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CULTURA POPULAR E EDUCAÇÃO
PGM 2
– NO
MELHOR DA FESTA FESTAS POPULARES BRASILEIRAS CARLOS RODRIGUES BRANDÃO Obrigados
ao tempo e à lógica do trabalho produtivo, sempre fomos seres voltados
à realização de um profundo e permanente desejo de imaginação, de ócio
e de festejo. Inútil dizer que assim tem sido porque faz parte da
“natureza humana”. Os homens não se entregam à festa apenas porque são
naturalmente lúdicos. Por
certo, razões simbólicas da vida social levaram o homem de todas as
culturas a aprender a celebrar. A festa não é só contraponto da rotina
laboriosa que mantém a sociedade viva e ordenada; ela estende para muito
além do cotidiano a experiência da vida social.Tanto quanto lúdicos,
somos festivos, e não há cultura que possa dispensar a festa. Se
aqui ela comemora a colheita, mais adiante festeja os tempos da natureza,
como a primavera e o verão; se em um momento ela celebra o dia do aniversário
de uma pessoa, em outro comemora o nascimento de um deus, de um herói
ancestral ou de uma nação; alegre e mesclada em um momento de fantasia,
ela também lembra a morte e o pesar por não sabermos ainda resolvê-la;
enquanto outra cultura salienta com canto
e dança a história real ou mítica de sua sociedade. Se
algumas festas comportam o exagero de condutas e a aparente ruptura da
ordem da vida fora dela, há de ser para que as pessoas possam estabelecer
com os seus símbolos, situações notáveis e privilegiadas, para que
realizem entre elas e sobre elas intenções e efeitos
importantes. Assim, no fundo nada há de inútil ou dispensável na vocação
humana de festar, embora muitas vezes a festa aspire a ser o
generoso reinado de um coletivo ócio ativo e um momento de solidária e
improdutiva gratuidade. A
festa se obriga também a simbolicamente traduzir a evidência da diferença
e da desigualdade. Ela enuncia a diversidade das identidades sociais, propõe
hierarquias, sacraliza o poder e, na maioria dos casos, convoca homens e
mulheres a se unirem no desejo de manter como está o mundo em que vivem e
festejam, mesmo quando ela possa parecer que transgride sua ordem e sugere
a ruptura: “cantemos e dancemos como sempre foi, para que o mundo e nós
continuemos sendo como os nossos antepassados foram e nós devemos ser”. Ora,
é a partir do que acontece com a própria pessoa, quando ela se festeja
ou é festejada, que ganha aqui o seu sentido mais evidente a idéia tão
antiga e tão atual de que a festa é uma fala, uma memória e uma
mensagem, em que cerimonialmente se separam aquilo que deve ser esquecido
e aquilo que deve ser preservado, festejado. Aqui e ali, eis que a cultura
de que somos parte, dentro da família, da igreja, da associação
profissional, a todo o momento interrompe a seqüência dos dias da vida
cotidiana e demarca ritualmente momentos de festejar. Momentos alegres ou
solenes em que somos singular ou coletivamente chamados à cena, postos à
cabeceira da mesa, presenteados, honrados com falas ou lágrimas. Eis nos
por um breve instante colocados em evidência para que alguma coisa
indispensável como sentido da vida e ordem do mundo seja lembrada e dita
cerimonialmente por meio de nós, que, festejados, durante um momento
especial somos símbolo. Mas,
essencialmente, o que é a festa? O que a torna em todos os tempos e
lugares tão universal quanto a família, tão necessária quanto o
trabalho e tão desbragadamente gratuita como uma terça-feira gorda? O
Carnaval é festivo em excesso e aparentemente transgressor. Um festejo de
solturas ilimitadas, o seu personagem mais típico é o folião
:
figura que se dissolve no malandro, esse Macunaíma que habita dentro de
todos nós. Já a Semana Santa é devota, e mais nela do que no Carnaval
(civil e popular), do que na Semana da Pátria (oficial e “das
autoridades”), fica evidente uma dualidade de maneiras de festejar: as
da Igreja Católica, como instituição, e das nossas culturas e costumes
populares. Ora, à exceção da malhação do judas, das comilanças do
domingo e da volta do Carnaval no sábado de Aleluia, a Semana Santa é
religiosa e marcada pela memória da dor, até que se anuncie o momento da
ressureição. Mas estejamos atentos justamente aos seus opostos: a contrição
que antecede o júbilo, o jejum que precede a comilança, os festejos
religiosos entremeados com os profanos. Finalmente,
tudo o que envolve o “espírito” dos festejos oficiais da Semana da Pátria
tem a ver com uma sacralização da comunidade civil que o Sete de
Setembro enuncia com parada e ênfase como a Pátria. Ora,
nas três situações festivas, tomadas aqui como um mero exemplo de
passagem, assim como nos seus desdobramentos e nas festas de outras datas,
existem situações e intenções comuns. Vejamos: 1ª: o excesso
consciente do uso de símbolos (bandeiras, cores, músicas, caricaturas, máscaras,
uniformes, cantos e danças, dramas e celebrações) que suportem ênfases,
algo que se pretende viver ou evidenciar em escala muito acima da
rotineira; 2ª: a celebração, a comemoração de alguma coisa, de alguma
real ou suposta relação entre o homem e a natureza, entre ele e sua vida
social, entre os homens e seus deuses, seus heróis ou antepassados históricos
ou míticos; 3ª: o contraste e a justaposição, pois o festejo e seus
folguedos fazem com que quase tudo que não é possível ou não é
permitido fora deles passe a ser possível. Excesso,
contraste, celebração, memória, ruptura, reiteração simbólica da
ordem, sucessão de opostos e justaposição, eis a matéria-prima da
festa. Mas a própria lógica com que tudo isso se combina para ser na
vida da pessoa e da sociedade um momento inapagável de diferença precisa
ser compreendida com cuidado. Ora, qualquer que seja a situação simbólica
e a intenção proclamada de sua realização, tudo o que ela tem para
celebrar é a experiência da própria vida cotidiana. O
Divino Espírito Santo é festejado com muita pompa. É preciso que haja
fogos, muita comida, muito canto e muita dança. Nas cidades do Brasil
onde ele ainda é cultuado segundo os padrões do passado, como em Pirenópolis
(Goiás), São Luís do Paraitinga (São Paulo), Parati (Rio de Janeiro)
ou Diamantina (Minas Gerais), algumas figuras, ao olhar do observador
distraído, parecem haver saltado do século XVIII: desafiam-se a cavalo,
travam lutas, viajam dias e dias cantando de casa em casa ou se deixam
coroar e ostentam o nome de Imperador do Divino. Armados de violas e lanças,
embandeirados de vermelho e branco, vestidos de seda e veludo, os
personagens dos ritos e da “festa do Divino” trabalham um ano quase
inteiro para pôr na rua, na “Casa do Império”, na praça da cidade e
até na igreja os dias de reza da novena e o fim de semana do auge da
festa. Em quase todos os lugares do país onde ainda é celebrada por
inteiro, o costume é que a festa acabe no domingo de Pentecostes. Eis
um sistema inicial de trocas entre pessoas que configura a própria essência
da festa popular no Brasil. Troca-se o trabalho por honrarias, bens de
consumo por bênçãos, danças por olhares cativos, o investimento pelo
recolhimento do poder, a fidelidade da devoção pela esperança da bênção
celestial. Na
festa tradicional há uma “parte religiosa”, composta invariavelmente
de novena, missa e procissão. O
folguedo acontece nas ruas, nas praças, em visitações cerimoniais de
casas na cidade, num campo de futebol por três dias transformado no
terreno de jogos simulados e da batalha simbólica das cavalhadas de cristãos
e mouros. A esta parte se dá o nome, não raro indevido, de “folclórica”.
Aqui se realizam os momentos festivos dos ternos de dançadores do
guerreiro, do congo e do Moçambique (cujas festas próprias são as de São
Benedito e de Nossa Senhora do Rosário, mas que se apresentam em outras
também), do caiapó, das danças de fita e das cavalhadas. Alguns
desses termos de folguedos acompanham o mastro da bandeira do Divino que,
solenemente, se hasteia ao lado da igreja. Mas eles participam também,
fora dos seus momentos de canto e dança, dos jogos simulados que são a
essência de seus ritos, das visitações devotas que fazem às casas das
famílias, das procissões que misturam, em tais festas, a intenção
propriamente religiosa das autoridades da Igreja e o desejo festivo de
torná-la um alegre desfile, com banda de música, bandeiras vermelhas,
toques de sinos e o clarão dos fogos na noite da cidade. De resto, não
apenas esse momento, mas vários outros serão na festa o resultado de uma
tensão de esforços e intenções: os das autoridades da Igreja, para
tornar as cerimônias mais “puras” e subordinadas à sua lógica versus
os dos festeiros, foliões, capitães de ternos de folguedos e
outras tantas pessoas apegadas aos segredos tradicionais da devoção
popular e ao desejo de manter vivos os costumes cerimoniais de seus
antepassados justamente aquilo que torna uma festa, como outras, “a
nossa festa”. O
leilão de gado e de prendas, que não raro ocupa todas as dez noites
entre o primeiro dia da novena e o “dia da festa”, é cercado de
barraquinhas de comidas e de fotos, circos e rodeios. É traçada a
fronteira entre costumes e gestos folclóricos e as situações mais
inovadoras de circulação comercial de bens, serviços e prazeres. Essa
“parte profana” da festa é tão indispensável e tradicional quanto
as outras. Aqui,
como em quase todos os países da América Latina, tudo se festeja. Esta
é uma primeira notável diferença entre a herança de nossas festas
populares e a das culturas americanas de origem não-ibérica. Não apenas
o casto temor do homem só, diante da divindade todo-poderosa. Não só o
desejo da comunidade ordenada de orantes para que a própria pureza do
rito contida na oração e no canto de corpos imóveis simbolize o desejo
de que o mundo e a vida transcorram em precisa ordem. Mas entre nós,
brasileiros, somos cultura de povo que inventaria, na religião e como
religião, todas as mil faces da vida. Ofertamos
a deuses e santos, cujo ofício mais nobre é ocupar-se com a dor dos
humanos, a humanidade de nossa dor e de nossa esperançosa alegria. De
resto, se os santos que as festas populares cultuam por toda a parte foram
um dia como nós muitos deles pecadores notáveis, depois santificados,
bem podemos ser como eles. Congos,
cavaleiros, caiapós, todos os tipos de grupos rituais de nossos folguedos
populares possuem uma organização interna bastante rígida. Um capitão,
mestre, almirante ou chefe os dirige e ele é sempre
secundado por um contramestre. Algumas vezes, como nas folias, a
equipe de artistas devotos ordena-se de acordo com sua hierarquia e também
segundo a disposição de vozes e instrumentos: o mestre canta “na
primeira”, o contramestre na “segunda”, os outros são o contrato,
o contratinho e outros, até o tipo, requinte ou finório,
nomes que variam de uma para outra região. Há regras e princípios para
o ingresso de uma pessoa em uma companhia, terno ou guarda.
“Dono”
do terno e senhor de sua arte e palavra, o mestre, o chefe, o capitão é
quem o mantém unido, quem ordena os ensaios e zela pela qualidade do
desempenho de canto e dança de “sua gente”. Dele se espera a memória
para reproduzir o conjunto do “cantório” ou a sabedoria do improviso,
no momento em que é preciso criar no ato um verso novo que saúde na rua
ou na casa de alguém uma pessoa, um santo festejado ou um acontecimento
inesperado. A
festa brasileira enuncia e põe na rua esses dois grandes mitos de nossa
cultura: “somos todos iguais” e “cada um pode ser livremente o que
quiser”. Por isso mesmo, mais do que muitos outros povos, possuímos
festejos absolutamente universais, nos quais “entra quem quer, como
quiser”, e o Carnaval brasileiro é, melhor do que todos, um exemplo
disso. Por
certo, seria difícil a outros povos compreender como os diversos povos de
um povo podem, no Brasil, dedicar tanto de seu tempo a se festejarem a si
próprios. No Brasil a grande festa e a pequena podem ser: da Pátria, de
Nossa Senhora Aparecida, do Exército, da Prefeitura de São Tomé das
Letras, da Irmandade da Boa Morte, da Estação Primeira de Mangueira, do
Centro Espírita Filhos de Aruanda, dos peões de boiadeiros do Triângulo
Mineiro, dos vaqueiros do sertão de Alagoas, da “Turma da Miguel
Lemos”, da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ou do PT. Assim,
mesmo os grupos indígenas do Brasil, mais incorporados à própria
sociedade regional, lutam ainda por preservar os seus próprios ritos em
que, uma vez mais, um conteúdo religioso peculiar serve de base à
comemoração da própria memória da tribo. Mais do que eles, os adeptos
de sistemas religiosos afro-brasileiros buscam reinventar hoje em dia cada
vez mais valores de uma identidade étnica não apenas negra, mas
ancestralmente africana. Alguns grupos recentes de negros remontam a
festejos dedicados a Zumbi, por exemplo, e à memória antiga de lutas de
libertação. A
festa de São Genaro e outras festas de italianos do Brás ou do Bixiga,
as de japoneses em Marília (São Paulo), dos poloneses de Curitiba ou de
descendentes de açorianos em Porto Alegre; a alegre festa de chope e de
bandas dos alemães de Blumenau e as danças de moços e meninas das
“casas” dos povos portugueses no Brasil. Todas elas realizam, por meio
da festa uma mesma dupla intenção: trazer para o Brasil e repetir
“aqui” alguma coisa vivida pelos ancestrais como boa e necessária
“lá”; e celebrar a memória da origem com uma solidária afirmação
de diferenças. Assistimos
hoje, na verdade, a uma acelerada multiplicação de grandes e pequenos
festejos em que uma ou algumas categorias peculiares de pessoas e grupos
sociais se festejam a si mesmos pelo que são (negros, japoneses,
caminhoneiros ou “josés”), do que criam (artesanato de barro, de pano
ou de palha) ou do que produzem (maçãs, milho ou flores). Que
cidade de região rural do Brasil vive hoje sem suas festas de vaqueiro,
de peão de boiadeiro, de pescador? Por outro lado, como pensar qualquer
“feira agropecuária” sem os cortejos a cavalo, os rodeios, as eleições
da “rainha da festa”, os concursos de “música sertaneja” e os
bailes? Se
há muito tempo o circo, o rodeio, o leilão, o forró, o desfile e o
concurso invadiram todas as festas de tradição religiosa católica no país,
agora a missa, a procissão breve, os pequenos ritos de devoção ameaçam
invadir as festas modernas de produto e produtor. Mas há mais. Durante
muito tempo em todo o Brasil foi costume viver o próprio trabalho
coletivo como um momento de festejar. Os nossos mutirões rurais do
passado de um passado também recente e ainda vivo em algumas regiões do
país eram uma solução inteligente para a necessidade de aplicação
concentrada de força de trabalho entre nossos camponeses e constituíam
também uma festiva e cerimonial celebração de solidariedade entre as
pessoas. Também
se faz festa por ela: “brincar”, por
“folgar”, por “pular”,
por “farrear”, nomes e desejos tão brasileiros. Não somos apenas um
“país do carnaval”; somos um povo que, quando pode, se
apropria de todas as situações e sentidos possíveis para viver um
momento de celebração; para usufruir momentos de concurso e concorrência
e a pura celebração da alegria, como no baile do clube, da rua ou da praça.
Somos um povo alegre e folião. Alguns analistas políticos
surpreenderam-se com o fato de as recentes campanhas de mobilização
popular nacional terem sido grandes e alegres festas de multidões
reunidas nas praças e diante de palanques. Iguais
ou diferentes, irmanados ou em conflito, que na festa e no folguedo os
homens aprendam a trocar com excessos os seus bens, serviços e
significados. Em nome de deuses, de antepassados e heróis, mas também em
nome de pássaros , flores e desejos, que eles se troquem na festa com
maior fervor e uma acentuada sabedoria. A
festa quer lembrar. Ela quer ser a memória daquilo que os homens teimam
em esquecer e não devem fora dela. Séria e necessária, a festa apenas
quer brincar com os sentidos e o sentimento. E não existe nada de mais
gratuito e urgentemente humano do que exatamente isso. NOTAS: 1
Publicado originalmente em Festas populares brasileiras.
Carlos Rodrigues Brandão. Organização de Cláudia Márcia Ferreira.
Ed. Pioneira, 1987. Este texto é a introdução do livro. 2 Carlos Rodrigues Brandão é antrópologo e professor da UNICAMP.
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