JOGOS E BRINCADEIRAS: DESAFIOS E DESCOBERTAS |
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APRESENTAÇÃO CRISTINA LACLETTE PORTO 1 A série Jogos e brincadeiras: desafios e descobertas, que será apresentada pela TV Escola, no programa Salto para o Futuro, de 7 a 11 de abril, é composta por cinco programas que pretendem oferecer caminhos para o aprofundamento das reflexões sobre a criança, os brinquedos, as brincadeiras e os jogos, abordando experiências na área de educação que valorizam esses temas e que encontraram formas de incorporá-los. Desde
o nascimento, as crianças são mergulhadas num contexto social. Os adultos que
convivem com elas, quando se transformam em parceiros de seus jogos e
brincadeiras, muitas vezes não se dão conta da importância de cada gesto, de
cada palavra, de cada movimento. Alguns desses adultos cantam, transmitem
conhecimentos e ensinam brincadeiras. Outros pensam que as crianças não
entendem nada e que só é preciso cuidar para que não fiquem doentes, não
passem fome, frio ou sede. A
brincadeira é uma forma privilegiada de aprendizagem. Na medida em que vão
crescendo, as crianças trazem para suas brincadeiras o que vêem, escutam,
observam e experimentam. As brincadeiras ficam mais interessantes quando as
crianças podem combinar os diversos conhecimentos a que tiveram acesso. Nessas
combinações, muitas vezes inusitadas aos olhos dos adultos, as crianças
revelam suas visões de mundo, suas descobertas. Atualmente,
as crianças começam a freqüentar cada vez mais cedo as instituições
voltadas para elas, como as creches e as escolas de Educação Infantil. Nesses
espaços, o brincar é, muitas vezes, desvalorizado em relação a outras
atividades, consideradas mais produtivas. A brincadeira acaba ocupando o tempo
da espera, do intervalo. Valorizar a brincadeira não é apenas permiti-la, é
suscitá-la. Ao
observarmos atentamente o modo como as diferentes crianças brincam, é possível
perceber que os usos que fazem dos brinquedos e a forma de organizá-los estão
relacionados com seus contextos de vida e expressam visões de mundo
particulares. O
objetivo geral dessa série é apresentar as questões atuais que envolvem a
criança e o brinquedo e possibilitar que os adultos envolvidos com a educação
reflitam e desenvolvam ações, tendo como base a importância e a necessidade
do ato de brincar. Para compreender
o que está em jogo quando a criança brinca, se faz necessário analisar o
suporte material ou imaterial que desencadeia tal ato, o ambiente, os momentos a
ele destinados e as pessoas que dele participam. As
crianças precisam de tempo, espaço, companhia e material para brincar.
Quanto mais as crianças vejam, ouçam ou experimentem, quanto mais
aprendam e assimilem, quanto mais elementos reais disponham em suas experiências,
tanto mais considerável e produtiva será a atividade de sua imaginação. A
escola pode e deve reunir todos esses fatores e o papel do professor nesse
processo é fundamental. Temas
que serão abordados nos programas desta série: PGM 1 Pensando a infância e o direito de brincar Que lugar foi ocupado pela criança nos diversos momentos históricos? A história da infância no Brasil tem contornos próprios pela maneira como se deu sua construção. São as formas de organização da sociedade e as condições de existência e de inserção da criança em cada contexto social, econômico, político e cultural que vão delineando as diferentes concepções de infância e as diferentes formas de ser criança. Portanto, nas histórias individuais e coletivas das crianças brasileiras não tivemos e não temos uma resposta única às perguntas: o que significa ser criança? Quando deixamos de ser crianças e nos tornamos adultos? PGM 2 O brinquedo como objeto de cultura: brinquedos industrializados e artesanais Existem dimensões funcionais e simbólicas inscritas no brinquedo. Podemos compreender essas dimensões a partir do material de que foi fabricado, da forma e/ou desenho, da cor, do aspecto tátil, do cheiro e dos sons nele encontrados. Que conhecimentos podem ser revelados por meio dos brinquedos e materiais lúdicos oferecidos às crianças? O que indicam os brinquedos que compõem os acervos das creches e das escolas? Como estão arrumados? Que propostas lúdicas podemos encontrar? PGM 3 Brincadeira ou atividade lúdica? O que é a brincadeira? O que está em jogo quando a criança brinca? A brincadeira é um processo de relações entre a criança e o brinquedo e das crianças entre si e com os adultos. O ato de brincar é muito importante para o desenvolvimento integral da criança. As crianças se relacionam de várias formas com significados e valores inscritos nos brinquedos. Existem várias possibilidades de brincar: solitariamente; em grupo; entre crianças de idades diferentes; entre adultos e crianças; de adultos entre si. Existem diferenças também entre: brincadeiras organizadas pelas próprias crianças; brincadeiras tradicionais; jogos; atividades lúdicas propostas pelo adulto, com conteúdos específicos a serem atingidos. Como garantir o espaço e o tempo para que as diversas modalidades de brincar aconteçam? A escola tem garantido o direito da criança à brincadeira? Quais são os desafios e as possibilidades? PGM 4 Jogos e brincadeiras no contexto escolar A grande maioria dos jogos tradicionais já era muito antiga no século XVI. Alguns deles, como a amarelinha, por exemplo, continuam capazes de despertar a curiosidade e o prazer das crianças nos dias de hoje. Se os jogos tradicionais têm força para atravessar o tempo e o espaço, por que tão poucos conseguem atravessar os muros das escolas? São várias as condições necessárias para o desenrolar de jogos e brincadeiras, garantindo certa liberdade de escolha pela criança. O papel do adulto é fundamental nesse processo, pois o ambiente que a cerca influencia suas experiências lúdicas. Como planejar ações que respeitem a criança e suas formas de expressão? PGM 5 A formação lúdica do professor Quais
as experiências de formação vividas pelos professores? Em que medida a importância
do brinquedo e da brincadeira é levada em conta nesse processo? Essa formação
deve ser permanente e deve favorecer uma ampla formação cultural, para que os
professores possam redimensionar o seu olhar sobre as crianças e suas práticas.
O espaço da educação é um amplificador de experiências e de práticas
socioculturais para todos os sujeitos envolvidos. Como deve ser uma formação
que permita aos adultos experimentarem, descobrirem e conhecerem as
possibilidades que os jogos, brinquedos e brincadeiras possuem? Que experiências
existem na perspectiva de proporcionar uma experiência transformadora, que
contribua para a construção de uma outra concepção do lúdico e para uma
intervenção de melhor qualidade junto aos alunos, independentemente da idade
que tenham? NOTAS: 1 Coordenadora da Brinquedoteca HAPI e professora do Curso de Especialização em Educação Infantil da PUC-RIO. JOGOS E BRINCADEIRAS: DESAFIOS E DESCOBERTAS PGM 1 - PENSANDO A INFÂNCIA E O DIREITO DE BRINCAR PATRÍCIA
CORSINO 1 Marinheiro Carlos Drummond de Andrade A
roupa de marinheiro sem navio Neste
poema, Drummond dá voz ao menino Carlos que usava, contrariado, uma roupa típica
de classe média do início do século. Roupa de menino, semelhante à que minha
avó ganhou de aniversário, para justamente poder brincar no quintal, subir em
árvores, coisas que menina não fazia no início do século XX e que, para fazê-lo,
precisava se travestir. Nos poucos versos, o menino fala do seu tempo sócio-histórico,
com seus costumes e comportamentos. A transgressão, presente no pensamento,
estava presa por fitas e âncoras. O menino navegava em seco, mas navegava
conforme o barco da sua vida. E, se já vai longe o tempo da roupa de
marinheiro, estaria também longe aquela forma de ser criança? A
resposta caminha entre o sim e o não. Na superfície do poema, a mudança é
visível, no inconformismo do marinheiro, que mesmo no seco navegava; há a
permanência de uma característica bastante presente na infância: a reversão
da ordem. Característica poeticamente definida por Walter Benjamin (1984,
1993), filósofo e crítico da cultura, no fragmento sobre a criança
desordeira. O mesmo menino, cantado em versos por Manoel de Barros, que
carregava água na peneira e enchia os vazios com os seus despropósitos (1999,
p.9-22). Desordem
e despropósitos, inversões e reproduções da situação real, típicas da
brincadeira infantil. A mesma reversão presente na brincadeira do menino de uma
escola de Educação Infantil da rede municipal de ensino do Rio, quando
brincava com os amigos de cheirar uma “carreirinha
de cocaína”,
o que assustou a professora2
pela explicitação crua da sua exposição a uma situação de risco. Tal
exposição não deveria acontecer a uma criança, que tem direito à proteção,
mas, por fazer parte da sua realidade, veio à tona na brincadeira, tornando-se
denúncia e anúncio de possibilidade de ressignificação. Na
fala que acompanha as ações do jogo, dando uma nova ordem às coisas, a criança
traz simultaneamente o vivido e o novo, construindo cultura, refletindo e
refratando a realidade na qual está inserida (Bakhtin, 1992). E se hoje é possível
ouvir a voz do menino Carlos e de tantos outros meninos, não é nem foi sempre
assim, pois a construção de uma concepção de infância, além da condição
biológica de fragilidade e de dependência do adulto, está em processo e em
mudança. Este
primeiro texto que introduz a Série Jogos e Brincadeiras: desafios e
descobertas, do Programa Salto para o Futuro, tem como objetivo discutir a
infância enquanto uma categoria histórica e cultural, rompendo com a idéia de
natureza infantil tão disseminada nos meios educacionais. Ao longo da história
e para diferentes classes sociais foram sendo construídas diferentes concepções
de infância. Porém, hoje, ao se entender a criança como sujeito imerso na
cultura e com sua forma singular de
agir e pensar, não se pode deixar de pensar no tempo e no espaço da
brincadeira como a própria forma de a criança conhecer e transformar o mundo
em que vive. Se os jogos e brincadeiras não são características genuinamente
infantis, não há dúvida de que o direito de brincar é o elo que liga todos
os outros direitos. Infância: uma construção histórica e cultural Quando
pensamos nas características que seriam genuinamente infantis, nos deparamos
com questões que remetem à nossa condição de adultos; o que caracterizaria
ser adulto? O que diferencia a infância da fase adulta? Quando deixamos de ser
crianças? Quando as crianças passam a ser adultos? A
noção de infância não é uma categoria natural, mas sim histórica e
cultural. A diferenciação entre crianças e adultos vai depender do contexto e
das condições sócio-históricas e culturais em que vivem. Numa
perspectiva histórica sobre a infância na Europa, os estudos de Philippe Ariès
(1986) no seu livro História Social da Criança e da Família,
revelaram que a idéia de infância, no sentido de diferenciação do
adulto, é uma construção da modernidade, começando a surgir nos finais do século
XVII, nas camadas superiores da sociedade, e se sedimentando no séc. XVIII. De
acordo com este autor, na Idade Média, assim que a criança tornava-se mais autônoma
em relação aos cuidados da mãe ou da ama, logo se inseria na sociedade dos
adultos, participando dos seus trabalhos e jogos. As crianças adquiriam seus
conhecimentos junto aos adultos, sendo entregues às famílias, muitas vezes
desconhecidas, para serem educadas, prestarem serviços domésticos ou
aprenderem algum ofício. A escola da Idade Média não se dirigia
especificamente à criança. Segundo Ariès, foi a partir de uma série de mudanças
na sociedade ascensão da burguesia, difusão do impresso e crescente interesse
pela alfabetização e moralização que a separação ocorre. A criança deixa
de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente, através do
contato com eles, sendo separada dos adultos e mantida à distância numa espécie
de quarentena, antes de ser solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio.
Começou então um longo processo de enclausuramento das crianças (p.11).
Para
Ariès, esse processo só foi possível com a cumplicidade da família, que
passou a experimentar uma afeição pela criança, trazendo para si a
responsabilidade pela sua proteção e formação, e tornando-se nuclear. A
sociabilidade extensiva do Antigo Regime foi sendo substituída por uma
socialização mais restrita à família e à escola. Como o próprio autor
coloca, não se pode dizer que as crianças eram negligenciadas ou tratadas com
desprezo; especialmente os pequenos eram paparicados, como “animaizinhos
de estimação”,
mas pela sua análise, não existia um sentimento de infância. Foi a importância
dada à educação que trouxe as crianças para o núcleo familiar e com ela,
dois ingredientes contraditórios passaram a fazer parte da sua formação: a
ternura e a severidade. Sentimentos traduzidos em forma de “paparicação”
dos adultos pela criança, por considerá-la ingênua, inocente e graciosa, e em
“moralização”,
por considerá-la como ser incompleto e imperfeito, que precisa ser educado3.
Sentimentos que, até os dias atuais, trazem a dualidade anunciada por Pinto
(1997) em que “uns
valorizam aquilo que a criança já é e que a faz ser, de fato, uma criança;
outros, pelo contrário, enfatizam o que lhe falta e o que ela poderá (ou deverá)
vir a ser. Uns insistem na importância da iniciação ao mundo adulto; outros
defendem a necessidade da proteção em face desse mundo. Uns encaram a criança
como um agente dotado de competências e capacidades; outros realçam aquilo que
ela carece”.
(p.33) À sombra dos adultos: a construção histórica da infância no Brasil As
pesquisas de Ariès e as reflexões advindas a partir delas, embora bastante
importantes e inovadoras ao trazerem o sentimento de infância enquanto uma
construção histórica, sofreram críticas na época de sua publicação pela
própria interpretação do autor em relação à não existência do sentimento
de infância no Antigo Regime e por refletirem uma realidade européia que,
embora tenha tido uma forte influência no mundo ocidental, não pode ser generalizada ou transportada mecanicamente para outras
realidades sociais como, por exemplo, a brasileira. Kramer (1996) alerta para
este fato, trazendo as marcas da nossa diversidade no processo de socialização
de adultos e crianças: “Dada a diversidade de aspectos sociais, culturais e políticos que interferiram na nossa formação: a presença da população indígena e seus costumes, o longo período de escravidão brasileira, e ainda as migrações, o colonialismo e o imperialismo, inicialmente europeu e mais tarde americano, forjaram condições que, sem dúvida, deixaram marcas diferenciadas no processo de socialização de adultos e crianças.” (p.20) Desde
os primórdios da colonização, as diferenças contrastantes da nossa
sociedade, pela distribuição de renda e de poder, fizeram emergir infâncias
distintas para classes sociais também distintas. O significado social dado à
infância não foi homogêneo pelas próprias condições de vida das nossas
crianças. Portanto, usando as palavras de Del Priori (2000, p.11), “a
historiografia internacional pode servir de inspiração, mas não de bússola”
para se pensar a construção deste sentimento entre nós. E a autora ainda
afirma que a história da criança brasileira não foi diferente da dos adultos,
tendo sido feita à sua sombra. Sombra de uma sociedade que viveu quase
quatro séculos de escravidão, tendo a divisão entre senhores e escravos como
determinante da sua estrutura social. Tomando a história do Brasil, fica
bastante evidente que a escolarização e a emergência da vida privada burguesa
e urbana não foram os pilares que
sustentaram a construção do nosso sentimento de infância. O
ensino público só surgiu a partir da segunda metade do século XVIII, durante
o governo do Marquês de Pombal, sendo também de acesso restrito. Na época da
Independência, o Brasil já acumulava dificuldades em relação aos centros
urbanos. O Rio de Janeiro, sede do governo, tornou-se uma cidade inchada e com
grandes problemas socioeconômicos: habitantes pobres da periferia buscavam
pelas ruas meios de sobreviver, esmolando, comercializando e exercendo pequenos
serviços. As crianças das classes mais abastadas eram educadas por preceptores
particulares, não tendo freqüentado escolas até o início do século XX e os
filhos dos pobres, desde muito cedo, eram considerados força produtiva, não
tendo a educação como prioridade. Desde os pequenos grumetes recrutados nos
portos de Portugal para servirem nos navios, aos filhos dos escravos, mestiços
e imigrantes, às crianças pobres brasileiras coube o trabalho e não a escola
(Del Priori, 2000, p.12). Este fato não pertence a um passado, é ainda visível
nos dias de hoje, seja nos grandes centros urbanos, em que se
vêem crianças vendendo mercadorias em sinais de trânsito, pedindo esmolas ou
exercendo serviços diversos, ou trabalhando nas áreas rurais, nas lavouras domésticas
e na monocultura. Crianças de várias idades contribuem efetivamente para a
economia doméstica, deixando a escolarização em segundo plano. São os nossos
trabalhadores invisíveis, exercendo um papel produtivo, com a infância
atravessada e os sonhos adiados. No
Brasil, é muito recente a democratização da escolarização. Pelos dados do
MEC (2002), temos hoje 97%
das crianças de 7 a 14 anos matriculadas na escola e a taxa de freqüência líquida
cresceu de 78,1%
em 1992 para 96,3%
em 2000. Porém, isto não significa a eliminação do trabalho infantil. O
relatório Um Futuro sem Trabalho Infantil, divulgado em maio de 2002,
pela OIT – Organização Internacional do Trabalho –, revela que, no Brasil,
7, 622 milhões de crianças, em média, estão envolvidas com algum tipo de
atividade, seja ela remunerada ou não. Quanto
à vida privada, a nossa sociedade agrícola e rural manteve, durante muito
tempo, a estrutura social colonial descrita nos livros de Gilberto Freyre, Casa
Grande e Senzala e Sobrados
e Mocambos. Estes relatos trazem a importância que a família extensa
dos senhores de engenho teve na nossa formação social e econômica, mostrando
o quanto as relações familiares não eram apenas relações afetivas de
confiabilidade, mas também relações de poder que caracterizaram as relações
sociais. Ainda hoje, os resquícios destas relações aparecem em diferentes
situações, como garantia de benefícios e/ou privilégios. Ser parente de alguém
de poder seria algo positivo e confiável, abrindo portas nas mais diversas
situações como indicações de emprego, “pistolões”
e até mesmo o nepotismo. O modelo familiar, construído a partir da casa
grande, seria a de um casal com filhos, articulado a uma rede ampla de
parentesco (avós, tios, primos, sobrinhos), ou seja, a família extensa,
aglutinando várias famílias conjugais, cujos homens, casados com muitos
filhos, teriam a função ativa de provedores e as mulheres valorizadas pelo número
de filhos que tivessem (Medina, 2002). Entretanto,
o contingente populacional de escravos, propriedade de terceiros, não tinha o
direito de constituir família. Até a promulgação da Lei do Ventre Livre, os
filhos dos escravos eram propriedade dos senhores. Quando sobreviviam aos
primeiros anos de vida, moravam nas senzalas numa grande coletividade,
trabalhando desde pequenos, inicialmente acompanhando as mães e depois de forma
independente. A existência ou extensão de uma rede familiar entre os escravos
dependia da flutuação do tráfico e do comércio escravos. Por isso, seus
laços familiares eram mais de compadrio que sangüíneo4.
Por
outro lado, Del Priori (2000) relata o quando a evolução da intimidade entre nós
foi precária em todas as classes sociais. A vida privada brasileira foi
conquistada recentemente e pelos grupos mais favorecidos da sociedade. A falta
de privacidade nas periferias urbanas ainda é um fato presente nos lares super
habitados, nos espaços partilhados das favelas
e “quintais”,
onde parentes e vizinhos convivem numa grande sociabilidade. A
inadequação das teses européias diante da nossa realidade, no entanto,
permite o debruçar sobre a nossa história e entender que o sentimento de infância
foi sendo construído dentro da mesma lógica dicotômica escravista de senhores
e escravos, repleta de distorções e fruto de desigualdade. Enquanto os filhos
dos senhores mandavam e o adulto escravo obedecia, os filhos de escravos, de
mestiços, de imigrantes5,
diante da pobreza e da falta de escolarização trabalhavam6.
Na sombra dos adultos, de uma sociedade estratificada, foram sendo construídas
as muitas histórias das crianças brasileiras. São
as formas de organização da sociedade e as condições de existência e de
inserção da criança em cada contexto social, econômico, político e cultural
que vão delineando as diferentes concepções de infância e as diferentes
formas de ser criança. Portanto, nas histórias individuais e coletivas das
crianças brasileiras, não tivemos e não temos uma resposta única às
perguntas: o que significa ser criança? Quando deixamos de ser crianças e nos
tornamos adultos? Os paradoxos da infância hoje Fazendo
um breve percurso sobre alguns discursos produzidos sobre a criança, que foram
de alguma forma sendo apropriados pelos educadores e pelo conjunto da sociedade
e que acabam influenciando a maneira de as crianças agirem e pensarem,
observa-se que se partiu do
entendimento da criança como um ser diferente do adulto apenas
quantitativamente, pela sua menoridade em idade, tamanho e força (física e
produtiva) e posteriormente as diferenças quantitativas cederam lugar às
qualitativas a criança surge como um ser distinto do adulto por sua maneira própria
de perceber, conhecer e sentir. No entanto, a diferença quantitativa,
aparentemente superada, retorna como falta cognitiva, instaurando a dicotomia
anteriormente citada, em que ora se valoriza aquilo que a criança é e faz, ora
o que lhe falta e o que lhe poderá (ou deverá) vir a ser.
A teoria de Vygotsky sugere uma síntese, não como soma ou justaposição
entre o ser e o vir a ser da criança, mas entende que no agora de cada criança
intrinsecamente está presente o que foi antes e o que será depois. Sua
abordagem sócio-histórica também desconstrói a idéia abstrata e neutra de
infância, situando-a ativamente na cultura.
Cabe
ressaltar que diferentes enfoques coexistem de forma contraditória, não só
no senso comum, como também nos estudos sobre a infância. Ao mesmo
tempo em que a produção cultural para a infância cada vez mais se
especializa, segregando as diferentes faixas etárias, e que a escola elege
conteúdos e informações que considera próprios para cada idade ou série, as
crianças têm acesso irrestrito, pela mídia, meios eletrônicos e pelo convívio
familiar e social, às mais diversas informações. Ao mesmo tempo em que
esperam das crianças comportamentos “infantis”,
os adultos cobram delas responsabilidades e posturas, se assustando quando se
comportam como adultos. Neil
Postman (1999), por exemplo, postula sobre o desaparecimento da infância,
levando em conta a ausência hoje dos três fatores que, como já vimos, compõem
as teses de Ariès sobre o surgimento do sentimento de infância: a alfabetização,
o conceito de educação e de vergonha. Segundo
este autor, com a TV a base da hierarquia da informação desmorona, pois ela
apresenta a informação numa forma indiferenciada na sua acessibilidade, não
fazendo distinção entre a categoria criança ou adulto. Para Postman, isto se
dá porque a televisão não
requer treinamento para apreender sua forma, não faz exigências complexas nem
à mente nem ao comportamento, não segrega seu público (p.94).
Desta forma, considera que a TV, juntamente com os outros meios de
comunicação eletrônicos, recria as condições de comunicação que existiam
no século XIV e XV, não havendo mais segredos, sentimentos de vergonha, nem
distinção entre público e privado, adulto e criança. E ainda argumenta que
neste ambiente informacional tanto a autoridade do adulto, quanto a curiosidade
da criança perdem terreno, pois se quebra tanto a ordem intelectual hierárquica
criada pela alfabetização, quanto a ordem social hierárquica criada pela
conquista das boas maneiras. Ao anunciar o desaparecimento da infância, sugere
aos pais resistirem ao espírito da época, pois não é concebível que
nossa cultura esqueça que precisa de crianças. Mas está a caminho de esquecer
que as crianças precisam de infância. (p.167) Estes
argumentos mostram um certo espanto em relação à inserção cultural da criança
e sua contextualização sócio-histórica. Se a escolarização, com o controle
da informação e da moralização da criança, bem como a constituição da
vida privada, não serviram como base para o surgimento do sentimento de infância
no Brasil, tais argumentos caberiam hoje? Por sua vez, a ordem
intelectual hierárquica seria dada unicamente pela alfabetização e pelo saber
intelectual letrado? E os outros saberes das crianças como, por exemplo, a
familiaridade que algumas têm com o computador ou com as músicas que ouvem,
cantam e tocam? A ordem social hierárquica não estaria na divisão de classes
sociais, gênero, religião ou até mesmo na relação entre idade e força
produtiva, com suas tensões e conflitos, vividos pelas crianças no seu
cotidiano? Como seria esta resistência ao espírito da época? Negação do que
está posto e volta ao que se perdeu? Que infância é esta de que as crianças
precisam? A
infância hoje vive uma série de paradoxos, difíceis de serem rompidos, pois
estão presentes nas concepções e formas de agir com a criança em âmbito
familiar e nas políticas públicas voltadas para a infância. Como
explicitam Sarmento e Pinto (1997, p.12), pensa-se a criança tanto como
alguém dotado de competências e capacidades, como alguém em falta; discute-se
a autonomia da criança e, ao mesmo tempo, criam-se instrumentos de controle e
tutela cada vez mais sofisticados, sabe-se da necessidade de atenção que a
criança pequena necessita e nunca os pais tiveram tão pouco tempo de convivência
com os filhos; condena-se o trabalho e a prostituição infantis e, a cada dia,
o número de crianças vivendo em absoluta pobreza aumenta e não se consegue
tirá-las das situações de risco e violência; discutem-se os direitos da
criança, mas não se criam condições para as suas garantias. E assim se
continua olhando a criança como o futuro do mundo, num presente de opressão. As
condições impostas às crianças, em diferentes lugares, classes sociais e
momentos históricos, revelam que não é possível viver uma infância
idealizada, pretendida e legitimada; vive-se a infância possível, pois a criança
está imersa na cultura e participa ativamente dela. Mas as desigualdades de
condições de ser criança não excluem a especificidade da infância, enquanto
experiência individual e enquanto categoria social. Os estudos de diferentes áreas,
ao longo da história, têm permitido pensar a infância sob vários enfoques e
os Direitos da Criança, que foram aprovados pelas Nações Unidas, numa Convenção
em 1989, têm servido como anúncio e denúncia da situação em que se
encontram as crianças dos diferentes contextos sociais, econômicos, religiosos
e culturais. Embora nada disso tenha sido suficiente para garantir uma melhora
das condições de vida de muitas crianças, pela inconsistência das políticas
para a infância, não se pode desconsiderar esta especificidade. Os
direitos fundamentais e inalienáveis das crianças, legitimados no Brasil pelo
Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, em 1990, podem ser resumidos em três
eixos: proteção, provisão e participação. Todo conhecimento acumulado sobre
a infância permite entender hoje a importância da brincadeira como um elo de
ligação de cada um destes três eixos. Para se desenvolver plenamente e
participar ativamente do mundo em que vive, a criança precisa brincar. Vygotsky
(1991) considera a brincadeira uma grande fonte de desenvolvimento que, como
foco de uma lente de aumento, contém todas as tendências do desenvolvimento de
forma condensada. Para o autor, a brincadeira fornece ampla estrutura básica
para mudanças das necessidades e da consciência. Pois,
nas brincadeiras, as crianças ressignificam
o que vivem e sentem. Para
Brougère (1999), na brincadeira de faz-de-conta se estabelece uma forma de
comunicação que pressupõe um aprendizado, com conseqüência sobre outros
aprendizados, pois ele permite desenvolver um melhor domínio sobre a comunicação,
abrindo possibilidades para a criança entrar num mundo de comunicações
complexas, distinguindo realidade, invenção, imaginação, etc. E, ainda,
afirma que a brincadeira implica tomar decisões, mesmo que simples, como
a risada de um bebê sinalizando sua aprovação em relação à brincadeira da
mãe. Decidir brincar é aceitar uma proposta, seja ela vinda de um parceiro, de
uma brincadeira ou de um jogo com regras preestabelecidas. Portanto,
a infância necessária para todos é a que tenha, além de casa, comida,
carinho, saúde e educação, um tempo e um espaço de brincar garantidos. E
cabe a cada um de nós, especialmente quando lidamos diariamente com as crianças,
tentar romper com alguns paradoxos da infância, permitindo e favorecendo
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Manuel Jacinto e PINTO, Manuel. As crianças e a infância: definindo
conceitos, delimitando o campo. In: PINTO, Manuel e SARMENTO, Manuel Jacinto
(coords.). op. cit. p.9-33 VYGOTSKY, L. S. Formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 4a edição, 1991. NOTAS: 1 Doutoranda e Mestre em Educação pela PUC-RIO, professora do Curso de Especialização em Educação Infantil pela PUC-RIO. 2 Ver BARCELLOS, Simone (2001). 3 Ver KRAMER, Sonia (1982). 4 Segundo Góes e Florentino (2000, p. 182), o compadrio católico unia escravos e unia plantéis. É interessante observar que, ainda hoje, a palavra padrinho carrega a marca da proteção. Ter um padrinho no trabalho é ter alguém que possa garantir a estabilidade e acobertar as faltas ou desvios. O dito popular endossa esta idéia: quem tem padrinho não morre pagão. É ainda costume das classes populares chamar o patrão/patroa, alguém de prestígio ou de uma classe social mais favorecida, para batizar os filhos. 5 No final do século XIX, a entrada maciça de imigrantes como força de trabalho, no início da nossa industrialização, trouxe a imagem das crianças trabalhando nas fábricas, como operários de baixo custo e que chegavam a passar até 11 horas frente às máquinas. 6 Segundo Del Priori (idem, p.12), as mulatas ou negras forras e seus pais, que integravam o movimento de mobilidade social ocorrido em Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII, tiveram eles também os seus escravos. Muitas vezes seus próprios parentes ou até mesmo os irmãos!
PGM 2 - O
BRINQUEDO COMO
OBJETO DE
CULTURA CRISTINA LACLETTE PORTO * Brinquedos industrializados e artesanais A inusitada1 peteca Lúcio Costa Alguém me deu de presente, em fevereiro, esta peteca. É rosa, com penas de laivos verdes, amarelos e brancos; é luminosa e leve mas tem carga latente. Ficou desde então pousada sobre a mesa, à espera. À espera apenas de um gesto. (In extremis) Essa
poesia é um dos muitos registros de vivência deixados pelo arquiteto
Lúcio Costa. E, neste texto, representa um convite. Vamos imaginar os
vários caminhos que a peteca percorreu até chegar às mãos Quem
a teria feito? Por que escolheu essas cores? As petecas são todas
necessariamente leves? Por que alguém escolheu exatamente aquela para
dar de presente? A que carga latente o arquiteto se refere? Por que
foi colocada sobre a mesa? O gesto esperado é o de uma criança
curiosa ou de um adulto ansioso em revelar sua infância, demonstrando
destreza no jogo? Do
brinquedo à brincadeira, todo um universo está condensado à espera
daqueles que se disponham a descobri-lo. Vários autores de diversas
áreas mergulharam na história dos jogos e dos brinquedos. Apenas
para citar alguns, destaco Johan Huizinga, Walter Benjamin, Philippe
Ariès, Roger Caillois e Gilles Brougère. Num
dos ensaios do filósofo alemão Walter Benjamin (2002), escrito entre
1928 e 1930, sobre a história dos brinquedos, o autor alerta que há
um grande equívoco na suposição de que são simplesmente as próprias
crianças, movidas por suas necessidades, que determinam todos os
brinquedos. As crianças, quando brincam, se defrontam o tempo todo
com os vestígios que as gerações mais velhas deixaram. O brinquedo,
mesmo quando não é apenas miniatura de objetos que circulam no mundo
dos adultos, é confronto, não tanto da criança com os adultos, mas
destes com a criança. Não são os adultos que, em primeiro lugar,
oferecem esses objetos às crianças? Para
Brougère (1992), olhar para o brinquedo é se confrontar com o que se
é ou, ao menos, com a imagem do mundo e da cultura que se quer
mostrar à criança. O brinquedo é um objeto que traz em si uma
realidade cultural, uma visão de mundo e de criança. Nesse
sentido, dependendo do material de que foi fabricado madeira, espuma,
ferro, pano ou vinil; da forma e/ou do desenho bonecas bebês ou
adultas; do aspecto tátil bichos de pelúcia ou de borracha; da cor
panelinhas cor-de-rosa; do cheiro e dos sons que porventura emitam, os
brinquedos oferecem possibilidades de experiência variadas.
Em
outros tempos, o brinquedo era a peça do processo de produção que
ligava pais e filhos. Madeira, ossos, tecidos, sementes, pedras, palha
e argila eram os materiais usados para sua construção. Antes do século
XIX, a produção de brinquedos não era função de uma única indústria.
Dos restos dos materiais usados nas construções, os adultos criavam
objetos que, de um modo ou de outro, iam parar nas mãos das crianças.
No entanto, nem sempre foi assim. Foi
o reconhecimento da infância como fase específica da vida, com suas
características e necessidades, que possibilitou identificar-se o
brinquedo como objeto infantil. Esse novo olhar para a criança e para
o brinquedo é resultado de um longo processo histórico, analisado
por Patrícia Corsino no texto referente ao primeiro programa da Série
Jogos e Brincadeiras: desafios e descobertas. A
partir do século XIX, quando o brinquedo deixa de ser o resultado de
um processo doméstico de produção, que unia adultos e crianças,
para ser comercializado, sua forma, tamanho e imagem mudam. As
miniaturas cedem lugar aos objetos maiores, indicando que, cada vez
mais, a criança passa a brincar sozinha, sem a parceria do adulto. Beatriz
Muniz Freire (1999), no catálogo da exposição intitulada “Dim:
as artes de um brincante”,
realizada na Sala do Artista Popular do Museu do Folclore do Rio de
Janeiro, analisa as influências que a industrialização exerceu
sobre o brinquedo artesanal. Principalmente
depois da Segunda Guerra Mundial, o uso do plástico substituiu
materiais como madeira, cera e pano e permitiu o desenvolvimento de
uma produção em série. No
âmbito dos brinquedos artesanais, a partir desse momento, iniciou-se
o que Paulo Salles de Oliveira (1989) chamou de industrianato,
brinquedos inspirados nos artesanais, feitos em série, com temas
ditados pela mídia e que, na reprodução, escondem a autoria do
artesão; e os chamados brinquedos de autor. Essa denominação
é dada àqueles objetos que guardam um caráter local. São
brinquedos em que a identidade de um grupo pode ser reconhecida, como
as bonecas de pano do Agreste paraibano,
ou guardam características de seu idealizador, como os
brinquedos feitos por um jovem cearense, conhecido como Dim. Antonio
Jader Pereira dos Santos, o Dim, recria, com extrema habilidade,
brinquedos tradicionais, dando-lhes novas formas e cores e, por vezes,
novo uso. O artesão é porta-voz de vivências coletivas e, ao mesmo
tempo, autor de um discurso muito próprio, que ele inscreve em suas
criações. Atualmente,
portanto, a quantidade de brinquedos é enorme e sua qualidade varia
tanto no brinquedo artesanal quanto no brinquedo industrializado. A
História, no entanto, não é única e linear. Existem povos que
viveram processos distintos de desenvolvimento e que atribuem
diferentes noções de família, adulto ou criança. Tal fato nos leva
a perceber que os significados e valores dados aos brinquedos e
brincadeiras vão variar de acordo com o tempo e com o contexto.
Os grandes centros urbanos, em geral, passaram por transformações
que permitem identificar características semelhantes em várias
partes do mundo. Até a metade do século XX, as cidades não eram tão
grandes nem tão violentas e havia espaços para brincar na rua, no
quintal, nos terrenos vazios e nas praças. Grupos de crianças de
idades e origens sociais variadas participavam das brincadeiras. O
brinquedo industrializado já circulava na cidade, mas era ainda
restrito à classe média. A sociedade de consumo, no entanto, não
tinha se consolidado e os adultos (pais, tios avós, vizinhos) ainda
contribuíam ativamente para as experiências lúdicas das crianças,
confeccionando bonecas de pano, carrinhos de madeira e bolas de meia,
ou participando das brincadeiras, propondo cirandas, batendo corda ou
riscando o jogo da amarelinha no chão. Gradativamente, no entanto, as
crianças foram sendo alijadas do convívio com os adultos e do espaço
urbano. O espaço das crianças foi se limitando cada vez mais, até
se tornar um conjunto de pequenas áreas, ou locais de consumo. Houve
um processo de infantilização da brincadeira e uma progressiva
desvalorização já que, num mundo orientado pelo trabalho e pelo
lucro, ela é considerada uma atividade não produtiva. Deve-se
levar em conta, também, que a forma de divulgação dos brinquedos
modernos se alterou, interferindo na escolha do brinquedo pelo adulto.
Agora, são as crianças que escolhem que brinquedos querem ganhar. E, nesse contexto, os brinquedos mais vendidos são aqueles
mostrados pela televisão. A televisão é um meio privilegiado de
atingir diretamente a criança. A própria veiculação por esse meio
exige que o brinquedo tenha determinadas características.
Deve ser comunicável, ou seja, explicável e comunicável
através de imagens breves. “Através
do brinquedo, como por meio da televisão, a criança vê sua
brincadeira se rechear de novos conteúdos, de novas representações
que ela vai manipular, transformar ou respeitar, apropriar-se do seu
modo. Da mesma forma como para os conteúdos televisivos, os fenômenos
do modismo e da mania regem a vida dos brinquedos.”
(Brougère, 1995, p.58) Se
grande parte das crianças entra cada vez mais cedo para instituições
especialmente voltadas para elas, como as creches e as escolas, cabe a
pergunta: que lugar o brinquedo e a brincadeira assumem nesse
contexto? Que papel devem assumir os profissionais que atuam na área
da educação? Pedagogos
como, Froebel, Montessori e Decroly chamaram a atenção para o valor
educativo do jogo e fizeram com que muitos educadores reconhecessem a
importância de tal atividade. Ainda hoje, os sistemas pré-escolares
discutem se o jogo infantil é um ato de expressão livre, um fim em
si mesmo ou um recurso pedagógico. (Kishimoto, 2002) Brincar
na escola é diferente de brincar em casa. Os brinquedos são da
instituição; as possibilidades de brincadeiras em grupo são maiores
e crianças da mesma idade costumam ficar sob a responsabilidade de
poucos adultos. Todos esses fatores influenciam os modos de brincar e
exigem reflexão. Na
área da educação, muitas vezes, a preocupação com o lúdico se
manifesta apenas pela quantidade de brinquedos disponíveis no acervo,
sem se levar em conta os significados que esses objetos carregam. O
acervo de brinquedos num espaço institucional, como creche e escola,
deve fazer parte de uma proposta pedagógica que envolva adultos e
crianças, pois o acervo de brinquedos é significativo quanto aos
objetivos que aquela creche ou escola pretende atingir. Não se trata
de tornar pedagógica toda e qualquer brincadeira, mas sim de
compreender sua especificidade e importância. A
história do brinquedo permite que se compreenda que, ao longo dos séculos,
a criança e o brinquedo assumiram diferentes significados. A convivência
de crianças e professores com um conjunto de brinquedos diversos pode
permitir que inúmeras experiências lúdicas se realizem e que as
histórias neles contidas sejam lembradas, descobertas, transmitidas e
questionadas. Convido
o leitor a pensar nos significados que emergem do seguinte conjunto de
brinquedos: u bonecas de vários tipos: bebês e adultas, brancas e negras, de pano ou de vinil, sexuadas ou não, antigas ou novas? u transportes variados (barcos, carros, caminhões, aviões, trens) grandes e pequenos, de madeira ou de ferro? u bichos da fauna brasileira? u panelinhas de várias cores e tamanhos e materiais (barro, lata, vinil)? u legumes e frutas de brinquedo ou de verdade? u embalagens vazias de vários produtos? u jogos da memória, de tabuleiro, cooperativos, quebra-cabeças, de origens culturais diversas e com temas que não se restrinjam àqueles impostos pela mídia? u jogos de construção em madeira, blocos para encaixe de plástico com peças grandes ou pequenas? u brinquedos tradicionais como “cinco marias”, pião, corda, bola de gude, “mané-gostoso”, “diabolô”? u roupas, sapatos, bolsas e acessórios para se fantasiar? u material para desenhar, colar, modelar, etc.? u pequenas coleções conchas, sementes, pedrinhas? u sucatas diversas? Muitos
são os brinquedos industrializados ou artesanais que se fundam em
imagens estereotipadas. A cor rosa, por exemplo, foi associada
culturalmente, entre nós, ao gênero feminino. Panelas nessa cor
sugerem que esse tipo de brinquedo e, indiretamente, o ato de cozinhar
se destinam às meninas. Neste caso, sejam de barro ou de plástico, a
cor é o aspecto preponderante e reforça valores que devem ser
questionados. Meninos não podem brincar de casinha? Existem
bonecas louras, negras, adultas e crianças – o que a presença
marcante de apenas algumas delas nas lojas, nas residências e nos
acervos escolares significa? As
crianças brincam com o que têm nas mãos e com o que têm na cabeça.
(Brougère, 1995) “Os brinquedos orientam a brincadeira, trazem-lhe matéria. Algumas pessoas são tentadas a dizer que eles a condicionam, mas então, toda a brincadeira está condicionada pelo meio ambiente. Só se pode brincar com o que se tem, e a criatividade, tal como a evocamos, permite, justamente, ultrapassar esse ambiente, sempre particular e limitado. O educador pode, portanto, construir um ambiente que estimule a brincadeira em função dos resultados desejados. Não se tem certeza de que a criança vá agir, com esse material, como desejaríamos, mas aumentamos, assim, as chances de que ela o faça; num universo sem certezas, só podemos trabalhar com probabilidades.” (pág. 105) Uma
proposta lúdica no contexto escolar deve considerar os significados
inscritos nos brinquedos e como estes objetos podem chegar às mãos
das crianças, de modo a proporcionar as mais diversas experiências.
O brinquedo recheia de conteúdos as brincadeiras das crianças e as
relações delas com os adultos. A brincadeira permite decidir,
pensar, sentir emoções distintas, competir, cooperar, construir,
experimentar, descobrir, aceitar limites, surpreender-se... Mas
será que os profissionais que atuam com as crianças tiveram uma
formação que valorizasse sua própria criação, imaginação e
ludicidade? O
certo é que a história de cada brinquedo se entrelaça à história
de cada professor e de cada criança que dele se apropria. O
interessante é que haja mais trocas entre adultos e crianças. Referências Bibliográficas: Benjamin, W. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas cidades; Ed. 34, 2002. Brougère,
G. (org.). Le jouet. Paris: Autrement, 1992. _. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1995. _. A criança e a cultura lúdica. In Kishimoto, T. (org.) O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2002. Freire, B. M. Dim: as artes de um brincante. Rio de Janeiro: Funarte, CNFCP, 1999. Oliveira, P.S. O que é brinquedo. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1989 Kishimoto,
T. Froebel e a concepção de jogo infantil. In:
Kishimoto, T. (org.) O brincar e suas teorias. São
Paulo: Pioneira, 2002. NOTAS: * Coordenadora da Brinquedoteca HAPI e professora do Curso de Especialização em Educação Infantil da PUC-RIO. 1 Inusitado: não usado; desconhecido; esquisito; novo.
PGM
3 – BRINCADEIRA OU
ATIVIDADE LÚDICA? CRISTINA
LACLETTE PORTO * A imprecisão dos termos utilizados para definir brincar, brincadeira, jogo, brinquedo e lúdico tem uma explicação, pois é o resultado de diferentes significações, muitas vezes contraditórias, que circulam socialmente. Na Língua Portuguesa, a definição para as noções de jogo, brinquedo e brincar é bem complexa. Entre nós, o termo brincar é oriundo do latim vinculum, que quer dizer laço, união. Tal significado não possui equivalente nas línguas européias como o francês, inglês, alemão ou espanhol e possui uma especificidade. (Santa Roza, E., 1993, p.23 ) No
Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque
de Holanda (1a
edição, 1975, p.228), temos que do verbo latino vinclu,
derivou-se vincro, depois vrinco, daí brinco, que significa laço. O que
leva à idéia de que brincar é criar laços. Já o termo brinquedo
é definido como “objeto
que serve para as crianças brincarem; jogo de crianças; brincadeira;
divertimento, passatempo; festa, folia, folguedo.”
E encontramos ainda brincar como “divertir-se
infantilmente; entreter-se em jogos de criança ou ainda recrear-se,
entreter-se, distrair-se, folgar.”
O
termo jogar, por outro lado, é extensivo tanto às noções
de brincar quanto a várias outras atividades, sendo usado mais
freqüentemente para definir passatempos e divertimentos sujeitos a
regras. Temos também o termo lúdico, que deriva do latim ludus,
mais abrangente, que remete “às
brincadeiras, aos jogos de regras, a competições, recreação,
representações teatrais e litúrgicas.”
(Ibid. p.24) Para
que uma atividade seja um jogo é necessário, então, que seja tomada e
interpretada como tal pelos atores sociais em função da imagem que têm
dessa atividade. Refazer esse percurso de identificar as várias significações
que tais termos carregam pode contribuir para identificar e localizar
nossas próprias concepções. Longe
de ser apenas uma atividade natural da criança, a brincadeira é uma
aprendizagem social. As brincadeiras dos adultos com crianças bem
pequenas são essenciais nessa aprendizagem. A criança inicia esse
processo inserindo-se no jogo preexistente do adulto como um brinquedo,
sem desempenhar, de imediato, um papel muito ativo. Nesse momento, o bebê
não é ainda um parceiro do jogo, mas suas manifestações de
contentamento, como risos e murmúrios, incentivam o adulto a continuar
brincando. Em seguida, ele vai poder se tornar parceiro, assumindo o mesmo
papel do adulto, mesmo que de forma desajeitada. Na brincadeira de
esconder o rosto com um pano, por exemplo, a criança pequena aprende a
reconhecer certas características essenciais do ato de brincar. São
elas: u O aspecto fictício: trata-se de um faz-de-conta, pois o rosto não desaparece de verdade; u A troca de papéis; u A repetição, que mostra que a brincadeira não modifica a realidade, já que se pode sempre voltar ao início; u A necessidade de um acordo entre os parceiros. Aos
poucos, as crianças passam a usar essas estruturas preexistentes que
definem a atividade lúdica em geral e cada brincadeira em particular. As
crianças, portanto, as apreendem antes de utilizá-las em novos
contextos, quer estejam sozinhas, em brincadeiras solitárias, quer
estejam com outras crianças, em brincadeiras em grupo. Ao
identificar essas estruturas, Gilles Brougère (2002, p.22-23), professor
de Ciências da Educação da Universidade Paris-Nord, chama a atenção
para a presença de uma cultura preexistente que define o jogo, torna-o
possível e faz dele, mesmo nas formas solitárias, uma atividade cultural
que supõe uma aprendizagem. As crianças, quando brincam, não estão
apenas entrando em contato com a cultura de uma forma geral. Quando se
brinca, aprende-se antes de tudo a brincar, a controlar um universo simbólico
particular. Existe
uma cultura lúdica, ou seja, um conjunto de regras e significações próprias
do ato de brincar ou jogar que aquele que brinca ou joga adquire e domina
no contexto de suas brincadeiras. Para poder entrar no universo da
brincadeira, é necessário que o indivíduo partilhe dessa cultura.
Gostaria aqui de acrescentar que essa necessidade não diz respeito apenas
às crianças, mas é pré-requisito também para os adultos. Brougère
(1995, p.99-100) identifica a existência de uma comunicação específica,
uma metacomunicação, presente na brincadeira. Os parceiros precisam entrar em acordo sobre códigos que
indicam que se trata de uma brincadeira. Há uma troca de mensagens que é
feita através de sinais e que só é possível se existe um certo grau de
metacomunicação. As
significações podem ser explícitas ou implícitas; verbais ou não-verbais.
É freqüente o uso de verbos no imperfeito, quadrinhas e gestos específicos
que indicam a vontade de brincar. Quando a criança diz “Vamos
brincar?”
ou “Finge
que você é um príncipe!”,
ela está deflagrando a brincadeira e anunciando um determinado espaço,
onde as atividades vão ter um outro valor. Quando
a criança é muito pequena e ainda não domina a fala, costuma fazer uso
da linguagem gestual para indicar que quer brincar. Muitas vezes, sem
dizer nada, entrega um brinquedo a outra criança, ou a um adulto. Muitos
adultos, ao desconhecerem a importância e o significado destes códigos,
limitam-se a empilhar, ao seu redor, os brinquedos oferecidos pela criança.
É freqüente também, que digam: “Que
carrinho bonito!”
ou “Pegue
um de cada vez, senão vira bagunça!”,
comentários que não estimulam em nada a deflagração ou a
continuidade de uma brincadeira. Ao se dar conta desses códigos, o adulto
pode identificar a intenção da criança e corresponder ao convite,
enriquecendo as possibilidades de desdobramento, se levar em conta que: “A
brincadeira é uma mutação do sentido, da realidade: as coisas tornam-se
outras. É um espaço à margem da vida comum, que obedece a regras
criadas pela circunstância.” (Brougère,
G. 1995, p.99-100) Quando
um adulto alerta que a criança deve comer uma cenoura de plástico “Só
de mentirinha!”,
ele está, informalmente, ensinando que o espaço do jogo é peculiar. A
partir dessas interações com adultos ou com seus pares, a criança vai,
aos poucos, descobrindo que uma boneca não é um bebê de verdade, mas
que pode fazer de conta que é. Essa aprendizagem acontece informalmente,
pois caso contrário, se o adulto se dispuser a adotar métodos para
ensinar as crianças a brincar, corre o risco de destruir a brincadeira.
Essa é uma das principais diferenças entre brincadeira e atividade lúdica,
como veremos mais tarde. Para
que haja a brincadeira, é necessária uma decisão dos que brincam: decisão
de entrar na brincadeira, mas também de construí-la segundo modalidades
particulares. Sem a livre escolha, não existe brincadeira, mas uma sucessão
de comportamentos que têm origem fora daquele que brinca. Quando os
adultos se afastam demais dessa atividade, acabam por ter, em geral,
dificuldades em reconhecê-la. Não dispor dessas referências é não
poder brincar. A
cultura lúdica não é única e imutável. Existe um conjunto de regras
de jogos disponíveis numa determinada sociedade, que se somam às regras
que um indivíduo cria. Essa combinação vai compor uma cultura lúdica
própria. Mesmo as brincadeiras tradicionais, que se encontram em vários
contextos culturais, ganham contornos específicos. A amarelinha, por
exemplo, pode ser jogada a partir de vários traçados e com regras que
variam de região para região. Até mesmo o nome pode ser outro. Em
Portugal, este jogo é conhecido como Jogo do Aeroplano ou Jogo da Macaca.
A cultura lúdica é um conjunto vivo, diversificado conforme os indivíduos
e os grupos. As regras dessa cultura lúdica são bem particulares, pois são
vagas e com estruturas gerais e imprecisas. Brougère (2002) prefere chamá-las
de esquemas de brincadeiras, que são uma combinação complexa da observação
da realidade social, hábitos de jogo e suportes materiais disponíveis.
A
cultura na qual a criança está inserida, junto com a cultura lúdica que
ela possui, provocam uma variedade enorme de combinações possíveis.
Essa cultura lúdica se produz e se propaga de várias maneiras. A criança,
quando brinca, vai acumulando, desde bebê, as experiências que vão
constituindo sua cultura lúdica. Essa experiência vai se enriquecendo na
medida em que ela participa de brincadeiras com outros parceiros (adultos
e crianças), pela observação de outras crianças e pela manipulação
cada vez maior de objetos de jogo. A brincadeira é um processo de relações
da criança com o brinquedo, com outras crianças e com os adultos,
portanto, um processo de cultura. O
uso que a criança faz do brinquedo, a maneira como brinca e suas preferências
indicam uma produção de sentidos e de ações. Na brincadeira, a criança
se apropria dos conteúdos disponíveis, tornando-os seus, através de uma
construção específica. As brincadeiras variam segundo as idades, o gênero
e os níveis de interação lúdica. As brincadeiras coletivas expressam
apropriações de conteúdos diferentes dos que estão presentes numa
situação individual. Toda
interação supõe uma interpretação. A criança vai agir em função da
significação que vai dar aos objetos dessa interação, adaptando-se à
reação dos outros elementos da interação, para reagir também e
produzir assim novas significações que vão ser interpretadas pelos
outros, como numa espiral. A
experiência lúdica se alimenta continuamente de elementos que vêm da
cultura geral. Essa influência se dá de várias formas e começa com o
ambiente e as condições materiais. O que dizem e o que fazem os adultos
a respeito dessa atividade, bem como o espaço, o tempo e os materiais
colocados à disposição das crianças (na cidade, nas moradias e nas
escolas), são aspectos que vão ter papel fundamental para o
desenvolvimento da experiência lúdica. A
forma de comunicação própria da brincadeira pressupõe um aprendizado
com conseqüências sobre outros aprendizados, pois permite abrir
possibilidades de distinção entre diferentes tipos de comunicação:
reais, realistas, fantasiosas. A criança, quando brinca, entra num mundo
de comunicações complexas que vão ser utilizadas no contexto escolar,
nas simulações educativas, nos exercícios, etc. Nesse sentido, é
extremamente importante distinguir os diferentes tipos de atividade que
podem e devem ter seu lugar garantido no contexto escolar.
Existe
uma certa confusão por parte de alguns professores, que chamam de
brincadeira uma série de atividades que podem ser lúdicas, mas que não
são propostas nem desenvolvidas pelas próprias crianças. Quando a
especificidade da brincadeira é mantida, os elementos que predominam são
incerteza, ausência de conseqüência e sucessão de decisões tomadas
por aqueles que brincam. Durante
uma pesquisa de campo (Porto, 1996) foi possível observar e analisar uma
situação de brincadeira que durou cerca de 1 hora e que envolveu três
crianças de idades variadas e dois adultos. A brincadeira começou como
uma luta entre o Bem e o Mal. À
primeira vista, se poderia supor que desembocaria em atos violentos, no
entanto, como na brincadeira não se sabe com antecedência o que vai
ocorrer, vejamos o que aconteceu: Vamos
começar pelo diálogo entre uma estagiária e Pedro, de três anos. Pedro
mostrou uma raquete e disse que era um escudo. Estagiária: – Isso não é um escudo, é aquele negócio de jogar bola. Pedro:
– Ah, finge que é um escudo. Naquele momento, Pedro tentava estabelecer o espaço e o tempo da brincadeira, recorrendo à metacomunicação para estabelecer que os objetos e as atividades teriam, a partir de então, outro valor. No início, a estagiária recusou o código proposto por Pedro. Sua atitude demonstrava que, ou não sabia brincar, ou não concordava com Pedro, ou simplesmente evitava aquele tipo de brincadeira. Como Pedro continuou demonstrando interesse em brincar, a estagiária cedeu ao seu apelo. Estagiária: – Eu não sei lutar não, me ensina? Pedro: – Essa espada é de ouro. Essa daí, é do mal. Para Pedro, a definição entre bem e mal era imprescindível. A arma que escolheu foi a espada que podia ser usada para o bem, se fosse de ouro, ou para o mal, se fosse de outra cor. Logo depois, percebendo, de certa forma, que a estagiária não saberia brincar como ele gostaria, Pedro pareceu desistir. Aproximou-se de Maria (coordenadora) e pediu que consertasse um volante de carro de verdade, que era usado como brinquedo. Maria o ajudou. Pedro simulava dirigir com o volante e informou a Maria que a levava de carona. Enquanto isso, outras crianças chamavam a atenção da coordenadora para outras brincadeiras, e Pedro foi dando continuidade à sua. Pedro: – Eu puxei a corda, para você ir lá na caverna. Eu vou sozinho. Já estou indo! Ih, o avião está caindo! Está afundando! A casa está dentro do avião, mas você não vai sair quando chegar na caverna. Maria: – Vamos consertar o avião e Vítor também vai ajudar. Vítor: – Vou consertar. Maria: – O Vítor está consertando também! Vítor: – Eu e o Pedro, a gente fica no avião. Pedro: – Cuidado que agora eu vou dar um vôo fortão! O avião está caindo de novo! Vítor: – Eu e o Pedro ficamos a toda hora no avião. Pedro: – É, a gente tem que consertar. Vítor: – É, se tiver algum problema, a gente conserta. Maria e Vítor tornaram-se parceiros de Pedro na brincadeira que, daquele momento em diante, se desenvolveu através de uma sucessão de decisões. Pedro: – Maria, a gente já consertou. Vítor: – Agora, o avião vai voar muito forte! Pedro: – Então, o Vítor vai pilotar agora. Vítor: – Serra, prego, parafuso! Maria: – Caixa de ferramentas? Vítor: – Eu tenho uma dessas na minha casa. Meu pai me deu. A caixa de ferramentas remeteu Vítor ao seu contexto imediato, a uma situação de sua vida privada. Ele se apropriou dos conteúdos disponíveis, tornando-os seus, através de uma construção específica. Expressou seu universo através daquele brinquedo. Quase houve uma interrupção da brincadeira, mas a decisão da maioria a manteve. Vítor compreendeu o sinal de Pedro para que desse continuidade. Pedro: – Vítor, você não pode deixar o volante do avião! Vítor: – Você que tem que dirigir. Pedro dirigiu-se à estagiária que observava e pediu que pilotasse. Tentou incluí-la mais uma vez. A maneira de transmitir a mensagem “isto é uma brincadeira”, como vimos, é variada. Pode ser explícita ou implícita, verbal ou não-verbal. Ao se voltar para a estagiária, Pedro usou a forma explícita e verbal. Pedro também se dirigiu a Vítor para deixar clara a nova condição. Pedro: – Agora, estou brincando com ela. Aparentemente, Vítor recusou a decisão de Pedro e a estagiária ficou fora da brincadeira novamente. Vítor: – O avião está caindo! Vou pegar um submarino! Maria: – Olha, lá tem mais ferramentas. Vê se dá para consertar. Pedro retornou rapidamente para a brincadeira, aceitando a decisão de Vítor. Pedro: - Vítor, vamos consertar o avião! Vítor: – Não vou consertar não. O pior é que o tubarão pode te engolir! Pedro: – Vai dirigir para o Mundo dos Fantasmas? Vítor: – Não, vou encontrar a Vaca do Mar, a Vaca Marinha. Pedro: – Já sei, vou fazer um cavalo-marinho. É muito longe. Todo o mundo pegando o binóculo para ver o cavalo-marinho. Eu que sou o capitão. Agora, todos desçam para pegar o tesouro. Maria: – Pega o microfone! Aos poucos, novos elementos foram entrando no jogo. Vítor colocou os patins que antes estavam com sua irmã, Sara, de seis anos. Vítor: – Eu também sou Capitão. Pedro: – Outro Capitão! Pega o seu binóculo. Maria: – Encontrei um colar de pérolas! Pedro: – Oba! Estamos ricos! Pedro deu um binóculo para Vítor e se referiu a armas que, concretamente, não fazem parte de sua vida, mas às quais tem acesso pela literatura, televisão, vídeo ou cinema. Pedro: – É para você ver o tesouro. Todos pegando seus canhões! Todos pegando suas bazucas! Todos pegando as espadas para cortar as Cobras-Marinhas! Maria: – Onde está a cobra? Pedro: – Lá fora do avião. Sara, que estava até o momento fora da brincadeira, trouxe uma cobra de pano. Sara, com o simples gesto de estender o brinquedo, usou a forma implícita de metacomunicação. Sara: – Olha a cobra! Pedro: – Eu estou dirigindo para o Rio dos Fantasmas! Maria: – Eu posso descer? Maria, de forma implícita, mas verbal, tentou abandonar a brincadeira, mas Pedro a impediu. Pedro: – Não, porque você tem que conhecer. O Navio Fantasma está por aqui. Não está ouvindo? Vítor: – Estou, mas aqui também é o Navio Fantasma. Mesmo que Pedro não tenha se dirigido a Vítor, este deixou bem claro que não estava disposto a interrupções. Depois de sua pequena participação, Sara sentou-se para ler um livro. Alheias a toda a movimentação provocada pela encenação dessa aventura, outras crianças se divertiam. Julia jogava com a estagiária e Carolina brincava na mesa. Logo depois, Sara deixou a leitura de lado e voltou a andar de patins. Enquanto isso… A aventura continuava. Maria olhava por um binóculo. Maria: – Estou vendo você. Pedro: – Você tem que ver o tesouro. Maria: – Estou vendo um menino chegando aqui perto. Maria se referia a Vítor. Vítor: – Vou pilotar o avião. Vítor se afastou com o binóculo e a espada. Vítor: – Achei um monte! Vítor encontrou uma caixa e a chamou de monte. Maria: – Vamos ver o que tem nesse baú? Pedro: – O avião vai sair com um monte de tesouros que a gente roubou do navio. A gente está rico! Oba! Estamos ricos! Todos, Maria, Pedro e Vítor, observaram o que havia dentro do baú. Tiraram um a um os objetos e mostraram uns aos outros, pulseiras, arcos, anéis, óculos, etc.… Pedro: – Eu achei o Anel dos Poderes! Vítor: – Me dá? Pedro apontou um colar que estava nas mãos de Vítor. Pedro: – Esse aí é o Colar dos Desejos! O Anel dos Poderes! Outro Anel dos Poderes! Vítor insistiu em pedir o anel. Vítor: – Me dá esse? Pedro: – O meu é mais brilhante. Vítor: – Vou pegar os meus óculos de raio-fogo! Enquanto os dois meninos se distraíam nessa disputa, Sara, de patins, se aproximou, se apoderou do baú e já ia fugindo, quando… Maria: – Olha, defende! Ela quer roubar o Colar dos Desejos! Sara: – Eu estou pegando tudo! Sara tentou fugir, mas Vítor correu e a segurou. Sara: – Eu roubei, eu roubei! Pedro: – Ela está frita! Maria: – Prende ela, você que está com o poder. Pedro: – Anel dos Poderes, congelar! Maria: – Vamos voltar para o navio. Todos a bordo! Guardem o tesouro. Vamos partir antes que ela volte! Sara “descongelou” e colocou tudo o que pegou no chão. Sara: – Ah, voltei! Maria: – Vamos prender ela! Ela está roubando tudo! Maria agarrou Sara por trás e disse: –Você pode fugir, se entregar tudo! Tira tudo. Pode fugir agora. Sara devolveu algumas coisas, mas se apoderou de outras e fugiu novamente. Pedro: – Ela é do Bem! Vítor: – Não, ela é do Mal!
A brincadeira, nada violenta, se desdobrou, formando uma narrativa,
com começo, meio e fim, tendo como eixo o conflito entre o bem e o mal.
Segundo o psicólogo Bruno Bettelheim, (1988, p. 271), os jogos de
Mocinhos versus Bandidos permitem à criança visualizar sua
fantasia e lhe dar “corpo”,
ao ser policial ou ladrão . “Representar esses papéis permite-lhe chegar perto da realidade dessas personagens e de como elas se ‘sentem’, o que a leitura ou a televisão não podem propiciar. Um papel passivo e receptivo não é substituto para encontros ativos com a realidade da experiência.” De
acordo com essa interpretação, o domínio da televisão, que tanto
preocupa pais e professores, ficaria matizado através das brincadeiras. Brougère
(1995, p.60), por sua vez, afirma que “do
ponto de vista da educação da criança pequena, a brincadeira ligada à
televisão pode permitir uma abordagem distanciada, até mesmo crítica,
de determinados conteúdos televisivos.
Encontramos, aqui, a possibilidade de conceber uma educação da
criança telespectadora através da brincadeira.
Na verdade, a brincadeira permite a descarga das emoções durante
a recepção televisiva, a tomada de distanciamento com relação às
situações e aos personagens, a invenção e a criação em torno das
imagens recebidas”.
A
aventura que se desenrolou deixa claro que é possível que os adultos façam
intervenções não destrutivas na brincadeira e atuem como observadores e
mediadores privilegiados, podendo fornecer elementos que vão enriquecer
ainda mais o jogo. A
intervenção se dá através da seleção dos brinquedos e demais
materiais colocados à disposição das crianças, de sua arrumação num
determinado espaço e da participação na brincadeira, quando é
convidado. Todas essas ações são delicadas e complexas e exigem que os
adultos, em especial os professores, conheçam muito bem a especificidade
da brincadeira, depois de a
terem observado muito. Conhecer bem cada criança, sua cultura, como
brinca, de que maneira, do que e de que jeito é a chave para uma boa atuação
nesse terreno. Os
professores não devem hesitar em organizar e propor atividades dirigidas
e construídas em função de objetivos pedagógicos, mas que tenham uma lógica
completamente diferente da brincadeira. A relação entre a brincadeira e
as atividades dirigidas é também interessante, visto que as duas formas
podem se enriquecer mutuamente. As
atividades dirigidas podem sugerir idéias, oferecer oportunidades de as
crianças ampliarem sua visão de mundo. As crianças podem, depois,
transferir suas descobertas para suas brincadeiras. Reciprocamente, o
professor pode observar o conteúdo cultural da brincadeira para
desenvolver outras atividades que, desse modo, vão partir dos interesses
demonstrados pelas próprias crianças. Quando a brincadeira é valorizada
em todas as fases da vida, as crianças aprendem com os adultos e estes
aprendem com as crianças, como nos versos dessa canção. Brincando se aprende a viver Michael Sullivan e Dudu Falcão No final do arco-íris mora uma criança, que pintou no céu as cores da esperança, para
fazer do mundo um lugar feliz. O sopro de uma brisa sopra o cata-vento, cada coisa tem seu tempo e seu momento: um dia do mestre, um dia do aprendiz. Refrão: É, brincando se aprende a viver, cantando para não esquecer que adulto também é criança. É, brincando se aprende a crescer, e o adulto não pode perder a doce magia da infância. Na estrela mais brilhante a luz da alegria, tudo no mundo tem o dom da fantasia, é só procurar dentro do coração. O planeta Terra gira pelo universo. O poeta gira em torno do seu verso, escrevendo a vida em forma de canção. Referências bibliográficas: Brougère, G. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1995. Bettelheim, B. Uma vida para seu filho. 20. ed. rev. Rio de Janeiro: Campus, 1989. . A criança e a cultura lúdica. In Kishimoto, T. (org.). O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2002. Holanda, A. B. de. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. Porto, C. L. Do Brinquedo à Brincadeira: Práticas e representações sobre o brinquedo e o ato de brincar na brinquedoteca Brincando com Arte. Rio de Janeiro: PUC, Dissertação de Mestrado, 1996. Santa
Roza, E. Quando brincar é dizer. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,
1993. NOTAS: * Coordenadora da Brinquedoteca HAPI e professora do Curso de Especialização em Educação Infantil da PUC-RIO. PGM 4 - JOGOS E BRINCADEIRAS NO CONTEXTO ESCOLAR TÂNIA
VASCONCELLOS 1 Uma introdução à reflexão sobre o uso pedagógico do jogo tradicional Em minhas caminhadas ao redor praça que fica em frente à minha casa encontro pessoas de diferentes idades compartilhando jogos ancestrais. São imagens do presente, de uma pracinha na Tijuca – Rio de Janeiro. Mas, poderiam ser de outro tempo ou lugar. Com
um giz na mão uma menina risca no chão uma amarelinha e mostra às
mais novas como pular. A mãe, sentada no banco da praça, acompanha com o
olhar e, de vez em quando, faz observações, ensinando detalhes do
brinquedo. Adiante dois adolescentes jogam xadrez numa mesa de
alvenaria. Em volta deles, outros adolescentes e alguns adultos assistem
ao jogo. Coberta com um pano verde preso com elásticos que alguém trouxe
de casa, a mesa ao lado dá lugar a um animado jogo de cartas, reunindo vários
senhores na sueca, buraco, canastra. Por vezes as
cartas estão na mão de um solitário que arma a Paciência do Rei ou
do relógio. São comuns os dominós nas mãos de crianças
ou adultos, jogos com peões que se movem ao sabor dos dados em
tabuleiros, além dos pés-de-lata, dos aros, dos piões
e, se o tempo é de vento, das pipas.
Essa descrição me lembra um
quadro que vi certa vez em um livro. O quadro também retratava uma praça
e nela crianças e adultos, mais adultos que crianças na verdade,
brincavam com esses e outros jogos que vejo hoje em dia na pracinha da
Tijuca. Mas embora os jogos sejam os mesmos ou derivados, a praça do
quadro fica muito longe daqui. Longe no espaço – é na Holanda.
Longe no tempo seu pintor foi Martin van Cleef e ele viveu entre
1507 e 1537! Século XVI,
portanto.
A grande maioria desses jogos
já era muito antiga no século XVI. E uma das coisas que sempre me
intrigou é o fato de que continuam capazes de despertar a curiosidade e o
prazer tantos anos depois. Sempre me pego me perguntando o que há em
comum entre essa menina que pula a amarelinha e aqueles que a pulavam nos
tempos antes de Cristo? Para muitas dessas perguntas não tenho resposta,
mas elas apontam para outras perguntas. Perguntas que quero dividir com
vocês, meus colegas que lecionam para crianças e adolescentes. Por
exemplo: “Se
os jogos tradicionais têm força para atravessar o tempo e o espaço,
porque tão poucos conseguem atravessar os muros das escolas?”. O que são jogos tradicionais? Antes
de tudo é importante compreender o que estamos chamando de jogos
tradicionais. Chamamos de “tradicionais”
aos jogos que antecedem à Modernidade. Quando falamos aqui em Moderno
estamos falando do período histórico e aí é importante lembrar que não
passamos de uma era a outra em função apenas desse ou daquele fato histórico,
como se fosse uma demarcação em um calendário. Essa passagem é
gradual, construída sócio-historicamente. Passamos da Idade Média à
Moderna porque os modos de produção da existência mudaram
essencialmente. E passamos a compreender a nós mesmos e ao mundo de uma
outra maneira. Ou seja, ressignificamos a experiência humana.
Os jogos tradicionais são,
portanto, retratos de uma época em que o mundo era percebido em profunda
comunhão cósmica, um grande abraço entre micro e macrocosmo. Em que os
limites da Ciência e da Religião eram pouco definidos. Alto e baixo se
comunicavam e estavam em harmonia. O movimento dos astros interferia na
vida humana e tudo participava da mesma espiral cósmica. Os jogos
tradicionais, transmitidos oralmente desde a Antigüidade eram, como
qualquer objeto cultural, um espelho de sua época. Portavam crenças,
valores, discursos. Traziam em si a representação da forma tradicional
de viver e compreender a existência. São jogos que falam sobre o grande
jogo da vida. A grande maioria teve função como objeto sagrado ou de
ligação com o sagrado. Sua origem remota é desconhecida, embora seja
possível identificar evidências de sua existência já em certo período,
não é possível identificar sua criação. Os
jogos tradicionais eram partilhados por todos os adultos e, como o
conceito de infância é algo que só vai ganhar formato no período
Moderno, também por crianças. Com o advento da Modernidade, o trabalho
ganhou uma representação social até então inexistente. A nova
moralidade fruto da Reforma Protestante relacionou o brincar ao ócio e o
ócio só era permitido à infância, mesmo assim sob séria vigilância e
restrições. Brincar virou coisa de criança. Os jogos tradicionais foram
a herança deixada à criança moderna. Essa criança que inaugurou a infância.
Esses velhos brinquedos e brincadeiras já haviam ligado o homem a si
mesmo, já haviam decodificado o passado e o futuro, já haviam cumprido a
função de aproximar o homem de Deus e, dessacralizados e esvaziados de
seus conteúdos originais, se ofereciam como suporte às brincadeiras
infantis.
Esvaziados? Sim, mas não
inteiramente. Não somos apenas o ceticismo do homem contemporâneo, nem
apenas o racionalismo do homem moderno. Também fomos tecidos na narrativa
de nossos ancestrais e, ainda que nada nos tenha chegado por completo, com
os cacos que recebemos construímos belos mosaicos. Recuperamos ou
reinventamos antigos rituais, ou ainda apenas os repetimos, mesmo que
desconhecendo os seus propósitos. E a escola? A
escola é um equipamento da Modernidade. Toda sua estrutura, desde o prédio
até o currículo, é disciplinar. Inspirada em instituições
disciplinares anteriores como, por exemplo, o quartel e o convento, ela
herdou (como acontece em todas as famílias) o melhor e o pior de cada um
de seus antecessores. Os
jogos tradicionais trazem em si o selo da cultura popular e sempre foram
olhados com desconfiança pela escola. Muito cedo esta se apressou em
separá-los em “bons
e maus jogos”.
E aqueles que não foram diretamente “para
o lixo”
sofreram um processo de assepsia pedagógica e seus conteúdos culturais
foram retirados e muitas vezes substituídos por outros de caráter
eminentemente “pedagógico”.
Sem
retirar aqui o valor do material pedagógico ou seja, dos objetos lúdicos
concebidos desde o início para dar suporte à ação educativa, cabe a
indagação: Será que um dominó só é educativo se for de cores? De
contas? De coletivos? Será que um jogo de percurso só tem valor se as
casas de avanço, retrocesso e chegada forem eventos históricos ou
perguntas e respostas sobre Biologia, Química ou Física? Será? Vai
aqui um exemplo muito simples buscado na Educação Infantil ou séries
iniciais do Ensino Fundamental, mas cujo sentido pode apoiar nossas reflexões
sobre o ensino em qualquer nível. Um dos brinquedos cantados da nossa
tradição dizia: “Sinhaninha
diz que tem / sete saias de balão / É mentira, ela não tem / nem
dinheiro pro sabão. / Rá, rá, rá, / Rá, rá, rá,/ Nem dinheiro pro
sabão”.
A esta quadrinha sucedem outras sempre no mesmo tom onde Sinhaninha vai
sendo ridicularizada por suas mentiras que buscam esconder sua penúria. O
processo de “assepsia
pedagógica”
varreu pra longe a Sinhaninha, pois não é educado rir de uma pessoa
apenas porque ela não tem dinheiro nem para sabão, que dirá para as
ricas roupas de Sinhaninha. No lugar da Sinhaninha a pedagogia do “politicamente
correto”
colocou a Barata! Bem,
baratas podem dizer o que quiserem e se é permitido matá-las, porque não
rir delas? E assim perde-se uma grande oportunidade de discutir em sala de
aula o que eram Sinhazinhas? Quando existiram? Como viviam? Como se
vestiam? Quantos escravos tinham? Em que se apoiava a economia de seus
pais, os Senhores? Como o dinheiro foi mudando de mãos? Como as
Sinhaninhas ficaram “sem
dinheiro pro sabão”?
É vergonha ser pobre e “sem
dinheiro até para o sabão”?
É verdadeiro que as pessoas só têm valor se tiverem “sete
saias de balão”
ou um jeans de marca? Quantos no Brasil não têm “nem
dinheiro pro sabão”?
E assim, o jogo, como objeto cultural que é, abre-se numa enorme
possibilidade de trabalho pedagógico, limitado apenas pela compreensão e
capacidade de discussão de cada grupo. Jogo tradicional e construção do conhecimento Existem
várias formas de classificar os jogos e muitos autores se dedicaram a
esta tarefa. Dentre esses destaco o trabalho de Jean-Marie Ihote. O quadro
que reproduzi aqui como anexo está no seu livro O simbolismo dos Jogos
2.
Nele os jogos aparecem classificados segundo sua configuração e atitude
psicológica em quatro grandes grupos. Para cada um dos grupos Ihote propõe
também um antijogo. Por antijogo entendemos a atitude física ou mental
que é impeditiva da experiência proposta pelo jogo. E assim, por
exemplo, caretas e sinais informam o que deveria ser um prazer descobrir
nos jogos de enigmas. Trapaças impedem a sensação de risco que os jogos
sorte ou revés deveriam conter. A confusão impede que jogos de território
se atenham às suas regras é só lembrar o que acontece quando a
torcida invade o campo... E por fim, se a função de uma boneca é
representar o esquema corporal para que sejam nomeados cabeça, tronco e
membros, ela não é capaz de ser, simultaneamente, a “filhinha”
dos jogos de casinha.
A importância de atentarmos
para a classificação dos jogos está no fato de que a estrutura de cada
grande grupo de jogos, na maioria das vezes, guarda em comum uma temática
e uma dinâmica. Compreender a temática e a dinâmica de cada jogo, ou
grupo de jogos, é fundamental para que o professor possa
eleger aqueles com os quais vai trabalhar. Mas o que estou
entendendo aqui por temática e dinâmica dos jogos? Quando
falo em dinâmica, estou me referindo ao modo como esse jogo é jogado. O
modo de jogar um jogo sempre irá implicar algum tipo de habilidade física
e intelectual. Nenhum jogo é constituído apenas por uma dessas
habilidades, em maior ou menor proporção elas estão presentes em todos
os jogos. Já
a temática do jogo se refere ao tipo especial de atitude psicológica que
um dado jogo exige. Todo jogo comporta uma dimensão que está para além
das regras explicitadas. Ele comporta uma narrativa da qual o jogador se vê
obrigado a compartilhar ainda que inconscientemente. Todo jogo de bonecas
traz à luz as experiências familiares. Toda amarelinha reflete sobre a
trajetória da Terra ao Céu, ou seja, como a maioria dos jogos de
percurso, indaga sobre a vida e a morte, os caminhos do homem e da alma.
Todo jogo de xadrez comporta o confronto com o Rei e retoma desse modo
velhas triangulações edípicas. E assim, sucessivamente, do mais simples
ao mais complexo, em maior ou menor grau todo jogo tem uma dimensão dramática. Desse
modo podemos concluir que o jogo, de uma forma geral e o jogo tradicional
de modo particular integra os processos de construção de conhecimento.
Nele não é possível separar artificialmente cognição e afeto. É esse
caráter que faz dos jogos instrumentos tão valiosos aos psicopedagogos
e, sem dúvida, também aos professores que percebem o processo de
aprendizagem como algo que implica a totalidade do sujeito. Sujeitos que
transformam o mundo por meio de esquemas de assimilação e projeção e
também transformam a si
mesmos em função da realidade, por meio de processos de acomodação e
identificação. O jogo tradicional na sala de aula Jogos
tradicionais podem e devem ser usados desde a Educação Infantil até o
Ensino Médio e mais. Tudo depende do objetivo do professor ao introduzir
esse ou aquele jogo. Pois, se é possível para o aluno perceber o jogo em
sala de aula apenas como entretenimento, para o professor ele será sempre
fruto de uma escolha consciente e planejada, que tem por objetivo o
trabalho pedagógico. Alguns detalhes são importantes: u Na seleção dos jogos leve em conta o conjunto de suas características: o tipo de raciocínio envolvido, a habilidade e atitude psicológica necessária, o conhecimento específico que o jogador deve ter. u Prefira as versões mais simples às luxuosas do jogo, para que o valor esteja focado no processo de jogar. u Ainda que planeje atividades com os jogos, deixe reservado também tempo para jogo livre. Pois a atividade dirigida, ainda que lúdica, é essencialmente diferente do jogo livre no que tange à atitude frente a atividade. u Mantenha o desafio do jogo: crie situações-problema, jogos a serem continuados a partir de determinado ponto, novas aberturas, etc. u Não esgote o interesse pelo jogo transformando-o em recurso para todas as atividades. Ou unidade de trabalho exaustiva de todas as disciplinas. u Construa instrumentos de sistematização: anotações individuais ou coletivas sobre diferentes jogadas. Processos narrativos que permitam ao aluno “enxergar” seu processo de pensamento durante o jogo. Compará-lo a outros, a si próprio etc. u Propicie a invenção de novas formas de jogar jogos conhecidos, modificando regras e materiais. u Varie o acervo. Conheça outros jogos tradicionais. Além dos conhecidos xadrez, damas, gamão existem o go, o senet, a mancala e um número enorme de outros jogos. Não tenha medo de conhecê-los ao mesmo tempo que seus alunos. u Trabalhe também com jogos de resultado aleatório e discuta o que é perder, ganhar. u Jogos tradicionais emergiram da vida cotidiana, portanto estão atravessados por temas de real interesse humano. Não receie abordá-los. Para
finalizar, é bom lembrar que para trabalhar com jogos é necessário que
o professor encontre, ele próprio, prazer na atividade lúdica. Brincar
é talvez um dos mais característicos atributos humanos. Para muitos
autores a atividade lúdica está na origem da cultura humana. Mais que
uma atividade, o lúdico é uma atitude diante da vida. É o
reconhecimento do valor inerente do prazer de pertencer a esse enorme
tabuleiro em que ganhamos, perdemos, jogamos e aprendemos, sempre. Para conhecer um pouco mais sobre o assunto você pode ler: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara/Koogan, 1981. BENJAMIN, Walter. Reflexões, a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus, 1984. CALLOIS,
Roger. Les jeux et les hommes. Paris: Gallimard, 1991. HUIZINGA, Johan. Homo Ludens . São Paulo: Perspectiva, 1996. KISHIMOTO, Tizuko M. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2002. . Jogos tradicionais infantis. Rio de Janeiro: Vozes, 1993. VYGOTSKY L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998. WINNICOTT,
Donald W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1985.
NOTAS: 1 Psicopedagoga, Mestre em Educação pela PUC-RIO. Professora do Departamento de Educação Matemática da Universidade Federal Fluminense e do Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá. É também Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense. 2 IHOTE, Jean-Marie. Le symbolisme des jeux. Paris: Berg-Bélibaste, 1976. PGM 5 - A FORMAÇÃO LÚDICA DO PROFESSOR CYRCE
ANDRADE 1 “Esses
viveres: olhar Esses
olhares: tecer Esses
teceres: contar Esses contares: viver” 2 Neste texto, você vai encontrar muitos olhares e muitos contares de pessoas que vivem, pensam e escrevem sobre a formação de professores. E também daquelas que, escrevendo literatura e poesia, nos mostram de uma maneira sensível o papel do lúdico na vida de gente de todo tamanho. Escolhi compartilhar as idéias destes que têm sido meus parceiros no jogo de formação sobre o lúdico. Conhecendo algumas das suas idéias, vai ficar mais interessante ler suas obras, buscar a bibliografia, que aparece nas notas de rodapé. Torço para que a sua leitura seja prazerosa, como deve ser um bom jogo. Vamos lá! “A
gente sempre termina a semana de formação com um passeio cinema, museu,
exposição não sei bem porque, acho que isto deveria ser no primeiro dia
do curso.” Educadora de Creche Comunitária da Cidade do Rio de Janeiro “Pois é, a gente sempre deixa o lúdico para o final do dia ou para a sexta-feira. Outro dia, quando eu experimentei os jogos como primeira atividade, descobri que isto trouxe um outro clima entre as crianças. E foi muito mais fácil fazer as outras atividades com a turma.” Professora de Educação Infantil da Rede Pública da Cidade de São Paulo A
fala destas educadoras puxa o lúdico para o começo, aposta nas suas
possibilidades de integração, de descoberta e de encontro, consigo mesmo e com os outros. É um olhar para o lúdico
que desperta, que provoca, que suscita. Tão diferente daquele que
recompensa, que premia, que consola... Evoluímos
muito no discurso acerca do brincar, reconhecemos cada vez mais seu
significado para a criança e suas possibilidades nas áreas de educação,
cultura e lazer, e estamos cada vez mais cientes dos riscos que corremos.
O primeiro deles talvez seja o de separar estas três áreas que caminham
melhor juntas. Mas não é só por esta razão que temos encontrado
algumas pedras no caminho. Na
educação, muitas vezes, fazemos com que um jogo fantástico seja visto
mais pela oportunidade de ensinar cores como se elas não estivessem no
mundo! que pelas suas possibilidades de favorecer as relações sociais,
de suscitar medo e alegria, de provocar o grupo a encontrar soluções
para um desafio. Ao atribuir a um brinquedo ou brincadeira uma função
didática, é importante termos o cuidado de preservar sua essência lúdica;
se não, corremos o risco de ouvir outra vez de uma criança: “Ai,
ai, ai, já virou brincadeira de escola!”,
explicitando o momento em que já não tinha mais graça. Algumas
vezes, atribuímos ao brincar poderes mágicos que ele não tem. Não é
porque agregamos a ele conteúdos ou valores, como a cooperação, que a
criança vai incorporá-los. Precisamos nos lembrar de que crianças
aprendem o mundo menos pelos seus brinquedos e jogos e mais pelas relações
humanas que as cercam. Muitas vezes, uma proposta instigante de um
professor pode ser mais interessante para as crianças do que uma
brincadeira; aprender é tão rico e prazeroso quanto brincar, há uma
paixão em conhecer. Na
área do lazer e também da educação o lúdico encontra-se muitas vezes
centrado no acervo. Os brinquedos e jogos são importantes por aquilo que
possibilitam. A supervalorização do objeto, em uma inversão de valores,
acaba trazendo muita ansiedade às crianças e aos seus educadores. O
acervo é importante por tudo o que pode oferecer, mas quando ele ganha
exagerada importância em si mesmo, instala-se uma neurose de cuidados,
que inviabiliza seu uso. O acervo diz muito de uma proposta lúdica, tanto
pelos itens incluídos, como por aqueles excluídos, tanto por sua
qualidade e quantidade, quanto pela maneira como está disposto. Mas, do
mesmo jeito que não se constrói uma escola apenas com quadro-negro, giz,
cadernos e lápis, não se constrói um espaço lúdico apenas com uma
sala de jogos e brinquedos. Ele, como a escola, não existe sem adultos e
crianças envolvidos em uma proposta. Na
área da cultura, o lúdico aparece com muita freqüência no “resgate
das brincadeiras tradicionais”
do mês de agosto mês do Folclore em uma ótica de cultura, memória e
história estáticas. Podemos enxergá-las melhor com os olhos de Sônia
Kramer3,
para quem a formação cultural é “direito
de todos se considerarmos que todos (crianças, jovens e adultos) somos
indivíduos sociais, sujeitos históricos, cidadãos e cidadãs que têm
direitos sociais, que são produzidos na cultura e produtores de cultura.”
A
infância integra os adultos que somos hoje, não é coisa do passado. Por
esta razão, buscar o brincar e a infância é estar com o adulto de hoje
e não com a criança de ontem. E as evocações têm o sentido que lhes dá
Madalena Freire4: “Histórias
que entram em cena mediadas por suas lembranças. Tais lembranças
necessitam ser faladas, escritas, lidas, assumidas, afirmadas, escutadas,
para poderem assim ganhar ‘status’ de memória, serem lapidadas. (...)
Outra descoberta é conhecer a si próprio e aos outros, não só como
sujeito cognitivo, mas também afetivo. Emocionar-se com as próprias
lembranças e com as dos outros, avermelhar e chorar (...) Todos esses
instantes de nossas lembranças, quando coletivizados, nos comprovam que não
temos só memória, mas ‘somos memória’, somos autores de nossa história
pedagógica e política.” Ainda
que a prática não acompanhe a evolução do discurso, ainda que o
brincar aconteça, na maioria das vezes, no tempo de espera, no descanso,
no tempo que sobra ou entremeando “atividades
produtivas”,
a mudança do discurso sinaliza o desejo de uma outra prática, que
precisa ser colocada em lugar e tempo concretos, reais. Valorizar a
brincadeira não é apenas permiti-la, é suscitá-la. E para que isto
aconteça, precisamos perceber o brincar como ato de descoberta, de
investigação, de criação. Se
no plano das idéias a importância de brincar é consenso, o que coloca a
brincadeira tão distante do cotidiano? Esses olhares críticos sobre as
intervenções existentes estão longe de ser uma crítica aos
professores, ao contrário, a intenção é compreender a razão destas práticas
e defender o direito do professor a uma formação lúdica acerca do lúdico.
Uma formação que lhe permita experimentar, descobrir, conhecer as
possibilidades para si próprio, na perspectiva de que esta seja uma
experiência transformadora, que contribua para a construção de uma
outra concepção do lúdico e para uma intervenção de melhor qualidade
junto aos seus alunos, independentemente da idade que eles tenham. Acreditamos
que a ampliação e a diversidade de experiências oferecidas às crianças
lhes fornecem mais elementos para o seu processo de construção de
conhecimento e para o desenvolvimento da sua imaginação, da sua
capacidade criadora. Não deveríamos acreditar, também, que a experiência
acumulada do professor está relacionada à sua imaginação, à sua
capacidade de criar? Quando pensamos nos adultos vemos, quase sempre, sua
criação como inspiração, como um dom que se tem ou não se tem. Não
consideramos que a experiência cultural do adulto pode favorecer sua
imaginação. E, provavelmente por isso, a contemplamos pouco nos cursos
para educadores. Criação e ludicidade têm muitas semelhanças e são
essenciais no processo de formação do ser humano. Muitas
vezes, na fase inicial da formação, os adultos só se permitem brincar
fazendo de conta que são crianças, imitando comportamentos que
depreciam, ironizando, debochando, e, obviamente, explicitando seu olhar
sobre o brincar. Nestes casos, infantilizar é sinônimo de reduzir, de
diminuir não apenas o brincar, mas a criança que brinca. As concepções
de criança, brincar e infância não aparecem de forma dissociada. Elas
se entrelaçam no discurso, explicitam-se na prática e nos desafiam na
coerência. Coerência que não cai do céu, mas que se busca, que se
conquista a cada dia, a cada vez que nos damos conta dos nossos tropeços,
a cada vez que permitimos que uma observação preciosa nos chegue por uma
criança, por um aluno. A
nossa formação de educadores não é linear, não vem de um curso para o
professor e segue dele para seus alunos. Ela circula, está sempre
girando. E, se isto acontece em qualquer área, é no brincar que
observamos a criança mais à vontade para intervir, contribuir e lançar
propostas desafiadoras ao professor, sugerindo, como Gabriel, formas de “dificilitar”
a brincadeira. O lúdico é o espaço de estar com, com as crianças
e também com os adultos. Não seria possível pensar as brincadeiras para
a criança sem considerá-las como uma oportunidade também para o
educador. Se o jogo na escola é, antes de tudo, um jogo, o professor não
seria diante dele, antes de tudo, um brincante? É
importante que a formação amplie o repertório de brinquedos e
brincadeiras – uma demanda legítima –
e evidencie a ludicidade na vida do adulto-professor. Quando um
adulto explicita sua sensação dizendo “Foi
muito bom brincar, eu me senti criança outra vez!”
ou “O
curso despertou a criança guardada em mim”,
pode-se entender seu sentimento menos pela criança e pelo brincar
e mais pelo humano e pelo lúdico. O diálogo que se estabelece aqui é
menos com “a
criança que existe dentro de cada um de nós”
do que com o humano que nos constitui. Nestes casos, nos damos conta do
quanto temos deixado de lado o essencial, o quanto a dicotomia está
presente não só no trabalho e lazer, mas tudo o que decorre daí, como
aprendizagem e prazer, competência e alegria. Como é que se pode mudar a
qualidade das intervenções junto aos alunos sem uma boa reflexão acerca
do lúdico no nosso mundo de adultos–educadores? Agora os olhos
emprestados são os de Alicia Fernández5,
eles vêem que: “´Aprender’ é apropriar-se da linguagem; é historiar-se, recordar o passado para despertar-se ao futuro; é deixar-se surpreender pelo já conhecido. Aprender é reconhecer-se, admitir-se. Crer e criar. Arriscar-se a fazer dos sonhos textos visíveis e possíveis. Só será possível que os professores possam gerar espaços de brincar-aprender para seus alunos quando eles simultaneamente os construírem para si mesmos.” Descobrir
que podemos brincar e jogar para valer, com brincadeiras e jogos que não
são necessariamente para crianças, nos aproxima daquilo que sentem as
crianças quando brincam. Jogar pode nos levar – ou nos trazer – para
além da brincadeira mas, mesmo que isto não aconteça de forma explícita,
não será nunca apenas brincar, só jogar. Rir, aceitar
limites, organizar uma tarefa, concentrar, disputar, estar atento, sentir
frio na barriga, raciocinar, pensar, gargalhar, competir com os outros e
consigo próprio, ser curioso, ter prazer, cooperar, descobrir-se na relação
com os outros, ser ágil, surpreender-se com a atitude do outro,
emocionar-se... Difícil
esgotar a riqueza de contribuições que os jogos e brincadeiras podem
trazer para o desenvolvimento humano de seres pequenos, jovens ou adultos. Podemos
lançar a rede mais longe e também trazer o lúdico para perto. Quantas
atividades despertam nos adultos sentimentos parecidos com aqueles das
crianças envolvidas em suas brincadeiras! Especialmente aquelas que trançam
dedos e pensamentos, possivelmente porque, como observa Lygia Bojunga6: “Quantos artesãos eu tinha visto trabalhando naquele dia, e que forte que era a ligação de cada um no que fazia, que intimidade tão grande com o material trabalhado! Cara, corpo e mão do artesão formavam uma liga, uma integração, um redondo com o objeto feito, meu deus! Que lição de vida essa interação ser/fazer.” Buscamos
sempre situações favorecedoras de integração entre as crianças,
sabendo da sua riqueza para o desenvolvimento humano. E com os
professores, o que temos feito para alterar a concepção de um trabalho tão
individualizado? Em uma experiência de formação que tinha como uma das
atividades a confecção de tabuleiros de jogo, observamos contribuições
imprevistas: “Foi
muito bom trabalharmos em pequenos grupos: uma tinha mais jeito para
pintar, outra para escrever as regras. Cada uma fez o que mais gostava e
quando a gente viu, estava pronto”,
disse uma das professoras. Outra comentou: “Se
cada professor fosse fazer para sua turma ia demorar muito, desistiríamos
antes de estar pronto e nunca teríamos nada. Como fizemos os jogos para a
escola, já pudemos até brincar com as crianças.”
A produção manual – que no
processo ganhou um significado mais artístico que utilitário – havia
despertado o sentimento de coletividade, de grupo. Descobrindo que
compartilhar é mais do que estar junto, as professoras passaram a
compartilhar leituras, discussões e elaboração de projetos para a
escola. A diferença neste caso é que a conquista veio das mãos para a
cabeça. Há
muito tempo estamos defendendo a autonomia das crianças. Mas, quantas
vezes, esta mesma autonomia falta ao professor? Será que estamos vivendo
com o lúdico igual contradição? Pensar, ler e discutir sobre o tema é
muito importante mas, experimentar a autonomia ou a ludicidade é
diferente e igualmente importante. Viver a interação ser/fazer é
essencial para todos nós, artesãos do educar. Quando não oferecemos ao
professor a oportunidade da experiência lúdica, negamos-lhe toda a
riqueza que pretendemos que ele ofereça aos seus alunos. Buscar
brincadeiras de outros tempos, construir brinquedos, recriar jogos são
caminhos, são portas importantes e, sem dúvida, facilitadoras do
processo de busca desta ludicidade/humanidade, mas ela não está
necessariamente no brincar. Quando, na primeira página deste texto, a
educadora propõe o passeio no início do curso, não era o brincar que
ela estava buscando – já que este era o tema do curso e estava
bastante presente no nosso trabalho costurado de idéias e mãos –
talvez fosse a arte, a beleza, a integração, de alguma maneira o humano
e o direito de começar por ele. As
transformações mais interessantes e significativas que observamos nas práticas
lúdicas junto aos alunos decorrem de uma formação que favorece a emersão
da ludicidade/humanidade do professor e possibilita que ele a incorpore e
a esparrame para além de brinquedos e brincadeiras. A fala desta
professora ilustra o momento de tomada de consciência desta transformação:
“Nós
ainda não mexemos nos brinquedos, não mudamos muito as brincadeiras, mas
já os trouxemos para dentro da gente.” Ao
longo deste texto você encontrou os diferentes olhares e contares
propostos no seu início. Espero que eles contribuam para os viveres e
teceres que virão, e que nesta trama você possa experimentar os
sentimentos do grande educador-menino, Paulo Freire7: “Com
efeito, um corte que separasse em dois o menino do adulto que vem se
dedicando, desde o começo da sua juventude, a um trabalho de educação,
em nada poderia ajudar a compreensão do homem de hoje que, procurando
preservar o menino que foi, busca ser também o menino que não pôde
ser.” NOTAS: 1 Mestre em Psicologia de Educação pela PUC-SP. Professora em cursos e oficinas sobre brinquedos e brincadeiras nas áreas de educação, saúde, cultura e lazer. Assessora na criação de brinquedotecas e propostas lúdicas. 2
Francisco Marques (Chico dos Bonecos).Galeio. São
Paulo/Belo Horizonte, Editora Multiplicadora e Espalhadeira, 2000. 3
Kramer, Sônia; Leite, Maria Isabel Ferraz Pereira (Orgs.) Infância 4 Freire, Madalena. Memória: eterna idade. Diálogos (Publicação do ‘Espaço Pedagógico’). São Paulo, v. II, n. 5, julho de 1999. 5
Fernandez, Alicia. O Saber em jogo: a psicopedagogia
propiciando autorias de pensamento. Tradução Neusa Kern Hickel.
Porto Alegre, Artmed
Editora, 2001, p 36. 6 Bojunga, Lygia. Feito à Mão.Rio de Janeiro, Agir, 1999, p.59. 7
Freire, Paulo.Cartas à Cristina. Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1994.
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