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CULTURA POPULAR E EDUCAÇÃO
PGM 4
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ENGENHO
E ARTE
RICARDO GOMES LIMA Existem
palavras muito perigosas porque, quando empregadas, podem encobrir a
realidade ao invés de desvelá-la e, mais do que isto, podem
transformar-se em instrumento de hierarquização e discriminação entre
pessoas, objetos, atos. Este é o caso dos termos artesanato e arte
popular. Senão vejamos. Tomada
em sua acepção original, a palavra artesanato significa um fazer ou o
objeto daí resultante que tem por característica o fato de ser
eminentemente manual. Isto é, são as mãos que executam o trabalho. São
elas o principal, senão o único instrumento que o homem utiliza na
confecção do objeto. O uso de ferramentas, inclusive máquinas, quando e
se ocorre, se dá de forma apenas auxiliar, como um apêndice ou extensão
das mãos, sem ameaçar sua predominância. Assim,
esses instrumentos auxiliares como um formão ou um pincel, uma agulha ou
um martelo, um torno de olaria ou um tear não definem o processo, pois no
artesanato o que importa é o fazer com as mãos, o fazer manual. É o
gesto humano que determina o ritmo da produção. É o homem que impõe
sua marca sobre o produto. Quando
raciocinamos no sentido de associar artesanato e mãos, estamos nos
remetendo a uma dicotomia: aquela que opõe o fazer manual ao fazer mecânico,
sendo este aquele em que a interferência humana é mínima e está
subordinada à máquina que executa suas funções com quase total
autonomia (por vezes a autonomia chega a ser total mesmo!). Esta
oposição é muito recente na história da humanidade. Ela surge com a
Revolução Industrial, na Europa, no século XVIII e, desde então, vem
transformando a realidade de sociedades as mais distintas e aparentemente
isoladas na face da Terra. Podemos mesmo afirmar não existir hoje um único
agrupamento humano que não tenha arrolado, no inventário dos bens de seu
uso cotidiano, um objeto cuja origem se deve à máquina. Indigenistas
envolvidos em frentes de atração para contatar grupos isolados em território
brasileiro são unânimes em afirmar que, ao chegar a uma aldeia indígena
nunca antes visitada, invariavelmente se deparam com objetos
industrializados, oriundos de nossa cultura. Lá estão panelas de alumínio,
latas e vasilhas de plástico, miçangas, facões e machados de ferro,
frutos do escambo entre grupos tribais, da pilhagem e incursões ao mundo
branco regional. A importância dos objetos industrializados é tamanha
para o indígena que eles têm sido utilizados como “presentes” nas
frentes de atração. Num primeiro momento são eles que atraem, uma vez
que seduzem, cativam. Se
considerarmos a diversidade de culturas do passado e do presente, nem
vagamente conseguiremos ter uma idéia do montante de objetos que foram
produzidos pelo homem. E todos artesanalmente. Para uma idéia do grau de
dificuldade neste cálculo, basta que nos lembremos do fato de que a existência
da humanidade é estimada em milhões de anos e que, apenas há três séculos,
ocorreu a Revolução Industrial. Até então, o mundo vinha sendo construído
integralmente de modo artesanal. Isto
não significa, no entanto, que o artesanato seja algo do passado, uma
sobrevivência que necessariamente esteja fadada à extinção. Uma espécie
que, obediente às leis da natureza, irá desaparecer, cedendo espaço a
outras formas de produção (sendo a industrial a atual). Se tal parece
vir ocorrendo, é resultado de fatores de outra ordem. É decorrência da
maneira pela qual os grupos sociais se organizam, do modo como se pensam,
das prioridades e hierarquias que constroem para eles mesmos e para os
demais, do que elegem como o melhor, o mais bonito, o mais perfeito. Embora
muitos não percebam, os objetos artesanais continuam a ser produzidos e
convivem com os produtos da indústria, compondo o dia-a-dia de cada um de
nós. Nota-se mesmo, nas últimas décadas, nos países de primeiro mundo,
o ressurgir do interesse pelos objetos feitos à mão que alcançam altos
preços de mercado. Portanto,
o artesanato é uma maneira de fazer objetos, existente há milênios.
Toda a Antigüidade foi assim construída e até a Idade Média européia,
essa foi a forma pela qual a humanidade se fez. E porque essa era a única
maneira de confeccionar objetos durante esse longo período, quando nos
referimos a ele, o termo artesanato não é enfatizado. O termo é mais
empregado ao nos referirmos ao período pós- Revolução Industrial,
quando o objeto criado pela indústria passa a ser visto em oposição ao hand
made. Benita
tem 40 anos e mora na comunidade de Candeal, no município mineiro de Cônego
Marinho. Lá, além de cuidar da casa, do marido e dos filhos, dos animais
domésticos e do pequeno roçado em que a família planta principalmente
milho, feijão e abóbora, ela faz louça de barro. Modela peças que usa
no trabalho doméstico e também vende para atender à demanda da vizinhança
e do mercado regional. São potes, panelas, pratos e moringas feitos com o
bom barro que ela, assim como as outras mulheres de sua comunidade, sabe
reconhecer muito bem. Um saber resultante do conhecimento que vem sendo
transmitido geração após geração pelas mulheres de seu grupo. Todo
fim de tarde, Antonio Marques chega à praia de Iracema, em Fortaleza e
arma sua barraca. Ali, junto a outros expositores, ele vende sandálias,
cintos, bolsas, prendedores de cabelo, pulseiras, porta-retratos, molduras
para espelho, caixinhas. Tudo feito em couro que ele amacia, corta, cola,
costura, decora com pirogravura, pinta e enverniza etapas do processo que
vem aperfeiçoando há 40 anos. Desde que, ainda jovem, tornou-se “hippie”
e, contestando a sociedade de consumo, abandonou a vida de classe média,
escola e família em São Paulo e, mudando-se para a praia de Canoa
Quebrada, adotou o que parecia a ele, e a muitos, uma maneira alternativa
de viver. Paulo
Aguiar dá mais uma pincelada. O vermelho da tinta parece saltar sobre o
fundo grafite da tela. Falta pouco para finalizar a pintura com que
pretende se inscrever no Salão de Artes Plásticas. Sonha com o prêmio.
Acredita que desta vez irá consegui-lo, afinal a crítica vem sendo
elogiosa com tudo que faz. Para isso tem se esforçado. Desde que se
formou na Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro vem aperfeiçoando o que
aprendeu. Além da pesquisa de cores, formas, volume, seu trabalho tem
sido marcado pela busca do único. Chegou ao ponto de, ele mesmo, fazer as
telas que estica e prende em chassis de madeira que serra e fixa no ateliê
contíguo à casa em que mora, em Curitiba. Dona
Alice dos Santos, viúva e professora, vê, no fim do mês, minguar a pensão
deixada pelo marido e o rendimento de sua aposentadoria. Também, a farmácia
consome quase tudo. Se não fosse a ajuda dos filhos!
Hoje, ela está atarefada. Aproxima-se o Natal e ainda há muito
por fazer. No sofá da sala, um olho na TV acompanhando a novela, e outro
na agulha, dá acabamento às bonecas que fez com retalhos. Foi a forma
que encontrou para burlar a carência e presentear as netas. Ao lado, uma
pilha de panos de prato aguarda pelos biquinhos de crochê. Serão os
presentes para as amigas. Dona Alice sorri. Que bom ter aprendido ainda moça
a costurar, bordar, fazer crochê e tricô. Artes que hoje lhe permitem
fugir ao sufoco do orçamento apertado e expressar carinho pelos parentes
e amigos, presenteando-os. Vizinha
a Dona Alice, mora Zenaide. Também ela não tem uma vida financeira
folgada. Há dois anos está desempregada. Formada em química, de início
procurou emprego junto a indústrias, mas o mercado está em retração.
Tomou então a decisão de mudar de ramo. Pesquisando, encontrou um nicho
no mercado: a confecção de “botons”, imãs de geladeira e outros
pequenos objetos feitos com porcelana fria. Ir em frente depende de sua
habilidade, pois o capital para o negócio foi resolvido com o saque do
FGTS. Precisou comprar apenas a matéria-prima e poucas ferramentas para o
trabalho. Após freqüentar um cursinho no SENAC e sob orientação do
Sebrae, acaba de abrir um quiosque num shopping popular do centro de
Salvador. Gustavo
Nogueira está feliz. Foram anos de tentativas após se formar na Escola
Superior de Desenho Industrial no Rio de Janeiro e passar por um estágio
em Milão, onde exercitou o olhar, estudou formas e estéticas diversas.
Agora, acaba de receber uma encomenda que pode mudar sua vida. Finalmente,
as jóias que desenha e executa, uma a uma, chamaram atenção de uma
grande rede de joalherias que as quer nas vitrines de suas lojas,
espalhadas por importantes shoppings da cidade do Rio de Janeiro, onde
reside. Ela
colhe o algodão, descaroça, fia e tinge os novelos com que tece as
colchas que são a cara de Olhos D‘Água, cidade goiana próxima de Brasília.
Todo o longo processo de fiação e tecelagem, Maria de Fátima aprendeu
com sua avó, de quem também herdou o velho tear horizontal, marca da
tradição portuguesa. Enquanto sua avó tecia visando às necessidades da
família, hoje, Fatinha se desdobra para atender às encomendas dos mais
diversos pontos do país. Seus produtos tornaram-se conhecidos depois de
uma exposição que realizou num centro cultural da capital do país. Em
São Paulo, Ana Maria está feliz. Filha de um conceituado escultor
modernista, ainda cedo resolveu abraçar a carreira do pai, dedicando-se
especialmente ao mármore e ao bronze, materiais em que busca colocar toda
sua emoção. Atualmente, mergulhada no trabalho, desenvolve uma nova
proposta que espera ser bem recebida tanto pela crítica especializada
quanto pelo público. Estas
situações descritas guardam entre si uma unidade que o olhar mais atento
pode perceber: Se tomarmos como referência o sentido da palavra
artesanato com que demos início a este texto, veremos que a louceira do
interior, o expositor da praça, o pintor, a professora aposentada, a
vendedora do shopping, a artista plástica, a tecelã e o designer
de jóias, todos, sem exceção, executam com as próprias mãos o que
concebem. Todos eles são artesãos. Por
outro lado, essas histórias apresentam entre si disparidades por vezes
enormes. São diferenças que decorrem não apenas das distintas
geografias do país, das distâncias entre os mundos rural e urbano, mas
principalmente da diversidade de contextos socioculturais apresentados e
das particularidades das histórias de vida de cada personagem que fazem
com que sejam classificados em posições diferenciadas. Assim,
posso dizer que a louceira e a tecelã fazem arte folclórica ou
artesanato tradicional ou cultural ou de raiz. Se Benita
se aventura um pouco mais e, deixando de lado a produção de louça
utilitária, modela alguns boizinhos, cavalos, patos e galinhas para
brinquedo dos filhos, alguns dirão que ela faz arte popular; a
professora aposentada participa do primeiro grupo quando costura
bonequinhas de pano; já ao se dedicar à confecção de panos de prato
junta-se à vendedora do shopping fazendo trabalhos manuais
ou manualidades (para alguns, esta última realiza industrianato);
o expositor da praça faz artesanato hippie, o joalheiro produz design
contemporâneo e o pintor e a escultora produzem arte erudita ou
arte contemporânea ou a verdadeira arte. Quantos termos,
quanta classificação! Há
mil maneiras de ordenar o mundo e eu posso organizar nossos personagens de
acordo com muitos critérios de classificação. Uma forma comum, e
simplificada, é aquela que opõe artesanato e arte. Neste sentido, a
louceira de Minas Gerais, a tecelã goiana, a dona de casa aposentada, o
feirante de Fortaleza e a química do shopping são tidos como
artesãos enquanto o designer de jóias, o pintor e a escultora são
rotulados de artistas. Por que isto? Qual a lógica que preside esse
sistema? Na
realidade, se observarmos com atenção, veremos que esta questão
refere-se à distinção de classes sociais. Essa oposição resulta da
dicotomia elite e povo e remete à mesma matriz que atribui às camadas
dirigentes, o saber, opondose-lhes o fazer, necessariamente
associado às camadas subalternas. Assim, supõe-se que tudo aquilo que
advém da ação das elites é resultante de um conhecimento superior, é
fruto do pensar, é o fazer artístico, negando-se às camadas
populares da sociedade a capacidade de pensar, a possibilidade de conceber
e se expressar racionalmente. A estas só resta o mero fazer. O fazer
artesanal. Antonio
Augusto Arantes, contribuindo para o entendimento dessa questão,
argumenta que: “Nas
sociedades industriais, sobretudo nas capitalistas, o trabalho manual e o
trabalho intelectual são pensados e vivenciados como realidades
profundamente distintas e distantes uma da outra.
Reflitamos
um minuto, por exemplo, sobre as diferenças sociais que há entre um
engenheiro e um eletricista, ou entre um arquiteto e um mestre-de-obras.
Além
da discrepância entre salários e ao lado das formações profissionais
diversas, há um enorme desnível de prestígio e de poder entre essas
profissões, decorrente da concepção generalizada em nossa sociedade de
que o trabalho intelectual é superior ao material. Embora
essa separação entre modalidades de trabalho tenha ocorrido num momento
preciso da história e se aprofundado no capitalismo, como decorrência de
sua organização interna, tudo se passa como se ‘fazer’ fosse um ato naturalmente
dissociado de ‘saber’. Essa
dissociação entre ‘fazer’ e ‘saber’, embora a rigor falsa, é básica
para a manutenção das classes sociais pois ela justifica que uns tenham
poder sobre o labor dos outros.” (ARANTES, 1988:13-4) Portanto,
na medida em que, na ideologia capitalista, se dissociam o trabalho
intelectual e o trabalho manual, respectivamente vinculados à elite e ao
povo, condena-se a produção popular ao domínio da irracionalidade, da
inconsciência, da espontaneidade do fazer. Daí ser comum vermos pessoas
encantarem-se com a beleza da produção popular e exclamar: “É
inexplicável o fato de que pessoas tão pobres possam produzir coisas tão
belas!” Como se o povo não pensasse sobre aquilo que realiza! Ora,
essa maneira de classificar é extremamente discriminatória, pois confina
as criações populares num gueto, resultando em reserva de mercado para a
produção de origem erudita, específica da camada dirigente ou daqueles
que com ela se identificam. O objeto artesanal, destinado a feiras e
mercados, tem seu valor diminuído em decorrência exatamente deste
sistema de classificação. Ao
contrário, pesquisas realizadas junto a grupos sociais específicos têm
demonstrado que uma das características da produção artesanal, enquanto
processo de trabalho, reside exatamente na integração da atividade
manual com a intelectual, na associação entre a obra produzida e seu
autor, o oposto do que ocorre na produção industrial onde, aí sim, em
decorrência do princípio da divisão social do trabalho e da especialização,
essas instâncias se separam. O
estabelecimento dessas fronteiras é marcado pela história do país;
acompanha o desenvolvimento da sociedade brasileira desde o período
colonial. Herdeiro
da tradição européia de organização do trabalho, o Brasil Colônia
adotou o sistema e a nomenclatura de trabalho do regime corporativo
surgido na Europa medieval. Assim como em Portugal, aqui, até o século
XVIII, se constata uma diferenciação entre oficiais mecânicos e artistas,
sendo estes últimos considerados pintores, escultores, engenheiros e
arquitetos. Com a gradativa degradação das corporações de ofício,
extintas oficialmente pela Constituição liberal de 1824, essa
nomenclatura foi abandonada. A partir dessa data, sucessivos censos
registram várias designações oficiais para as ocupações no país. Em
1872, adota-se uma classificação que separa profissões liberais
(incluindo a dos artistas), profissões manuais ou mecânicas (a
dos artesãos ) e profissões industriais e comerciais. Já em
1900, define-se o seguinte quadro: profissões industriais
(compreendendo: agrícolas, pastoris, extrativas e manufatureiras) e artes
e ofícios, sem discriminação por setor de produção. A partir de
1920, a designação artes e ofícios desaparece e o censo,
refletindo o espírito da modernização desenvolvimentista que classifica
os setores produtivos da economia em primário, secundário
e terciário, identifica quatro setores básicos de produção:
agricultura, indústria, comércio e serviços
(cf. Porto Alegre, 1985 ). Indaga
Sylvia Porto Alegre: “Onde
ficam os ‘artistas’? Onde ficam os ‘artesãos’? Submergidos no
interior da sociedade, sem reconhecimento formal, esses grupos passam a
ser vistos de diferentes perspectivas pelos seus intérpretes, a maioria
das vezes engajados em discussões que se polarizam entre cultura erudita
x popular...” (Porto Alegre, 1985:11) O
urbano, o escolarizado, o erudito, o intencional e o sofisticado são, de
acordo com esse discurso polarizado, o que qualifica e distingue a matéria
com que opera: a “grande arte” ou simplesmente a arte.
Ao popular, definido por oposição ao erudito e a partir de
categorias que lhe são estranhas, é reservado um espaço de menor importância
é a “arte popular” ou apenas “o artesanato”. Esse
discurso, resultante de uma postura elitista, deve ser abandonado em prol
de uma análise da realidade social que incorpore as representações
daqueles que, sob denominação de artistas populares ou artesãos, a par
de serem portadores de um saber de grande significado cultural refletido
em suas criações, são também integrantes de realidades históricas
concretas, sobre as quais agem, reagem e refletem. Como
assinala Sylvia Porto Alegre, “Toda
discussão sobre fronteiras entre ‘arte’ e ‘artesanato’, entre
‘artista’ e ‘artesão’, a partir do discurso dominante, carece de
sentido dentro da perspectiva do indivíduo que exerce essa atividade pois
ele raramente separa a instância do trabalho manual ou mecânico
(‘artesanal’) do trabalho intelectual e confere a ambos igual
dignidade.” (Porto Alegre,
1985: 10) Portanto,
para que se possa chegar à descoberta de categorias sociais plenas de
significado, é necessária a observação interna do universo da arte
dita popular. É necessária
a análise que venha a aferir quais os modos de vida, os valores e as
perspectivas dos indivíduos e grupos sociais que dão forma às múltiplas
expressões de arte que se convencionou denominar populares.
Importa perceber como os próprios artistas definem suas obras, e a
noção particular de “arte”, para que se possa, com suas categorias,
chegar a entendimentos da realidade que não sejam produtos de posturas
etnocêntricas. O
uso das categorias artesanato e arte deve ser redirecionado. É importante
percebermos que se referem a termos aplicáveis a diferentes planos
discursivos. Num certo sentido, trata-se mesmo de realidades distintas e não
das faces de uma mesma moeda. Minha
proposta é que reservemos o termo artesanato para nos referir ao processo
de produção do objeto, à tecnologia que, predominantemente executada
com as mãos, dá forma ao objeto, independente de sua origem erudita ou
popular. Assim, tanto a rendeira de bilro quanto o oleiro ou o escultor
consagrado, para realizar seu trabalho lançam mão de uma tecnologia em
que a manualidade é da maior importância. E isto é artesanato. Assim,
ao falar sobre a matéria-prima com que o objeto é confeccionado, ao
descrever as etapas do processo de feitura desse objeto, passo a passo,
estamos transitando no domínio do artesanato. Num
outro plano, podemos discursar sobre este mesmo objeto, preocupados em
desvelar questões de estética, de equilíbrio de massas, de proporções,
de contrastes entre forma e fundo, de ritmo, de cores. De conteúdos simbólicos,
de sistemas de significados, expressos ou latentes. Aí, estarei falando
de arte. Não importa se o objeto é o pote de barro de Benita ou a
escultura em bronze de Ana Maria. Se erudito ou popular. REFERÊNCIAS ARANTES,
Antonio Augusto. O que é cultura popular. São Paulo: Brasiliense,
1988. (Coleção Primeiros Passos, n.36) PORTO
ALEGRE, Maria Sylvia. Arte e ofício de artesão: história e trajetória
de um meio de sobrevivência. Águas de São Pedro, 1985. Trabalho
apresentado no IX Encontro Anual da ANPOCS, 22-25 out. NOTAS: 1
Professor do Instituto de Artes da UERJ; Pesquisador do Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular / Funarte / Ministério da
Cultura; Doutorando do Programa de Pós –Graduação em Sociologia e
Antropologia/ IFCS/ UFRJ.
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