PGM
4: Dança, teatro e matemática
As
artes do corpo e a ciência: uma nova aliança
Gisa
Picosque*
Perturbou-me,
certa vez, o nome de uma companhia de dança contemporânea:
Ur=Hor (lê-se 'U' de 'r' é igual à 'H' 'zero'
de 'r'). Até então, os nomes de companhias de teatro ou
dança que conhecia soavam com naturalidade, investidos de significados
que casavam com o que se espera de um nome para dar identidade a um grupo
que trabalha no campo artístico.
Entretanto,
não é supérfluo levar a sério o nome que recebe
um projeto de trabalho. Ao decodificar Ur=Hor, descubro que é uma
fórmula matemática que significa a constante expansão
das galáxias no universo. Uma surpresa, não é?
Qual
seria a razão para usar essa fórmula para nomear um projeto
de dança? O que a dança teria em relação com
fórmulas de matemática, ou vice-versa?
A
companhia de dança Ur=Hor foi fundada em 1997 e estabelecida em
Belo Horizonte. Sua fundadora é a mineira Adriana Banana, bailarina,
coreógrafa e compositora das trilhas sonoras de diversos espetáculos.
Não à toa, o nome da companhia traduz as preocupações
de Adriana, que vem pesquisando nos estudos científicos a explicação
para a supremacia do corpo em relação ao intelecto. Ou seja,
a ciência está mostrando que a inteligência não
está limitada ao cérebro, mas depende do corpo todo.
A
pesquisa de dança desenvolvida pela Ur=Hor exemplifica as bases
em que se apóia a produção contemporânea das
formas artísticas que chamamos de teatro, dança e performance
ou, sintetizando, as artes do corpo.
Como
as palavras mantêm uma sintonia com aquilo que elas designam, não
à toa, nomear de Artes do Corpo o teatro, a dança e a performance
faz uma proximidade entre as três linguagens e coloca o Corpo como
centro gerador dessas linguagens. Nesse sentido, no contemporâneo,
a pesquisa estética dessas artes focaliza-se no corpo, abrindo
uma perspectiva para compreender e operar com o corpo que pensa através
de suas ações.
Mas,
o corpo pensa? Não é a mente que pensa? É muito comum,
ouvir, por exemplo, que para dançar não precisa pensar.
Na cultura escolar, pensar está diretamente ligado à mente
e ligadas à mente estão aquelas disciplinas que, numa visão
clássica, usam o raciocínio lógico, como a Matemática.
O
que está por trás dessa concepção é
a crença na dualidade mente e corpo, razão e sentimento,
presente na tradição do pensamento ocidental e que encorajou
um desprezo pelo corpo.
Hoje,
porém, o corpo é visto como o lugar em que são desencadeados
os processos cognitivos. Sabemos que o cérebro pensa porque o corpo
lhe jorra conteúdos essenciais, alianças cognitivas com
o que nos envolve no meio circundante. Pela mediação do
corpo, as emoções participam da racionalidade. Cérebro
e corpo se imbricam, não havendo controle de um sobre o outro,
como afirma o teórico António Damásio.
É
nas recentes teorias das ciências cognitivas que se encontram os
fundamentos que podem ampliar a compreensão dos processos que determinam
como o homem conhece e representa o mundo à sua volta, bem como
o papel do corpo e da mente nestes processos.
Para
as artes do corpo, essas teorias interessam para melhor iluminar novos
entendimentos dos processos de como o ator, o bailarino, ou melhor dizendo,
o performer, conhece e representa.
Hoje,
dança e teatro convergem num mesmo ponto - a performance -, em
que o ator ou bailarino não "emprestam o corpo a um personagem",
mas estão implicados na questão que o personagem traz. "Performance
no sentido de transformar o corpo num manifesto existencial", como
observa Christine Greiner, coordenadora do curso de Comunicação
e Artes do Corpo da PUC/SP. Para Greiner, "ao investigar seus processos,
o artista contemporâneo se conduz como um pesquisador que trata
o corpo como um laboratório. E nesse corpo-laboratório,
o modelo não vem antes. O que vem antes é a questão".
Desse
modo, sob o impulso de encontrar respostas estéticas "a questão",
é o corpo-laboratório do ator/bailarino, que vai falar no
processo através de uma atitude de experienciar, colocar-se em
ação por meio de uma vivência instantânea e
direta do corpo em "si mesmo", a cada experiência. É
em ação que o ator/bailarino abre seu repertório
de movimentação, tenta novos percursos para o corpo, amplia
seus limites e busca execução precisa e inventiva.
O
contrário se dá quando o processo é através
de um modelo, o que significa dizer que os movimentos são antes
imaginados mentalmente, para depois serem acionados, "fisicalizados"
no espaço/tempo da ação.
Assim,
pensar-em-ação - ou pensar-em-movimento - significa buscar
um modo de pensamento mais perto possível de uma organicidade proveniente
do corpo em ação. Nesse sentido, o conceito de pensamento
se amplia enquanto ação experienciada, e não somente
como um processo que requisita a mente e a razão.
As
artes do corpo são dominantemente cinéticas, por isso mesmo,
é a ação que condiciona a sua existência. Porque
ocorrem num corpo vivo que porta aptidão para produzir formas,
o teatro/dança só existem quando e, apenas quando, estão
sendo feitos.
Nesse
processo tão complexo de fazer artístico, o corpo pensa
em fusão com a espacialidade, a temporalidade, a sensibilidade
e a emoção. O corpo, produto e produtor da ação,
confere vida e doa a forma para aqueles que vêem o ator/bailarino
em estado de criação.
Mas,
voltemos à fórmula matemática Ur=Hor, que deu origem
a uma companhia de dança. Talvez, o seu significado - a constante
expansão das galáxias no universo -, possa simbolizar que
questões como aquelas que envolvem movimento, espaço e tempo,
colocadas pelas modernas idéias científicas da complexidade,
vêm sendo investigadas e elaboradas de um modo sofisticado nos processos
de criação gerados e processados nas artes do corpo.
Seja
dentro do ambiente da dança, tornando uma questão para a
criação, a investigação do corpo no campo
gravitacional, os vetores de força que atuam no sentido de manter
o corpo no chão, no plano baixo; ou, no sentido de manter o corpo
suspenso no ar, na horizontalidade. Seja no ambiente teatral, no treinamento
corporal do ator, provocando um estado de entropia (conceito chave da
nova física) através de exercícios de desequilíbrio
físico/emocional que colocam o corpo experimentando situações
de instabilidade para buscar romper com os condicionamentos pessoais e
os do próprio ofício teatral, abrindo possibilidades ou
probabilidades de o ator alçar maiores vôos criativos.
Esse
novo caminho, focalizando o corpo no processo de criação,
aponta a constante expansão das artes do corpo no sentido de busca
de mapeamento de pensamentos do corpo, geradores de equações
corporais. Mostra-se, assim, que estão o teatro e dança
num eterno movimento contínuo, numa trama de construções
e novas desconstruções, um continuum sem fim, processando
conhecimento com o corpo.
Levando-se
isso em conta e se a arte é o lugar privilegiado de reinvenção
e de injeção de vida na vida, qual seria o saber e a reflexão
que as imagens poéticas-corporais manifestadas no teatro e na dança
poderiam provocar nos jovens sobre o corpo, o seu próprio corpo,
o corpo do outro e sobre o corpo como inscrição cultural?
Num
trabalho de leitura de espetáculos de teatro/dança, focalizando
o olhar sobre o corpo, a probabilidade de capturar e reevocar o corpo
sob formas inaugurais pode trazer aos jovens configurações
de imagens corporais inusitadas, formando gestalts novas para o seu olhar
sobre o corpo contemporâneo.
Se
hoje, arte e ciência formam uma nova aliança na produção
contemporânea das artes do corpo, nutrir e impulsionar os jovens
à leitura e análise dessa produção é
inseri-los numa nova fase de alfabetização. Uma alfabetização
que inclua e trabalhe no seu processo de fazer e apreciar elementos como
a aleatoriedade, o abstracionismo, o corpo em movimento ou que são
movimento ou o corpo estático, em novos centros de gravidade, outros
pontos de equilíbrio, em contaminação entendida como
livre fluxo de informação entre arte e ciência no
fazer artístico.
Isso
seria particularmente subversivo e importante para desmontar a definição
escolar clássica do corpo - cabeça, tronco e membros - e
a dualidade entre corpo e mente, sentimento e razão. Desmanchando,
assim, a idéia do Penso, logo existo, recriando-a - existo
e sinto, logo penso. Nesse novo paradigma, o modo de pensar o mundo
é o modo de realizá-lo na carne.
Bibliografia
DAMÁSIO,
António. O mistério da consciência: do corpo e
das emoções ao conhecimento de si. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000.
____________.
O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro
humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DAWKINS,
Richard. O gene egoísta. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia,
2001.
KATZ,
Helena. Dança como evolução. In: De sons
e signos: música, mídia e contemporaneidade. São
Paulo: EDUC, 1998.
MATURANA,
R. Humberto. Emoções e linguagem na educação
e na política. Belo Horizonte, UFMG, 1998.
PRIGOGINE,
Ilya. A nova aliança: metamorfose da ciência. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1997.
SERRES.
Michel. Os cinco sentidos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2001.
NOTAS:
*
Professora de Teatro. Atua em Projetos de Ação Educativa
em Instituições Culturais e Consultoria no ensino de arte,
especialmente, na formação de educadores em instituições
culturais e educacionais.

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