Imprimir página

   

Espaços educativos e ensino de História
O sentido do ensino de História na escola

Helena Maria Marques Araújo 1


O ensino de História no Ensino Fundamental, e também no Ensino Médio, tem como objetivo fundamental proporcionar a nossos(as) alunos(as) as condições para que eles(as) consigam se identificar enquanto sujeitos históricos, participando de um grupo social, ao mesmo tempo único e diverso. Talvez este seja o nosso maior desafio, como professores: ensinar primeiramente a pensar, criticar, propor! Despertar em nossos estudantes o desejo de conhecer, de participar ativamente da sociedade em que vivem de forma crítica, reflexiva e transformadora. Mais essencial do que ensinar conteúdos específicos, que também são importantes, o ensino de História na Educação Básica possui o sentido maior de construção do cidadão crítico, que tenha a capacidade de participar ativamente da sociedade em que vive e de se indignar com os acontecimentos do cotidiano.

Um trabalho sobre o ensino de História deve estabelecer o encontro ou, pelo menos, a junção de três vertentes do conhecimento humano: a ciência histórica, o saber histórico escolar e as ciências da Educação. Assim sendo, o objetivo do ensino de História é compreender mudanças e permanências, continuidades e descontinuidades, para que o aluno aprenda a captar e valorizar a diversidade e participe de forma mais crítica da construção da História. Faz parte, então, do procedimento histórico a preocupação com a construção, a historicidade dos conceitos e a contextualização temporal.

“Considero que um currículo adequado para o segmento do Primeiro Grau deve ser aquele que, na 5 a série, por exemplo, antes de abordar especificamente os conteúdos ligados a esta ou aquela sociedade ou grupo humano, possa privilegiar a construção de conceitos fundamentais para a compreensão da História, ou seja, é importante que o aluno domine alguns conceitos-chave” ( PACHECO, 1995, p. 49).

Escola, memória e espaços educativos não-formais

Na perspectiva dos Estudos Culturais, se gundo Tomaz Tadeu da Silva (1999), a cultura é pedagógica e a pedagogia é cultural. Diversos programas de televisão, mesmo que não tenham o objetivo explícito de ensinar, educam. Por outro lado, toda a pedagogia está inserida num contexto histórico e cultural. Todo conhecimento se constrói, portanto, num sistema de significados.

A escola não é o único “lugar de conhecimento” e, portanto, de transformação de subjetividades, como nos afirma o autor. Existem outros espaços de saber que também educam – espaços não-formais de educação –, como museus, arquivos, programas de televisão e/ou rádio (educativos ou apenas de lazer), filmes, peças de teatro, músicas, espaços de exposições etc.

Os museus, arquivos, locais de exposições e outros lugares de memória possuem cultura própria, ritos e códigos específicos. Por outro lado, as escolas apresentam universos particulares, também com lógica própria. Faz-se necessária, então, a busca de caminhos para a construção de uma pedagogia de museus, como nos afirma Marandino (2000). Esta autora nos alerta para a necessidade da construção de uma pedagogia de museus, levando em consideração a especificidade pedagógica dos museus para otimizar as visitas escolares. Não se trata, segundo a autora, de opor o museu à escola, mas de definir as especificidades relacionadas ao lugar, ao tempo e aos objetos no espaço do museu, o que é essencial e deve ser incluído na formação de educadores numa didática de museu. Nesse sentido, poderíamos ampliar esse entendimento não só para museus, como também para outros espaços educativos: exposições, arquivos públicos, centros culturais, a rquitetura de ruas antigas, monumentos etc.

Vários motivos levam os professores a buscar os espaços educativos não-formais como lugares alternativos de aprendizagem. Dentre tais objetivos, estariam a apresentação interdisciplinar dos temas, a interação com o cotidiano dos estudantes e, por fim, a possibilidade de ampliação cultural proporcionada pela visita. Assim, as visitas teriam o objetivo de fazer uma alfabetização científica do cidadão. Para isso, trabalha-se com elementos de relevância social que informam os indivíduos e os conscientizam de problemas político-sociais.

Nas últimas décadas, a questão educacional passou a ser um dos alicerces dessa nova museologia. Crescem pesquisas que analisam o processo de ensino, ou divulgam o conhecimento nesses espaços, na perspectiva dos estudos sobre transposição didática ou museográfica.

O incentivo à participação e à interatividade que acontece nos museus de ciência e técnica se estende aos museus como os de história, arqueologia, etn ografia e ciências naturais através, sobretudo, do advento de novas tecnologias. A base filosófica dessas mudanças reside na democratização do acesso ao saber que está “depositado” nos museus.

Em contrapartida, a escola deve permitir a influência desses espaços educativos alternativos, incentivando as visitas pedagógicas e as ações de parcerias.

“Há esperança de que a escola possa imbuir-se de uma nova função, a de ser um lugar de análises críticas, de atribuição de significado às informações e reconstrução do conhecimento, para que possa preservar seu status e função de formadora de sujeitos sociais e na qual o professor garanta seu espaço de ação” (NOGARO, 1999, p. 29).

Para os gregos antigos, memória significava vidência e êxtase. É com tal alegria e êxtase que esperamos que nossos alunos e alunas consigam perceber e apreender nossa memória através de vivências extramuros escolares. A preservação da memória torna-se fundamental na ampliação de vivências pedagógicas diferenciadas para nossos estudantes.

Espaços educativos não-formais

Como já foi dito anteriormente, faz-se necessário desvelar o horizonte universitário e pedagógico para a utilização dos espaços educativos alternativos. Como exemplo de um espaço educativo não-formal temos o “Espaço da Ciência de Olinda”, em Pernambuco, criado em 1994, que desenvolve capacitação de professores através de centros de referência criados em 21 escolas da rede pública. Também há o MAST/ CNP, que em 1997 estabeleceu um projeto denominado “Formação continuada de professores de ciências e os espaços não-formais de Educação” para produzir material didático junto às escolas públicas municipais.

Desta forma, em tais visitas pedagógicas seria oferecido aos nossos alunos e alunas diferentes leituras da ciência e do mundo. É essencial, cada vez mais, a parceria dos museus com as universidades, secretarias municipais e estaduais para a realização de cursos de formação de professores em todos os níveis. Além disso, é muito importante a implantação de pesquisas nos museus e investigações sobre a relação museus/espaços culturais e escola. Esses estudos darão subsídios maiores aos programas educativos e culturais desenvolvidos nessas instituições.

Em última instância, entender história é entender o tempo em movimento em múltiplos espaços. Se entendemos que o ensino de História tem o sentido de formação da cidadania no Ensino Fundamental e Médio, devemos ter o compromisso de proporcionar oportunidades para que os(as) alunos(as) transportem esse conhecimento aprendido para suas vidas cotidianas, para que possam participar de forma mais consciente da construção de um mundo mais justo e solidário.

“Contudo, a busca da cidadania nos países da periferia esbarra na falta de cumprimento de direitos universais básicos, embora muitas vezes suas populações tenham esses direitos consagrados em lei. Além disso, num mundo em constante transformação podem surgir novos direitos, frutos de novas lutas e reivindicações. E é exatamente esse movimento que caracteriza a cidadania.” (CANDAU, 2002, p. 37)

Temas que serão debatidos na série Espaços educativos e ensino de História , que será apresentada no programa Salto para o Futuro/TV Escola, de 3 a 7 de abril de 2006:

PGM 1- Os sentidos do ensino de História

No primeiro programa da série, vamos debater estes temas, entre outros: o papel da escola e a importância do ensino de História para a formação da cidadania; o respeito pelo saber do educando; o encontro entre saberes escolares e não-escolares, entre cultura erudita e popular; a construção do conhecimento de forma dialógica, participativa, entre alunos e professores, a favor de uma educação emancipatória; as concepções teóricas no ensino de História e na Educação que permeiam tais opções educacionais; alternativas metodológicas ao método tradicional.

PGM 2 – Memória e ensino de História

O segundo programa tem como proposta discutir: o conceito de memória; a relação memória, tempo e História; o tempo histórico e suas principais características: sucessão, duração e simultaneidade; a perpetuação dos povos através da memória ou do “esquecimento”; o que se quer lembrar e o que se quer esquecer nas sociedades; o jovem e a sociedade presentista; a necessidade de se impor a “ausência” de memória nas sociedades contemporâneas; mudanças e permanências nas sociedades.

PGM 3 – Lugares de memória

O terceiro programa vai enfocar estes temas: lugares de memória; a relação entre cultura e pedagogia na perspectiva dos Estudos Culturais; a educação transformando subjetividades; a escola não é o único lugar que educa; os espaços educativos não-formais, especialmente os museus e exposições; os lugares de memória e suas culturas próprias, seus ritos e códigos específicos; a democratização do acesso ao saber “depositado” nos museus; a busca pela construção de uma pedagogia de museus; os espaços educativos não-formais como lugares alternativos de aprendizagem.

PGM 4 – Espaços públicos de memória

Neste quarto programa, permanece a discussão sobre os espaços educativos não formais, analisando estes temas, entre outros: a paisagem como algo socialmente transformado pelo tempo e depositária de diferentes temporalidades; o espaço e o tempo-mundo fundidos na cidade; a necessidade de o professor ensinar História fora dos muros da escola, utilizando excursões pedagógicas pelas ruas de sua cidade, por exemplo; a análise das “migalhas” deixadas pelo tempo nas marcas da arquitetura, monumentos, transportes etc. de uma cidade; o processo de ensino-aprendizagem nesses espaços alternativos, na perspectiva dos estudos sobre transposição didática ou museográfica.

PGM 5 – Espaços educativos não-formais e formação de professores

O quinto programa vai abordar: a importância de se incorporar, nos estágios curriculares dos cursos de Licenciatura, esses espaços educativos não-formais; a necessidade de se estreitar laços entre as práticas curriculares nos cursos de formação de professores e os lugares de preservação da memória; a urgência de se estabelecer políticas públicas de formação de professores que se comprometam em reinventar a escola, visando à construção de uma cidadania participativa e democrática.

BIBLIOGRAFIA:

BETANCOURT, Nilda de Barros e GISSI, Jorge . El taller: integración de teoria y práctica. Buenos Aires, Argentina: Editorial Humanitas, 1987.

BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula . São Paulo: Contexto, 1997.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos . São Paulo: T.A. Queiroz, 1979.

CANDAU, Vera Maria. Didática, currículo e saberes escolares . Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

CANDAU, Vera Maria. Pluralismo cultural, cotidiano escolar e formação de professores. In: CANDAU, Vera Maria (org.). Magistério: construção cotidiana . Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

____________________ (org.). Reinventar a escola . 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

_____________________(org.). Sociedade, educação e cultura(s): questões e propostas . Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

CHERVEL, André. “História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisas”, Teoria & Educação , n. 2, 1990, p.182.

DEMO, Pedro. Ironias da Educação - Mudança e contos sobre mudança . Rio de Janeiro: DP&A ed., 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

LE GOFF, Jacques. Calendário. In: Enciclopédia Einaundi . Memória- História, v.1, 1990.

MARANDINO, Martha. Museu e escola: parceiros na Educação científica do cidadão. In: CANDAU, Vera Maria (org.). Reinventar a escola. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

MEDIANO, Zélia D. A formação em serviço de professores através de oficinas pedagógicas. In: CANDAU, Vera Maria (org.). Magistério: construção cotidiana. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

MONTEIRO, Ana Maria. A prática de ensino e a produção de saberes na escola. In: SANTOS, Lucíola Licínio de C. P. O processo de produção do conhecimento escolar e a didática. In: MOREIRA, Antonio Flávio B. Conhecimento Educacional e formação do professor . São Paulo: Papirus, 1994.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo . Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

VIEIRA, Liszt. Cidadania e globalização. 2 a ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Nota:

Mestre em Educação - PUC-Rio. Professora Assistente de História do CAP/UERJ e de Prática de Ensino de História do Departamento de História da UERJ. Professora de História da rede particular de ensino. Consultora desta série.

SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA
WWW.TVEBRASIL.COM.BR/SALTO