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CARTOGRAFIA NA ESCOLA
PGM 2
– NOÇÕES
CARTOGRÁFICAS Rosângela
Doin de Almeida1 Localização,
redução/escala, ponto de vista, projeção e orientação são
algumas noções cartográficas básicas. Esperamos
que as atividades que descrevemos e discutimos não sejam consideradas
como mera lista daquilo que o professor pode ou deve fazer. Exageramos
na quantidade de exemplos exatamente para defender a idéia de que
sempre é possível ter o aluno como sujeito. Atividades
centradas na sala de aula A
sala de aula pode ser ótimo ponto de partida para um trabalho com noções
fundamentais da Cartografia. Antes
de tudo, talvez fosse interessante propor aos alunos uma reflexão
sobre o que acontece na sala de aula, sobre seus diversos significados
(para professores e alunos, por exemplo) e também a respeito de sua
organização. Os
alunos escolheram seus lugares na sala? O que influiu nessa escolha?
Eles conseguem localizar seus lugares na sala, ou melhor, como
indicariam, para alguém de outra classe, onde se sentam? Perguntas
semelhantes a essas propiciam uma discussão que, certamente, vai se
encaminhar para a possibilidade de vários sistemas de localização,
apresentados pelos próprios alunos. Alguém se localiza “no fundo
da sala”, outro, “na frente, à direita”, um terceiro, “na
quarta carteira da primeira fila”. São sistemas diferentes, que
precisam ser esclarecidos, explicados, comparados. Também é possível
retomar esses sistemas mais adiante, no trabalho com as plantas da
sala de aula. “Na
frente, à direita” revela que localização e orientação são
questões relacionadas. Também é possível discutir com os alunos o
que é a frente da sala, como se determina o que é a frente dos
objetos. “Na quarta carteira da primeira fila” indica um sistema
coordenado de ordenação de filas e carteiras, semelhante ao de
linhas e colunas, ou dos paralelos e meridianos de um mapa. Propor
aos alunos que apresentem a sala de aula de várias maneiras,
envolvendo diferentes linguagens, permite rica discussão a respeito
das características dessas linguagens, a respeito de suas semelhanças
e diferenças, ou sobre seus usos. Um
desenho livre da sala de aula certamente traz particularidades de seu
autor: afetos (relacionados aos colegas, aos professores, ou àquilo
que acontece nas aulas...), modo de observar os objetos (localização,
quantidade, detalhes...) e maneira de se servir da linguagem (ponto de
vista assumido, como é o desenho dos objetos, uso da página e de
elementos como linha e cor...), entre outras coisas. É interessante
que os próprios alunos apresentem/expliquem seus desenhos e façam
comparações. Por exemplo, todos desenharam a sala a partir de um
mesmo ponto de vista? (E aqui talvez seja preciso discutir o que é
ponto de vista.) Todos desenharam os mesmos objetos da sala? Como
ficou a localização dos objetos? Os desenhos têm a mesma quantidade
de carteiras da sala? (Será essa igualdade sempre necessária ou
depende da finalidade do desenho?) Algum objeto deixou de aparecer nos
desenhos? Por quê? Alguém desenhou algum símbolo diferente? (Não
é incomum, por exemplo, que alunos desenhem um coração sobre a mesa
do professor.) Alguém deu título ao desenho? Quais as dificuldades
enfrentadas no desenho da sala de aula? Construir,
em pequenos grupos, uma maquete detalhada da sala de aula, com a
localização e a quantidade exata de seus elementos, é um desafio
que as crianças geralmente abraçam com muita atenção e prazer.
Elas mesmas e o professor providenciam o material necessário, levando
em conta as características do lugar onde vivem. Costuma-se usar
sucata, coisas já utilizadas, ou material barato: caixas de sapato,
caixas e palitos de fósforo, papelão, revistas velhas, sementes,
retalhos, barbante, cola, tesoura, tampinhas de refrigerante, papel, lápis
de cor, etc. A diversidade de material talvez estimule a criatividade,
facilitando o aparecimento de soluções bem diferentes, que são
discutidas durante a apresentação dos trabalhos dos grupos. A
maquete ainda permite experiências que envolvem questões de ponto de
vista e projeção. Variando a posição de onde a observam, os alunos
vêem algumas coisas, mas não conseguem enxergar outras. Por que isso
acontece? Existe algum ponto de vista de onde seja possível observar,
ao mesmo tempo, todos os objetos e seus diversos lados? Cobrindo a
maquete com plástico incolor transparente (ou papel celofane),
olhando cada objeto exatamente de cima (ponto de vista vertical) e
copiando seus contornos (incluindo aí as paredes), consegue-se uma
planta da maquete (por conseqüência, da sala de aula). E, para
chegar à planta, os objetos foram projetados sobre o plástico de uma
mesma maneira, o que resultou num único ponto de vista. É
preciso dar um título à planta? É preciso dizer o que significam
seus vários elementos? (Aqui entra a construção da legenda.) A
construção de uma planta em escala da sala de aula exige que os
comprimentos de todos os elementos da sala sejam reduzidos um mesmo número
de vezes. Vários métodos são utilizados, vamos descrever
resumidamente um deles. Material
necessário: papel pardo ou cartolina colorida (uma folha por grupo),
papel branco, tesoura, cola, um rolo de barbante, caneta hidrocor ou
pincel atômico. O
primeiro passo é medir o comprimento do lado maior da sala, para isso
basta esticar o barbante junto à parede e cortá-lo. Em seguida,
dobra-se o barbante ao meio, ou seja, o comprimento da parede é
reduzido duas vezes (dividido por dois). Novamente, dobra-se o
barbante ao meio: ele fica dividido em quatro partes iguais, o que
significa que o comprimento da parede é reduzido quatro vezes
(dividido por quatro). O
processo continua, até que o barbante caiba na folha de papel pardo
ou cartolina. Então, risca-se o comprimento final do barbante nessa
folha e verifica-se a redução. Os comprimentos das outras paredes e
de todos os elementos da sala (carteiras, portas, lousa, janelas,
etc.) devem ser reduzidos esse mesmo número de vezes, sempre usando
barbante. Com
relação às carteiras, basta medir e reduzir os lados da parte de
cima de uma delas. Recortar as carteiras e outros móveis em papel
branco garante um destaque sobre o fundo de papel pardo ou cartolina
colorida. Num canto da planta é importante anotar a redução, por
exemplo: “comprimentos reduzidos 16 vezes”. Ao
menos na medição e redução da primeira parede, o trabalho precisa
ser conjunto, com professor e alunos em permanente diálogo, que
envolve, a cada passo, questões como: em quantas partes iguais o
barbante foi dividido? Portanto, o que aconteceu com o comprimento
original da parede? Que operação matemática é necessária para
voltar ao comprimento original? Por outro lado, lembremos a questão
central que acompanha a planta em escala: por que reduzir todos os
comprimentos um mesmo número de vezes? Os
alunos já viram outras plantas (de casas, apartamentos, cidades,
etc.)? Onde? Aqui está uma boa oportunidade para estudá-las.
Além de estudar desenho, maquete e plantas separadamente, é
fundamental compará-las, destacando, outra vez, as características
de cada uma, refletindo sobre suas semelhanças e diferenças, sobre
quem as utiliza, em que situações, com que objetivos, etc. Comparação
que solicita a exposição, lado a lado, daquelas produções. De início,
o professor pode propor uma comparação geral, deixando que os alunos
pensem mais livremente (suas idéias são anotadas no quadro). Durante
as discussões, se achar necessário, ele apresenta algumas questões
específicas, tais como: desenho, maquete e planta “reduzem” as
medidas da sala? De um mesmo modo? É possível construir uma maquete
em escala? Desenho, maquete e plantas precisam de título e legenda?
Que ponto de vista é assumido em cada uma das representações? Num
mesmo desenho “aparece” apenas um ponto de vista? Alguma(s) dessas
representações “dá(ão) mais liberdade” ao autor? Portanto,
ao planejar as aulas, o professor precisa refletir a respeito dos
“problemas” que os alunos enfrentam em cada produção, porque aí
reside grande parte do que é interessante discutir.
Dois exemplos: No desenho da sala, os alunos já estão às
voltas com redução e manutenção das proporções, correspondência
entre localização dos objetos na sala e no desenho, escolha do ponto
de vista e uso de símbolos. Ao mesmo tempo, têm apenas as duas
dimensões do papel para representar as três dimensões da sala de
aula. Para fazer a planta da maquete, os alunos não enfrentam
“problemas” de redução, localização, nem escolha do ponto de
vista. Eles experimentam, basicamente, a realização de uma projeção. As
atividades que acabamos de descrever e comentar não constituem,
necessariamente, uma seqüência linear, muito menos são as únicas
que permitem introduzir o estudo da linguagem cartográfica. Os alunos
podem ficar curiosos a respeito de um globo terrestre que viram numa
sala da escola. Ora, a partir daí é possível tratar de redução,
do modo como os vários elementos do espaço aparecem (o que se
relaciona com uso de cores, símbolos, enfim, com a legenda), da seleção
desses elementos, etc. E os alunos conhecem outra representação da
Terra? Então, globo e planisfério são comparados (é claro que de
modo introdutório, simples). Talvez, durante o trabalho com a planta
da maquete, um aluno leve uma planta da cidade, planta com escala, com
orientação... Ainda
entendemos que, desde logo, os alunos devem elaborar e utilizar
desenhos, croquis, maquetes, plantas e mapas para pensar o espaço.
Estudos do meio são ótima oportunidade para isso. Atividades
sobre orientação Desde
os primeiros anos de escola, as crianças participam de atividades que
mobilizam um referencial de orientação centrado nelas mesmas (frente
– atrás; esquerda – direita; em cima – embaixo), mas que pode
ser projetado, ou transferido, para outras pessoas, animais ou
objetos. Esse referencial não é abandonado, mesmo com a apropriação
de sistemas de orientação mais complexos, ocorrendo, na verdade,
coordenação, uso associado, combinado. Por aí se vê um pouco da
importância daquelas atividades. O
sistema de orientação baseado nas direções Norte-Sul e Leste-Oeste
foi desenvolvido a partir da observação, por diversas civilizações,
dos astros e de seus movimentos pelo céu. E o Sol sempre mereceu atenção
especial. Assim,
para compreender esse sistema, os alunos também precisam observar o
Sol, seus movimentos aparentes (diário e anual), e, ainda, relacionar
tais observações com outros conhecimentos produzidos pela
humanidade. As
atividades mais simples são aquelas de observação do Sol pela manhã,
ao meio-dia e no fim da tarde, por vários dias consecutivos. As
paisagens do nascer e do pôr-do-sol podem ser desenhadas. Existe
um instrumento, chamado gnômon, muito útil no acompanhamento dos
movimentos do Sol e na determinação das direções. Ele já era
usado por pastores, séculos antes de Cristo, para indicar a passagem
das horas do dia e das estações do ano. O gnômon, tão valioso, em
virtude das observações que permite, é, por outro lado,
extremamente simples, nada mais do que uma vareta fixada na posição
vertical, sobre um chão plano e horizontal. Com
um gnômon montado em área aberta da escola é interessante, numa
primeira experiência, observar e discutir o movimento do Sol durante
um dia. Como é o movimento do Sol? De onde para onde? E a sombra da
estaca, como se comporta, em relação ao movimento do Sol? Sua direção
e seu comprimento variam? Como? Em que momento a sombra fica mais
comprida? Quando é menor? Que uso poderia ter um gnômon? É
comum dizermos que o Sol nasce no Leste e se põe no Oeste. Muitas
vezes falamos em “lado Leste”, “lado Oeste”... Quando chegamos
a uma cidade que não conhecemos, perguntamos onde nasce o Sol, assim,
nos orientamos de modo aproximado, o que está de acordo com a situação.
No
entanto, observando bem, com atenção especial na paisagem,
percebemos que, durante o ano, o Sol não aparece sempre no mesmo
ponto do horizonte, ocorrendo o mesmo na hora em que ele se põe. Isso
pode ser registrado numa janela, por exemplo. Mas,
então, como determinar, mais precisamente, as direções Norte-Sul e
Leste-Oeste? Uma maneira
é por meio do gnômon. Professor e alunos podem levá-la adiante.
Eles iniciam a observação da sombra pela manhã e, ao menos em dois
momentos diferentes, riscam seu comprimento no chão (sempre a partir
do “pé” da vareta). Então, duas circunferências são traçadas,
ambas com o centro no “pé” da vareta, mas com raios diferentes,
correspondendo aos comprimentos da sombra nos dois momentos. À tarde,
quando a sombra voltar a tocar cada uma das circunferências,
riscam-se novamente dois raios. Assim, dois ângulos são
determinados, um mais aberto (formado pelos raios maiores) e outro
mais fechado (formado pelos raios menores). A linha que divide esses
dois ângulos ao meio é a direção Norte-Sul geográfica. A direção
Leste-Oeste é indicada por uma linha que também passa pelo “pé”
da vareta, mas é perpendicular à direção Norte-Sul. Essas duas
linhas devem ser riscadas no chão. Se uma rosa-dos-ventos for
colocada no cruzamento dessas linhas, com o Leste apontando para o
lado em que o Sol nasce, então, fica fácil indicar os sentidos
Leste, Oeste, Norte e Sul. Figura 1: determinação das direções Norte-Sul e Leste-Oeste com o gnômon.
(Fonte:
Rodolpho Caniato. O céu. Ed. Ática, p. 18.) Instrumento
que permite orientação sem depender da observação do céu, a bússola
indica a direção Norte-Sul magnética, que geralmente não coincide
com a geográfica e ainda varia no tempo e no espaço (os pólos magnéticos
da Terra não coincidem com os geográficos, nem são fixos). No
Brasil, em determinadas áreas a diferença entre as direções
Norte-Sul magnética e Norte-Sul geográfica pode chegar, por exemplo,
a 20º. Mas existem mapas que informam essa diferença e sua variação
no tempo, o que permite encontrar a direção Norte-Sul geográfica a
partir da indicação da bússola. Em algumas situações, é
suficiente considerar a orientação da agulha como aproximação da
direção Norte-Sul geográfica, noutras, envolvendo cálculos de
engenharia ou navegação, por exemplo, erros de 20º são demasiados. Para
os alunos perceberem a diferença entre as direções Norte-Sul geográfica
e magnética basta colocar a bússola sobre a linha Norte-Sul do gnômon. Os
novos conhecimentos precisam ser utilizados pelos alunos, quer seja
observando a orientação da sala de aula e indicando essa orientação
na própria sala, na maquete e nas plantas, quer seja registrando o
Norte em mapas elaborados durante estudos do meio, ou discutindo se é
importante planejar a orientação das construções (casa,
escola...), ou aprendendo a orientar um mapa (ou planta) no terreno,
etc. Sempre
nos orientamos por Norte-Sul, Leste-Oeste? Como se orientam os
taxistas, em seu trabalho diário? (Para saber é necessário
entrevistá-los.) E os pescadores? Se utilizamos o guia de uma cidade,
como nos orientamos? (E os alunos já sabem usar um guia?) Perguntas
como essas suscitam discussão a respeito da existência de vários
sistemas de orientação, muitas vezes empregados associadamente. Ainda
queremos chamar a atenção para a importância do uso do globo.
Modelo reduzido de nosso planeta, ele permite que os alunos assumam um
ponto de vista externo, ou seja, é como se observassem a Terra de
muito longe. E essas observações são, então, relacionadas com
aquelas que fazem aqui embaixo. Com
o globo, o professor pode, inicialmente, simular os movimentos de rotação
e translação da Terra, explicando o assunto de modo bastante geral e
introdutório. Depois,
diante de uma janela ou outro objeto que represente o Sol, e com um
bonequinho de papel colado mais ou menos sobre a região onde vive, o
professor vai simulando apenas a rotação, enquanto apresenta algumas
informações e propõe várias perguntas: u O movimento de rotação se faz de Oeste para Leste – onde é dia e onde é noite? u Quando começa o dia para o bonequinho? u De que lado o Sol aparece (Leste, Oeste, Norte ou Sul)? u Quando é meio-dia para o bonequinho? u Nesse momento, onde ele vê o Sol? u Quando é fim de tarde? u O Sol desaparece de que lado? u Qual a relação entre o movimento que vemos o Sol realizar diariamente no céu e o movimento de rotação da Terra? Um
pedaço de palito também pode ser colado sobre o globo, o que permite
simular o trabalho realizado com o gnômon. Isso facilita ao aluno
compreender que as linhas Norte-Sul e Leste-Oeste traçadas naquela
ocasião nada mais são do que um meridiano e um paralelo terrestres
(o meridiano e o paralelo que passam pelo “pé”
da vareta). Bibliografia ALMEIDA, Rosângela D. de. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2003. ALMEIDA, Rosângela D. de & PASSINI, Elza Y. O espaço geográfico: ensino e representação. 12.ed. São Paulo: Contexto, 2002. ALMEIDA, R. D, SANCHEZ, M. C, PICARELLI, A. Atividades Cartográficas. Volume 1. São Paulo: Ed. Atual. 1997. BOCZKO, Roberto. Conceitos de astronomia. São Paulo: Edgard Blücher, 1984. CANIATO, Rodolpho. O céu. São Paulo: Ática, 1990. CANIATO,
Rodolpho. Projeto de ciência
integrada – vol. 1 A Terra em que vivemos.
4. ed. Campinas:
Papirus, 1989. NOTAS: * Professora Adjunta do Departamento de Educação da UNESP – Campus de Rio Claro (SP). Consultora desta série.
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