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CULTURA POPULAR E EDUCAÇÃO
PGM 1
– O
QUE É, O QUE É: FOLCLORE E CULTURA POPULAR O MUSEU DE FOLCLORE E AS ARTES POPULARES RICARDO
GOMES LIMA Quando,
em 22 de junho de 1947, foi inaugurada na Biblioteca Castro Alves do
Instituto Nacional do Livro, no Rio de Janeiro, a “Exposição de Cerâmica
Popular Pernambucana”, tornavam-se públicas a vida e a obra de um dos
maiores artistas brasileiros: o Mestre Vitalino dos bonecos de Caruaru. Segundo
Lélia Coelho Frota, essa exposição “(...)
que representa o início da descoberta das artes populares pelas elites
intelectuais, é conseqüência de um processo histórico-cultural
ligado à filosofia do Movimento Modernista de 22 e do Movimento
Regionalista do Recife, iniciado naquela cidade em 1923. Tratava-se de
recuperar, para a norma erudita, aqueles aspectos da realidade
brasileira que constituem a cultura popular, e que até hoje representam
para a elaboração do nativismo um repertório de extraordinário vigor
e riqueza.” (Frota, 1986:11) De
1947 aos dias atuais, outros capítulos dessa história foram escritos.
Constituíram-se coleções públicas e privadas, realizaram-se exposições,
foram editados livros, filmes e vídeos voltados à análise e à
divulgação das expressões de uma arte oriunda de indivíduos
pertencentes às camadas populares ou resultante da ação de
comunidades organizadas em torno da produção de objetos da cultura
material. Nesse
período, observa-se também a criação de instituições museológicas
no país, cuja finalidade precípua inclui a coleta, a guarda e a exposição
de objetos de origem popular. Tais instituições surgem no contexto de
implantação de mecanismos de proteção ao folclore nacional, a partir
da iniciativa de uma rede organizada de intelectuais, convencionalmente
nomeada Movimento Folclórico Brasileiro (cf. Vilhena, 1997). Com
intensa mobilização, esse Movimento instituiu a Comissão Nacional de
Folclore no âmbito do Ministério das Relações Exteriores, comissões
estaduais e a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, posteriormente
Instituto Nacional do Folclore e hoje Centro Nacional de Folclore e
Cultura Popular, órgão da Funarte, Ministério da Cultura. Como
estratégia de ação, o Movimento organizou sucessivos congressos e
semanas de folclore com intuito de reunir folcloristas e pesquisadores
em torno de temas comuns a esse campo de conhecimento. Já no primeiro
congresso, realizado em 1951 no Rio de Janeiro, clamava-se por espaços
museológicos voltados para a cultura popular. Naquele encontro, foi
elaborada a “Carta do Folclore Brasileiro”, documento que se
propunha guia das ações a serem implementadas pelos folcloristas e no
qual, a respeito da criação de museus de folclore, se lê: 1.
É inadiável a necessidade de preservar os produtos da inventiva
popular, tanto os de caráter lúdico e religioso como os de caráter
ergológico. A guarda desses objetos deve ficar a cargo de instituições
apropriadas, e sob a direção de órgãos ligados à pesquisa e ao
estudo do folclore, devido tanto ao caráter coletivo dessa tarefa como
ao longo tempo indispensável à coleta e classificação dos dados para
lhes dar interesse didático. 2.
Recomenda, pois, o Congresso a criação, no Distrito Federal, do
Museu Folclórico Nacional, com uma das suas divisões ou um museu
subsidiário dedicado ao folclore e às artes populares da Capital da
República e de museus folclóricos por parte das Comissões Regionais,
nas Capitais e nos Municípios em que a sua criação se revelar exeqüível,
proveitosa e representativa (...). 3.
Para a efetivação destas medidas, a Comissão Nacional de
Folclore pedirá aos governos estaduais que auxiliem, na medida do possível,
a criação e organização dos Museus Folclóricos locais, seja
assegurando-lhes facilidades de instalação, seja emprestando técnicos
de museu, seja subvencionando no todo ou em parte as suas atividades
(...) e as Comissões Estaduais de Folclore se entenderão com os
poderes públicos locais no sentido de obter deles a cessão, para a
formação dos museus estaduais, de objetos de uso e criação popular
porventura existentes em repartições não especializadas, como as
chefaturas e delegacias de polícia (...) Como
resultado da mobilização empreendida pelos folcloristas, foram feitas
várias tentativas, algumas mais bem-sucedidas do que outras, visando à
criação de museus em diversos estados, destacando-se Espírito Santo e
Paraná em 1953, São Paulo em 1954, Distrito Federal em 1956 e Minas
Gerais em 1965. Embora pudessem comportar objetos coletados nos mais
diferentes pontos do país, esses organismos tinham seus acervos
voltados primordialmente para a cultura material local. Permanecia,
portanto, o país sem uma instituição museológica dedicada ao
folclore nacional e que abrigasse a arte oriunda do povo brasileiro em
sua totalidade. A
criação desse órgão no âmbito federal era reclamada por
intelectuais da época, como o antropólogo Manuel Diégues Júnior que,
em 1954, constatava “quanto nos faz falta um Museu de Arte Popular, de
Folclore, de Tradições Populares, de Técnicas Populares, de
Etnografia, ou que outro nome tenha, mas que seja um museu
representativo de nossa cultura popular.” (Diégues Júnior, 1954) Esse
quadro só foi revertido em 1968, com a fundação, no Rio de Janeiro,
do Museu de Folclore que, em 1976, passou a ser denominar Museu de
Folclore Edison Carneiro - MFEC. Criado pela então Campanha de Defesa
do Folclore Brasileiro, em convênio com o Museu Histórico Nacional, o
Museu de Folclore foi inicialmente instalado numa das dependências do
Palácio do Catete e, no decorrer do tempo, ampliou gradativamente seus
espaços, com a incorporação do prédio 179 da Rua do Catete, em 1975,
da antiga garagem do Palácio, em 1980, e do prédio 181 da mesma rua,
em 1983. De
1968 até os dias atuais, o MFEC fez crescer seu acervo, hoje composto
de 14 mil objetos, em sua maioria coletados a partir de pesquisa de
campo, cuja tônica tem sido ditada, sobretudo a partir de 1982, pela
antropologia social. Renovando critérios teóricos e museológicos, o
Museu volta-se para estudos etnográficos que contextualizam os objetos
reunidos, respaldando-se em ampla documentação de campo e minucioso
registro museológico (cf. Lima, 1985). Na
constituição de seu acervo, o MFEC entende os produtos da cultura em
seu sentido antropológico contemporâneo, isto é, não como meros
objetos cuja função se esgota na matéria de que são feitos, mas sim
como formas concretas que, em sua materialidade, comportam e expressam
sistemas de significação que lhe são permanentemente atribuídos e,
portanto, constitutivos de nossa humanidade. São bens culturais que
participam do patrimônio de toda a nação e estão disponíveis ao público
sobretudo por meio das mostras permanente, temporária e itinerantes que
o museu organiza. Entre
as ações institucionais, a exposição permanente é um dos canais de
difusão da arte popular mais privilegiados pelo museu. Reformadas em
1994, suas galerias ocupam hoje uma área de 1.600 m2.
Para projetá-las, uma questão logo se colocou: como um museu de
folclore e cultura popular, de abrangência nacional, constrói um
enredo, desenvolve um fio pelo qual seja possível abordar o homem
brasileiro em suas múltiplas faces? Como dar conta dos repertórios,
dos variados temas, das questões tratadas
pelo museu? A
partir do entendimento de que folclore é um campo, permanentemente
renovado, de significados atribuídos às “coisas” sociais, e da
discussão sobre a criação desse universo no Brasil, deu-se início ao
debate sobre a maneira de abordar questões a ele referenciadas, de
forma ampla, isto é, com o maior número possível de especialistas.
Observações advindas dos projetos educativos, da visitação de público
e, sobretudo, o estudo do Livro de opinião do visitante,
tornaram-se a base para identificar lacunas, suprir carências,
“perceber ruídos” que comprometiam as mensagens implícitas no
circuito daquela montagem da exposição que, inaugurada em 1983,
permanecera aberta a público por 10 anos. Ela serviu de laboratório de
estudo do qual resultou um fio que costura as seguintes unidades temáticas
constituintes da atual exposição: Apresentação
da mostra e introdução da discussão sobre a diversidade da cultura
brasileira, resultante do encontro e do confronto de diferentes etnias,
não apenas genéricos colonizadores portugueses, índios e escravos
africanos, mas diferentes e particulares grupos culturais que para aqui
vieram em épocas distintas e por razões várias. Módulo
Vida, que reúne representações sobre o ciclo de vida dos
indivíduos e as marcas culturais que a ele se impõem. São objetos que
retratam cenas ritualizadas de nascimento, batizado, namoro, casamento,
enterro; o universo infantil da escola, dos brinquedos e das
brincadeiras tradicionais, masculinos e femininos; o trabalho da casa e
da rua, desempenhado por homens e mulheres, e os momentos de lazer e ócio,
tais como a batucada num botequim e a ciranda dançada em praias
nordestinas; representações das vidas que, ao longo do território
nacional, são encontradas em constante processo de transformação
estimulado pelos meios de comunicação de massa, mas preservadas na memória,
na transmissão oral, no resgate das marcas culturais e registradas por
arte e engenho de mestres do barro como os do Vale do Jequitinhonha, em
Minas Gerais, do Vale do Paraíba paulista ou do Alto do Moura, em
Caruaru/PE , do tecido
– que confeccionam, por exemplo, bonecas de pano, como os da
comunidade do Chapéu Mangueira e da Cooperativa Abayomi, ambas no Rio
de Janeiro ou da madeira como o mineiro Antônio de Oliveira, que resume
o módulo com a peça Escada da Vida, entre outros materiais. O
módulo Técnica apresenta, em ambientações,
diversas tecnologias tradicionais
de produção de alimentos – por exemplo (uma “casa de farinha” ou
“retiro”, vinda do Pará e uma adega de produção familiar de
vinho, de tradição italiana da região de Caxias do Sul/RS), além de
pólos produtores de cerâmica (Maragogipinho/BA e Apiaí/SP), o
universo das tecelãs goianas, comunidades pesqueiras e seus implementos
de linha e trançados, finalizando numa ambientação que remete o público
para mercados e feiras populares, espaços privilegiados do escoamento
da produção artesanal, e que também abrigam outros prestadores de
serviços e artistas como lambe-lambes, sábios praticantes da medicina
popular, cantadores e cordelistas e
mamulengueiros com seus títeres. No
exercício de sua fé, não é raro o brasileiro aglutinar santos católicos,
orixás do candomblé e entidades da umbanda. O estabelecimento de laços
entre os homens e suas divindades, meta da religiosidade popular, está
representado, no módulo Religião, por ex-votos coletados no
Ceará, ferros de assentamento de orixás recolhidos na Bahia e por uma
procissão ecumênica, diante da imagem de São Jorge que tem à frente
uma bandeira de São Benedito. Relevante marca cultural, a música que
permeia os vários espaços é aqui representada por atabaques rituais
com suas especificidades afro-brasileiras. Na
linguagem de danças, cantos, fantasias e comidas, o brasileiro fala
sobre a sociedade em que vive, seus valores e crenças. Nas festas, e
por meio delas, são permanentemente construídas maneiras de viver e
ver o mundo. Enfatizando o processo que culmina no grande evento, o módulo
Festas destaca as rodas de candomblé presentes na Bahia, no Rio
de Janeiro e em tantas outras partes deste país; o maracatu a encantar
com seus caboclos de lança o carnaval pernambucano; as escolas de
samba, os clóvis e outros mascarados de rua dos múltiplos carnavais
cariocas; as folias-de-reis e sua devoção natalina, também em terras
do Rio de Janeiro; a cavalhada que mistura muitas cores ao vermelho do
Divino de Pirenópolis/GO, as danças do cururu mato-grossense em honra
de São Gonçalo e o boi este do Maranhão, que bumba neste país de
Norte a Sul. No
módulo que encerra a exposição, nomeado Arte, adentra-se o
universo daqueles indivíduos provenientes de extratos populares que, na
materialidade dos objetos que criam, expressam sentimentos, visões de
mundo e vivências particularíssimos, posto que resultantes de processo
criativo individual, ao mesmo tempo em que revelam experiências
coletivas praticadas pelos grupos culturais dos quais participam. São
esculturas em barro ou madeira, gravuras, pinturas, coletadas em
diversas localidades, de autoria de artistas da magnitude de Mestre
Vitalino, Nhô Caboclo, Luzia Dantas, GTO, Chico Tabibuia, Galdino,
Antonio Poteiro, Waldomiro de Deus, Maria de Beni, Conceição dos
Bugres e outros mais. A
ação institucional deste museu, que as galerias de exposição
permanente espelham, faz-se, assim, pautada no universo simbólico de
vasto segmento da população brasileira ligado a formas tradicionais de
produzir, vivenciar e transmitir cultura. Nesse sentido, o MFEC,
reconhecendo a pluralidade cultural do país, busca também o
reconhecimento das culturas tradicionais populares, entendendo-as
enquanto importante fator de constituição e fortalecimento das múltiplas
identidades locais, regionais e nacional, base da cidadania que hoje o
país tanto discute. O
Museu está ciente do lugar que ocupa enquanto instância de consagração
da arte popular junto aos diferentes segmentos da sociedade nacional, e
busca instigar no olhar, predominantemente estético, do público, a
percepção do espaço ocupado pelo objeto no seu contexto original de
produção e fruição. No
entanto, lidar com a produção plástica de origem popular no Brasil
contemporâneo é tarefa bastante complexa. As dificuldades em definir
parâmetros que delimitem esse universo estão referidas a diferentes
fatores, alguns internos ao próprio campo teórico de conceituação de
termos como arte e povo e outros que dizem respeito à dinâmica
de transformação social vivida pelo país, sociedade plural em que
convivem os mais diferenciados contextos e dos quais emanam as mais
diversas expressões de arte (Lima, 1997). Assim
como folclore e cultura popular são noções surgidas a
partir do ideário romântico europeu do século XIX (Burke,1989), o
conceito de arte popular é uma criação social, historicamente
elaborada que carrega em si mesma inconsistências teóricas que
diferentes trabalhos têm evidenciado com propriedade (Neves, 1979;
Soares, 1983). Sem
pretender ampliar em demasia considerações acerca de sua origem, é
necessário salientar que folclore, cultura e arte populares são
expressões há muito cunhados para designar visões de mundo, práticas
e produtos sociais considerados diferentes daqueles próprios dos grupos
hegemônicos da sociedade. Foi
a partir da ênfase na diferenciação entre elite e povo, vistos como
universos apartados por fronteiras rígidas e claramente definidas, que
o conceito de arte popular se estabeleceu. E é nesse contexto que a
expressão é entendida como uma categoria reversa, isto é, aquela que,
para existir, necessita de seu anverso. Assim, numa dada realidade
cultural, a condição de existência de uma arte denominada popular
decorre da presença, nessa mesma realidade, de outro tipo de arte, a
que alguns estudiosos se referem como sendo a ARTE, erudita ou de elite.
Arnold Hauser é um dos estudiosos que defende essa abordagem,
argumentando: “Não
poderá mesmo se falar, de forma alguma em ‘arte popular’ enquanto a
diferenciação das sociedades rurais em classes não se estiver
estabelecida; e isto porque a ‘arte popular’ só tem sentido quando
contraposta à ‘arte dos grupos ou classes dominantes’. A arte de
uma coletividade que não se encontra ainda dividida em camadas, em
‘dirigentes e dirigidos’, não pode ser considerada como ‘arte
popular’ pela simples razão de que não existe a seu lado qualquer
outra espécie de arte.” (Hauser,1972:38) ALVIM,
Maria Rosilene Barbosa. Artesanato, tradição e mudança social: um
estudo a partir da ‘arte do ouro’ de Juazeiro do Norte. In: RIBEIRO,
Berta G. et alii. O artesão tradicional e seu papel na sociedade
contemporânea. Rio de Janeiro: FUNARTE, Instituto Nacional do
Folclore, 1983. BURKE,
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Paulo: Companhia das Letras, 1989. CARTA
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Lilia. O nascimento dos museus brasileiros 1870 - 1910. In:
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Lélia Gontijo. Produção de artesanato popular e identidade cultural.
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Rio de Janeiro, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, 1984, no19. VILHENA,
Luis Rodolfo. Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro
(1947-1964). Rio de Janeiro, Funarte / Fundação Getulio Vargas,
1997. NOTAS: 1
Artigo originalmente publicado na Revista do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, Brasília, n. 28, p. 101-119, 1999. 2
Ricardo Gomes Lima é antropólogo e chefia o setor de Pesquisa
do CNFCP. 3
Claudia Marcia Ferreira é museóloga e coordena o CNFCP.
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