VARAL DE TEXTOS

 

Apresentação

Eduardo Calil 1

Sabemos hoje que as práticas didático-pedagógicas de Língua Portuguesa precisam considerar a heterogeneidade de textos existentes em nossa sociedade e levar em conta a necessidade de tornar nossos alunos proficientes leitores e produtores de textos. Nosso desafio, enquanto mestres responsáveis pelos processos de ensino-aprendizagem, está em criar situações de sala de aula que permitam aos alunos a apropriação desta diversidade. O problema exige que se pense em uma grade curricular progressiva - mas sem perder os usos e as funções sociais dos textos oferecidos aos alunos, em um tratamento didático que articule graus de complexidade dos textos e os segmentos do sistema educacional e, principalmente, que se pense em como veicular e significar os diferentes textos existentes em nossa sociedade dentro da sala de aula.

É nesta direção que o programa Salto para o Futuro, entre os dias 08 e 12 de abril de 2002, irá apresentar a série Varal de Textos e dar continuidade ao debate em torno deste problema, já destacado em muitos outros programas apresentados pela TV Escola2. Pretendemos discutir com os professores, diretores e coordenadores pedagógicos propostas de trabalho com variados gêneros3 e tipos de textos, em diferentes níveis de escolaridade.

Um ponto de partida pode ser a delimitação da noção de gênero. Conforme definição apresentada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, volume 2 - Língua Portuguesa (MEC, 1997), na página 26, encontramos que:

"Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional. Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros refere-se a 'famílias' de textos que compartilham algumas características comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o texto se articula, tipo de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade, por exemplo, existindo em número quase ilimitado."

Partindo do pressuposto de que a apropriação dos gêneros discursivos, pelos nossos alunos, não pode estar limitada ao que os livros didáticos trazem, nem ao que oferecem como atividades, iremos centrar nossa discussão em alguns projetos didáticos realizados em salas de aula, cujo eixo central esteja relacionado à leitura e produção de textos. Os projetos oferecem excelentes condições de práticas de leitura e produção de textos, pois:

- Permitem a leitura e análise de uma grande variedade de textos e seus respectivos portadores;

- Permitem ao aluno se colocar no lugar do autor que escreve para um leitor possível, fisicamente ausente, uma vez que todo projeto deve estar voltado para uma dimensão social e pública;

- Impõem a necessidade de revisão e legibilidade do próprio texto escrito para leitores virtuais e possíveis, tirando, assim, a prática nefasta de se escrever somente para ser avaliado pelo professor;

- Favorecem a intersecção entre conteúdos de diferentes áreas, na medida em que trazem para o processo de produção as características de textos trabalhados, por exemplo, em Ciências ou História e Geografia;

- Significam o necessário compromisso do aluno com sua própria aprendizagem.4

Como os gêneros são em "número quase ilimitado", priorizamos cinco gêneros para serem discutidos nesta série Varal de Textos. São eles:

1. Poesia na escola;

2. Do conto ao teatro;

3. Fábulas fabulosas;

4. Lendo e produzindo textos científicos;

5. Trabalhando com cartas.

PROGRAMA 1 - POESIA NA ESCOLA

Neste programa, vamos debater o trabalho com o texto poético, a partir de propostas didáticas realizadas em sala de aula. Esperamos poder aprofundar a discussão sobre a importância da poesia e mostrar como boas propostas de atividades podem ser extremamente enriquecedoras dos universos letrados de alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental, tornando-os não somente ouvintes e apreciadores de poemas, mas também, produtores de poesia.

PROGRAMA 2 - DO CONTO AO TEATRO

Teatro é uma experiência de transformação. Transformar palavras em atos e ações. Neste programa, a proposta é inversa: transformar ensaios improvisados de um texto narrativo ficcional ("Maria Angula") em um texto teatral. Um processo complexo e cheio de discussões em torno do modo de escrever este gênero.

PROGRAMA 3 - FÁBULAS FABULOSAS

As fábulas, pelas suas características lingüísticas e textuais, mas também por seu conteúdo temático, têm sido apreciadas há muito tempo na literatura universal. Na escola, sua leitura pode oferecer aos alunos, principalmente para aqueles que ainda não dominam a leitura e a escrita, uma interação com o mundo letrado e ficcional de ótima qualidade literária. Neste programa, iremos discutir as possibilidades deste trabalho e as riquezas destes textos.

PROGRAMA 4 - LENDO E PRODUZINDO TEXTOS CIENTÍFICOS

Trabalhar com textos informativos científicos em sala de aula exige caminhos mais longos e complexos do que aqueles indicados pelos livros didáticos de Ciências Naturais. A proposta do programa é discutir as especificidades deste gênero discursivo, para que possamos levar o aluno a compreender tais textos e, assim, contribuir para sua formação como leitor e produtor de textos.

PROGRAMA 5 - TRABALHANDO COM CARTAS

O gênero epistolar é um dos mais antigos registros de escrita encontrados na história da humanidade. Suas características essenciais podem ser destacadas pela relação entre o "destinatário" e o "remetente", em que a definição daquele que escreve e daquele a quem se destina o escrito joga um papel central nesta prática de produção de texto. O trabalho com este gênero em sala de aula pode ajudar os alunos a reconhecerem esta relação e a serem efetivos produtores deste gênero discursivo.

NOTAS:

1. Eduardo Calil (eco@fapeal.br) é professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e consultor desta série.

2. Para saber mais sobre estes programas, consultar o catálogo Guia de Programas: 1996-2000, elaborado e distribuído pela Secretaria de Ensino a Distância/MEC.

3. Recomendo a leitura do livro Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo, publicado pela Educ, 1999, de Jean-Paul BRONCKART. Entre as páginas 137 e 150 o autor faz uma preciosa discussão sobre "Gêneros de textos e tipos de discurso".

4. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, Língua Portuguesa, volume 2, páginas 70 a 73, encontramos um melhor detalhamento do trabalho com "projetos". Para quem desejar aprofundar esta questão, sugerimos a leitura de Formando Crianças Produtoras de Textos de Josette Jolibert, publicado pela ArtMed, em 1994 e Escola, Leitura e Produção de Textos de Ana Maria Kaufman & Maria Elena Rodriguez, também publicado pela ArtMed, em 1995.

PGM 1 - Poesia na escola

Eduardo Calil

Geralmente, o trabalho com a poesia em sala de aula está atrelado, entre outros problemas, às atividades e aos exercícios oferecidos pelos livros didáticos que tratam este gênero discursivo como pretexto para levar os alunos a discutirem conteúdos gramaticais e ortográficos, deixando de lado o valor literário que, prioritariamente, tais textos possuem.

Hoje não podemos mais tratar o ensino da Língua Portuguesa sem levar em consideração os usos e as funções sociais do texto. A escola deve, principalmente nas séries iniciais do Ensino Fundamental, valorizar o trabalho com textos conforme se apresenta em nossa sociedade letrada. Desse modo, as práticas de leitura e de produção de texto poderão ganhar sentidos, sem que o professor as transforme em situações voltadas, única e exclusivamente, para avaliação e correção.

Essas afirmações podem ser fortalecidas se lermos o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, 1º e 2º ciclos (MEC, 1997, p. 37 a 38):

"A questão do ensino da literatura ou leitura literária envolve, portanto, esse exercício de reconhecimento das singularidades e das propriedades compositivas que matizam um tipo particular de escrita. Com isto, é possível afastar uma série de equívocos que costumam estar presentes na escola em relação aos textos literários, ou seja, tratá-los como expedientes para servir ao ensino das boas maneiras, dos hábitos de higiene, dos deveres do cidadão, dos tópicos gramaticais, das receitas desgastadas do "prazer do texto" etc. postos de forma descontextualizada, tais procedimentos pouco ou nada contribuem para a formação de leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das construções literárias."

Uma forma de reconhecimento destas "sutilezas", "particularidades", "sentidos" e "profundidades" das construções literárias pode ser exemplificada pelo projeto POEMA DE CADA DIA, desenvolvido junto à Escola Miosótis e à Escola da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresa, duas organizações não governamentais que atendem a alunos sem recursos da cidade de Maceió (AL).

O projeto se propõe a levar diariamente poemas para a sala de aula, pois seu pressuposto básico está na idéia de que a formação de um leitor competente está vinculada à constante presença de textos no contexto escolar. Este projeto propõe particularmente a formação de leitores de poemas.

Para tanto, foram selecionados 215 poemas dos mais diversos autores e escolas literárias, podendo o professor escolher qual poema gostaria de trabalhar com seus alunos. O professor tem, assim, à sua disposição, poemas para serem simplesmente declamados ou pode escolher atividades de interpretação mais elaboradas, já propostas por este material didático.

Nas declamações, professor e aluno podem declamar uma ou mais vezes um mesmo poema. Um a cada dia. Estas atividades podem ocorrer a partir de estratégias bastante diversas, desde simples leituras e declamações realizadas pelo professor, em algum momento do dia, cujo objetivo reside na própria declamação, que não toma mais do que alguns minutos da aula, até atividades mais elaboradas, como ensaios e preparação para um jogral.

Um poema muitas vezes exige ser declamado ou escutado mais de uma vez para que os sentidos comecem a ser percebidos. Às vezes não se compreende completamente, de imediato, o que o poeta quis dizer, mas isto não impede que se possa apreciar a leitura e, através da leitura e escuta diversa e significativa, de sua musicalidade e do efeito causado pelo jogo das palavras, possa-se ir construindo sentidos que inicialmente estavam escondidos e, por vezes, obscuros.

Dentre os 215 poemas, foram selecionados e elaboradas atividades de leitura e interpretação de 60 poemas, para que se possa realizar uma análise e discussão mais detalhada com relação à "profundidade das construções literárias presentes nos poemas", nas quais residem aliterações, repetições, jogos homonímicos, homofônicos, metafóricos, o uso do espaço gráfico na construção dos sentidos etc.

Nestas propostas de atividades, além dos objetivos, da indicação dos materiais necessários e dos procedimentos do professor e do aluno, apresento um breve comentário geral acerca de alguns sentidos que podem estar presentes no texto. No entanto, é fundamental levar em conta que, apesar do sentido não poder ser qualquer um, ele nunca é um só. Ele está sempre aberto a outras interpretações. Por isso, o professor deve estar atento às discussões suscitadas pelo poema, pois podem emergir daí sentidos outros.

Os poemas trabalhados, bem como aqueles que são construídos pelo próprio aluno, poderão ser registrados em uma espécie de Diário Poético de cada aluno. Isto porque, além das atividades de leitura e interpretação, o projeto prevê a criação de poemas.

É preciso ressaltar que a elaboração de um poema pode se dar através de várias versões (versão 1, versão 2 e versão 3), em folhas soltas que favoreceriam a construção da noção de "rascunho", até se chegar à versão final, que irá integrar o Diário Poético.

Obviamente, propostas como esta podem e devem ser reconsideradas, a partir de cada realidade educacional e cultural, tanto dos professores quanto dos alunos envolvidos. O importante é fazer com que o aluno possa ter acesso ao universo literário mobilizado pela poesia, levando-o a constituir uma relação diferenciada com a linguagem, e, conseqüentemente, tornar-se leitor e produtor de textos competente.

Os dois poemas que se seguem são exemplos deste intenso trabalho com a linguagem.

Em uma das turmas de 2ª série da Escola Miosótis, alunos que não tinham contato com nenhum tipo de texto literário puderam produzi-los, utilizando belos jogos metafóricos, construções que brincam com as palavras e com os sentidos.

QUEM VEM ME SALVAR

Valdemir Gomes da silva

Maria das Graças

Se eu estivesse no ar

Quem viria me salvar?

O céu a terra ou o mar

Um dos três terá que me salvar.

 

Se o céu vem me salvar

Eu tenho onde voar.

 

Se a terra vem me salvar

Eu tenho onde morar.

 

Se o mar vem me salvar

Eu posso até me afogar.

 

Ora, eu não sei quem vem me salvar...

Como eu tenho ainda vida

Eu vou me mandar

Para o céu ou a terra ou o mar.

 

Este poema traz interessantes pontos a serem destacados, como por exemplo, o jogo de sentido entre os elementos "céu", "terra" e "mar". Estas palavras convocam elementos que, postos em relação, criam sentidos de oposição. Além disso, sua repetição produz um certo ritmo e cadência nas idéias postas em circulação.

Somente é possível produzir tais efeitos através de um processo de imersão em um universo poético em que circulam poemas todos os dias. Deste modo, sem se ter a pretensão de torná-los poetas, pode-se ter a garantia de que a escola está contribuindo para inseri-los significativamente no mundo letrado.

PGM 2 - Do conto ao teatro

Eduardo Calil

"Compete à escola oferecer um espaço para a realização dessas atividades [teatrais], um espaço mais livre e mais flexível para que a criança possa ordenar-se de acordo com a sua criação.

Deve ainda oferecer material básico, embora os alunos geralmente se empenhem em pesquisar e coletar materiais adequados para as suas encenações."

(PCN, MEC)

O teatro, o cinema e a televisão com freqüência lançam mão de obras que pertencem a diferentes gêneros literários, que foram escritas para serem lidas, para adaptá-las a estes meios que, apesar de exigirem linguagens bastante particulares, com recursos e procedimentos técnicos muito diferentes entre si, têm como objetivo central a representação, a encenação, a dramatização.

Recentemente, pudemos assistir a excelentes trabalhos de adaptação. Por exemplo, o diretor Guel Arraes adaptou para a televisão a peça de teatro Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Também foram feitas outras adaptações, como a do belíssimo romance Lavoura Arcaica, e a da novela Um copo de cólera, ambos de Raduan Nassar, para o cinema. Na TV, foi feita a nova versão do Sítio do Pica-pau Amarelo, de nosso grande Monteiro Lobato. E, para ficar somente em algumas adaptações que tivemos a oportunidade de assistir nos últimos dois anos, citamos também o envolvente filme "Harry Porter e a Pedra Filosofal", baseado no livro da autora inglesa J.K. Rowling, que os cinemas do país todo mostraram no fim do ano de 2001, e que crianças e adolescentes de boa parte do mundo têm aplaudido tão fervorosamente. Alguns outros exemplos não tão recentes, mas nem por isso menos importantes, podem ser lembrados, como a adaptação para o cinema do romance de Jorge Amado, Dona Flor e seus dois maridos, ou a adaptação do conto "Sagarana", de João Guimarães Rosa, para o teatro, bem como do romance Grande Sertão: Veredas, do mesmo autor, para a televisão.

Todos estes processos de adaptação não são nada fáceis e exigem um grande conhecimento a respeito das características de um gênero discursivo escrito para ser lido e as de um gênero discursivo escrito para ser representado.

Entretanto, transpondo esta questão para a escola, podemos tomar como ponto de partida o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, em relação ao trabalho com teatro no Ensino Fundamental:

O teatro no Ensino Fundamental proporciona experiências que contribuem para o crescimento integrado da criança sob vários aspectos. No plano individual, o desenvolvimento de suas capacidades expressivas e artísticas. No plano do coletivo, o teatro oferece, por ser uma atividade grupal, o exercício das relações de cooperação, diálogo, respeito mútuo, reflexão sobre como agir com os colegas, flexibilidade de aceitação das diferenças e aquisição de sua autonomia como resultado do poder agir e pensar sem coerção.

Assim, os objetivos do trabalho com teatro na escola podem estar relacionados:

a) Ao trabalho com expressão artística (confecção de figurinos, de cenários, sonoplastia, expressão corporal etc.);

b) Ao trabalho com língua escrita e oral (leitura de textos de teatro, adaptação de um conto para o teatro, compreensão das características lingüísticas, discursivas e textuais deste gênero etc.);

c) Ao trabalho coletivo (alunos podem assumir diferentes funções para atingirem um mesmo objetivo, que é a encenação);

d) Ao produto cultural e apreciação estética (conhecimento de diferentes autores teatrais e um pouco da história do teatro, análise e discussão de peças de teatro ou filmes que fizeram adaptações deste tipo de texto).

Gostaríamos de destacar aqui o segundo objetivo indicado acima, referente ao trabalho com a linguagem oral e escrita. Para isto, tomemos um exemplo real, dentre os excelentes trabalhos com teatro em sala de aula que têm sido realizados no Ensino Fundamental.

No ano de 2001, no Centro Educacional Miosótis, uma escola que atende a alunos que vivem em um bairro muito pobre da cidade de Maceió (Alagoas), a professora da 3ª série, em parceria com a coordenação pedagógica, se propôs a fazer uma peça de teatro com alguns contos de assombração que estavam sendo lidos para seus alunos. Dentre os inúmeros contos que eles conheciam, por meio da leitura diária feita pela professora, foi escolhido o conto "Maria Angula" (do livro Contos de assombração), para ser adaptado e encenado.

Este conto narra a história de uma adolescente que era muito fofoqueira e convencida, que vivia fazendo intriga entre as amigas. Quando ela se casa, o marido pede que ela prepare diferentes pratos de comidas. Como ela passou a vida a fofocar e criar intrigas, nunca aprendeu a cozinhar bem, então ela recorreu à sua vizinha, dona Mercedes, que era uma cozinheira de mão cheia. A cada prato ensinado, ela sempre dizia que era fácil e que aquilo ela já sabia fazer, desprezando e sendo mal-agradecida. Um dia, Dona Mercedes ficou aborrecida com esta história que se repetia dia a após dia e inventou uma receita macabra. Para preparar aquele prato especial, Maria Angula tinha que ir até o cemitério roubar tripas de um defunto fresquinho. Feito o prato para o marido com as tripas roubadas, no meio da madrugada aparece o defunto, acusando Maria Angula e levando-a embora para o Além.

Em primeiro lugar, a professora propôs uma improvisação deste conto, definindo as personagens para os alunos que queriam participar como atores, bem como a equipe técnica que ficaria responsável pela parte técnica, como figurinos, sonoplastia, cenário etc.

Para dar referências do que era um texto teatral, de suas características lingüísticas, discursivas e textuais, a professora leu a peça Auto da Compadecida e depois mostrou o filme. Depois, ela também leu a tragédia grega Antígona, de Sófocles. Em alguns momentos, durante esta leitura em voz alta, a professora teve oportunidade de discutir estas características, como, por exemplo, a estrutura dialogal, as rubricas (indicações do autor do texto dramático para o diretor ou o leitor imaginarem o contexto daquela fala da personagem), a ausência de um narrador etc. Todos estes pontos são muito diferentes no texto escrito somente para ser lido, como o conto de assombração "Maria Angula". Os alunos precisavam saber disto antes de fazerem a escrita coletiva deste conto na forma de texto teatral.

Juntamente com a professora, após algumas improvisações feitas, os alunos escreveram o texto da peça teatral "Maria Angula". Em primeiro lugar, eles dividiram o texto por cenas:

Cena 1: Maria Angula conversando e fofocando com as amigas.

Cena 2: Maria Angula se casando.

Cena 3: Marido pedindo um prato para jantar.

Cena 4: Maria Angula indo até Dona Mercedes para perguntar como fazer o prato que o marido pediu.

(E assim por diante).

Depois desta divisão da história por cenas, os alunos e a professora foram escrevendo uma cena por aula. A primeira cena, que tomou, como apoio, as improvisações feitas anteriormente pelos próprios alunos, ficou assim:

Cena 1: Maria Angula encontrando-se com algumas amigas

Maria Angula: (FALANDO EM TOM DE INTRIGA) "- Meninas, vocês viram a que horas a Cristina chegou ontem a noite?! Olhe, eu não quero falar nada não, mas o namorado dela nem sabe de nada..."

AMIGA 1: (EM TOM DE REPREENSÃO) "- Nossa, Maria, pare com isto, você só sabe falar da vida dos outros."

AMIGA 2: (CONCORDANDO COM A AMIGA 1) "- É! Você devia era cuidar mais das suas coisas. Um dia você ainda vai se arrepender das fofocas que você faz."

MARIA ANGULA: (irritada) "- Não perturbem, suas bobas! Eu que mando na minha vida e faço e falo de quem eu quiser. Eu é que sei das coisas, vocês são todas umas chatas!" (SAINDO DE CENA ENFEZADA E BATENDO O PÉ).

Este trabalho coletivo de produção de texto foi repetido, ao longo de todas as cenas e, posteriormente, cada aluno pôde receber, na forma de livro, o texto teatral "Maria Angula", escrito por eles. Este texto passou a servir de base para os ensaios que continuavam acontecendo em momentos diversos.

Podemos concluir que as discussões com os alunos foram extremamente enriquecedoras, pois lhes permitiram uma boa reflexão não só sobre estas características da estrutura dialogal, das rubricas, do que é uma cena etc., mas também das palavras que seriam mais adequadas para representar o modo de falar de Maria Angula, de suas amigas e das outras personagens. Também os alunos puderam discutir significativamente questões como a pontuação, principalmente aspas, travessão e dois-pontos, e ainda a ortografia.

Esta peça de teatro foi apresentada na festa de final de ano pelos alunos de 3ª série, que foram aplaudidos por todos que assistiram.

PGM 3 - Fábulas fabulosas

Marcos Bagno*

A fábula é um gênero literário muito antigo que se encontra em praticamente todas as culturas humanas e em todos os períodos históricos. Este caráter universal da fábula se deve, sem dúvida, à sua ligação muito íntima com a sabedoria popular. De fato, a fábula é uma pequena narrativa que serve para ilustrar algum vício ou alguma virtude, e termina invariavelmente com uma lição de moral. Até hoje, quando terminamos de contar um caso ou algum acontecimento interessante ou curioso, é comum anunciarmos o final de nossa narrativa dizendo: "moral da história"... Pois é justamente da tradição das fábulas que nos vem esse hábito de querer buscar uma explicação ou uma causa para as coisas que acontecem em nossa vida ou na vida dos outros, ou de tentar tirar delas algum ensinamento útil, alguma lição prática.

A moral de algumas fábulas muito conhecidas acabou se tornando provérbios nas línguas do Ocidente, muitas vezes até sem que a maioria das pessoas conheça a fábula original. É o caso, por exemplo, dos provérbios "quem desdenha quer comprar" ou "quem ama o feio bonito lhe parece". O primeiro é a moral da fábula da raposa que, vendo uvas muito bonitas, mas fora de seu alcance, acaba desistindo de apanhá-las, alegando que, na verdade, estão verdes. O segundo é a conclusão da história da águia que devora os filhotes da coruja - como a coruja tinha lhe dito que seus filhotes eram de uma beleza incomparável, a águia, ao encontrar num ninho um punhado de criaturinhas muito feias, não hesitou em comê-las, porque aqueles jamais poderiam ser os filhotes lindos de sua comadre coruja. Aliás, é dessa mesma história que procede a nossa expressão "mãe coruja" ou "pai coruja", para designar os pais que não vêem defeitos nos próprios filhos.

A grande maioria das fábulas tem como personagens animais ou criaturas imaginárias (criaturas fabulosas), que representam, de forma alegórica, os traços de caráter (negativos e positivos) dos seres humanos. Os gregos chamavam a fábula de apólogo, e esta palavra também costuma ser usada para designar uma pequena narrativa que encerra uma lição de moral. A palavra latina fábula deriva do verbo fabulare, "conversar, narrar", o que mostra que a fábula tem sua origem na tradição oral - aliás, é da palavra latina fábula que vem o substantivo português fala e o verbo falar. É muito provável que as fábulas que chegaram até nós por meio da escrita tenham existido durante muito tempo como narrativas tradicionais orais, o que faz esse gênero remontar a estágios muito arcaicos da civilização humana. As fábulas devem ter sido usadas com objetivos claramente pedagógicos: a pequena narrativa exemplar serviria como instrumento de aprendizagem, fixação e memorização dos valores morais do grupo social.

Na história do Ocidente, houve grandes autores de fábulas. Na Grécia antiga, o mais famoso deles foi Esopo, que viveu entre os séculos VII e VI antes de Cristo. Diz a tradição que Esopo era um grande contador de histórias, mas que não deixou nenhuma fábula escrita. Seus apólogos foram registrados de forma literária mais tarde por outros autores. O mais importante deles foi o romano Fedro (15 a.C. - 50 d.C.), que se declarava admirador e imitador de Esopo. Algumas fábulas de Fedro que se tornaram extremamente conhecidas são "O lobo e o cordeiro", "A raposa e o corvo", "A rã e os bois" e a já mencionada "A raposa e as uvas". No século XVII, na França, viveu o mais importante fabulista da era moderna: Jean de La Fontaine (1621-1695). La Fontaine, além de compor suas próprias fábulas, também reescreveu em versos franceses muitas das fábulas antigas de Esopo e de Fedro. É dele a fábula mais conhecida de todo o Ocidente, "A cigarra e a formiga". Nas escolas dos países de língua francesa, as fábulas de La Fontaine são estudadas e aprendidas de cor pelas crianças desde o início de sua escolarização. Como La Fontaine escreveu suas fábulas em versos metrificados e rimados, elas são de fácil memorização.

Em seu projeto de criar uma literatura brasileira especialmente voltada para as crianças e os jovens, o grande Monteiro Lobato (1882-1948) também se interessou por este gênero tradicional. Em seu livro Fábulas, Lobato reconta em prosa brasileira moderna algumas das fábulas antigas de Esopo, Fedro e La Fontaine, além de nos apresentar algumas de sua própria autoria. Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que existem no Brasil para a abordagem do gênero fábula em sala de aula: além do texto da fábula propriamente dita, Monteiro Lobato insere, depois de cada uma das narrativas, as animadas discussões que a fábula provoca no círculo de personagens que povoam o Sítio do Pica-pau Amarelo. Dona Benta, que narra as fábulas, representa a voz da tradição, a opinião ponderada e refletida das pessoas já vividas. Tia Nastácia, representante da sabedoria popular, também se mostra bastante inclinada a aceitar a moral das fábulas. Pedrinho e Narizinho fazem comentários de acordo com seu espírito irrequieto de crianças curiosas e dispostas a aprender, enquanto a irreverente Emília tenta, a cada momento, contestar a lição de moral que a fábula encerra.

Uma proposta interessante para a abordagem da fábula em sala de aula seria tentar reproduzir de algum modo esse ambiente do Sítio do Pica-pau Amarelo. O professor poderia narrar a fábula, ou lê-la junto com os alunos, garantindo que cada um ou cada dupla tenha uma cópia, e em seguida debater os valores morais contidos na história. Como a questão da ética tem sido muito enfatizada nas propostas atuais de ensino (como nos Parâmetros Curriculares Nacionais), as fábulas poderiam suscitar boas discussões em torno de temas como a solidariedade, a (in)justiça so- cial, a vaidade, a ganância, o espírito de vingança, o autoritarismo etc. Em que medida a lição de moral contida em determinada fábula ainda se aplica ao modo de vida da sociedade contemporânea? Não estaria representado ali algum tipo de moralidade muito conservadora? Ou, pelo contrário, estariam veiculados ali alguns princípios fundamentais da convivência humana, válidos para qualquer época, qualquer lugar e qualquer cultura? Ou a mudança dos valores morais ao longo do tempo terá feito envelhecer a lição de ética contida nas fábulas?

Essa reavaliação das fábulas tradicionais tem sido feita por muitos escritores, humoristas, teatrólogos e artistas em geral. A fábula da cigarra e da formiga talvez tenha sido aquela que mais passou por esse tipo de (re)-interpretação. Humoristas como Jô Soares e Millôr Fernandes já fizeram suas paródias dessa historinha muito conhecida. Como interpretar a atitude da formiga e da cigarra nessa fábula? Dependendo do ponto de vista, a história pode ser entendida como um elogio da acumulação de bens, do aumento do patrimônio, como um louvor da sociedade capitalista e uma crítica à vida despreocupada e ociosa dos artistas - ou então, precisamente ao contrário, como uma crítica à frieza do capitalista, que só se preocupa em aumentar sua fortuna, sem gozar dos prazeres da vida e sem se importar com os necessitados. "A cigarra e a formiga" foi escrita na França no século XVII por um membro da aristocracia e decerto retrata os valores éticos daquela época e daquela classe social - como avaliar a moral ali contida numa sociedade como a brasileira do século XXI?

Outra proposta de trabalho com as fábulas pode ser a produção de um livro feito pelos alunos. Inicialmente, o professor selecionaria e apresentaria várias fábulas 1, usando procedimentos didáticos diversos, como, por exemplo, pedir que leiam uma fábula que ainda não conhecem e dêem um título ou coloquem uma outra moral, orientar a preparação de leituras em voz alta etc. Posteriormente, das muitas fábulas lidas, o professor pediria a (re)-escrita de algumas delas, após ter garantido que os alunos a memorizaram. (Se os alunos ainda não conseguirem ler convencionalmente, o professor poderia escrever na lousa, enquanto os alunos vão contando a fábula escolhida, e/ou propor a ilustração das fábulas para, depois, compilá-las em um livro a ser presenteado aos pais). O professor poderia, ainda, dar continuidade a este projeto de trabalho, depois de estar seguro que os alunos têm alguma intimidade com este gênero, sugerindo a criação de fábulas a partir da sugestão de um título como "O elefante e a formiga" ou de alguma moral como "Quem muito gasta, pouco tem". Seria interessante que neste processo de criação fosse incentivado o trabalho em dupla de alunos, assim como o trabalho com algumas versões antes de se chegar à versão final, que fará parte do livro de fábulas. O final deste projeto de Língua Portuguesa poderia ser a leitura das fábulas deste livro para alunos de outras séries ou para os pais, em uma tarde de autógrafos.

Assim, as fábulas podem ser um importante aliado tanto para o trabalho pedagógico com a língua oral, a leitura e a língua escrita, como também em uma perspectiva sociológica e antropológica, já que oferecem esquemas de análise e/ou explicação para um sem-número de comportamentos sociais e de traços de personalidade individuais.

Estes pontos justificam, sobremaneira, a presença deste gênero literário já nos primeiros anos escolares.

NOTAS:

* Lingüista e escritor; autor de diversos livros de literatura para crianças e jovens.

1. Um interessante projeto de trabalho com fábulas, produzido por Eduardo Calil (Universidade Federal de Alagoas) pode ser conferido no site www.cedu.ufal.br

PGM 4 - Lendo e produzindo textos científicos

Eduardo Calil 1

A presença de textos científicos em sala de aula está, freqüentemente, vinculada ao ensino de Ciências Naturais, através do uso de livros didáticos. Em geral, nestes livros, os "textos científicos" oferecidos sofrem adaptações que visam a uma melhor compreensão pelos alunos, a partir daquilo que os autores destes livros julgam relevantes para o aprendizado dos conteúdos escolhidos e tematizados. A forma utilizada nestas adaptações dos textos científicos, na maioria das vezes, acaba por reduzir e simplificar as características lingüísticas, textuais e discursivas destes gêneros. Além disso, são muito poucos os livros didáticos de Ciências que levam em conta uma necessária interlocução com o ensino de Língua Portuguesa e, especificamente, a prática de produção de texto.

É por este prisma - aproximações entre o ensino de Ciências Naturais e o de Língua Portuguesa - que pretendo discutir aqui o trabalho com textos informativos científicos. Meu ponto de partida toma como pressuposto básico a impossibilidade de se tratar qualquer área de conhecimento sem passar por alguma compreensão dos complexos processos que envolvem as condições de produção dos textos. Assim, mesmo que o professor esteja discutindo com seus alunos conteúdos relacionados aos conhecimentos e conceitos científicos, como, por exemplo, o conceito de ser vivo ou de ambiente, é de fundamental importância que ele tenha claro qual(is) tipo(s) de texto(s) está oferecendo a seus alunos e quais usos e funções sociais estes textos demandam, de modo que as propostas de atividades possam ser o mais significativas possíveis.

Isto se aproxima do que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, volume 4, sobre Ciências Naturais, no item "A leitura de textos informativos":

"É importante que o aluno possa ter acesso a uma diversidade de textos informativos, pois cada um deles tem estrutura e finalidade próprias. Trazem informações diferentes, e muitas vezes divergentes, sobre um mesmo assunto, além de requererem domínio de diferentes habilidades e conceitos para sua leitura."(MEC, 1997, volume 4:124)

Para ser mais claro, tomemos um exemplo. Se o professor oferecer aos seus alunos um texto sobre as "minhocas" para servir de base para uma discussão teríamos, pelo menos, três ou quatro possibilidades de gêneros textuais. Ele pode escolher:

1. Um verbete de enciclopédia ("minhoca"), que apresenta uma definição um tanto quanto ampla deste anelídeo;

2. Um livro com fins paradidáticos sobre o modo de vida das minhocas;

3. Um texto que instrua o leitor a construir um "minhocário", com materiais simples;

4. Um texto da revista Ciência Hoje das Crianças, discutindo a importância das minhocas para a agricultura, ou sobre o modo como se reproduzem e seu hermafroditismo;

5. Um texto da revista Super Interessante ou Galileu, listando algumas curiosidades sobre as minhocas, como por exemplo, porque elas são boas iscas para atrair peixes;

6. Um relato de experiências feitas por pesquisadores para a obtenção de húmus de melhor qualidade.

Cada um destes textos exige condições de leitura bastante diversas e todos eles poderão ser utilizados como base para as práticas de produção de textos a serem feitas sobre este assunto.

Para mostrar isto de modo mais claro, apresento, brevemente, duas versões de um texto sobre minhocas escrito por dois alunos de uma 1ª série e a interferência da professora, feita entre a 1ª e a 2ª versão. É importante ressaltar que a professora, junto com seus alunos, já havia lido e discutido vários textos informativos sobre o assunto e estava propondo a elaboração de um livro, que seria o fechamento deste projeto.

Na solicitação inicial para a produção de texto (a 1ª versão), a professora queria que eles escrevessem um texto sobre como as minhocas eram, mas sua consigna foi muito ampla. Ela disse "escrevam um texto sobre as minhocas". Isto terá efeitos sobre os alunos2.

Rodrigo e Matheus, dois dos seus alunos, escreveram do seguinte modo.

Texto 1 (Rodrigo e Matheus): [1ª série - 1ª versão]

RODRIGO E MATHEUS (16/3/95)

AS MINHOCAS

AGENTEVIU ASMINHOCAS AGENTE VIU APART

E PRETA É MAS PORSIMA DA CABEÇA... AGENTi
VIU QUE

ELA E SURDA E NÃO TEIOLHO CUANDO A MINHOCA

VAINANOSA MÃO ELADESVIA DANOSA MAO PORQUE

ELA SEITE O CALOR DANOSA MAO PELAPELE

A MINHOCA VIVE NA TERRA

Diante de um texto como este, o que dizer aos alunos? Antes de analisar, o que fez o professor através do bilhete que escreveu, alguns problemas poderiam ser destacados.

a) Questão de segmentação - palavras grudadas;

b) Erros ortográficos: "ma(i)s", "sima", "tei", "éla", "seite", "nos(s)a", "genti", "cuando";

c) Divisão silábica equivocada: "part - e";

d) Ausência de pontuação (somente "reticências");

e) Ausência de parágrafos;

f) Repetição de expressões: "a gente viu", "nossa mão";

g) Problemas que envolvem relações sintáticas: "a gente viu a parte preta é mais por cima da cabeça";

h) Relato de observação oralizado, em que predomina a perspectiva enunciativa de quem fez alguma experiência com minhocas.

Seria interessante chamar a atenção para estes itens e analisar o que eles estão mobilizando, pois indiciam diferentes formas de relação com a linguagem, apesar de produzirem efeitos inter-relacionados.

Para fins didáticos, irei agrupar os itens acima em dois conjuntos.

1. Aspectos formais: relacionados à ortografia, à divisão silábica, à separação de palavras (itens a, b, c);

2. Aspectos discursivos: os que se encontram diretamente relacionados à produção de efeitos de sentido no texto, que permitem a ele tomar uma direção ou outra (d, e, f, g, h).

Na realização da interferência da professora (que é necessariamente uma interpretação do texto do aluno), optar por um conjunto de aspectos ou outro irá depender, por um lado, de um imaginário constituído em torno do efeito de unidade do texto para a professora e, por outro, mas interligado ao primeiro, da "escuta"3 desta professora diante do texto do aluno. Em outras palavras, a interpretação destes "problemas" (ou de outros que não foram levantados4) neste texto (assim como em qualquer outro) depende do modo como se constitui o olhar da professora, do que a professora acha que deve ser ensinado para estes alunos, que estão na 1ª série do Ensino Fundamental.

Vejamos, então, o modo como que a professora "leu" este texto. Ela escreveu um pequeno bilhete para o Rodrigo e o Matheus fazerem uma 2ª versão.

Rodrigo e Matheus,

Ao invés de vocês relatarem o que observaram, tentem reescrever o texto colocando apenas o que vocês sabem sobre as minhocas.

Lembrem-se de que, num texto informativo, o autor "informa" sobre o assunto desejado. Nesse caso, ele não usa "a gente", pois não está dizendo o que viu e sim, o que sabe e o que conhece sobre o assunto. Reescrevam o texto a partir das discussões feitas em classe e escrevam então o que vocês sabem sobre as minhocas.

Bom trabalho!

Denise

Ao analisar este bilhete, um primeiro destaque pode ser dado à posição da professora e sua "escuta" do texto dos alunos. Há um destacamento dos aspectos ligados a uma ordem discursiva5, parecendo deixar para outro momento os aspectos formais que agrupei no conjunto 1(isto não é um mero detalhe).

Neste texto, alguns pontos podem ser discutidos com algum cuidado, entre eles, a definição do que é "informar". O professor afirma que em um texto informativo "não (se) está dizendo o que viu e sim, o que sabe e o que conhece sobre o assunto". Há uma imprecisão no modo como ela escreveu o bilhete, pois as crianças não se limitam a relatar o que observaram, como aparentemente poderia ser suposto. Há um cruzamento de enunciados relacionados a uma provável observação de uma minhoca e a textos científicos lidos pela professora ou pelos próprios alunos. Estes enunciados "mais científicos", que não são inferidos a partir de uma simples observação, podem ser destacados abaixo:

"ela é surda e não tem olho"

"'ela desvia da mão' porque sente o calor pela pele"

"a minhoca vive na terra"

A heterogeneidade marcada por estes cruzamentos parece ficar, em parte, apagada para a professora, pela imponente presença da expressão "a gente viu" que, discursivamente, pode estar sendo convocada pelos alunos, mobilizados através da experiência que fizeram em sala com as minhocas do "minhocário".

Esta construção talvez esteja produzindo a emergência de expressões como "nossa mão", e sua repetição ao longo do texto, e "mais por cima da cabeça" (expressão que indica que a criança está localizando a "parte preta" a partir do lugar de observador), apesar disto não ser homogêneo.

Apesar de a leitura da professora apagar ou não reconhecer isto no texto dos alunos, sua interferência é bastante precisa e incide justamente sobre este enunciado, procurando apontar para um outro modo de dizer que configura "textos científicos" - Nesse caso, ele (texto informativo) não usa "a gente", pois não está dizendo o que viu e sim, o que sabe e o que conhece sobre o assunto.

Assim, o que o professor diz/escreve tem um efeito sobre a escrita da 2ª versão. Vamos ao texto.

Texto 2 (Rodrigo e Matheus): [1ª série - 2ª versão]

MATHEUS E RODRIGO (29/3/95)

AS MINHOCAS

A MINHOCAS SC ENTE O CALOR PELA

PÉLE ÉLA TEM UMA PARTE PRETA E A PARTE PRETA

CHANMA CLITELO E SE ÉLA FICA MUITO TENPO

NA LUS E SOL A PÉLE RECECA E A MINHOCA MORE É

A MINHOCA RASTEJA E A MINHOCA TEM 5 PARES DE CORAÇÃO

Em relação ao texto anterior (1ª versão) parece haver algumas mudanças bastante significativas, que apontam, por um lado, para a "escuta", por parte de Rodrigo e Matheus, das colocações da professora e, por outro, para o efeito do próprio texto sobre os alunos.

Na 2ª versão, há a produção de uma unidade de sentido que se aproxima mais de um "texto científico" e do que a professora parece esperar. Estes efeitos podem ser observados através de enunciados como:

  • a parte preta chama clitelo
  • se ficar muito tempo no sol e na luz a pele resseca e a minhoca morre
  • a minhoca rasteja
  • a minhoca tem cinco pares de coração

Deste modo, há uma configuração textual-discursiva desta 2ª versão bastante diferente em relação à 1ª versão. A saída da expressão "a gente viu" cede lugar a certos conceitos, bastante adequados ao tipo de texto informativo científico que estão escrevendo, como "clitelo", "rasteja", "resseca", e a uma organização sintática diferenciada, como o uso da oração subordinada condicional (se ficar... a pele resseca), apesar da presença excessiva do "e". Além disso, as informações passam a ser muito mais precisas e objetivas, como, por exemplo, ter 5 pares de coração.

A clareza do uso e da função que deveria cumprir aquele texto permitiu à professora fazer um bilhete que redirecionasse o texto escrito por Rodrigo e Matheus, dando a ele uma unidade muito mais adequada em relação à função que deveria cumprir, isto é, ao fato de fazer de um texto científico sobre as minhocas.

É neste sentido que comentei acima que o professor que trabalha com Ciências tem que, necessariamente, saber o que está em jogo nestas práticas de produção de texto. Assim, ele poderá contribuir efetivamente para a formação de habilidades e competências dos alunos, enquanto produtores de textos, um dos objetivos maiores do ensino de Língua Portuguesa na escola.

NOTAS:

1. Para maiores contatos, falem comigo: eco@fapeal.br

2. Um interessante projeto de trabalho com fábulas, produzido por Eduardo Calil (Universidade Federal de Alagoas) pode ser conferido no site www.cedu.ufal.br

3. Para quem desejar ler uma análise mais detalhada desta interferência ver meu artigo "Os efeitos da intervenção do professor no texto do aluno". In: Moura, Denilda (org.). Língua e Ensino: dimensões heterogêneas. Maceió: EDUFAL (p. 29-40).

4. A noção de "escuta" aqui diz respeito ao que a professora entende como problemas que precisam ser resolvidos no texto do aluno. No texto, há várias ordens distintas de problemas a serem resolvidos. Ela terá que optar por algumas, já que não é possível (nem adequado) para os alunos sanarem todos os problemas de uma só vez.

5. Por exemplo, a "letra feia" poderia ser considerada como um "problema".

6. Nos livros didáticos, em geral, as "orientações para professores" omitem as questões que tocam nos aspectos discursivos dos textos dos alunos. Também se pode observar que raramente se costuma interferir, através de bilhetes, no texto do aluno.

PGM 5 - Trabalhando com cartas

Caros professor e professora,

Ucy Soto 1

Prezados professores,

Não, não! Assim parece demasiado formal. Talvez fosse melhor...

Queridas professoras!

Será que..., não..., parece íntimo demais... e nem todos os professores são mulheres!

De qualquer maneira, uma coisa é certa: começando assim, o que se espera é que o texto que venha a seguir seja o que comumente designamos como carta. Nesse espaço, gostaríamos de chamar a atenção para dois aspectos intimamente interligados, como dois lados de uma mesma folha de papel: 1o) as formas e os sentidos que se materializam numa carta e 2o) a história do que se convencionou chamar de gênero epistolar.

Entre as práticas de ensino que o professor propõe aos alunos no período de ingresso no mundo letrado da escrita, e mesmo posteriormente a ele, a leitura e produção de cartas se nos oferece como uma atividade quase que evidente. Entre os muitos benefícios que pode oferecer, a carta apresenta a vantagem adicional de ser um texto que é pensado como um diálogo que acontece a distância e por isso tem como características imanentes ser escrito e se realizar sem a presença dos interlocutores.

Por esse motivo, muitos professores propõem atividades de escrita epistolar a seus alunos com o objetivo de:

Desenvolver o lado social das crianças, utilizando a correspondência, como meio de expressar suas experiências, valorizando assim seus conhecimentos, e que as mesmas despertem para o ato de ler e escrever de forma significativa. (Profa. Rita de Cássia V. Sarmento de Rio Largo/AL).

Esses fatores que caracterizam o gênero epistolar possibilitam que, na sala de aula, a escrita de uma carta equacione uma atividade escolar com uma prática socialmente estabelecida e de grande penetração.

Tão importante parece ser o papel da carta no mundo ocidental, que ela chama para si aspectos nem sempre evidentes quando se pensa neste gênero. Vejamos alguns desses aspectos. Apresentaremos, em primeiro lugar, um aspecto que gira em torno do mundo escolar e, em segundo, um grupo de aspectos que dizem respeito ao lugar que esse gênero ocupa como prática de escrita estabelecida e reconhecida socialmente.

Quando uma pessoa, apesar de alfabetizada, é incapaz de redigir uma pequena carta ou um bilhete, que seja, considera-se que ela é um analfabeto funcional. Esse tipo de analfabeto, ligado já não mais ao mundo rural, mas ao urbano, tem como característica básica não encarar a escrita como uma prática social significativa. A carta funciona aqui como um parâmetro desvelador. Ela revela uma aprendizagem (e talvez devêssemos também pensar em um ensino) de produção escrita deficiente, sem ou com pouca significação. Em sociedades democráticas, saber escrever uma carta constitui um grande instrumento, que deveria estar ao alcance de todo cidadão.

Talvez seja por esse motivo (e aqui começa o segundo aspecto) que uma das mais antigas instituições brasileiras - os Correios e Telégrafos - mantém um serviço que não paga seu custo mas que, sem sombra de dúvida, assegura a qualquer cidadão o direito de enviar uma comunicação, por escrito, a distância. Referimo-nos à carta social, que tem um preço que, sem maiores problemas, poderíamos adjetivar de simbólico: 1 centavo de real. É difícil pensar em algo mais barato!

No entanto, a uma pessoa não alfabetizada, seria, em princípio, vetado o acesso a esse meio de produção escrita. Em princípio... Sim. Mas, se nos lembrarmos de figuras como a da personagem Dora do filme Central do Brasil3 , podemos perceber que a questão epistolar como prática social não é simples e que, mesmo analfabetos, podem enviar e, efetivamente, enviam cartas. Ainda que nos passem despercebidas, essas "escrevinhaDoras" públicas estão espalhadas por esse Brasil afora, mediando a comunicação de quem deseja enviar uma carta a um ente querido ou, mesmo, ao santo de sua devoção.

Por último, o aspecto legal da questão epistolar. O mundo epistolar está permeado por muitas questões jurídicas. Por um lado, a sociedade cria mecanismos para salvaguardar o direito de seus cidadãos de poder e saber escrever cartas, mas por outro, ela se organiza para controlar a circulação pública de cartas. A "carta-missiva", tal como designada pelo jargão jurídico, é protegida por mecanismos legais solidamente edificados, na maioria dos países ocidentais. A legislação brasileira, por exemplo, não só regulamenta e pune a violação de correspondência mas também se pronuncia quanto ao direito autoral do remetente e legisla sobre os direitos do destinatário e, até mesmo, de terceiros citados em cartas. É como se se tratasse de proteger um sentido inviolável, sagrado das cartas escritas.

Prestando atenção aos usos epistolares em nossa sociedade, verificamos que as funções de numa carta podem ser mais complexas do que parecem à primeira vista. A carta como desveladora do analfabetismo funcional, a carta-social, as "escrivinhaDoras" públicas e a legislação que diz respeito à correspondência são alguns dos aspectos sociais que circundam o mundo epistolar, fazendo com que seus sentidos se configurem, se fixem ou, aos poucos, se transformem. No uso que fazemos desse objeto portador de texto, se encontra uma das chaves para compreensão de seus significados. Uma carta é um texto, ao mesmo tempo, livre e codificado, íntimo e público, que pode ser considerado como segredo e como algo voltado para a sociabilidade. A carta, melhor que qualquer outra expressão de nosso tempo, associa o laço social e a subjetividade.

Examinando um pouco mais de perto a configuração interna de uma carta, percebemos rapidamente que há determinadas formas lingüísticas inexoravelmente ligadas ao modelo epistolar. O fato de que duas palavras colocadas no início de uma carta, como vimos, por exemplo, "Queridas professoras", funcione como uma chave, é interessante. É como se o viés de leitura, a partir desse momento, se encontrasse estabelecido, direcionado, como se se orientasse para um determinado sentido... Poderíamos estabelecer um paralelo, guardando a devida distância, com o que ocorre em um outro gênero, o conto de fadas. Quando a chave verbal "Era uma vez..." é acionada, abre-se a escrita - ou a escuta, se nos posicionarmos do outro lado da folha - de um tipo de gênero determinado.

Como acontece esse direcionamento, que se faz marcar em nosso gesto de leitura motivado por essa seqüência de palavras? Como compreender que duas palavras iniciais, mesmo desprovidas do que hoje esperamos de uma carta (que venha dentro de um envelope, trazido pelo correio etc.) possam despertar em nós toda uma série de sentidos?

A tessitura (de tecido, de texto) junta num só objeto questões de forma e de sentido. A tessitura epistolar pode ser compreendida na tensão que se estabelece entre as formas lingüísticas ali empregadas ("Querida amiga", "Agora vou terminar por falta de assunto") e as formas socialmente estabelecidas de se expressar em uma determinada língua, ou, como prefere chamar Bakhtin, os gêneros do discurso. Essas formas relativamente estáveis de se expressar em uma língua são socialmente construídas, sendo a carta uma delas.

Quase todos reconhecemos uma carta, sabemos qual é o seu aspecto formal.

(Carta de Tiago, aluno da prof. Mônica de Mogi-Guaçu)

Uma carta se nos apresenta como um tipo de comunicação que se auto-identifica. O modelo formal desse gênero é bem conhecido. Junto com os contos de fada, talvez seja um dos textos escritos mais conhecidos. No entanto, a história de constituição desse gênero e suas implicações para a construção do modelo epistolar não o são. São exatamente os gêneros do discurso, essas formas relativamente estáveis de dizer, que funcionam como elo de união entre a história da sociedade e a história da língua, diria Bakhtin. Compreender como se constitui um gênero enriquece a percepção que temos sobre ele em muitos aspectos. Vamos, pois, a essa história.

A história do gênero epistolar se constituiu gradativa e muito lentamente. Seu traçado se manteve muito ligado à história do Ocidente, principalmente ao período medieval. A forma epistolar e seu/s sentido/s foram se definindo, ou pelo menos consolidando determinadas formas e não outras, conjuntamente com as práticas do Cristianismo e a expansão das artes notarial e legislativa durante a Idade Média. É nesse período que acontece o que poderíamos chamar de "a invenção" do que hoje chamamos de carta. A chave dessa questão, diz Boureau, um estudioso francês do assunto, pode ser encontrada se compreendermos melhor como se deu a internalização da necessidade de se escrever cartas e de se seguir certas regras.

Antes de o Cristianismo introduzir no Ocidente uma correspondência sagrada (as epístolas), o eixo importante das discussões se dava através da Retórica Clássica, primordialmente oral na Grécia Antiga. As epistolas de Paulo (150 d.C., aproximadamente) se constituem como o primeiro conjunto de escrituras sagradas do Cristianismo, antes mesmo dos Evangelhos. Essas epístolas, canonizadas pela liturgia, asseguram a mediação entre o céu e a terra, entre Deus e os homens, por escrito. Nelas já se encontra a originalidade constitutiva do mundo cristão, uma certa mistura de familiaridade (Paulo escreve a seus amigos) e de sacralidade (Paulo transmite a palavra de Deus).

A importância das epístolas cresce à medida que o Cristianismo se separa dos ritos judeus e toma para si um lugar cada vez mais singular durante a Idade Média. Na missa católica romana, no final do primeiro milênio, a autonomia da liturgia epistolar já se encontra bem marcada, da carta se proclama o título e o tratamento ("irmãos", "meu muito caro amigo", "meus muito caros amigos") antes de sua leitura. Lembremos que neste período toda liturgia era realizada em latim apesar de que a maior parte da população já não falasse essa língua.

Muitos tratados começaram a ser redigidos, por religiosos, procurando fixar as regras epistolares como uma disciplina autônoma. Para que se possa avaliar a crescente importância do gênero epistolar durante a Idade Média, é interessante ressaltar que, até o século XII, o verbo dictare, que se encontra no título de muitíssimas obras sobre cartas, como Ars dictaminis ou ainda Ars dictandi, dizia respeito à atividade precisa de ditar uma carta a um secretário. O gesto epistolar aqui se encontra a meio caminho, ainda ligado à tradição oral: dita-se uma carta a um secretário que a escreve.

No começo do século XII, a prática epistolar já se encontra difundida fora dos muros da Igreja. A carta funciona no mundo laico medieval como um instrumento intermediário entre o direito civil, que timidamente começa a se firmar, e a arte notarial. É deste período a fixação de uma das normas que mais caracterizam o texto epistolar: a obrigatoriedade de se citar o nome do destinatário antes do nome do autor da carta. A marcação do lugar de quem escreve uma carta em relação a quem a receberá foi uma das grandes querelas entre os escritores de tratados epistolares. Num princípio, essa regra de tratamento se aplicava somente ao tratamento dispensado a um destinatário de origem social superior à do autor da carta, mas não tardou muito para que este traço se generalizasse. Daí, hoje, as formas de tratamento estarem situadas no começo da carta (Querida Marta) e o nome de quem escreve só aparecer depois do tratamento ou mesmo só na assinatura, no final do texto (do teu sempre amigo, Fábio Augusto).

O grande apogeu da arte epistolar ocorre nas cidades italianas entre os séculos XII e XIII. Surgem os mestres epistolários, intelectuais em sua época, muitos ligados a instituições universitárias, que se dedicavam a escrever cartas além de tratados sobre essa arte. Durante esse período, um grande número de tratados epistolares busca propor modelos de cartas que podiam servir de exemplo para serem recopiáveis com boa letra tal qual. Alguns poucos manuais propunham regras gerativas de composição de cartas. Todos eles escritos em latim, o inglês da época medieval. O primeiro manual em língua moderna data de 1260, escrito em francês por Bruno Latini.

O desenvolvimento dos Estados Nacionais, nos últimos anos da Idade Média, reforça o triunfo dos representantes da lei (notários e legisladores), em prejuízo dos mestres epistolários. A comunicação com as camadas superiores do Poder Judiciário e político começa a adotar fórmulas cada vez mais estandardizadas e complexas nas quais pouco espaço é reservado à iniciativa dos sujeitos. Começa o período de declínio da importância dos mestres epistolários que renunciaram às suas ambições públicas de mediadores entre o indivíduo e a Justiça. Os grandes mestres passaram a dedicar-se, cada vez mais, à esfera privada, às cartas de cumprimento, de apresentação de serviços, de agradecimento, cartas de amor, entre amigos, vindas do coração, o protótipo, por excelência, do gênero epistolar da atualidade.

Para que possamos descobrir, conhecer e agir no mundo em que estamos inseridos, muitas vezes se faz necessário deslocar o nosso olhar para que, posteriormente, possamos voltar a olhar e ter a possibilidade de enxergar de novo. Nós nos propomos, nesse breve espaço, deslocar o olhar do texto carta para que a noção de gênero epistolar, como uma prática socialmente construída através da sua história, pudesse surgir. Essa história, que atravessa um período que vai desde o momento em que a carta não tinha maior relevância como gênero na Antigüidade Clássica até o fim do período medieval, no qual a carta tem um papel de alta significação, claro está, não pára ali. Mas durante a Idade Média, podemos observar, como salienta Boureau, que uma série de práticas das instituições cristãs com relação à arte epistolar possibilitou organizar uma transferência capital na história cultural do Ocidente do oral para o escrito.

É essa mesma transferência capital que busca o professor em sala de aula: fazer com que a escrita se torne tão significativa quanto a oralidade, pois só se aprende a ler e escrever quando se internaliza um sentido, uma necessidade de fazê-lo. É esse sentido que falta ao analfabeto funcional e que está presente, mesmo que a técnica da escrita lhe falte, a quem procura uma "escrivinhaDora" numa estação de trens. A escolha de um determinado gênero, e não de outro, traz à tona não só questões quanto à forma interna que será mais ou menos adequada, mas todos os sentidos que foram gestados significativamente no percurso de constituição daquele gênero. Quando, por exemplo, um livro sobre livros se estrutura desta forma:

Queridíssima Lenice,

você lembra do Ronaldo, aquele colega de turma que logo depois de formado foi trabalhar com os índios do Amazonas? A gente jurava que ele jamais iria suportar morar num clima tão quente e chuvoso. É, nós duas nos enganamos! Já faz mais de quinze anos que ele se foi. Pois é, de tantos anos em silêncio, ele deu notícias três semanas atrás, enviando uma carta anexada a um livro belíssimo, O livro das árvores, dos índios Ticuna. [...]

Resolvi ler este livro com os alunos da 8a série, que acham que índios brasileiros só existem em livros de História. Todos ficaram curiosíssimos: observaram as ilustrações, leram os textos, entenderam os mitos e a multiplicidade de tipos de árvores que compõem a floresta. [...]

Fico aguardando uma resposta sua!

Beijos,

Bárbara.

P.S.: Evidentemente comentei com o professor de História as dificuldades dos alunos em resgatar sua própria história e estamos combinando atividades conjuntas para começar a sanar essa grave lacuna.

(Excertos do livro Histórias e
Histórias
, p. 65)

Ou seja, o livro se estrutura com base na escolha de um modelo epistolar, em forma de cartas escritas a amigos, o que não é simples coincidência! Ler uma carta é entrar em conexão com alguém de forma mais direta, íntima, em primeira mão. A carta representa a possibilidade de um elo de união privilegiado na dispersão que caracteriza a nossa modernidade. A carta, enfim, quando não é a nossa, mas que nos foi dada a permissão de ser lida, nos introduz no universo do outro, do qual sempre queremos saber mais.

Aqui me despeço, como nas cartas antigas entre amigos,

Subscrevo-me atenciosamente desejando que essa encontre a todos com muita saúde e paz,

Ucy Soto

PS. Querendo, escreva-me. Deixo o endereço eletrônico para contato: ucy@fapeal.br

NOTAS:

  1. Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de Alagoas.
  2. Atividade com cartas, desenvolvida pela Profa Rita Sarmento, a partir do convite de uma colega do PROFA, Profa. Rosângela, durante o ano de 2001, em Rio Largo, Alagoas.
  3. Filme de Walter Sales, no qual Fernanda Montenegro interpreta um personagem que escreve cartas para analfabetos na Estação de Trens Central do Brasil.
  4. Constituição de 1988 e Código Penal, artigos 151 e 152.
  5. Código Penal artigos 184 a 186.
  6. Baseio-me aqui no trabalho organizado por Roger Chartier (1991, p. 9) sobre Correspondência.
  7. Sobre essa noção de gêneros do discurso, que é um pouco diferente da noção de tipologia textual, veja a obra de Bakhtin, na bibliografia.
  8. Trabalho com cartas realizado pelos alunos das professoras Maria Irene de Rio Largo/ AL e Mônica C. Floriano de Mogi-Guaçu / SP, a partir do anúncio da Profa Mônica na Revista Nova Escola de março de 2001.
  9. Trata-se do livro Histórias e Histórias: Guia do Usuário do Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE/99.

BIBLIOGRAFIA:

Bakhtin, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

Boureau, Alain. La norme épistolaire, une invention médiévale. In: Chartier, R. (dir.) La correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle. Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais (de 1a a 4a séries e de 5a a 8a séries). Brasília, SEF/MEC, 1997/1998.

BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. EDUC, 1999.

CALIL, Eduardo."Os efeitos da intervenção do professor no texto do aluno". In: Moura, Denilda (org.). Língua e Ensino: dimensões heterogêneas. Maceió: EDUFAL (p. 29-40).

Chartier, Roger. (dir.) La correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle. Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.

Histórias e Histórias: Guia do Usuário do Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE/99. Secretaria de Educação Fundamental, Brasília: MEC, SEF, 2001.

JOLIBERT, Josette. Formando crianças produtoras de textos. Porto Alegre, ArtMed, 1994.

KAUFMAN, Ana Maria & RODRIGUEZ, Maria Elena. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre, ArtMed, 1995.

MAIA, Ângela Maria dos Santos. O Texto poético: leitura na escola. Maceió: Ed. UFAL, 2001.

Maria Irene. "Correspondências: um bom incentivo à leitura e a escrita". Projeto Produção de texto através de correspondência. Escola de ensino fundamental Odylo Álvares de Souza, Rio Largo/ Alagoas, 2001.

Sarmento, Rita de Cássia V. "Amizade pelo Correio: na prática, alunos da escola Renado Jarsen de Melo e Escola Aquino Japiassu, descobrem, juntos, o uso social da escrita e da leitura de forma significativa", Rio Largo, Alagoas, 2001.

Soto, Ucy. Variação e Mudança do pronome de tratamento alocutivo: uma análise enunciativa em cartas brasileiras. Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras da UNESP, Araraquara, 2001.

Consultar na Internet:

eco@fapeal.br

www.cedu.ufal.br