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“As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que pensam o mundo de um jeito muito próprio. Nas interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhes são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem, as relações contraditórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. No processo de construção do conhecimento, as crianças utilizam as mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem idéias e hipóteses originais sobre aquilo que buscam desvendar. Nessa perspectiva, as crianças constroem o conhecimento a partir das interações que estabelecem com as outras pessoas e com o meio em que vivem. O conhecimento não se constitui em cópia da realidade, mas sim, fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação” (RCNEI, MEC, 1999). Os cinco programas da série Educação Infantil: fazer e compreender, que serão apresentados no programa Salto para o Futuro, da TV Escola, de 14 a 18 de junho, tematizam algumas perspectivas e propostas de trabalho com as crianças na Educação Infantil. Com o objetivo de compartilhar com educadores reflexões, estratégias e recursos que possam aprimorar e instrumentalizar sua prática cotidiana, além de aprofundar a compreensão do ser professor, os programas possibilitam a continuidade da construção do conhecimento pedagógico por parte dos professores. Assim como acontece com as crianças, acreditamos que os educadores também estão envolvidos num processo de construção do conhecimento, no qual a interação, a troca e a interlocução exercem papel fundamental. Neste sentido, a troca de informações e oportunidades de reflexão sobre a própria ação fazem-se muito importantes, possibilitando os avanços em sua prática pedagógica. A base dessa concepção está no próprio conceito de educação como processo de desenvolvimento do ser humano, no sentido da conquista de sua autonomia. Daí a dimensão permanente do processo e a dialética da relação ensino e aprendizagem. A série norteia-se pelo princípio de que o conhecimento é construído a partir da necessidade da criança e de cada educador, enquanto um instrumento de compreensão da realidade que está sendo vivida por eles, utilizando-se as informações disponíveis. O educador / professor é responsável pelo seu percurso formativo, sendo o cotidiano escolar, voltado para a prática diária com as crianças, um espaço privilegiado para a investigação e reflexão acerca da criança, suas particularidades e possibilidades de aprendizagens. É importante considerar, ao pensarmos em “informações disponíveis”, nas múltiplas e diversificadas possibilidades de acesso a elas no momento atual. O fundamental é aprender a trabalhar com as fontes de informação (TV, rádio, jornais, livros, revistas, cinema, vídeos, tradição oral das pessoas da comunidade, materiais didáticos, folhetos, textos e imagens de propagandas, quadros, peças de teatro, etc.). Neste sentido, buscamos centrar nossas reflexões, comentários de atividades e ações na perspectiva do possível e desejável. Evitamos ressaltar a carência ou as eventuais dificuldades e contingências, que fazem parte de todo o processo, qualquer que seja a situação vivida, e podem ser entendidas num contexto mais amplo, funcionando até como um estímulo à busca e à superação. O objetivo da série é enfatizar o Fazer e o Compreender nas ações das crianças e seus educadores / professores através das explicações que eles oferecem nas situações que vivem dentro e fora da escola. A proposta é levantar e compartilhar boas situações de aprendizagem, considerando-as como momentos do trabalho pedagógico em que estão contemplados os seguintes princípios didáticos: u as crianças precisam pôr em jogo tudo o que sabem e pensam sobre o situação/conteúdo em torno do qual foi organizada a tarefa. u as crianças têm problemas a resolver, questões a responder e decisões a tomar em função do que se propõem produzir. u o conteúdo trabalhado mantém suas características de objeto sociocultural real, ou seja, não são propostos conteúdos fragmentados ou “escolarizados” de forma a perder seu contexto real. u a organização da tarefa garante a máxima circulação de informação possível entre os alunos – por isso as situações propostas devem prever trocas e interação entre eles. Para aprofundar essa discussão, são apresentadas na série algumas situações de grupo e de trabalho de alunos e professores, a serem problematizadas pelos debatedores, em termos de articulação entre teoria e prática. Situando concepções e princípios, compartilham da idéia de crianças como seres intelectualmente ativos e que procuram compreender (em todas as dimensões: afetiva, intelectual, física, emocional...) o mundo que os rodeia de forma autônoma e única, oportunizando, assim, a construção de conhecimento. u Educar na primeira infância: as instituições de Educação Infantil devem tornar acessíveis, a todas as crianças que as freqüentam, elementos da cultura que enriquecem seu desenvolvimento e inserção social. É necessário oferecer às crianças condições para aprendizagem que ocorrem nas brincadeiras e também em situações pedagógicas planejadas. Educar significa, portanto, organizar as situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em atitude de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. u Entendemos a criança como um ser autônomo, que participa ativamente de seu desenvolvimento e processo de aprendizagem, devendo ser entendido e respeitado em sua condição. A criança, como todo ser humano, é um sujeito histórico e social, fazendo parte de uma organização familiar, de uma sociedade e de uma cultura que devem ser incluídas nas situações de escolarização, através de parcerias, alianças e integrações entre as diversas instâncias sociais participantes deste processo. u A linguagem oral e as outras formas de expressão, nas mais diversas áreas do conhecimento, tais como: artes visuais, a música, o teatro, o movimento, a Matemática, entre outras, são consideradas em toda a sua complexidade. Neste sentido, a criança já nasce inserida no mundo de múltiplas linguagens e cabe ao educador viabilizar o acesso à língua articulando reflexão, pensamento, sentimentos, sensações e desejos envolvidos neste processo. u Uma ação educativa comprometida com a cidadania e com a formação de uma sociedade democrática e não excludente deve, necessariamente, promover o convívio com a diversidade, que é marca da vida social brasileira. Essa diversidade não envolve apenas diferenças culturais, étnicas, de hábitos e costumes, mas também se refere às competências e particularidades de cada um. A oportunidade de conviver com crianças com deficiência pode fazer toda a diferença no desenvolvimento de um ser humano solidário e tolerante. u A escola marca a transição de um contexto exclusivamente familiar para um outro influenciado pela cultura, com outros códigos e possibilidades de relação. A Matemática, através de jogos, brincadeiras, situações de contagens e resolução de problemas, surge como porta de entrada para novas competências e estratégias próprias do mundo escolar. Neste sentido, cabe aos educadores viabilizar a introdução das crianças neste novo universo, potencializando conhecimentos, contextualizando e significando tais experiências. PROGRAMAS PGM 1: Caminhos da prática pedagógica O programa faz uma retrospectiva entre algumas concepções e práticas em Educação Infantil, situando-as historicamente e propondo questões que possibilitem identificar semelhanças, diferenças e contradições entre métodos, estratégias de trabalho atuais e atividades, com base em pesquisas acerca de processos de aprendizagem e experiências de formação em serviço. O programa tematiza, também, o trabalho de estruturação da rotina, organização do tempo didático e instrumentos metodológicos – planejamento, registros, tematização da prática, entre outros – que participam do percurso de formação dos educadores. PGM 2: O processo de inclusão A inclusão de crianças com deficiência na Educação Infantil não exige apenas identificar as necessidades, patologias, deficiências e limitações de cada uma. Ao lado dessas características, é preciso reconhecer as possibilidades, potencialidades e os recursos que as pessoas carregam consigo. É preciso criar, recriar, inventar recursos e estratégias que favoreçam o desenvolvimento pessoal no sentido da conquista da autonomia possível e necessária à condição humana. Por isso, neste programa, o objetivo é contribuir para a formação dos profissionais da educação, trazendo informações que ampliem seu saber pedagógico, e contribuam com a construção de estratégias para ensinar todos os alunos, compreendendo que existem muitos modos de aprender. A concepção deste material não foi apoiada na busca de uma verdade fechada, mas nos diversos sentidos possíveis a cada experiência, nas mais diferentes formas de ser e fazer. Serão enfocados alguns aspectos relacionados à inclusão educacional de modo a abrir um diálogo com os educadores. Porém, não devemos nos permitir pensar que tais informações e reflexões possam acomodar-se em gavetas compartimentadas, saberes disciplinares ou identidades únicas. O nosso desejo é que este programa seja um ponto de partida de vivências que contemplem o pensar, o olhar, o conversar, o trocar e o sentir situações cotidianas de maneiras diferentes. Não queremos classificar, resolver, enquadrar, receitar ou solucionar nada. Queremos fazer perguntas. O que a presença do outro produz em mim? Que pergunta haverá em seus olhos? Que mensagem está contida em seu gesto, em seu grito? E em seu silêncio? O que a sua presença significa para mim? E a minha para ele? O que podemos fazer juntos? PGM 3: O processo de aquisição do discurso Como as crianças se apropriam da fala? Quais as intervenções mais adequadas para promover uma boa conversa? Como e quando as crianças perguntam? O que significa o diálogo no processo de construção do conhecimento? Neste programa, partimos de teorias e pesquisas acerca do processo de aquisição da linguagem, aliando-as a práticas pedagógicas cotidianas em instituições de Educação Infantil. Buscaremos discutir a importância do ouvir a criança: qual sua opinião sobre a situação que está sendo vivida? Como ela fala dos elementos que compõem essa ou aquela situação? Quais as relações que estabelece e como as expressa? Consegue dar continuidade ao que foi dito por outro colega sobre a situação ou objetos em pauta? Consegue relacionar as novas informações trazidas pelo (a) professor(a), por pessoas da comunidade, pelos colegas ou em materiais (livros, TV, vídeos, internet, revistas, livros de literatura infantil, cinema, músicas...) PGM 4: Matemática na Educação Infantil O objetivo do trabalho com Matemática na Educação Infantil é o desenvolvimento de uma postura de investigação, ou seja, o desenvolvimento de habilidades de formular hipóteses e testá-las, percebendo regras e verificando como funcionam. O conhecimento matemático vem sendo construído pela humanidade em resposta a necessidades concretas, como os problemas motivados pelo controle de quantidades (rebanhos ou produção agrícola), que levou ao surgimento da contagem; demarcação de terras, que levou ao pensamento geométrico; trocas e comércio, que levou ao sistema monetário e ao desenvolvimento do cálculo, etc. A Matemática foi sendo estruturada em torno de algumas características como: reconhecimento de regularidades, criação de modelos e daí enunciados, fórmulas e registros para a sua caracterização. Aqui está presente a linguagem matemática que, longe de ser um conjunto de símbolos a ser transmitido, é uma forma de comunicação universal que foi e vai sendo estruturada através da história. A criança vai, portanto, propor e experimentar diferentes formas de registro para comunicar suas observações, hipóteses e conclusões. PGM 5: Artes Visuais: estética e expressão Na Educação Infantil trabalhamos, prioritariamente, a educação do olhar. Olhar todas as coisas como se as tivéssemos vendo pela primeira vez, entrando em diálogo com elas e, neste diálogo, criar símbolos que expressem o que sentimos e pensamos. É este o primeiro passo para o desenvolvimento da linguagem visual. Como desenvolver atividades artísticas com as crianças, perguntam os professores? E a experiência começa quando as palavras são insuficientes para expressar a nossa impressão sobre o mundo e precisamos recorrer a uma outra linguagem que se articula através das tintas, lápis, pincéis, papéis, madeiras, etc. Atualmente usamos o termo Artes Visuais para designar a área que anteriormente era conhecida como Artes Plásticas (desenho, pintura, escultura, modelagem, etc.) porque entendemos que xerox, vídeo e computação gráfica ampliaram as possibilidades de produção neste campo. Alfabetizar no código visual constitui um importante objetivo de ampliação da consciência, que se traduz na ampliação da capacidade de ler e comunicar-se com o mundo. BIBLIOGRAFIA Benjamin, Walter. Reflexões: A criança, o brinquedo e a educação. São Paulo, Summus, 1984. Bakthin, M. Marxismo e filosofia da Linguagem, São Paulo: Hucitec, 1988. Castorina, J. A., Ferreiro, E., Lerner, D., Oliveira, M. K. Piaget – Vygotsky: contribuições para o debate. São Paulo: Ed. Ática, 1998. Craydy, C. e Kaercher, G. Educação Infantil, pra que te quero? Porto Alegre: Artmed,2001. Cuberes, M. T. Educação Infantil e Séries iniciais- articulação para alfabetização. Porto Alegre: Artmed, 2001. Edwards, C. Gandini, Forman, G. As cem linguagens da criança. Porto Alegre: Artmed,1999. Freire, P. Professora sim, tia não. São Paulo: Ed. Olho d’Água, 1995. Hernandez F., Ventura, M. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998. Kamii, C. e De Clark, G. Reinventando a aritmética. Campinas – SP: Papirus, 1986. Lerner, D. Matemática na escola: aqui e agora. Porto Alegre: Artmed,1995. Piaget, J. O nascimento da inteligência na criança, Rio de Janeiro: Zahar, 1975. Referenciais Curriculares Nacionais para Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Volumes 1, 2, 3. Wallon, H. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1989. Zabala, Antoni. A prática educativa. Porto Alegre: Artmed, 1998. NOTAS: 1 Pedagoga. Mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Consultora do Instituto Paradigma, São Paulo Consultora dessa série. |
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