PGM
2 - Do conto ao teatro
Eduardo
Calil
"Compete à escola oferecer
um espaço para a realização dessas
atividades [teatrais], um espaço mais livre e mais
flexível para que a criança possa ordenar-se
de acordo com a sua criação.
Deve ainda oferecer material básico,
embora os alunos geralmente se empenhem em pesquisar e
coletar materiais adequados para as suas encenações."
(PCN, MEC)
O teatro, o cinema e a televisão com freqüência
lançam mão de obras que pertencem a diferentes gêneros
literários, que foram escritas para serem lidas, para adaptá-las
a estes meios que, apesar de exigirem linguagens bastante particulares,
com recursos e procedimentos técnicos muito diferentes entre si,
têm como objetivo central a representação, a encenação,
a dramatização.
Recentemente, pudemos assistir a excelentes trabalhos
de adaptação. Por exemplo, o diretor Guel Arraes adaptou
para a televisão a peça de teatro Auto da Compadecida,
de Ariano Suassuna. Também foram feitas outras adaptações,
como a do belíssimo romance Lavoura Arcaica, e a da novela
Um copo de cólera, ambos de Raduan Nassar, para o cinema.
Na TV, foi feita a nova versão do Sítio do Pica-pau Amarelo,
de nosso grande Monteiro Lobato. E, para ficar somente em algumas adaptações
que tivemos a oportunidade de assistir nos últimos dois anos, citamos
também o envolvente filme "Harry Porter e a Pedra Filosofal",
baseado no livro da autora inglesa J.K. Rowling, que os cinemas do país
todo mostraram no fim do ano de 2001, e que crianças e adolescentes
de boa parte do mundo têm aplaudido tão fervorosamente. Alguns
outros exemplos não tão recentes, mas nem por isso menos
importantes, podem ser lembrados, como a adaptação para
o cinema do romance de Jorge Amado, Dona Flor e seus dois maridos,
ou a adaptação do conto "Sagarana", de João
Guimarães Rosa, para o teatro, bem como do romance Grande Sertão:
Veredas, do mesmo autor, para a televisão.
Todos estes processos de adaptação não
são nada fáceis e exigem um grande conhecimento a respeito
das características de um gênero discursivo escrito para
ser lido e as de um gênero discursivo escrito para ser representado.
Entretanto, transpondo esta questão para a escola,
podemos tomar como ponto de partida o que dizem os Parâmetros Curriculares
Nacionais, em relação ao trabalho com teatro no Ensino Fundamental:
O teatro no Ensino Fundamental proporciona experiências
que contribuem para o crescimento integrado da criança sob vários
aspectos. No plano individual, o desenvolvimento de suas capacidades
expressivas e artísticas. No plano do coletivo, o teatro oferece,
por ser uma atividade grupal, o exercício das relações
de cooperação, diálogo, respeito mútuo,
reflexão sobre como agir com os colegas, flexibilidade de aceitação
das diferenças e aquisição de sua autonomia como
resultado do poder agir e pensar sem coerção.
Assim, os objetivos do trabalho com teatro na escola
podem estar relacionados:
a) Ao trabalho com expressão artística
(confecção de figurinos, de cenários, sonoplastia,
expressão corporal etc.);
b) Ao trabalho com língua escrita e oral
(leitura de textos de teatro, adaptação de um conto para
o teatro, compreensão das características lingüísticas,
discursivas e textuais deste gênero etc.);
c) Ao trabalho coletivo (alunos podem assumir diferentes
funções para atingirem um mesmo objetivo, que é
a encenação);
d) Ao produto cultural e apreciação
estética (conhecimento de diferentes autores teatrais e um pouco
da história do teatro, análise e discussão de peças
de teatro ou filmes que fizeram adaptações deste tipo
de texto).
Gostaríamos de destacar aqui o segundo objetivo
indicado acima, referente ao trabalho com a linguagem oral e escrita.
Para isto, tomemos um exemplo real, dentre os excelentes trabalhos com
teatro em sala de aula que têm sido realizados no Ensino Fundamental.
No ano de 2001, no Centro Educacional Miosótis,
uma escola que atende a alunos que vivem em um bairro muito pobre da cidade
de Maceió (Alagoas), a professora da 3ª série, em parceria
com a coordenação pedagógica, se propôs a fazer
uma peça de teatro com alguns contos de assombração
que estavam sendo lidos para seus alunos. Dentre os inúmeros contos
que eles conheciam, por meio da leitura diária feita pela professora,
foi escolhido o conto "Maria Angula" (do livro Contos de
assombração), para ser adaptado e encenado.
Este conto narra a história de uma adolescente
que era muito fofoqueira e convencida, que vivia fazendo intriga entre
as amigas. Quando ela se casa, o marido pede que ela prepare diferentes
pratos de comidas. Como ela passou a vida a fofocar e criar intrigas,
nunca aprendeu a cozinhar bem, então ela recorreu à sua
vizinha, dona Mercedes, que era uma cozinheira de mão cheia. A
cada prato ensinado, ela sempre dizia que era fácil e que aquilo
ela já sabia fazer, desprezando e sendo mal-agradecida. Um dia,
Dona Mercedes ficou aborrecida com esta história que se repetia
dia a após dia e inventou uma receita macabra. Para preparar aquele
prato especial, Maria Angula tinha que ir até o cemitério
roubar tripas de um defunto fresquinho. Feito o prato para o marido com
as tripas roubadas, no meio da madrugada aparece o defunto, acusando Maria
Angula e levando-a embora para o Além.
Em primeiro lugar, a professora propôs uma improvisação
deste conto, definindo as personagens para os alunos que queriam participar
como atores, bem como a equipe técnica que ficaria responsável
pela parte técnica, como figurinos, sonoplastia, cenário
etc.
Para dar referências do que era um texto teatral,
de suas características lingüísticas, discursivas e
textuais, a professora leu a peça Auto da Compadecida e
depois mostrou o filme. Depois, ela também leu a tragédia
grega Antígona, de Sófocles. Em alguns momentos,
durante esta leitura em voz alta, a professora teve oportunidade de discutir
estas características, como, por exemplo, a estrutura dialogal,
as rubricas (indicações do autor do texto dramático
para o diretor ou o leitor imaginarem o contexto daquela fala da personagem),
a ausência de um narrador etc. Todos estes pontos são muito
diferentes no texto escrito somente para ser lido, como o conto de assombração
"Maria Angula". Os alunos precisavam saber disto antes de fazerem
a escrita coletiva deste conto na forma de texto teatral.
Juntamente com a professora, após algumas improvisações
feitas, os alunos escreveram o texto da peça teatral "Maria
Angula". Em primeiro lugar, eles dividiram o texto por cenas:
Cena 1: Maria Angula conversando e fofocando
com as amigas.
Cena 2: Maria Angula se casando.
Cena 3: Marido pedindo um prato para jantar.
Cena 4: Maria Angula indo até Dona Mercedes
para perguntar como fazer o prato que o marido pediu.
(E assim por diante).
Depois desta divisão da história por cenas,
os alunos e a professora foram escrevendo uma cena por aula. A primeira
cena, que tomou, como apoio, as improvisações feitas anteriormente
pelos próprios alunos, ficou assim:
Cena 1: Maria Angula encontrando-se
com algumas amigas
Maria Angula:
(FALANDO EM TOM DE INTRIGA) "- Meninas, vocês viram a
que horas a Cristina chegou ontem a noite?! Olhe, eu não quero
falar nada não, mas o namorado dela nem sabe de nada..."
AMIGA 1: (EM TOM DE REPREENSÃO)
"- Nossa, Maria, pare com isto, você só sabe falar
da vida dos outros."
AMIGA 2: (CONCORDANDO COM
A AMIGA 1) "- É! Você devia era cuidar mais das
suas coisas. Um dia você ainda vai se arrepender das fofocas que
você faz."
MARIA ANGULA: (irritada)
"- Não perturbem, suas bobas! Eu que mando na minha
vida e faço e falo de quem eu quiser. Eu é que sei das
coisas, vocês são todas umas chatas!" (SAINDO DE
CENA ENFEZADA E BATENDO O PÉ).
Este trabalho coletivo de produção de texto
foi repetido, ao longo de todas as cenas e, posteriormente, cada aluno
pôde receber, na forma de livro, o texto teatral "Maria Angula",
escrito por eles. Este texto passou a servir de base para os ensaios que
continuavam acontecendo em momentos diversos.
Podemos concluir que as discussões com os alunos
foram extremamente enriquecedoras, pois lhes permitiram uma boa reflexão
não só sobre estas características da estrutura dialogal,
das rubricas, do que é uma cena etc., mas também das palavras
que seriam mais adequadas para representar o modo de falar de Maria Angula,
de suas amigas e das outras personagens. Também os alunos puderam
discutir significativamente questões como a pontuação,
principalmente aspas, travessão e dois-pontos, e ainda a ortografia.
Esta peça de teatro foi apresentada na festa de
final de ano pelos alunos de 3ª série, que foram aplaudidos por
todos que assistiram.

|