PGM
2 - Artes visuais e matemática
Arte
e Matemática
Angela
Ancora da Luz 1
"A
arte não reproduz o visível, mas torna
visível. A essência da arte gráfica
conduz facilmente, e com toda razão para a abstração.
(...) Os elementos formais da arte gráfica são:
pontos, energias lineares, energias planas e energias
espaciais".
Paul
Klee
Tornar
visível significa trazer uma imagem concebida por um homem e inseri-la
no universo de muitos homens. O resultado do processo criativo é
exatamente este. Consciente ou inconscientemente, emotiva ou racionalmente,
o ser humano produz arte. Neste procedimento, sua trajetória se
desenvolveu da mimese para a abstração, ou seja, primeiramente
ele contemplou a natureza, reproduziu-a e, depois, separou dela as suas
formas, chegando à abstração.
Na
Pré-História, os seres humanos criavam partindo da reprodução
de formas que eram vitais para a sobrevivência, como os bisões
que eram pintados no interior da caverna e as esculturas representando
Vênus, com um grande ventre, esculpidas, preferencialmente, em pedra.
Formas que registram o apelo mágico destes artistas, desejosos
de materializar o objeto de suas necessidades. Mas é no Neolítico
que os seres humanos conseguirão gravar, no osso ou na pedra, os
símbolos abstratos de suas próprias indagações.
Tais símbolos são "apresentados" intuitivamente,
ou matematicamente.
No
início do século XX, este desejo de abstração
será consciente, como podemos perceber na afirmação
de Kandinsky: "Logo uma coisa se tornou clara para mim: a representação
dos objetos não precisava ter lugar na minha pintura, e na verdade,
era-lhe prejudicial".
Em
1951, Max Bill foi premiado na 1ª Bienal de São Paulo com uma obra
intitulada "Unidade Tripartida", na qual podemos observar seu
racionalismo formalista através da lógica matemática
com que ele estrutura o espaço, ao utilizar superfícies
que se desenvolvem continuamente. No Brasil, o impacto da obra de Max
Bill alavancou o movimento concretista. É evidente que, a esta
época, já encontrávamos no Rio de Janeiro artistas
como Almir Mavignier e Ivan Serpa, que estavam buscando este caminho.
Nesta mesma Bienal, Serpa foi o pintor brasileiro que recebeu o prêmio
de "Jovem artistas". A pintura que apresentou, intitulada "Formas",
compunha-se de círculos que aparecem como figura e fundo, embasada
na Teoria da Percepção.
O
desejo de criar uma arte que não mais representasse, mas que pudesse
tornar visível concretamente a linha de raciocínio de um
artista, sinaliza o abandono da figuração.
Do
século XV ao final do século XIX, o homem construiu um espaço,
que hoje conhecemos como "o espaço cúbico da perspectiva
renascentista". A partir dos movimentos pós-Cézanne,
este espaço começará a ser desconstruído.
No
século XV, o rigor matemático da cúpula de Brunelleschi,
na catedral de Florença, é a certeza de uma procura na qual
a regra é matemática: equilíbrio, ritmo, simetria.
A sucessão de janelas marca, nas arquiteturas, o ritmo; a horizontalidade,
que enquadra o edifício no campo visual do homem que passa, assegura
a possibilidade de equilíbrio que se completa na exigência
da simetria.
Na
pintura, a horizontalidade e a forma piramidal passam a nortear a composição
do artista. A regra e a norma - há uma lógica matemática
que faz o artista procurar a "justa medida". As figuras serão
representadas dentro de um espaço que se apresenta aos nossos olhos
como "visto" através de uma janela. Alguns artistas chegavam
a montar pequenas esculturas, dentro de caixas e, por um ou mais orifícios,
abertos em algum lugar da caixa, passavam a observar como se comportavam
aqueles elementos em relação ao espaço, que relações
estabeleciam entre si e com o espaço.
O
ser humano chegava à construção do espaço
matemático nas artes. Até aquele momento, ele havia reproduzido
a natureza usando a perspectiva aérea, em que a cor mais forte
e definida aparece em primeiro plano e as mais tonalizadas vão
preenchendo os planos subseqüentes, com efeitos semelhantes ao filtro
atmosférico, que torna o horizonte azulado ou acinzentado. Um outro
artifício para resolver o problema perspectivo do quadro era o
uso da observação, conforme se comprova na pintura de Giotto
e Masaccio. Finalmente, artistas como Piero della Francesca, Paolo Ucello
e Andréa Mantegna vão procurar a solução exata
da representação do espaço através das linhas
de fuga, do ponto principal e da linha do horizonte. Isto se dará
no século das grandes descobertas, quando o ser humano velejará
em direção à linha do horizonte que, no entanto,
permanecerá fixa, fazendo convergir para ela todas as demais linhas.
"De
todas as linguagens, a dos matemáticos é a mais exata,
quer se trate de equações, figuras geométricas
planas, ou sólidos. Na sua procura de regras fundamentais, baseadas
em princípios primários e independentes da vida diária,
o homem tentou exprimir o mundo em termos matemáticos, olhando
o Criador como o perfeito matemático-filósofo."
Bernard
Myers
O
desejo de obter a forma pura sempre estimulou o artista a pesquisar, procurando
soluções. O que seria o puro? Onde encontrá-lo? A
maior parte dos artistas, em todos os tempos, buscou suas respostas na
matemática. Também no campo filosófico, as reflexões
que investigam a pureza estão na matemática. Para Platão,
as formas puras se encontravam nos cubos, cilindros, cones, esferas e
outros sólidos regulares, geométricos, resistentes à
adulteração do mundo sensível. Aristóteles
defendia o círculo e a esfera como formas perfeitas e divinas e,
também, os pitagóricos se rendiam à perfeição
do círculo.
Na
arte, muitos foram os que buscaram as soluções geométricas
para equacionarem seus questionamentos e criarem. Mais uma vez eles reencontram
a simetria e retornam ao cânone, para, mais uma vez, ainda, romperem
com o modelo em busca de uma arte que abandonasse o ilusionismo da perspectiva
e reafirmasse a bidimensionalidade do quadro.
A
busca de uma arte que não apenas represente, oferecendo-nos a possibilidade
de apenas um significado, que é aquilo que vemos, dá lugar
a uma arte que permite abrir a possibilidade de significados, transformando-se
em enigma ou equação que precisa ser desenvolvida mentalmente.
Muitas vezes ela se apresenta com mais de uma incógnita e a solução
não está no mundo visível.
"A
modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente,
a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável."
Baudelaire
O
transitório e o fugitivo, o que passa e o que se eterniza. O homem
percebe a dimensão temporal da arte. Cada vez mais ele sente que
precisa da idéia para ser incomum e permanecer no eterno. Até
o final do século XIX, o artista sabia que não poderia prescindir
da técnica. Ele tinha que conhecer, profundamente, os segredos
da matéria e do suporte onde pintava; porém, naquele momento
ele começa a se preocupar com os conceitos. A questão do
tempo e do espaço vai ser discutida em outros moldes. O filósofo
Bergson (1859-1941) elabora as suas teorias. Para ele, o tempo é
"duração". Com isto, ele introduz o psíquico
e se afasta do tempo "matemático". Para o filósofo,
a duração é a própria realidade, é
o que se vive, intuitivamente, e não somente o que se compreende
através do intelecto.
Na
arte, um dos exemplos mais expressivos da vontade de apreensão
do tempo acontece com os futuristas. Eles exaltam o aeroplano, o carro
rugidor, a máquina que conduz o homem ao futuro. Eles defendem
uma estética do dinamismo. Este tempo futurizado se opõe
ao passado, ilustrado pelos museus, que são considerados pelos
futuristas como cemitérios, pois guardam "corpos" que
não se conhecem. Cada vez mais, o homem procura fazer uma arte
que não possa ser adquirida, colecionada, exibida fora de seu próprio
acontecimento.
A
concepção do espaço também será abalada
pelas novas experiências e pelas teorias no campo da física
e da matemática.
Na
experiência do vivido, o homem começa a subir em balões,
no final do século XIX. Mais tarde voará nos "aeroplanos"
que alimentaram o sonho futurista.
Ao
se elevar, o homem corta a sua relação espacial com a Terra
e elimina a linha do horizonte. Ele não se desloca mais, sucessivamente,
na direção do horizonte e nem apreende uma linha imutável
em sua retina. A arte se torna atectônica, descola-se da Terra.
O atectonismo representa uma nova concepção espacial. O
homem se divorcia da linha do horizonte e parte em direção
ao espaço, num novo vôo de núpcias. A desconstrução
do espaço, que se mantinha desde o século XV, seria inevitável.
Contudo, novas aproximações com a matemática seriam
experimentadas, pois ela vai também se reformular. A matemática
moderna dialoga com a arte moderna e contemporânea.
Malevicht,
cujas teorias da arte começam a ser conhecidas a partir de 1914,
liberta as suas formas de todas as dependências da lei da gravidade.
Ele solta suas formas geométricas e as deixa "navegar"
num espaço cósmico. "Minha nova pintura não
pertence à Terra exclusivamente", afirmaria Malevicht, ao
defender que, em sua consciência, ele sentia a tensão do
homem em direção ao espaço, uma espécie de
atração por se descolar da Terra. Assim, o branco de suas
telas exprime o espaço cósmico, onde as formas geométricas
"brincam" como elementos flutuantes. Para ele, o quadrado é
a criança real, a forma suprema, símbolo da revolução
da sensação pura.
Além
disso, o homem percebe que a ampliação do espaço
não está fora dele, mas dentro, em suas estruturas mais
interiores.
"A
descoberta fundamental, a que determina a verdadeira ruptura, chegou
no momento em que, como no Quatrocento, os artistas descobriram que
a ampliação do universo não podia continuar a ser
procurada na renovação do cenário pitoresco, mas
pelo contrário, em um aprofundamento de suas estruturas íntimas."
Pierre
Francastel
A
ampliação do universo se dá, na medida em que, por
um lado, o homem descobre o espaço e destrói, paulatinamente,
o espaço plástico do renascimento e, por outro, ele percebe
que o incomensurável, o infinito, está dentro dele. O abstracionismo
testifica o confronto do artista com uma outra realidade. Apenas a tela,
ou o muro, enfim, o suporte pode apreender o real, ou seja, o pensamento
do artista. Por meio de seus raciocínios ou de suas emoções,
ele os registra com cores no espaço plano. O homem rompe com o
ilusionismo, desfaz a janela e percebe, como afirmaria Francastel, que
o mais misterioso está perto dele e não pode haver espaço
mais extenso que o espírito humano e suas relações
corpo e espírito. O tempo, na verdade, sou eu. Eu passo, mas digo
que o tempo passa. É a duração bergsoniana que vai
imprimindo novas relações.
No
campo da Física, a teoria da Relatividade, de Einstein, vai nos
confrontar com um novo conhecimento. O homem pode estabelecer a relação
em cadeia que ocorre depois que o primeiro átomo se desintegra,
mas não pode antecipar qual deles será o primeiro. Einstein
se indaga: "Deus não joga dados!", mas o enigma do acaso
desafia sua compreensão. Contudo, as questões pesquisadas
por físicos e matemáticos estarão, também,
na discussão de artistas como Piet Mondrian, por exemplo.
"A
plástica precisa do universal é inconcebível sem
a plástica do puro equilíbrio, e o equilíbrio é
inconcebível sem a dualidade. É a dualidade que expressa
a relação. Se apenas se representa o 'uno', de qualquer
maneira que se faça, ele aparecerá individualmente. A
plástica precisa do universal não é a representação
de um ou de outro: é a representação da relação
equilibrada de um e de outro, por sua vez."
Piet
Mondrian
Em
Piet Mondrian, o "preciso" é perseguido com uma preocupação
asséptica. Em sua plástica do puro equilíbrio ele
toma uma árvore na natureza e, através de uma equação,
em que as relações sensíveis entre o que ele vê
e o que pensa vão sendo estabelecidas até se resolverem
numa tela plana, em que retas se encontram em ângulo reto. Aparecem
em suas pinturas, no máximo, as três cores básicas:
vermelho, azul e amarelo, além de, no máximo, três
"não cores": preto, cinza e branco. É o primado
do equilíbrio obtido na dualidade, vertical e horizontal. Neste
caso, "a criança real" é o ângulo reto.
Por
outro lado, se o enigma do acaso desafia físicos e matemáticos,
impedindo-os de reconhecer, a priori, o átomo que iniciará
o processo de desintegração, na arte, também vamos
encontrar os que procuram o acaso, como detonador de seus movimentos em
cadeia mais interiorizados, conforme se observa nos dadaístas,
cujo desejo plástico resultava na excitação do riso,
na curiosidade e na cólera, conforme ensinava Tristan Tzara. Aliás,
é dele a receita para se fazer um poema dada. Tzara recomenda
que se recorte de um jornal um artigo qualquer (do tamanho que você
quiser dar ao poema), a seguir, se recortem as palavras e que sejam colocadas
num saco. Após serem agitadas, suavemente, o poeta deverá
retirá-las, uma após outra, escrevendo-as na seqüência
em que saírem, para comporem um poema dada, embora incompreendido
do público. O acaso como detonador de um processo criador; de uma
reação em cadeia, que poderá levar ao riso ou a cólera
o leitor e fruidor da obra.
Finalmente,
no campo da física, a teoria do caos vem neutralizar o discurso
das verdades absolutas, procurando explicar a realidade dentro de uma
dimensão espaço-temporal limitada. Na arte, pintores, como
Pollock, procuram a dimensão espaço-temporal da tela, estendida
no chão, onde o pintor a invade, deixando a tinta escorrer em drippings
imprevisíveis. Tintas automotivas, colheres e bastões
nos lugares dos pincéis e um novo tempo, que se estende apenas
durante a ação do artista. O resultado se eterniza no plano
da tela, quando a mesma procura um outro espaço, o da contemplação
do espectador. Assim, arte & matemática se aproximam, não
só em propostas, raciocínios e lógicas; não
apenas no rompimento das cadeias, na procura e investigação
de conceitos, na busca da interioridade em que o fim e o princípio
se encontram, mas, sobretudo, numa comum estrutura estética.
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Mario. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.
NOTAS:
- Professora
de História da Arte e de História, Teoria e Crítica
de Arte dos cursos de Graduação e Pós-Graduação
da Escola de Belas Artes; Diretora da Escola de Belas Artes da Universidade
Federal do Rio de Janeiro; Mestrado em Filosofia, na área de
Estética/IFCS/UFRJ e Doutorado em História Social, na
área de Cultura/IFCS/UFRJ; autora dos livros Anna Letycia.
São Paulo, Edusp, 1999; A Fabulação Trágica
de Portinari na Fase dos Retirantes. Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ,
1985. Artigos em revistas especializadas e catálogos de exposições.

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