sistematização de um conhecimento profissional específico dos
professores. Salto:
O senhor diz em um texto que a sua intenção é olhar para o presente dos
professores, identificando os sentidos atuais do trabalho educativo. Em relação
ao Brasil o que o senhor vê: o que já avançou na formação dos professores
brasileiros e o que ainda precisa avançar? Nóvoa
– É muito difícil para mim e nem seria muito correto estar a tecer grandes
considerações sobre a realidade brasileira. Primeiro porque é uma realidade
que, apesar de eu cá ter vindo algumas vezes, que eu conheço ainda mal,
infelizmente, espero vir a conhecer melhor e, por outro lado, porque não seria
(...) da minha parte tecer grandes considerações sobre isso. No
entanto, eu julgo poder dizer duas coisas. A primeira é que os debates que há
no Brasil sobre formação de professores e sobre a escola são os mesmos
debates que se tem um pouco por todo mundo. Quem circula, como eu circulo,
dentro dos diversos países europeus, na América do Norte e outros lugares,
percebe que estas questões, as questões que nos colocam no final das
palestras, as perguntas que nos fazem são, regra geral, as mesmas de alguns países
para os outros. Não há, portanto, uma grande especificidade dos fatos
travados no Brasil em relação a outros países do mundo e, em particular, em
relação a Portugal. Creio
que houve, obviamente, avanços enormes na formação dos professores nos últimos
anos, mas houve também grandes contradições. E a contradição principal que
eu sinto é que se avançou muito do ponto de vista da análise teórica, se
avançou muito do ponto de vista da reflexão, mas se avançou relativamente
pouco das práticas da formação de professores, da criação e da consolidação
de dispositivos novos e consistentes de formação de professores. E essa decalagem
entre o discurso teórico e a prática concreta da formação de professores
é preciso ultrapassá-la e ultrapassá-la rapidamente. Devo dizer, no entanto,
também, que se os problemas são os mesmos, se as questões são as mesmas, se
o nível de reflexão é o mesmo, eu creio que a comunidade científica
brasileira está ao nível das comunidades científicas ou pedagógicas dos
outros países do mundo. Se essas realidades são as mesmas é evidente que há
um nível, que eu diria, um nível material, um nível de dificuldades
materiais, de dificuldades materiais nas escolas, de dificuldades materiais
relacionadas com os salários dos professores, de dificuldades materiais
relacionadas com as condições das instituições de formação de professores
que são, provavelmente, mais graves no Brasil do que em outros países que eu
conheço. Terão
aqui, evidentemente, problemas que têm a ver com as dificuldades históricas de
desenvolvimento da escola no Brasil e das escolas de formação de professores e
que, portanto, é importante enfrentá-los e enfrentá-los com coragem e enfrentá-los
de forma não ingênua, mas também de forma não derrotista. Creio, por isso,
que devemos perceber que no Brasil, como nos outros países, as perguntas são
as mesmas, as nossas empolgações são as mesmas, mas é verdade que há aqui
por vezes dificuldades que eu chamaria de ordem material, maiores do que as
existem em outros países e que é absolutamente essencial que com a vossa
capacidade de produzir ciência, com a vossa capacidade de fazer escola e com a
vossa capacidade de acreditar como educadores possam ultrapassar essas
dificuldades nos próximos anos. E esses são, sinceramente, os meus desejos e
na medida que meu contributo, pequeno que ele seja, possa ser dado, podem,
evidentemente, contar comigo para essa tarefa. (Entrevista concedida em 13 de setembro 2001) |