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  Espaços públicos de memória

    Sons de tambores na nossa memória – o ensino de História africana e afro-brasileira

Mônica Lima 1


“À volta da fogueira,
os mais velhos disseram
vão então caçar nuvens
que já fogem de nossos olhos.
Nós pedimos um guia
armas, munições
e farnel para a longa jornada.
Mas eles sorriram
terão de levar apenas
estes sons de tambores
na memória.”
(Caçadores de Nuvens , do poeta angolano João Melo)

A aprovação da Lei n. 10.639 de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino de História da África e da História dos africanos nas escolas de todo o país, além de atender a uma antiga e justa reivindicação, trouxe uma série de conseqüências para o ensino desta área/disciplina em sua totalidade e para a formação dos profissionais que atuam no magistério, em especial aqueles desta área específica – a História. As mudanças ocasionadas pela citada Lei ainda estão em processo. E não influenciarão apenas os educadores. Elas podem trazer resultados para o amplo grupo que pretendem atingir. Crianças e adolescentes, jovens e adultos entrarão em contato com o tema. O alcance das transformações pode ser grande – e muito positivo. E elas poderão ser aceleradas ou adquirirem um ritmo mais lento, conforme a capacidade de setores interessados intervirem no processo. O impacto da medida merecerá certamente estudos aprofundados, preferencialmente tendo como base dados vindos de diferentes partes do país, com suas diversas experiências.

O ensino-aprendizagem destes conteúdos abre muitas perspectivas para o trabalho com espaços educativos não-formais. Museus, centros culturais, sítios históricos (tombados ou não) são lugares de memória e objetos de estudo e de sensibilização para a aprendizagem por excelência. Os exemplos são os mais diversos, se pensarmos em termos de Brasil: igrejas, casas de cultura, terreiros, espaços públicos de reunião e festejos também são locais para se aprender e ensinar a história afro-brasileira.

E, se pensarmos no nosso patrimônio imaterial, este universo se amplia ainda mais: histórias, contos populares, contos infantis de matriz africana e/ou afro-brasileira, cantigas, canções de festas religiosas populares (assim como a Congada, por exemplo) podem tornar-se um mote e o próprio objeto de estudo, trazendo viva a africanidade da cultura brasileira. Além destes de caráter mais geral, estão presentes, em diversas de nossas comunidades, os mais velhos que podem relembrar e trazer para nossos alunos muito deste patrimônio em momentos de congraçamento e aprendizagem.

Só para lembrar: não importa nossa origem familiar: todos nós, brasileiros, carregamos ‘áfricas' dentro de nós . Essas ‘áfricas' (no plural, pois são múltiplas) são e foram permanentemente reinventadas aqui no Brasil, mas revelam sua profunda origem a cada momento: no vocabulário (moleque, quitanda, cafuné, cocada, entre tantas palavras – vale uma pesquisa!), nos costumes, na expressão de fé, na comida.

Todos estes aspectos convergem para a abertura de muitas possibilidades de trabalhar com o ensino de História em espaços não-formais e em situações não-formais. Estes lugares e momentos certamente enriquecerão nossos estudos e a aprendizagem que com eles se viabiliza.

Estaremos lidando com uma matéria-prima fascinante e delicada: os diversos matizes da nossa formação cultural, a memória dos nossos ancestrais e, especialmente, suas heranças, tão longamente invisibilizadas. Todo o cuidado será sempre pouco para não resvalarmos pelas trilhas aparentemente fáceis do maniqueísmo, da simplificação e da folclorização. Vamos pensar, então, na prevenção destes perigosos males que podem enfraquecer nossa percepção e nos distanciar dos nossos objetivos. Alguns destes cuidados podem parecer óbvios, mas muitas vezes o aparentemente óbvio merece ser re-visto e re-visitado , para refletirmos sobre ele.

Vamos lá...

•  Os africanos e seus descendentes nascidos da diáspora no Novo Mundo (as Américas, incluindo o Brasil) eram seres humanos, dotados de personalidade, desejos, ímpetos, valores. Eram também seres contraditórios, dentro da sua humanidade. Tinham seus interesses, seu olhar sobre si mesmos e sobre os outros. Tinham suas experiências de vida – vinham muitas vezes de sociedades não-igualitárias nem equânimes na África ou nasciam aqui em plena escravidão. Não há como uniformizar atitudes, condutas e posturas e idealizarmos um negro sempre ao lado da justiça e da solidariedade. O que podemos e devemos ressaltar são os exemplos destes valores de humanidade, presentes em muitos, e injustamente negados e tornados invisíveis pela sociedade dominante, durante tanto tempo. Mas sugerimos, veementemente, evitar dividir o mundo em ‘brancos maus' e ‘negros bons', o que não ajuda a percebermos o caráter complexo dos grupos humanos. A idéia é valorizar o positivo, mas sem idealizar.

•  O nosso desconhecimento sobre a história e a cultura dos africanos e dos seus descendentes no Brasil e nas Américas pode fazer muitas vezes com que optemos por utilizar esquemas simplificados de explicação para um fenômeno tão multifacetado quanto a construção do racismo entre nós. O racismo é um fenômeno que influiu e influi nas mentalidades, num modo de agir e de ver o mundo. E as diferentes sociedades interagiram com ele de diversas maneiras – o Brasil não tem a mesma história de relações raciais que os Estados Unidos, para usar um exemplo clássico. No entanto, durante muito tempo se defendeu a idéia de que aqui não havia discriminação e, ainda, que o que separava as pessoas era ‘apenas' sua condição social. Hoje, não só vemos pelos dados da demografia da pobreza brasileira que ela tem uma inequívoca marca de cor, como sabemos que um olhar mais atento à História e à vida dos afro-descendentes no país revela a nossa convivência permanente com o preconceito e seus efeitos perversos. Mas, para podermos enxergar isso, tivemos que ouvir relatos, ver dados e entender como foi esta História. Só assim pudemos desnaturalizar as desigualdades e ver a face hostil do nosso ‘racismo envergonhado'. O que isto quer dizer? Que devemos nos dedicar ao tema: estudar, ler, nos informar, sempre e mais. Afinal, o que está em jogo é bem mais que a nossa competência profissional, é o nosso compromisso com um país mais justo e com um mundo melhor para todos e todas.

•  Nós nos acostumamos a ver as manifestações culturais de origem africana confinadas ao reduto do chamado ‘folclore'. Este conceito de folclore, que remete às tradições e práticas culturais populares, não tem em si nenhum aspecto que o desqualifique, mas o olhar que foi estabelecido sobre o que chamamos de ‘manifestações folclóricas', sim. E, sobretudo no mundo contemporâneo, em que a modernidade está repleta de significados positivos, o folclore e o popular se identificam não poucas vezes com o atraso – algo curioso, exótico, porém de menos valor. Logo, se não problematizarmos a inserção da cultura africana neste registro, correremos o risco de não criar a identidade nem estimular o orgulho de a ela pertencermos. Podemos desmistificar a idéia de folclore presente no senso comum e, também, mostrar o quão complexa e sofisticada é a nossa cultura negra brasileira. Envolve saberes, técnicas e toda uma elaboração mental para ser construída e se expressar. E, assim como nós, está em permanente mudança e não é nada óbvia.

Além destes três cuidados básicos de caráter geral, há outros dados sobre os quais devemos refletir e estar sempre atentos:

•  A África é um amplo continente, em que vivem e viveram desde os princípios da humanidade (afinal, segundo pesquisas, foi na região onde atualmente se localiza o Continente Africano que a humanidade surgiu), grupos humanos diferentes, com línguas, costumes, tradições, crenças e maneiras de ser próprias, construídas ao longo de sua História. Referir-se a “o africano” ou “a africana”, como uma idéia no singular é um equívoco. Podemos até utilizar estes termos quando tratarmos de processos históricos vividos por diversos nativos da África, mas sempre sabendo que não se trata de um todo homogêneo e sim de uma idéia genérica que inclui alguns indivíduos, em situações muito específicas. Por exemplo: podemos dizer “o tráfico de escravos africanos” – ou seja, estamos nos referindo à atividade econômica cujas mercadorias eram indivíduos nativos da África, conhecido nos seus anos de declínio como “o infame comércio”. Nestes tipos de caso, vale dizer, de um modo geral, ‘africanos' ou ‘negros africanos'. Mas, devemos evitar atribuir a estas pessoas qualidades comuns, como se fossem tipos característicos.

•  Um dos preconceitos mais comuns, quanto aos africanos e afro-descendentes, é com relação às suas práticas religiosas e um suposto caráter maligno contido nestas. Este tipo de afirmação não resiste ao confronto com nenhum dado mais consistente de pesquisa sobre as religiões africanas e sobre a maioria das religiões afro-brasileiras. Por exemplo: não há a figura do diabo nas religiões da África tradicional nem de nenhum ser ou entidade que personifique todo o Mal. As divindades africanas e suas derivadas no Brasil, em geral, se encolerizam se não forem cultuadas e consideradas, e podem vingar-se; mas jamais agem para o mal de forma independente dos agentes humanos que a elas demandam. O grande adversário das “forças do Bem” não existe, não há este poder em nenhum ente do sagrado africano, a não ser naquelas religiões influenciadas pelo monoteísmo cristão, ou pelo monoteísmo islâmico. Não é certo considerar Elegbará, Elegbá, Exu, como um demônio ou seu representante. Exu é o mensageiro, o embaixador dos pedidos humanos aos orixás, e exige seu pagamento pelo serviço e se aborrece se não for atendido. Mas não tem nenhuma maldade congênita, como nenhuma outra divindade do panteão africano.

Como vimos, toda a atenção é necessária e o exercício permanente que fazemos de ouvir pessoas e valorizar saberes não nos deve eximir de estarmos atentos às armadilhas do senso comum. E no mais, deixemo-nos encantar pela história africana e afro-brasileira, porque, como bem sabemos, a aprendizagem se dá pela rota da sensibilidade, e nada melhor que a via do afeto para (re)ver preconceitos. Esta é a perspectiva amorosa de trabalho que valorizamos: que inclui respeito à diferença, que convoca e se propõe à participação, e que atua cooperativa e solidariamente.

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Nota:

Professora de História do CAP- UFRJ, de História da África nos cursos de Pós-Graduação do Programa de Estudos sobre o Negro na Sociedade Brasileira da Universidade Federal Fluminense (PENESB/UFF) e do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes(UCAM/RJ). Doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense(UFF).

 

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