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Educação a Distância na universidade do século XXI

PGM 2 - Texto 3 - Cursos de graduação a distância: questões pedagógicas e de gestão

 

Maria Lucia Cavalli Neder 1

 

Introdução         

Como uma modalidade educativa, a Educação a Distância (EAD) possui características e peculiaridades próprias que serão determinantes para a definição dos projetos pedagógicos e dos processos de gestão a serem implementados pelas instituições educativas.

Antes, porém, de se definir os elementos, os percursos, os métodos, os instrumentos que devem ser trabalhados nos processos de gestão ligados à EAD, é necessário que tenhamos clareza a respeito dos paradigmas que dão sustentação aos referenciais teórico-metodológicos que alicerçam nossas compreensões e práticas na área educacional.

Desta maneira, pensar a gestão de projetos de EAD implica, primeiramente, reflexões e compreensões a respeito da educação: Como a compreendemos? Onde a situamos? Como analisamos suas relações? Qual é o seu papel? Como se desenvolve?

A educação deve ser compreendida como uma prática social que pode dinamizar outros processos sociais importantes para a conquista de uma vida pública que se organize na busca da construção de uma sociedade mais inclusiva.

Sua finalidade deve ser, pois, a de contribuir para a emancipação de sujeitos históricos, capazes de construir seu próprio projeto de vida e atuar, significativamente, na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais equânime, mais democrática, mais humana.

A Educação a Distância, como uma modalidade de organização e desenvolvimento de currículo educacional, não deve ser reduzida, portanto, apenas a questões metodológicas ou a possibilidades de uso de novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC). Deve ser vista sempre como parte de um projeto político que vincule a educação com a luta por uma vida pública, na qual o diálogo, a tolerância e o respeito à diferença estejam atentos aos direitos e condições que organizam a vida pública como uma forma social justa e democrática.

Nesse sentido, as instituições escolares têm necessidade, conforme Silva (2000), de se apresentarem como um espaço de educação, ao invés de um lócus de distribuição de saber-produto a clientes consumidores.

Um espaço de educação deve pressupor a construção de uma prática que possibilite aos sujeitos da ação educativa compreender criticamente a realidade social em que se inserem, com vistas a uma participação ativa nessa realidade.

Isso indica uma compreensão de educação como um sistema aberto, não só voltado para a transmissão de informações e transferência de conhecimentos, que implica processos transformadores que decorrem da experiência de cada um dos sujeitos da ação educativa. A autonomia do aluno passa a ser um dos ideais da ação educativa. Ele deve ser estimulado a ser ativo no processo de construção do conhecimento, principalmente quando se tem presente que o mundo contemporâneo, em que o conhecimento evolui de forma incontrolável, exige uma educação voltada para a autonomia do aprendiz, o que implica uma metodologia do aprender a aprender. 

A EAD, por suas peculiaridades, sobretudo em relação à mediatização das mensagens pedagógicas, coloca-se como uma modalidade em potencial para o desenvolvimento dessa autonomia que se quer do aprendiz.

Mediatizar, na perspectiva do processo educacional, significa, segundo BELLONI (2001, p. 26):

(...) conceber  metodologias de ensino e estratégias de utilização de materiais de ensino/aprendizagem que potencializem ao máximo as possibilidades de aprendizagem autônoma. Isso inclui desde a seleção e elaboração de conteúdos, a criação de metodologias de ensino e de estudo, centradas no aprendente, voltadas para a formação da autonomia, a seleção dos meios mais adequados e a produção de materiais, até a criação de estratégias de utilização de materiais e de acompanhamento do estudante, de modo a assegurar a interação do estudante com o sistema de ensino.

Como uma modalidade de ensino e de aprendizagem mediatizada, a EAD deve considerar os dois principais componentes, destacados por Belloni, de uma nova pedagogia: a utilização cada vez maior das tecnologias de produção, estocagem e transmissão de informações, por um lado, e, por outro, o redimensionamento do papel do professor. Este tende a ser amplamente mediatizado: como produtor de mensagens inscritas em meios tecnológicos, destinadas a estudantes a distância, e como usuário ativo e crítico e mediador entre estes meios e os alunos.

A EAD, para Belloni (1999), usa a tecnologia como forma de mediatizar o processo de ensino e de aprendizagem. Embora todo processo educativo seja mediatizado, visto que há necessidade de se traduzir as mensagens pedagógicas, a autora argumenta que a EAD tem que potencializar as virtudes comunicacionais do meio técnico a ser utilizado, no sentido de oportunizar  que o estudante possa realizar sua aprendizagem de modo autônomo e independente.

Deste modo, a EAD pode contribuir significativamente não só para a transformação dos métodos de ensino e da organização do trabalho pedagógico, mas também para a utilização adequada das tecnologias de mediatização da educação, implicando, nesse caso, uma redefinição da comunicação nos processos educacionais.

A comunicação constitui-se, assim, um dos elementos centrais na EAD, tendo em vista, sobretudo, a relação professor-aluno, que não se estabelece mais face a face, mas sim pela mediação de textos, veiculados pelas tecnologias da informação e da comunicação.

A educação a distância pode possibilitar, ainda, aquilo que Belloni (2001, p. 12) denomina de educação para as mídias, cujos objetivos dizem respeito à formação do usuário ativo, crítico e criativo de todas as tecnologias de informação e comunicação. Ela deve ser pensada, pois, como um modo privilegiado de educar para a comunicação

Educar para a comunicação é, segundo Costa (1993), orientar para realizar análises mais coerentes, complexas, completas, e, ao mesmo tempo, ajudar a expressar relações mais ricas de sentido entre as pessoas. É uma educação que gera novas relações simbólicas e novas expressões do ser social.

Alonso (2002), em interlocução com Keegan (1983), Shale (1990), Garrison (1993), enfatiza que a diferença entre a educação a distância e a presencial seria meramente retórica, uma vez que as bases epistemológicas que as fundamentam são as mesmas. Isso quer dizer que os processos de ensino/aprendizagem, sejam eles presenciais ou não, partem de compreensões sobre o desenvolvimento cognitivo que implicam organizar os sistemas educacionais de uma maneira, e não de outra. Para estes mesmos teóricos, segundo Alonso, a EAD teria sua especificidade ao considerar que a relação face a face entre alunos e professores se rompe, e que as aprendizagens poderiam ocorrer em ambientes que transcendem às salas de aulas, processando-se em outros tempos e espaços que não os marcados pelas escolas convencionais

 Desta maneira, a EAD teria, como problema fundamental, organizar processos de ensino/aprendizagem que dessem conta de suprir a não-presencialidade.

Dentre os elementos indispensáveis para suprir essa não-presen-cialidade, garantindo a interlocução entre os sujeitos da prática educativa, estão a organização dos materiais didáticos, o processo de comunicação, o serviço de orientação acadêmica (tutoria), o uso de tecnologias, etc. São os materiais didáticos, consubstanciados em textos, que oportunizarão o diálogo, a interlocução, entre os professores, os estudantes e os orientadores acadêmicos (tutores).

Os orientadores acadêmicos (tutores) são fundamentais na organização do sistema de EAD, tendo em vista terem o papel de mediadores entre os alunos e os materiais didáticos trabalhados e serem os avaliadores do processo de ensino-aprendizagem. Como um dos sujeitos da EAD, cabe ao orientador acadêmico o acompanhamento sistemático da aprendizagem do aluno e das condições pedagógicas e materiais para  que ocorra essa aprendizagem.

A Educação a Distância, na concepção do ForGrad2, é vista como uma modalidade pedagógica que pode, ao lado de outras modalidades, contribuir  para a busca de novos paradigmas educacionais, que venham ao encontro dos princípios anteriormente descritos.

Dentre esses paradigmas, ganha destaque, a partir de Moraes (1997), aquele que traz uma percepção holística de mundo, o contexto, o global, a visão sistêmica, que enfatiza o todo em vez das partes. É uma visão ecológica que reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza.

Esse novo paradigma traz como proposta pedagógica:

u o reconhecimento da educação como um sistema aberto, em interconexão permanente com outras práticas sociais;

u reconhecimento do ser humano em sua multidimensionalidade, dotado de múltiplas inteligências, com diferentes capacidades  cognitivas;

u a educação associada à vida, conectada à realidade do indivíduo, contextualizada;

u a compreensão da complexidade do conhecimento e de seu processo de construção;

u a interconectividade dos conceitos, das teorias e dos problemas educacionais.

É uma educação que se propõe a contribuir para a formação do indivíduo cidadão, em que o individual e o coletivo são pensados dialeticamente. Pensada nessa perspectiva, é imprescindível que ela seja organizada e desenvolvida como ação planejada tanto no plano político, como no pedagógico.

Assim, qualquer processo de gestão deve se realizar a partir dos referenciais, princípios e diretrizes que dão sustentação aos projetos político-pedagógicos.

É mediante o desenvolvimento de projetos político-pedagógicos que a ação educativa se desenvolve. Como instrumento de ação política, o projeto deve ter como objetivo propiciar condições para uma formação que abranja não só a dimensão da competência em termos dos conhecimentos técnico-científicos que o mundo do trabalho exige, mas também a dimensão da competência política, social, cultural, ética e humanista que a formação do cidadão requer.

Todo projeto político-pedagógico deve ser construído e vivenciado por todos os envolvidos no processo educativo, tendo como elementos fundamentais: Finalidades, Estrutura Organizacional, Currículo, Processo de Gestão e Avaliação.

Assim, o processo de gestão e o de avaliação são elementos fundamentais no contexto de um projeto político-pedagógico.

O Processo de Gestão e de Avaliação na EAD

A gestão em EAD, como em qualquer outra modalidade educativa, deve ser vista como um processo que busca viabilizar um projeto político-pedagógico, mediante a previsão de formas de organização e funcionamento, de relações de trabalho e de recursos físicos, materiais e financeiros necessários ao cumprimento das finalidades e objetivos definidos.

A gestão na área educacional remete-nos, segundo Bussmann (2000), a algumas reflexões sobre administração, pois auxilia a compreender, situar e realizar o processo e os procedimentos de planejamento da escola, sua organização e seu funcionamento, para que sejam alcançados os objetivos e seja cumprida sua tarefa socioeducativa, como organização de natureza social. A organização, nesse caso, é compreendida como um conjunto de pessoas e recursos articulados para a realização de um objetivo ou um conjunto de objetivos, mantendo interação com o meio.

Administrar, para Bussmann, é agir de modo a combinar adequadamente o uso de recursos disponíveis para atingir objetivos. É, portanto, uma ação finalista, voltada à obtenção de algum resultado. Implica, por esta razão, processo decisório e de acompanhamento e avaliação daquilo que é proposto pelo projeto político-pedagógico.

Martins e Polak (2001) afirmam que administrar é o ato de trabalhar com as pessoas e por meio das pessoas para realizar objetivos e atingir resultados. A tarefa de administrar seria, então, a de interpretar os objetivos propostos e transformá-los em ações por meio do planejamento, da organização, da direção e do controle e avaliação em todas as áreas e nos diferentes níveis das organizações e instituições, sejam elas de natureza pública ou privada.

A gestão na escola assenta-se, nesse sentido, nos princípios e diretrizes que dão sustentação a uma proposta de ação, devendo o corpo administrativo referendar-se e agir em conformidade com esses princípios. A avaliação deve constituir-se, nesse sentido, um dos elementos indissociáveis do processo de gestão.

A avaliação, como prática educativa, deve ser compreendida, segundo Neder (1996), como uma atividade política, cuja principal função é a de propiciar subsídios para tomadas de decisões quanto ao direcionamento das ações em determinado contexto educacional. A avaliação não pode ser vista, portanto, isolada de um projeto concreto que traga em seu bojo determinada proposta de ação e que busque modificações de uma determinada situação. 

Mediante o processo de avaliação, os sujeitos da ação educativa devem ter uma compreensão crítica da realidade escolar em que estão inseridos, com vistas ao aprimoramento das ações propostas e vivenciadas no contexto do projeto político-pedagógico.

Como processo de reflexão crítica sobre a realidade, a avaliação deve buscar desvelar necessidades e problemas relativos ao trabalho educativo, com o intuito de resolvê-los. Nesse sentido, a avaliação não se limita apenas ao aspecto do rendimento escolar, devendo estar vinculada aos elementos definidores de determinada proposta educacional, tais como Finalidade, Estrutura Organizacional, Proposta Curricular, Tempo Escolar, Relações de Trabalho, Processo de Decisão e Avaliação.

No caso de projetos da educação a distância, alguns elementos, definidores de sua identidade merecem atenção especial no processo de gestão e avaliação, além daqueles circunscritos a qualquer outro projeto educacional. A organização de um sistema de EAD, conforme Preti (1996), é algo mais complexo, às vezes, que um sistema tradicional presencial, visto que exige não só a preparação de material didático específico, mas também a integração de multimeios e a presença de especialistas nesta modalidade. O sistema de acompanhamento e avaliação do aluno requer, também, um tratamento especial, com a participação não só dos professores e alunos, mas também de orientadores acadêmicos (tutores).

Num processo de gestão e avaliação de um Projeto de Educação a Distância, duas dimensões devem ser trabalhadas: a Dimensão relativa à proposta pedagógica do curso e a Dimensão relativa à modalidade de organização do curso.

  Na dimensão relativa à proposta pedagógica do curso, é importante considerar:

u as finalidades, objetivos, metas que se pretende alcançar com o curso;

u a proposta curricular, com a definição das diretrizes, princípios, conteúdos, metodologia de ensino;

u material e recursos didáticos a serem utilizados,

u sistema de orientação acadêmica (tutoria);

u sistema de acompanhamento e de avaliação de aprendizagem;

u equipe técnica de apoio e o corpo docente responsável pelo curso;

Na Dimensão relativa à modalidade de organização do curso, devem  estar explicitados:

u sistema de comunicação que permita uma interlocução efetiva entre os diferentes sujeitos envolvidos na ação educativa (dirigentes, professores, estudantes, orientadores acadêmicos);

u um modelo de gestão que defina como se dará a relação entre os diferentes sujeitos da ação (como será organizado o processo de decisão acadêmico-administrativa?);

u de infra-estrutura física (haverá centros de apoio em localidades próximas aos alunos?)

u das funções dos diferentes sujeitos do processo;

u das instâncias de poder onde serão decididas as questões relativas ao curso;

u como se dará o processo de distribuição do material didático do curso;

u como se dará o registro acadêmico das atividades desenvolvidas;

u os recursos orçamentários, financeiros e a infra-estrutura necessária à realização do curso.

Cada uma dessas dimensões precisa ser acompanhada e avaliada, a partir de seus elementos constitutivos, alicerçados nas compreensões de Educação e de Educação a Distância que dão sustentação ao projeto do Curso a ser avaliado.

É necessário ter presente que qualquer proposta político-pedagógica sustenta-se em paradigmas educacionais que orientarão os princípios norteadores do currículo e, por conseguinte, da compreensão sobre o processo de ensino e de aprendizagem. Darão orientação, ainda, aos processos de comunicação, de gestão e de avaliação a serem implementados.

Ter clareza dos paradigmas de sustentação do projeto é o primeiro passo, portanto, para se definir o processo de gestão e proceder à avaliação de qualquer uma das dimensões e elementos acima explicitados.

Referências bibliográficas

ABRAMOWICZ, Mere. Avaliação - Tomada de decisão: subsídios para um repensar. In: Estudos em Avaliação Educacional. Fundação Carlos Chagas, jul./dez. 1994, nº 10.

ALONSO, Kátia Morosov. A Gestão de Sistema de EAD. NEAD/UFMT, 2002 (mimeo).

BUSSMANN, Antônia Carvalho. O Projeto Político Pedagógico e a Gestão da Escola. In: VEIGA, Ilma Passos A. (org). Projeto Político Pedagógico da escola. Uma construção possível. São Paulo: Papirus, 1995.

DEMO, Pedro. Avaliação Qualitativa. Polêmicas de nosso Tempo. Campinas/SP: Editores Associados, 1996.

LUCKESI, Cipriano. A Avaliação da Aprendizagem escolar. São Paulo: Cortez, 1996.

MARTINS, Onilza Borges e Polak, Ymiraci N. de Souza. Gestão: Relações de Poder e suas Formas. In: MARTINS, Onilza Borges e Polak, Ymiraci N. de Souza (org.). Planejamento e Gestão em Educação a Distância. Unirede, 2001.

MELLO, Guiomar Namo. Políticas Públicas de Educação. In: Estudos Avançados. São Paulo: USP, Instituto de Estudos Avançados, dez. 1991. (Coleção Documentos, Série Educação para a Cidadania)

NEDER, Maria Lucia Cavalli. Avaliação na Educação a Distância: significados para definição de Percursos. In: PRETI, Oreste (org.). Educação a Distância: inícios e indícios de um percurso. Cuiabá: UFMT, 1996.

PRETI, Oreste. Educação a Distância: uma prática educativa mediadora e mediatizada. In: PRETI, Oreste (org.) Educação a Distância: inícios e indícios de um percurso. NEAD/IE/UFMT. Cuiabá: UFMT, 1996.

NOTAS:

 

1   Professora do Departamento de Teorias e Fundamentos da Educação do Instituto de Educação e membro do Núcleo de Educação Aberta e a Distância – NEAD, da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT, com publicações e produções de software educativo para cursos de EAD.   reluneder@uol.com.br

2   Fórum dos Pró-Reitores de Ensino de Graduação (2002).

 


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