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Educação a Distância na universidade do século XXI

PGM 3 - Texto 1 - Orientação acadêmica e tutoria nos cursos de graduação a distância

 

Maria Umbelina Caiafa Salgado 1

Introdução

A experiência brasileira em educação a distância (EAD) ficou por muito tempo restrita a algumas instituições situadas fora dos sistemas educacionais regulares, sendo geralmente vista com desconfiança nos meios acadêmicos. Nos anos mais recentes, essa situação vem mudando. A disseminação de cursos nessa modalidade é crescente, e já existem muitos programas de graduação autorizados pelo Ministério da Educação. As experiências que estão em andamento vêm-se mostrando promissoras em muitas áreas, particularmente na formação inicial e continuada de professores em exercício, pois a EAD permite articular estreitamente a teoria e a prática, e alcançar populações geograficamente dispersas, como a dos professores que trabalham em locais isolados, principalmente nas escolas rurais, oferecendo-lhes formação de boa qualidade.

No entanto, ainda existem muitas resistências e preconceitos contra a EAD, principalmente devido a crenças infundadas, tais como falta de contato entre professor e aluno, impossibilidade de controlar a autoria dos trabalhos acadêmicos, isolamento do aluno, entre outras. Além disso, há dificuldade em perceber a natureza do papel de tutor, o que tem levado a confusões e impropriedades. Por um lado, algumas pessoas julgam que o tutor tem de ser um superprofessor, especialista em vários campos, e que tem de dar respostas prontas a todas as dúvidas dos alunos. Por outro lado, alguns acreditam que a EAD se conforma à divisão taylorista do trabalho, em que cada um sabe fazer apenas uma pequena parcela da atividade docente, em comparação com o que ocorre nos cursos presenciais, em que o professor é geralmente o único responsável por tudo que diz respeito à(s) disciplina(s) que leciona.

O papel do tutor

A discussão do papel do tutor exige que se reflita, antes, sobre a estrutura organizacional da EAD que, de fato, possui especificidades. Além das atividades-meio – implantação e manutenção da infra-estrutura logística e gestão e monitoramento dos processos – a EAD implica três grandes grupos de atividades-fim:

u o desenho do curso e a produção dos materiais didáticos;

u a distribuição dos materiais (impressos, televisivos, virtuais etc.), o planejamento da recepção pelos alunos e o registro acadêmico (matrícula, avaliação etc.);

u o processo de apoio à aprendizagem, por meio do aconselhamento e da tutoria.

Com base nesse esquema, podemos perceber facilmente que o papel de tutor difere do papel de professor, cabendo ao primeiro orientar a aprendizagem do aluno, sugerir-lhe formas de organização do tempo e estratégias para o estudo individual dos materiais didáticos, indicar-lhe caminhos para resolver dúvidas de conteúdo, aplicar e corrigir provas e outros instrumentos de avaliação e ajudá-lo a tomar consciência de suas falhas e dificuldades, para que possa reorientar adequadamente seus esforços. Mas não compete ao tutor apresentar as informações, fazendo conferências ou exposições, nem dar respostas prontas às dúvidas do aluno sobre o conteúdo. A apresentação dos conhecimentos e das informações dá-se por meio de material didático especialmente preparado para permitir e encorajar a auto-instrução.

De acordo com Keegan (1983, p.13, apud Belloni, 1999), na EAD, quem ensina não é um professor individual, mas sim a instituição como um todo, um professor coletivo. Isso, contudo, não implica necessariamente uma divisão taylorista do trabalho. Propostas recentes de EAD aproximam-se mais da organização flexível, em que algumas posições são interdependentes, e os tutores, bem como grande parte dos profissionais envolvidos no curso, devem ter uma compreensão global de todo o processo de ensino e aprendizagem. 

Na verdade, conforme a proposta pedagógica e a finalidade do curso, variam as funções atribuídas a esse profissional que, às vezes, é também denominado monitor ou facilitador, principalmente nos casos em que se trata de explorar a recepção organizada, em programas síncronos, isto é, em que a informação é dada a todo o grupo de alunos, ao mesmo tempo. Nesse caso, o monitor ou facilitador pode ser um membro mais experiente do próprio grupo, capacitado para desempenhar as tarefas requeridas.

Para esclarecer melhor a questão, é interessante tomar conhecimento de alguns exemplos de concepções de tutor e de funções a ele atribuídas, em algumas das mais importantes instituições de EAD existentes em países que desenvolveram mais cedo suas experiências nesse campo.

A tutoria na Open University

A tradicional Open University (OU), da Inglaterra, por exemplo, chama o tutor de associate lecturer que significa professor associado. Note-se que um dos significados de associate é: (...) 3 - associado: membro de uma sociedade que não goza de todos os direitos e privilégios (cf. dicionário eletrônico Michaelis – UOL). Realmente, embora os associate lecturers  sejam contratados para um curso específico e se exija de um candidato a tutor que tenha qualificação acadêmica ou experiência profissional em uma área de conteúdo adequada ao curso, não se pede que seja um especialista. Ao contrário, os associate lecturers são instruídos a encaminhar a especialistas do serviço de apoio ao estudante as questões às quais julgam não ter segurança para responder.

Por outro lado, requer-se que sejam capazes de usar meios eletrônicos de comunicação e informação para comunicar-se com os alunos (e-mail) ou para inteirar-se de informações e instruções, para o controle acadêmico (home page do curso). Além disso, devem estar comprometidos com a educação de adultos, ter uma idéia dos desafios que a EAD apresenta aos alunos e, principalmente, aceitar a diversidade de alunos da OU e suas necessidades de aprendizagem.

Os associate lecturers são quase sempre contratados em tempo parcial e se vinculam a um dos 13 centros regionais dispersos pelo país. Cabe-lhes fazer tutoria individual a distância (por telefone ou correspondência) e, eventualmente, tutoria em grupo, quando atendem de 20 a 25 alunos, durante alguns dias nas residencial school. São também responsáveis por corrigir exercícios práticos e trabalhos escritos, além de aplicar e corrigir provas.

  Ao serem contratados pela primeira vez, os associate lecturers  recebem treinamento sobre o curso (estágio, instruções específicas e materiais didáticos para orientar a tutoria – toolkit ), e são acompanhados por umtutor mentor (sênior), durante um período probatório de dois anos.

A tutoria na Universidad Nacional de Educación a Distancia

Na Universidad  Nacional de Educación a Distancia (UNED), em Madri, segundo Arredondo e Aretio (1996), o tutor é considerado principalmente como a figura presencial, o vínculo que une o aluno à instituição. No dizer dos autores, o termo tutor é polissêmico e seu papel, polivalente.

Como na OU, na UNED, o tutor não pertence ao corpo docente da universidade, mas sim aos centros associados. Cabe-lhe assessorar, orientar o aluno e atuar como facilitador da aprendizagem. Mais que um instrutor, é aquele que tutela e ajuda o estudante a adquirir hábitos de estudo, e impede que se sinta solitário. A tutoria pode ser individual ou em grupo, e fica sob a responsabilidade do tutor a correção de exercícios práticos, mas não a aplicação e correção de provas.

Na UNED, também, não se requer do tutor que seja um especialista, mas sim que seja capaz de ajudar os alunos em sua aprendizagem e formação. Em vista disso e pressupondo uma formação universitária suficiente, o tutor contratado pela instituição recebe formação específica em EAD, que abrange o conhecimento das características dos alunos, as técnicas de ensino a distância e as técnicas de trabalho em grupo.

A tutoria na Universitat Oberta de Catalunya

Por sua vez, a Universitat Oberta de Catalunya (UOC) é uma instituição relativamente nova, que funciona de modo totalmente virtual. Todas as atividades acadêmicas são desenvolvidas por meio da Web, no campus virtual. Nela, existem dois tipos distintos de docentes. O tutor propriamente é um orientador acadêmico, que ajuda os alunos a desenvolver seus estudos de maneira adequada. Há duas figuras distintas na tutoria, sempre a distância, via Web: o tutor de início e o tutor de processo. O primeiro faz parte dos serviços de atenção ao estudante e atua desde a matrícula até o fim do primeiro semestre. Sua principal incumbência é facilitar a incorporação do aluno ao campus virtual e ajudá-lo na adaptação ao novo método de aprendizagem. A partir do segundo semestre, é substituído pelo tutor de processo, que se incumbe de seguir o progresso acadêmico do estudante, orientando-o sobre o melhor itinerário a escolher para desenvolver seu curso.

Diferentemente do tutor, o consultor é um interlocutor do aluno, específico para cada disciplina. Embora não seja quem concebe e planeja o curso, ele propõe ao estudante como abordar os conteúdos, indica eixos temáticos, levanta questões fundamentais, esclarece dúvidas, formula o processo de avaliação e avalia o aluno.

Uma experiência brasileira: o projeto Veredas – Formação
Superior de Professores

Obviamente, existem muitas outras experiências de EAD e concepções correspondentes de tutoria mas, neste momento, é importante analisar também os rumos desse processo no Brasil. Como dissemos, alguns dos focos de desconfiança e de resistência da academia, em relação à EAD, relacionam-se justamente ao processo de tutoria. 

Para analisar essas questões, toma-se como referência o projeto Veredas – Formação Superior de Professores, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação em consórcio com 18 instituições de ensino superior, incluindo universidades públicas e particulares, além de centros universitários e algumas instituições isoladas, cada uma delas designada Agência Formadora (AFOR). Trata-se de um curso de graduação plena, direcionado para professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental que já estão em exercício, mas que têm apenas formação de nível médio. A coordenação central é exercida por uma equipe de consultores ligados à Secretaria. A atividade dessa equipe, por sua vez, é regulada por um Fórum composto por representantes de cada AFOR, que funciona como se fosse um colegiado de curso ou um conselho de ensino e pesquisa das instituições presenciais.

O Veredas alinha-se a uma tendência observada no Brasil que, não contando com grandes universidades especializadas em EAD, vem organizando redes de formação, que congregam diferentes instituições de ensino superior (IES) em torno de um mesmo curso ou programa. É interessante notar que, nesse caso, o equivalente aos centros associados da OU e da UNED são as próprias IES e que os tutores, muitas vezes, são docentes pertencentes aos quadros dessas instituições. Em algumas delas, eles foram selecionados especialmente para o Veredas, mas desempenham as mesmas funções e são orientados de perto pelas AFOR.

Cada AFOR criou uma estrutura especial para a realização do curso, contando, no mínimo, com quatro coordenadores: geral, de tutoria, de avaliação e de informática. Cada grupo de 15 alunos aproximadamente tem um tutor, sendo a tutoria desenvolvida nas modalidades a distância e presencial.

A tutoria a distância é feita por telefone, correio ou e-mail, e cada  AFOR estabelece uma escala de plantão, de modo que os professores cursistas saibam onde e quando encontrar seus respectivos tutores, ou mesmo outros membros do corpo docente que os ajudem a resolver dúvidas urgentes.

A tutoria presencial abrange três momentos principais:

u a semana presencial, que dá início a cada módulo, reunindo todos os cursistas na respectiva AFOR. Em muitos casos, as provas presenciais do módulo anterior são feitas nessa oportunidade, cabendo aos tutores participar de sua aplicação e correção. Além disso, cada tutor se reúne com seus alunos, desenvolvendo trabalhos diversos na biblioteca e nos laboratórios de informática da AFOR, e realizando oficinas sobre os conteúdos que serão desenvolvidos ao longo do módulo que se inicia;

u a reunião mensal, quando o tutor reúne todo o seu grupo de cursistas durante oito horas, que são distribuídas entre atividades tais como esclarecimento de dúvidas, oficinas de integração dos conteúdos estudados no mês, planejamento de atividades práticas (aulas que o cursista dará a seus alunos no próximo mês), orientação dos memoriais e das monografias;

u as visitas aos professores cursistas, nas escolas em que lecionam, para que o tutor possa observar e orientar a prática pedagógica, pelo menos duas vezes por módulo.

Compete também aos tutores preparar e orientar as atividades de recuperação para os professores cursistas que não atingirem o desempenho mínimo exigido em cada prova.

A orientação dos memoriais e das monografias tem constituído um dos principais desa­fios para o Veredas, quer pela novidade que esses recursos de aprendizagem representam para muitos cursistas, e até para alguns tutores, quer pela dificuldade de se criarem esquemas de avaliação formativa e diagnóstica, que dêem conta do caráter processual da monografia e do memorial, bem como da prática pedagógica.

Dos 851 tutores do Veredas, 33 são doutores, 139 são mestres, 514 têm cursos de especialização e apenas 165 têm somente graduação (de modo geral em pedagogia ou cursos de licenciatura). Antes do início do curso, tiveram um treinamento introdutório sobre a tutoria, no Veredas, e recebem formação continuada ao longo de todo o tempo, quer por meio de atividades programadas na própria AFOR, com os tutores de referência, quer por meio de eventos e materiais de orientação desenvolvidos pela coordenação central do projeto.

No entanto, não se espera dos tutores que sejam especialistas em todas os componentes curriculares do curso. O modelo de tutoria adotado no Veredas requer que todos conheçam bem os guias de estudo, vídeos e outros materiais preparados para os cursistas, mas as questões mais complexas são resolvidas por tutores de referência, especialistas no conteúdo tratado. Os tutores de referência pertencem aos quadros da própria AFOR e muitos trabalham como tutores comuns, de modo que a equipe como um todo tem papel importante na realização do curso e na adequação dele à cultura institucional da IES.

Espera-se, pois, no Veredas, que o tutor seja um facilitador da aprendizagem e não que dê aulas expositivas, pois a função informativa fica por conta dos materiais especialmente preparados para o curso. No entanto, considera-se fundamental que ele seja capaz de coordenar discussões e trabalhos em grupo, problematizar os temas propostos, mobilizar os conhecimentos prévios dos cursistas, dar-lhes feedback de seu desempenho e, quando for o caso, ajudá-los na recuperação de conteúdos e habilidades em cujo desempenho não mostraram a proficiência esperada.

 Em relação à monografia, foi sugerido aos tutores que limitassem a escolha dos professores cursistas a temas em que se sentissem capazes de orientar a pesquisa e a redação final do trabalho. No entanto, muitos optaram por não colocar esse limite, mas sim associar-se aos tutores de referência, especialistas nas áreas temáticas escolhidas pelos cursistas.

Concluindo esses breves comentários, cabe notar que, sem desmerecer os modelos das instituições tradicionais de EAD, responsáveis pelo grande desenvolvimento dessa modalidade de educação, o modelo em rede, que tende a se fortalecer no Brasil, permite evitar alguns dos problemas apontados no início, pois o aluno está sempre em contato com a AFOR, e esta não recebe um pacote pronto apenas para implementar, mas participa ativamente do processo, ainda que o material didático e as provas sejam comuns, para todos os professores cursistas.

A experiência de tutoria do Veredas tem sido promissora e vem permitindo levantar informações e subsídios para a organização de programas sistemáticos de preparação de tutores, de modo a viabilizar, no Brasil, um avanço seguro e adequado às condições do país.

Referências bibliográficas

ARREDONDO, S. C. e ARETIO, L. G. El profesor tutor e la tutoria em el modelo UNED. In: ARETIO, L. G. (org.) La Educación a distancia y la UNED. Madrid: UNED, 1996.

BELLONI, M. L. Educação a distância. Campinas: Autores Associados, 1999.

ALMEIDA, M. R. D. de G. O Tutor no Veredas. Belo Horizonte: SEE, 2002, (mimeo)

UNIVERSITAT OBERTA DE CATALUNYA. Un nuevo concepto de formación universitaria. Espanha:UOC-Universidad Virtual. [Documento eletrônico consultado em 14/10/2003: http://www.uoc.edu/web/esp/launiversidad/comoseestudia/tutores.htm ]

OPEN UNIVERSITYTeaching at the OU – Tutor Recruitment - Roles & Requirements:Associate lecturers – UK:Open University. [Documento eletrônico consultado em 14/10/2003. http://www.open.ac.uk/employment/associate-lecturers/roles_1.shtm ]

NOTAS:

1   Coordenadora Pedagógica do Veredas – Formação Superior de Professores.
 E-mail mucsalgado@uol.com.br

 

 


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