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| Nascidos para narrar, narrando para viver | ||
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Marisa Lajolo 1 | ||
Poema tirado de uma notícia de jornal João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se jogou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado (p.117) O Poema tirado de uma notícia de jornal, de Manuel Bandeira, é um texto que pode nos encaminhar para uma reflexão sobre os modos de narrar. Publicado em Libertinagem, livro que Bandeira lançou em 1930, o texto acima é um poema narrativo. E, com a sutileza dos bons textos, pode nos sugerir algumas reflexões sobre modos de ser da narrativa. Vê-se logo que o texto de Bandeira satisfaz ao requisito de levantar/responder à pergunta o que aconteceu?, mencionada no texto da Proposta da série. Já numa primeira leitura, ficamos sabendo: um homem entrou num bar, bebeu, cantou, dançou e matou-se. O título do texto estabelece seu parentesco com o jornal: o leitor/ouvinte do poema já entra nele meio preparado para encontrar uma notícia e, ao longo da leitura/audição, talvez vá refinando suas expectativas: algumas seções de jornal costumam noticiar histórias de pessoas comuns. O desfecho da história – a morte de João – também é ingrediente comum do jornalismo. E o leitor/ouvinte de Bandeira talvez experimente uma leve perplexidade pelo choque resultante da enumeração seca e seqüenciada de ações de celebração, acompanhadas subitamente de um gesto de morte. Mergulhados no poema de Bandeira, vemos que uma narrativa – geralmente – não se constitui de segmentos que exprimem exclusivamente ações. E nem poderia, pois ações ocorrem, na história, num determinado espaço, num determinado tempo e envolvem personagens. Em Poema tirado de uma notícia de jornal, a personagem é João Gostoso, o espaço é o Bar Vinte de Novembro e a Lagoa Rodrigo de Freitas e o tempo é de – digamos – uma noite. Mas poderíamos analisar de outra forma os componentes da narrativa e chegarmos a outras conclusões: poderíamos, por exemplo, dizer que o espaço da narrativa é o Rio de Janeiro (onde existem, efetivamente, um morro chamado Babilônia e uma lagoa chamada Rodrigo de Freitas) e que o tempo dela é contemporâneo nosso (quando existem carregadores de feira e moradores de barracos). Mas, independentemente das concepções de espaço e de tempo assumidas por diferentes leitores, talvez todos sejam unânimes na constatação de que João Gostoso é a personagem da história narrada por este poema. E talvez todos sejam também unânimes na observação de que a história deste poema é narrada por alguém que não participa dela, que a observa “de fora” e faz o relato em terceira pessoa. Este alguém é o narrador, componente essencial na construção dos sentidos que as narrativas ganham para seus diferentes leitores. No caso deste poema, a secura afetiva e a contenção com que o narrador relata o acontecimento funcionam, para alguns leitores, como forma de intensificar o envolvimento com o texto. Outro texto de Bandeira, agora do livro Belo Belo ( acrescentado na edição de 1948 das Poesias completas), nos apresenta a um outro tipo de narrador: um narrador participante da cena, que narra em primeira pessoa : Poema só para Jaime Ovalle Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... - Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. ( p. 183) Da mesma forma que Poema tirado de uma notícia de Jornal, este texto também levanta/responde à questão o que aconteceu? Trata-se de um quase relatório de afazeres cotidianos e prosaicos: acordar, levantar, preparar e beber café, voltar a deitar-se, acender um cigarro e pensar. Tudo se passa no espaço doméstico, e a hora é de manhã cedo. A personagem não é um ele, porém um eu. O leitor/ouvinte do texto, a partir do título – que parece dedicar o poema só ( = apenas) para alguém chamado Jaime Ovalle – começa a entrar no clima de confidência, conduzido por uma voz que lhe devassa – em primeira pessoa – intimidades domésticas. Ao longo do poema, através de expressões como “então” e “depois”, o leitor pode imaginar o ritmo de sucessão de ações, ao mesmo tempo que as repetições de “chovia” e “pensando” podem lhe reforçar a impressão de mesmice, de isolamento. Comparando os dois poemas, o leitor experimenta duas formas canônicas de apresentar histórias. Em Poema tirado de uma notícia de jornal, a narrativa é rápida, suportada por verbos de ação, apresentada de forma impessoal. Em Poema só para Jaime Ovalle, a narrativa é lenta, centrada no “eu” que a relata, pontuada de subjetividade. Estas reflexões sobre duas obras-primas de um dos maiores poetas brasileiros encerram esta primeira conversa sobre narrativas em geral. Mostram que histórias se narram através de diferentes formatos, inclusive de poemas; e que seus componentes estruturais (ação/personagem/espaço/tempo/narrador) se manifestam de formas variadas, não havendo portanto, forma preestabelecida de percebê-los.
Nota:
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