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Educação a Distância na universidade do século XXI PGM 4 - Texto 1 - Tecnologias e materiais didáticos nos cursos superiores a distância: promovendo a aprendizagem por meio da interatividade |
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Marco Silva 2
PROFESSORAR ONLINE EM SINTONIA COM A CIBERCULTURA, COM O HIPERTEXTO E COM A INTERATIVIDADE 1 A pedagogia da transmissão enfrentou diversos críticos, mas pouco se modificou em sala de aula. Hoje, além das clássicas críticas, essa pedagogia enfrenta cada vez mais o desafio chamado cibercultura com seu questionamento fundamental à lógica da distribuição em massa própria da mídia clássica (rádio, imprensa e tv) e dos sistemas de ensino (presencial e a distância). Os críticos da sala de aula questionaram o professor guardião e transmissor da cultura; questionaram o modelo da transmissão de conteúdos e de valores para memorização e repetição. A cibercultura questiona a distribuição de pacotes de informação de A para B ou de A sobre B, separando emissão e recepção. É fundamental ter claro que na cibercultura transitamos da tela da TV para a tela do CC (computador conectado), passo decisivo para além do velho PC (computador pessoal). O pesquisador da cibercultura A. Lemos (2002, p. 55) vê a passagem do computador apolíneo, individualista e austero (PC) ao computador dionisíaco, coletivo, efervescente, multiconectado em rede online ou ciberespaço (CC). O computador desconectado, projetado para o indivíduo cartesiano, solipsista, deu lugar ao computador comunitário, associativo, cooperativo. Assim, emerge a cibercultura, trazendo um enorme desafio para educação a distância na universidade do século XXI. As disposições próprias do computador conectado requerem, da parte das escolas, universidades e empresas, qualitativos investimentos na gestão da educação online. É preciso não subutilizar o computador conectado. Mais do que isso, é preciso garantir educação de qualidade. Curiosamente, tais disposições do computador conectado estão em sintonia com indicadores de qualidade em educação. Diálogo, troca de informações e de opiniões, participação, intervenção, autoria criativa e colaborativa são ingredientes do que há de mais essencial em educação cidadã. No entanto, é preciso investir muito na formação de gestores e de professores capazes de ousar em educação online. Fazer educação online não é o mesmo que fazer educação presencial ou a distância via suportes tradicionais. Isso exige metodologia própria que pode, inclusive, inspirar mudanças profundas no modelo da transmissão que prevalece na sala de aula presencial “infopobre”. Falo em educar com base no diálogo, troca, participação, intervenção, autoria, colaboração. É certo que essa metodologia não é prerrogativa do computador conectado, mas tem nele possibilidades de potencialização. A educação a distância na universidade do século XXI teve sua maior propulsão com a Portaria do MEC nº. 2.253, de 18 de outubro de 2001. Conhecida como “Portaria dos 20%”, garante às instituições de ensino superior a opção de oferecer até 20% de suas disciplinas regulares na modalidade a distância, que tende a transitar dos suportes tradicionais para a internet. O desafio da cibercultura Cibercultura é a atualidade sociotécnica informacional e comunicacional definida pela codificação digital (bits), isto é, pela digitalização que garante o caráter plástico, hipertextual, interativo e tratável em tempo real da mensagem. A codificação digital permite manipulação de documentos, criação e estruturação de elementos de informação, simulações, formatações evolutivas nos ambientes ou estações de trabalho (Windows, Linux) concebidos para criar, gerir, organizar e movimentar uma documentação. Isso quer dizer: transitamos da transmissão para a interatividade, abrindo perspectivas para novos fundamentos em comunicação e educação. Assim, a cibercultura põe em questão o esquema clássico da informação. Há uma liberação do pólo da emissão criando espaço para a interatividade, ou seja: emissor e receptor mudam respectivamente de papel e de status, quando a mensagem se apresenta como conteúdos manipuláveis e não mais como emissão. O emissor não transmite mais no sentido que se entende habitualmente. Ele não dispara mais uma mensagem fechada no modelo um-todos, ao contrário oferece um leque de dados associados a possibilidades de manipulações no modelo todos-todos. O receptor não está mais em posição de audiência de massa, uma vez que a internet não é mídia de massa. Portanto, a mensagem só toma todo o seu significado sob a sua intervenção personalizada. Enquanto teleintrainterante, o receptor torna-se autor da comunicação e da aprendizagem. Por sua vez, a mensagem aberta à manipulação, à operatividade, pode ser recomposta, reorganizada, modificada em permanência sob o impacto cruzado das intervenções do sujeito e dos algoritmos do sistema digital, perdendo assim o estatuto de mensagem transmitida. Na cibercultura, o esquema clássico da informação que se baseia na ligação unidirecional emissor-mensagem-receptor se acha mal colocado. Por isso, em particular, a educação via internet vem se apresentando como grande desafio para o professor acostumado ao modelo clássico de ensino. São dois universos distintos no que se refere ao paradigma comunicacional dominante em cada um. Enquanto a sala de aula tradicional está vinculada ao modelo um-todos, separando emissão ativa e recepção passiva, a sala de aula online está inserida na perspectiva da interatividade entendida como colaboração todos-todos e como faça-você-mesmo operativo.
Sala de aula unidirecional (modelo um-todos) 3
Sala de aula interativa (modelo todos-todos)
Ao tratar do hipertexto, A. Machado (1993, p. 187) exemplifica com esse “emaranhado de elos que traçam a trama entre os vários textos”. Lanço mão da metáfora do hipertexto assim entendido para exprimir o perfil da sala de aula engendrada pela co-autoria do professor e dos estudantes na construção da aprendizagem e da própria comunicação. A sala de aula não mais centrada na figura do professor, possuidora permanente de diversos centros, em que se dão a constante construção e a renegociação dos atores em jogo. Nela, a aprendizagem se dá com as conexões de imagens, sons, textos, palavras, diversas sensações, lógicas, afetividades e com todos os tipos de associações. Nela, o professor não perde a autoria de mestre. De pólo transmissor ele passa a agente provocador de situações, arquiteto de percursos, mobilizador da inteligência coletiva. Inspirar-se no hipertexto A sala de aula inspirada no hipertexto permite que o cursista teça sua autoria operando em vários percursos e leituras plurais. A disponibilidade do diálogo com vários autores/leitores permite acesso e negociação de sentidos, ressignificando a noção de autoria. “O suporte informática permite que através dos links o leitor adentre, construa seus próprios caminhos de leitura não mais presos à linearidade das páginas e do documento com início, meio e fim, dos limites das margens, nas notas de rodapés. O fim no hipertexto é sempre um novo começo caleidoscópico, no qual simultaneamente podemos ler vários textos (janelas mixadas), cortar, colar e criar intertextos. Enfim, informação circulando com conhecimentos sempre em fluxo.” (Santos, 2003, p. 139). Atento a esse perfil de sala de aula emergente na cibercultura, o professor online procura superar os resquícios do guardião e transmissor do saber. Procura superar um certo mal-estar diante do ambiente virtual de aprendizagem que libera a participação dos aprendizes como co-autores da comunicação e da aprendizagem. Procura romper com a atitude do mestre que ensina, que instrui, em favor do mestre que provoca a inteligência coletiva dos estudantes à construção da aprendizagem. Para isso, precisa assumir de uma vez por todas que a experiência de intervenção na mensagem difere da recepção de informações prontas. Mais do que isso, precisa se dar conta da importância da interatividade como dimensão comunicacional favorável à aprendizagem genuína. Assim, para professorar online, o professor precisa assimilar que poderá redimensionar sua autoria modificando a base comunicacional potencializada pelo fundamento digital. Precisa modificar o modelo centrado no falar-ditar do mestre, passando a disponibilizar ao aprendiz autoria em meio a conteúdos de aprendizagem os mais variados possíveis, em vídeo, imagem, som, textos, gráficos, facilitando permutas, agregações, associações, novas formulações e modificações na tela do computador online. Inclusive, notando aí a necessidade de maior investimento braçal e intelectual do que aquele que vinha realizando em sala de aula presencial. Para operar tal mudança paradigmática, o professor pode contar com a metáfora do hipertexto entendida como uma montagem de conexões em redes abertas a uma multiplicidade de recorrências. A partir daí, pode entender melhor que o termo disponibilizar não se reduz ao permitir, pois na internet não tem sentido apenas permitir sem dispor teias de possibilidades, ou seja, arrumar conteúdos de aprendizagem de modo a promover, ensejar, urdir, arquitetar novas teias de possibilidades. Em suma, o professor aprende que disponibilizar em sala de aula online significa basicamente três investimentos: u Oferecer múltiplas informações (em imagens, sons, textos, etc.) sabendo que as tecnologias digitais utilizadas de modo interativo potencializam consideravelmente ações que resultam em conhecimento. u Ensejar (oferecer ocasião de...) e urdir (dispor entrelaçados os fios da teia, enredar) múltiplos percursos para conexões e expressões com que os alunos possam contar no ato de manipular as informações e percorrer percursos arquitetados. u Estimular os aprendizes a contribuir com novas informações e a criar e oferecer mais e melhores percursos, participando como co-autores do processo. Ou seja, o professor online constrói uma rede e não uma rota. Ele define um conjunto de territórios a explorar, enquanto a aprendizagem se dá na exploração – ter a experiência – realizada pelos aprendizes e não a partir da sua récita. Isto significando, portanto, modificação radical em sua autoria em sala de aula online. O professor não se posiciona como o detentor do monopólio do saber, mas como aquele que dispõe teias, cria possibilidades de envolvimento, oferece ocasião de engendramentos, de agenciamentos e estimula a intervenção dos aprendizes como co-autores da aprendizagem. Promover interatividade Para operar essa mudança paradigmática, o professor conta especialmente com o conceito complexo de interatividade. Tomado em profunda sintonia com a metáfora do hipertexto, esse fundamento do digital permite verificar que para além do apresentador de conhecimentos, o professor pode tornar-se o provocador do conhecimento. Em sala de aula online, ele será o formulador de problemas, proponente de situações, arquiteto de percursos, mobilizador das inteligências múltiplas e coletivas na construção do conhecimento. Disponibilizará estados potenciais do conhecimento de modo que o aprendiz experimenta a criação do conhecimento quando participa interferindo, agregando e modificando. Assim, o aprendiz deixa o lugar da recepção passiva de onde ouve, olha, copia e presta contas para se envolver com a proposição do professor e/ou de outro aprendiz. Para garantir esse entendimento profundo, o termo interatividade, fundamento essencial da cibercultura e do digital, precisa, no entanto, ser tomado para além do sentido meramente mercadológico bastante disseminado, no sentido do argumento de venda que mascara, fabrica adesão, produz opinião pública a partir do objeto-publicidade (p. ex.: tênis interativo, xampu interativo, escola interativa, game interativo, etc.). Precisei “limpar” o conceito explicitando seu tratamento complexo no próprio conjunto de proposições do curso dedicado ao tema, bem como na sua mecânica interna. Procurei desenvolver um curso de fato interativo, buscando garantir nele pelo menos três aspectos essenciais: u Participação colaborativa: participar não é apenas responder “sim” ou “não”, prestar contas ou escolher um opção dada, significa intervenção na mensagem como co-criação da emissão e da recepção. u Bidirecionalidade e dialógica: a comunicação é produção conjunta da emissão e da recepção, os dois pólos codificam e decodificam. u Conexões em teias abertas: a comunicação supõe múltiplas redes articulatórias de conexões e liberdade de trocas, associações e significações. Com esse entendimento da interatividade, pode-se ser professor online em sintonia com a cibercultura e com o hipertexto. Este professor faz a proposição do conhecimento no lugar de transmitir a distância para a recepção audiovisual. Os conteúdos são propostos como espaços abertos à criação, como ponto de partida e não como ponto de chegada no processo de construção do conhecimento. Por sua vez, os aprendizes podem construir seus próprios mapas e conduzir suas explorações, inscrevendo-se nos estados potenciais do conhecimento arquitetados no ambiente virtual de aprendizagem. Não mais submetidos ao constrangimento da recepção, eles criaram, modificaram, aumentaram, tornando-se co-autores da aprendizagem e do próprio curso. Conclusão Como cuidar da organização dos conteúdos de aprendizagem a serem disponibilizados como proposição à construção coletiva do conhecimento? Como cuidar para que os fundamentos cibercultura, hipertexto e interatividade estejam na base do planejamento do curso, mais especificamente, na estruturação dos conteúdos a serem disponibilizados como provocação à aprendizagem na tela online? Como romper com a linearidade do livro e das apostilas na disposição dos conteúdos, de modo a não subutilizar o paradigma comunicacional próprio do ambiente virtual de aprendizagem? Em suma, como não cair no equívoco da distribuição de conteúdos fechados num site estático desprovido de mecanismos de interatividade, de criação coletiva? Estas são algumas questões que vão aquecer os debates em educação a distância na universidade do século XXI. Em pauta estará mais do que nunca a urgência da formação continuada do professor. Referências bibliográficas BRITO, Mário Sérgio da Silva. Tecnologias para a EAD via Internet. In: ALVES, Lynn e NOVA, Cristiane (orgs.). Educação e tecnologias: trilhando caminhos. Salvador: UNEB, 2003. HARPER, Babete et al. Cuidado escola! Desigualdade, domesticação e algumas saídas. São Paulo: Brasiliense, 2000 (3ª reimpr. Da 35ª ed. de 1994). LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. LEMOS, André. Cultura das redes. Ciberensaios para o século XXI. Salvador: EDUFBA, 2002. MACHADO. Arlindo. Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1993. RAMAL, Andréa Cecília. Entre mitos e desafios. 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NOTAS: 1 Esta reflexão está amplamente desenvolvida no livro Educação online: teorias, práticas, legislação e formação corporativa. Rio de Janeiro: Loyola, 2003, por mim organizado. 2 Sociólogo, doutor em educação. Professor de sociologia e novas tecnologias em educação presencial e a distância na Estácio e na UERJ. Autor do livro Sala de aula interativa (3ª ed. 2002). aulainterativa@msm.com.br www.saladeaulainterativa.pro.br 3 Harper, 2000: 48.
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