|
GESTÃO ESCOLAR PARA UMA ESCOLA INCLUSIVA PGM 5 – ATENDENDO AOS ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO |
|
Vera
Lucia Palmeira Pereira * A escola e seu espaço de inclusão: Estimulando habilidades e atendendo às necessidades de alunos com altas habilidades/superdotação A escola inclusiva parte do princípio de que todos os alunos podem conviver, aprender e participar da comunidade escolar e social. As diferenças são respeitadas e a diversidade é uma característica natural, que fortalece as relações e enriquece as experiências pedagógicas. A
escola tem sido, ao longo dos anos, o espaço responsável pela transmissão
de saberes e construção de conhecimento. Tem tido um papel importante de
disseminação de cultura, troca de experiências e convivência social.
Torna-se um reflexo da sociedade e interage com ela, ao influenciar mudanças
de padrões culturais e promoção de novos paradigmas. Ao
analisar os contextos históricos que favoreceram ao longo de séculos a
exclusão das minorias no nosso país, torna-se mais fácil compreender
como o sistema educacional tem sofrido as influências de situações tão
adversas. Atualmente,
os dados estatísticos demonstram que uma grande parte da população
brasileira é constituída de pessoas em desvantagens sociais e econômicas,
além de privadas culturalmente de acesso a serviços de infra-estrutura básica
como saúde, segurança, trabalho, educação e da principal fonte de
energia: o alimento. As
políticas públicas que mais recentemente vêm sendo implementadas ainda
não conseguiram reverter o quadro sofrível das disparidades sociais,
que, conseqüentemente, provocam situações de desigualdade. As diferenças
se tornam evidentes, refletindo na escola a urgência de transpor
premissas excludentes de minorias.
E muitos são os desafios... As
minorias formam um conjunto de indivíduos que merecem uma atenção mais
específica, de forma a permitir que essas pessoas tenham o direito ao
acesso e à permanência na escola, espaço que pode garantir a reversão
de alguns aspectos excludentes. Existem
grandes diversidades, especialmente centradas no âmbito educacional.
Quando focalizamos a área da educação especial, a diversidade
assinalada centra-se nos educandos que podem apresentar, em caráter
temporário ou permanente, algumas características como: u Dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento, que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares (vinculadas ou não a causas orgânicas específicas ou relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências). u Dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos (deficiências sensoriais); u Altas habilidades/superdotação. A
educação especial, entendida como um processo definido em uma proposta
pedagógica, conforme conceituação adotada pelo Ministério da Educação/Secretaria
de Educação Especial, vem assegurar recursos e serviços educacionais
especiais organizados institucionalmente para apoiar, complementar,
suplementar e em alguns casos substituir serviços educacionais, de forma
a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento de
potencialidades de educandos que apresentam necessidades educacionais
especiais. A
criação de turmas que entendam e respeitem as diferenças e todas as
suas expressões (ritmo, aprendizagem, aptidões, habilidades) é um
desafio constante e demanda tempo e paciência do educador, uma vez que é
algo particularmente pessoal. Professores, orientadores educacionais e
psicólogos escolares devem primeiramente acreditar que essas diferenças
existem e que devem ser respeitadas, para posteriormente transpor esse
respeito a seus educandos. Uma
das grandes dificuldades encontradas por alguns educadores é o fato de
haver expectativas quanto à forma de promover a aprendizagem, entendendo
o currículo como algo de difícil
flexibilidade e, ainda, à visão equivocada de que os ritmos devem ser próximos
à uniformidade e que algumas respostas devem ser as mesmas. Ao
se confrontar com um aluno com altas habilidades/superdotação, o
professor descobre que o ritmo pode ser diferenciado, que o currículo
pode ser enriquecido e ampliado e que as respostas não serão as
esperadas regularmente. Algumas
ações pedagógicas flexibilizam as relações entre professores e alunos
e permitem uma proximidade entre o conhecimento e o produto esperado deste
conhecimento. Algumas
características dos professores favorecem a interação professor X aluno
no contexto das altas habilidades / superdotação: u Criatividade ao utilizar estratégias e materiais; u Habilidade para organizar a sala de aula, currículo e metodologias de ensino; u Energia, prazer e entusiasmo pelo processo de aprendizagem e de desenvolvimento de seus alunos; u Conhecimento de diferentes estratégias de ensino e das características de aprendizagem de todos os alunos; u Flexibilidade para modificar estruturas, contextos e rotinas; u Disposição para estudos complementares e formação continuada e u Sensibilidade para identificar e para atender pontos fortes e conflitantes de suas aprendizagens. As
atividades pedagógicas desenvolvidas em salas de aulas regulares, com
base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), favorecem a
cada instituição a possibilidade de atualizar ou reelaborar as propostas
pedagógicas vigentes, de acordo com as novas realidades que se
apresentam. Então, ao reconhecer questões relativas às altas
habilidades/superdotação, os educadores têm a possibilidade de rever
suas práticas pedagógicas, de forma a atender às necessidades e
diferentes perspectivas nos contextos de aprendizagens. As
questões que vêm favorecendo a aprendizagem e os ajustamentos escolares
na área das altas habilidades/superdotação prevêem ações
estimuladoras que: u Respeitem ritmos diferenciados; u Utilizem técnicas de trabalhos que favoreçam a reflexão, a discussão e a participação coletiva; u Permitam responder às dúvidas sempre que possível; u Permitam orientar os alunos quanto à distribuição e à organização de seu tempo; u Estimulem atividades sociais; u Procurem encontrar tópicos de interesses como ponto de partida; u Evitem comparar desempenhos; u Contribuam em vários contextos e situações de aprendizagens, que estimulem idas a bibliotecas, museus, workshops, eventos socioculturais e; u Aceitem as diversidades e suas diferentes expressões. Os
desafios no atendimento educacional do aluno com superdotação/ altas
habilidades é instigante e requer um trabalho pedagógico voltado para a
perspectiva de uma aprendizagem ativa e dinâmica. Muitas contribuições
serão construídas coletivamente e a turma terá grandes oportunidades de
conhecer uma ou várias expressões de talentos, de conviver com ritmos
diferenciados e aprendizagens que respeitarão estilos particulares.
Em
sua proposta pedagógica, o professor poderá modificar a complexidade de
exercícios, ampliar tarefas e propor planos de ação personalizados,
conforme as necessidades dos seus alunos, poderá utilizar a monitoria,
atividades suplementares e trabalhos coletivos. Segundo
as normatizações estabelecidas pelo Ministério da Educação/Secretaria
de Educação Especial, além do atendimento pedagógico oferecido a
alunos de altas habilidades/superdotação em classes comuns esses, poderão
receber serviços de apoio pedagógico especializado em espaços escolares
diferenciados e envolvendo professores especializados com diferentes funções
em: u Classes comuns; u Salas de Recursos e; u Serviço com professor itinerante / Itinerância. Algumas
das possibilidades de atendimentos são desenvolvidas em Salas de
Recursos, que dispõem de equipamentos, recursos pedagógicos e
professores especializados para oferecer atividades suplementares, com
vistas a aprofundar e/ou enriquecer o currículo em horário inverso ao
das atividades de classes comuns. A
programação desenvolvida geralmente está de acordo com as características
da superdotação e suas expressões (as atividades a serem desenvolvidas
com um grupo de alunos com superdotação do tipo acadêmica serão
distintas daquelas a serem desenvolvidas com um grupo de alunos do tipo
talento musical). Os
objetivos das propostas de atendimento especializado em sala de recursos
visam ampliar e diversificar os conhecimentos que despertam curiosidade e
interesses nos alunos, promover a integração social e a filiação de
seus pares, estimular o pensamento produtivo, desenvolver potencialidades
e habilidades específicas, propiciar experiências de resolução de
problemas, formulação de hipóteses e promover o ajustamento de
diferentes áreas de desenvolvimento. A
aceleração é outra alternativa de atendimento que visa adiantar/ avançar
o aluno com habilidades superiores a uma série acima de sua faixa etária,
através da promoção antecipada ou da entrada precoce na escola, segundo
regulamentação dos respectivos sistemas de ensino. Em
termos de Legislação Nacional, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (1996, p. 35) prevê a “(...)
aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para
superdotados ”,
a ser realizada mediante a avaliação de conhecimentos na própria escola
e documentada em registros administrativos, o que possibilita a alguns
alunos avançar conforme seu ritmo próprio. O
serviço de itinerância é uma possibilidade de atendimento que prevê a
orientação e supervisão pedagógica a educadores e educandos,
realizadas em visitas freqüentes às escolas, com o objetivo de
sensibilizar a equipe pedagógica para novas indicações, acompanhar a
aprendizagem e adaptação escolar dos alunos atendidos e refletir com
respectivos professores de classe comum as questões relativas às altas
habilidades/superdotação. Segundo
o relatório das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação
Básica (2001, p. 49), para o atendimento educacional aos superdotados é
necessário, entre outras ações, o registro do procedimento adotado em
ata da escola e no dossiê do aluno, bem como a inclusão dos dados no
histórico escolar com as especificações cabíveis. Também é
importante incluir o atendimento educacional ao aluno de altas
habilidades/superdotação nos projetos pedagógicos e regimentos
escolares, de forma a documentar os serviços oferecidos. O
atendimento às necessidades educacionais dos alunos de altas
habilidades/superdotação implica, primeiramente, o conhecimento de
alguns conceitos, características e encaminhamentos pedagógicos possíveis
a esse aluno. Em muitos contextos, a formação do professor não
especifica as necessidades educacionais que encontrará em suas atividades
pedagógicas, dificultando o entendimento de diferentes expressões. A
formação complementar, continuada, poderá trazer conhecimentos, estratégias
e alternativas pedagógicas que facilitem o entendimento de todo o
intricado processo de aprendizagem. Pensando
nas possibilidades da reflexão de práticas pedagógicas, o Ministério
da Educação / Secretaria de Educação Especial vem desenvolvendo
estudos e elaborando materiais específicos que contemplem a formação
continuada do professor. São materiais diversos formados por um conjunto
de textos e/ou vídeos, que permitem a análise e reflexão da prática
pedagógica frente à diversidade encontrada no contexto educacional. Em
breve será lançado material
específico na área das altas habilidades/superdotação,
com vistas a proporcionar aos professores da educação básica o
acesso a conhecimentos relativos às necessidades educacionais especiais
voltadas às altas habilidades/superdotação, com a intenção de
subsidiar práticas pedagógicas, implementar serviços de atendimento e
disseminar a importância do atendimento educacional dos talentos
encontrados no ambiente escolar. Estados
e municípios podem se dirigir aos órgãos da Secretaria de Educação
Especial, com vistas a receber as informações necessárias para que se
efetive a formação continuada de seus educadores e a implantação de
serviços em localidades em que não sejam atendidas as questões
relativas à superdotação. Somente
com o trabalho de todos (família, escola e sociedade) poderemos reverter
a trajetória de muitos alunos que apresentam altas habilidades/superdotação,
inseridos no ambiente educacional sem perspectivas, para uma prática de
respeito às suas necessidades e de real inclusão social. O
atendimento às singularidades das expressões contidas nas pessoas que
apresentam as altas habilidades/superdotação é um direito a ser
respeitado e efetivado por educadores e especialistas. Reconhecer a
necessidade, as vantagens e os ganhos de inúmeros talentos produtivamente
ativos em nossa sociedade é o primeiro passo a ser dado para que
programas de atendimento às necessidades educacionais de pessoas com
potenciais superiores venham a contribuir para o encaminhamento e
atendimento de alunos que possam se beneficiar com o estímulo de suas
altas habilidades. Referências Bibliográficas: BRASIL, Carta (1997). Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: Brasília: Senado Federal. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental (1997). Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF. BRASIL, Ministério da Educação (2002). Adaptações curriculares em ação: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais de alunos com altas habilidades / superdotação. Brasília: MEC/SEESP. CARVALHO, Rosita Edler (2000). Removendo barreiras para a aprendizagem - Educação inclusiva. Porto Alegre: Mediação. BRASIL, Ministério da Educação (2001). Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP. FREEMAN, J. & GUENTHER, Z. C. (2000). Educando os mais capazes: idéias e ações comprovadas. São Paulo: EPU. NOVAIS, Maria Helena (1979). Desenvolvimento Psicológico do Superdotado. São Paulo: Atlas. WINNER, Hellen (1998). Crianças Superdotadas. Mitos e realidades. Porto Alegre: Artmed. Questões para reflexão: 1. Como diferentes expectativas podem contribuir ou dificultar as expressões da superdotação no ambiente educacional? 2. O aluno superdotado se encontra incluído no contexto escolar? O que significa efetivamente para educadores a inclusão do aluno com superdotação nesse contexto? 3. Enumere duas alternativas que possam otimizar
a aprendizagem de alunos com superdotação / altas habilidades. NOTAS
*
Pedagoga com especialização em Psicopedagogia. Professora da
Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal na área da
Superdotação. Professora do Curso de Pós-Graduação em Educação
Especial pela Faculdade de Brasília. Consultora dessa série.
|
|
|
|
|