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Educação a Distância na universidade do século XXI

PGM 5 - Texto 3 - Educação presencial com tecnologias: possibilidades da Portaria n. 2.253/2001

 

Marco Aurélio de Carvalho 1

 

PERSPECTIVAS SOCIAIS DO USO DE EAD NO ENSINO SUPERIOR

Caracterização da EAD no Ensino Superior

Como decorrência natural da disseminação das tecnologias de informática e redes de comunicação de dados, e mais recentemente do direcionamento governamental neste sentido (Portaria MEC n. 2.253/2001), muito se tem falado de EAD (Educação a Distância) no Ensino Superior Brasileiro.

A referida Portaria, de forma resumida, autoriza que até 20% do tempo previsto para integralização dos currículos dos cursos superiores reconhecidos das instituições de ensino superior do sistema federal  utilizem método não presencial de ensino, com base no art. 81 da Lei n. 9.394, de 1996, e no disposto nesta Portaria.

No seu artigo segundo, a Portaria afirma que a oferta das disciplinas previstas no artigo anterior deverá incluir métodos e práticas de ensino-aprendizagem que incorporem o uso integrado de tecnologias de informação e comunicação para a realização dos objetivos pedagógicos.

A Lei n. 9.394 acima mencionada é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que em pontos diversos admite a administração de cursos a distância e fala sobre os incentivos ao desenvolvimento e veiculação de programas de ensino a distância, usando facilidades de comunicação com custos reduzidos. São também mencionados cuidados com avaliações e exames finais (que devem ser presenciais, de acordo com a Portaria MEC n. 2.253), e demais procedimentos relativos a certificações e questões correlatas.

A farta legislação e regulamentação pertinente inclui o Decreto n. 2.494/1998, que regulamenta o Artigo 80 da LDB, definindo EAD, além de várias portarias que estabelecem condições para a criação e operação de cursos a distância em diferentes modalidades e níveis de ensino. O Guia Brasileiro de Educação à Distância (http://www.icoletiva.com.br/guiaead) contém links para documentos relevantes, que demonstram a preocupação do MEC e do Governo Federal em regulamentar e incentivar o desenvolvimento da EAD no ensino superior brasileiro.

Cuidados e burocracias à parte, fica óbvio que os setores de regulamentação e legislação do nosso governo estão sensíveis e vêm atuando de forma pró-ativa no incentivo da EAD universitária no país.

Importante agora é caracterizar bem e estabelecer padrões e práticas para a efetiva implementação de tais políticas. Esse é um tema que vem sendo debatido intensamente na comunidade acadêmica e em organismos internacionais de padronização.

O Instituto de Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas (IEEE), por exemplo, patrocina um comitê denominado Learning Technology Standards Committee (LTSC - http://ltsc.ieee.org/), que coordena diversos grupos de trabalho para a padronização de produtos e procedimentos relativos a tecnologias de aprendizado. Dentre os objetivos de padronização do LTSC estão os já famosos Learning Objects (Objetos de Aprendizagem), que são as peças básicas de interação com os estudantes, que devem ser desenvolvidas dentro de critérios que permitam a reutilização em diferentes sistemas e plataformas de ensino.

A iniciativa ADL (Advanced Distributed Learning - http://www.adlnet.org) é um consórcio patrocinado pelo Departamento de Defesa Americano para definir e estabelecer um novo ambiente de aprendizado distribuído que permita a interoperabilidade de ferramentas de aprendizado e de conteúdos de cursos em escala global. O produto mais importante da ADL até o momento é o Modelo de Referência de Objetos de Conteúdo Compartilháveis (SCORM – Sharable Content Object Reference Model).

O SCORM define o inter-relacionamento de componentes de cursos, modelos de dados e protocolos, de forma que os objetos de aprendizado sejam compartilháveis por sistemas em conformidade com o modelo de referência proposto. No SCORM está definido um Modelo de Agregação de Conteúdo (Content Aggregation Model) e um Ambiente de Execução (Run-Time Environment) para objetos de aprendizagem. O SCORM é, portanto, uma coleção de especificações adaptadas de múltiplas fontes para prover um conjunto amplo de capacitações que habilitam interoperabilidade, acessibilidade e reusabilidade de conteúdos de aprendizados baseados na Web.

Uma outra iniciativa de alta relevância é o IMS Global Learning Consortium (http://www.imsglobal.org/), que inicialmente teve seu foco em educação superior, e que  mais recentemente vem abrangendo educação continuada em geral. Seu principal objetivo é a padronização da gerência dos sistemas instrucionais, para evitar que a mesma seja feita de forma diferente em cada plataforma de ensino, ou permitir que produtos instrucionais possam ser utilizados em várias plataformas através de expedientes descritivos (metadados) que os torne interoperativos. Integram o IMS diversas organizações internacionais, inclusive o citado LTSC/IEEE. O consórcio IMS é também um dos colaboradores da definição do modelo de referência SCORM.

As referências até agora feitas neste artigo, embora estando longe de exaurir os temas referidos, já oferecem ao leitor algumas pontas deste embaraçado novelo. Conquanto possa parecer óbvio que os computadores e a Internet contribuirão crescentemente para a educação de todos os níveis, definitivamente não é óbvio como isso será feito.

A preparação da nova universidade

Uma nova universidade há de surgir com toda essa tecnologia. Sem dúvida, a maior carência da universidade pública atual está no seu quadro docente. Os requisitos para ocupar-se uma posição definitiva em uma universidade federal ou estadual são grandes e há pouca disponibilidade de profissionais com perfil adequado no mercado. O ingresso de um professor aos quadros de pessoal das universidades se dá por concursos, que somente são autorizados em circunstâncias especiais. O expediente de contratação de professores substitutos, que vem sendo usado para atender às necessidades mais urgentes, está se esgotando e se mostrando totalmente insatisfatório.

A demanda de alunos, por outro lado, é crescente. A Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, apesar de contar com um campus urbano de enorme área, com vários edifícios de salas de aulas, encontra muita dificuldade para abrigar seus quase trinta mil alunos de cursos diurnos e noturnos nos horários mais nobres. A demanda por laboratórios e espaços especiais também é crescente.

Sendo a UnB uma universidade com uma proposta pedagógica liberal desde sua criação, seus alunos compõem seus currículos com disciplinas obrigatórias, optativas e os chamados módulos livres, para integrar o número mínimo de créditos requerido em seu curso. Certos departamentos, como os de Matemática, Computação, Física, Línguas Estrangeiras, entre outros, oferecem disciplinas que compõem o currículo de diversos outros cursos: por exemplo, os famosos Cálculos I, II e III fazem parte dos currículos de todas as engenharias, do Bacharelado de Computação, e de vários outros cursos. O Departamento de Matemática chega a ter cerca de 800 alunos em Cálculo I por semestre. Ora, nada mais óbvio do que buscar oferecer esse tipo de disciplinas, chamadas de disciplinas de serviço, de forma virtual. A economia de escala pode ser muito importante – seja ao nível de professores, requisitos administrativos, ou ao nível de espaço físico.

É também claro que outros tipos de disciplina podem se beneficiar incrivelmente com o esquema da virtualização. Por exemplo, dois professores da UnB, um de Física e o outro de Química, desenvolveram um conjunto de laboratórios virtuais que simulam o comportamento de gases com relação à pressão e à temperatura, através de animações, que é fantástico. Acreditamos que dificilmente um aluno teria maior consciência sobre o comportamento dos gases se estivesse observando um laboratório real.

Porém, a coisa não é tão simples quanto possa estar parecendo. Por isso é que o tema está cercado por tanta legislação e padronização. A produção de material pedagógico para a Internet ou mesmo para computadores isolados (stand alone) não é tarefa simples. Ao contrário, é tão difícil, que todo esforço para avaliar o sucesso, a qualidade ou possibilitar a reutilização das peças de software desenvolvidas valerá a pena.

A implantação de uma daquelas disciplinas de serviços anteriormente mencionadas, por exemplo, irá requerer muitos meses de trabalho para a transposição e adaptação do material pedagógico para a Web. A leitura na Web não é igual à leitura de um livro em uma biblioteca ou no sofá de sua casa. Um computador conectado à rede é repleto de tentações e basta uma clicada no mouse para que um assunto maçante desapareça da telinha e seja substituído por atrações bem mais interessantes. Para manter o interesse do usuário, os textos não podem ser longos, ou enfadonhos, ou muito coloridos, não podem estar em letras miúdas, nem com letras muito grandes, e assim por diante. Existem técnicas para virtualização, navegação, continuidade, etc. É o chamado Web-Design , palavra que não tem ainda uma tradução precisa para o Português, e que equivale mais ou menos ao projeto gráfico da tela do computador para expressar o tema a ser aprendido.

Uma vez projetado o site (sítio) da disciplina, é necessário fazer a adaptação e carga do conteúdo na Web. Para isso, pode ser necessário usar um sem número de ferramentas de autoria: editores HTML, editores de figuras, editores de animação, scanners e editores de fotografias, processadores de som e de imagens. Esse é um ambiente inóspito e os nossos professores ainda não são capazes de lidar com tudo isso. Existem aqueles mais afeitos à tecnologia, que são capazes de produzir algumas coisas, porém em detrimento dos seus demais afazeres como docentes e pesquisadores. Mas a grande massa dos professores não sabe nem por onde começar.

Um dos professores acima citados dá seu depoimento: inicialmente eu tentei ensinar Física e Química para o estagiário que eu havia contratado para que ele desenvolvesse os experimentos virtuais. Depois de alguns meses, vi que não ia dar certo porque ele sabia programar mas não estava interessado em Física… Aí eu decidí aprender Java e fazer eu mesmo. Hoje, dependendo da complexidade do experimento, gasto em torno de dois dias para programar cada um deles.

Uma outra questão freqüentemente negligenciada na avaliação da complexidade da EAD é a da tutoria. O material pedagógico, por melhor que seja, raramente é suficiente. O estudante precisa de interação, precisa de tirar dúvidas. Atrás de um teclado, a maioria das pessoas perde a timidez, e a caixa postal eletrônica do professor passa a ser inundada com perguntas e outras histórias. Se os alunos não obtêm respostas, se sentem desestimulados e o esquema fracassa. Se o professor atende a todos, não tem tempo para mais nada, e fica em uma situação em muitos casos pior do que quando estava com suas turmas presenciais. Portanto, é necessário se contar com um esquema oficial, profissional de tutoria, supervisionada pelo professor, com um número calculado de alunos por tutores, e um acompanhamento muito bem feito. Podem ser usados alunos mais experientes, alunos de mestrado, etc., mas têm que ser tutores dedicados e competentes.

Há um ramo de pesquisas denominado Inteligência Artificial na Educação, com um segmento denominado Sistemas Tutoriais Inteligentes, no qual o autor deste artigo atua (http://www.cic.unb.br/docentes/marco/marco.html), que vem procurando maneiras de transferir a especialidade de professores (expertise) para sistemas de computadores, de forma que ao menos parte desse acompanhamento possa ser feita diretamente pelo computador, minimizando a quantidade de acesso a tutores humanos. Porém, tais procedimentos ainda não têm sido maciçamente aplicados. Algumas universidades brasileiras, entre elas a UnB, a UFRGS, e a UCPEL, possuem pesquisas nessa área.

Uma outra questão a ser tratada é a dos diversos tipos de atividades de ensino, e sua transposição para o computador. De fato, um computador é uma máquina multimídia, que pode transmitir fala, material escrito, som, vídeo, foto, e assim por diante, tudo isso em rede. Isso significa que pessoas podem interagir em sub-redes, viabilizando debates, teleconferências, trabalhos colaborativos, e assim por diante. Podemos, na verdade, ir muito além do giz e do quadro. Pode-se usar criatividade para aliar a flexibilidade dessas caixinhas maravilhosas a novas pedagogias, e talvez atingir patamares nunca dantes alcançados, de forma rápida e a distância. A expectativa é a de que o acesso seja cada vez mais rápido, mais barato, mais popular, com computadores cada vez mais poderosos. Em nossa pesquisa, por exemplo, estamos estudando maneiras para formalizar para o computador situações pedagógicas novas e inusitadas, tais como debates, trabalhos cooperativos, apresentações artísticas, e não apenas as tradicionais atividades tais como aulas, testes, exemplos e exercícios. Com tal tipo de formalização, o computador poderá acompanhar pedagogicamente eventos educacionais bem mais complexos.

A maioria das universidades brasileiras conta hoje com alguma plataforma de ensino virtual para aplicar educação a distância ou educação presencial com suporte tecnológico. Tais plataformas integram em salas de aula virtuais funcionalidades tais como chat, listas de discussão, espaços para upload  e download de arquivos, portifólio de estudantes, espaço para abrigar material pedagógico, entre outras. Muitas universidades desenvolveram suas próprias plataformas, outras disponibilizaram as suas para as demais e ainda outras contrataram produtos comerciais para oferecer esse serviço. As plataformas começam a equacionar algumas das questões acima expostas, mas definitivamente não trazem e não são a solução. A solução é o reconhecimento de que o problema é complexo e requer esforço conjunto, para que os livros virtuais possam ser desenvolvidos com mais qualidade, possam ser atualizados, melhorados e compartilhados por todo o sistema de ensino superior.

O novo universitário

Finalmente, o segmento mais importante da educação: o aluno. Não podemos pensar em montar um esquema educacional sem primeiro identificar seu principal beneficiário. E a pergunta é: estariam os alunos prontos e preparados para receber tudo isso que estamos planejando? Têm eles condições financeiras e culturais para essa revolução?

A primeira observação é com relação à acessibilidade. Segundo o IBGE, em sua Pesquisa Nacional por Amostras de domicílios de 2002, apenas cerca de 12% da população brasileira possui computadores em casa, e somente 8% da população tem acesso à Internet. Sabemos que a tendência é a de crescimento, mas não podemos superestimá-lo. Durante muitos anos ainda, a esmagadora maioria de nossa população não terá acesso à Internet, somente a elite terá esse acesso. Nesse aspecto, portanto, temos que cuidar mais uma vez, para que a exclusão digital não atue em favor da penosa exclusão social do nosso povo.

Como pode a universidade brasileira avançar no uso da tecnologia e auxiliar na redução da exclusão social? Uma forma é através do estímulo à disponibilização crescente de laboratórios informáticos públicos, em escolas, centros comunitários, bibliotecas públicas, e na própria universidade. Nas grandes universidades do mundo o estudante recebe o seu código de usuário e senha para acesso ao computador no ato de matrícula. Em pontos diversos dos campi existem laboratórios públicos, que podem ser acessados pelos alunos. Na Universidade de Edimburgo, Escócia, por exemplo,  a Biblioteca Central foi adaptada para abrigar cerca de 100 computadores para uso dos estudantes de graduação e pós-graduação em suas pesquisas e trabalhos escolares.

A próxima questão é relativa à preparação dos alunos para receber o ensino virtual. A preparação para se usar seriamente um computador deve vir mais cedo, desde o Ensino Médio ou quiçá desde o Ensino Fundamental. Se o estudante não estiver familiarizado com os computadores, com as ferramentas produtivas (e não apenas com as de lazer), a obrigatoriedade do uso de computadores pode representar mais uma barreira para o aprendizado. Em cursos de extensão na UnB, destinados a professores da rede pública, tivemos muitos casos de dificuldades ou de abandono de curso devido à incapacidade de alunos de lidar com computadores. Cursos de adaptação para os novos alunos podem ser necessários, com tutoriais para facilitar o uso de computadores no ensino.

Como derradeira consideração, há a expectativa dos alunos sobre a universidade, sobre a vida no campus, a biblioteca, os encontros e movimentos estudantis, e todas aquelas imagens que embalam os sonhos de juventude. Parece aterradora a idéia de que, com o ensino virtual, a universidade não seja mais como se sonhou: cursar a universidade agora é sentar-se na frente de um computador e realizar um sem número de tarefas solitárias. Definitivamente, a universidade não deve se transformar em um curso por correspondência suportado por tecnologia de rede. Há que se encontrar um equilíbrio, uma situação na qual o espírito universitário sobreviva  à tecnologia, e que temas corriqueiros, práticos, com menor carga cognitiva e de criatividade sejam conduzidos via computador, mas que a sadia convivência real continue existindo e produzindo seus frutos.

 

NOTAS:

 

1  Professor Adjunto do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília, Bacharel em Matemática (UnB), Mestre em Ciência da Computação (UFRGS) e PhD em Inteligência Artificial na Educação (Universidade de Edimburgo). Ex-diretor da UnB Virtual e do CEAD/UnB, coordena atualmente um grupo de pesquisa em IA na Educação na Universidade de Brasília. marco@cic.unb.br

 


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