VARAL DE TEXTOS
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Apresentação
Eduardo
Calil 1
Sabemos hoje que as práticas didático-pedagógicas
de Língua Portuguesa precisam considerar a heterogeneidade
de textos existentes em nossa sociedade e levar em conta a necessidade
de tornar nossos alunos proficientes leitores e produtores de textos.
Nosso desafio, enquanto mestres responsáveis pelos processos
de ensino-aprendizagem, está em criar situações
de sala de aula que permitam aos alunos a apropriação
desta diversidade. O problema exige que se pense em uma grade curricular
progressiva - mas sem perder os usos e as funções
sociais dos textos oferecidos aos alunos, em um tratamento didático
que articule graus de complexidade dos textos e os segmentos do
sistema educacional e, principalmente, que se pense em como veicular
e significar os diferentes textos existentes em nossa sociedade
dentro da sala de aula.
É nesta direção
que o programa Salto para o Futuro, entre os dias 08 e 12 de abril
de 2002, irá apresentar a série Varal de Textos
e dar continuidade ao debate em torno deste problema, já
destacado em muitos outros programas apresentados pela TV Escola2.
Pretendemos discutir com os professores, diretores e coordenadores
pedagógicos propostas de trabalho com variados gêneros3
e tipos de textos, em diferentes níveis de escolaridade.
Um ponto de partida pode ser a delimitação
da noção de gênero. Conforme definição
apresentada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, volume
2 - Língua Portuguesa (MEC, 1997), na página 26, encontramos
que:
"Todo texto se organiza dentro
de um determinado gênero. Os vários gêneros
existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis
de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados
por três elementos: conteúdo temático,
estilo e construção composicional. Pode-se ainda
afirmar que a noção de gêneros refere-se
a 'famílias' de textos que compartilham algumas características
comuns, embora heterogêneas, como visão geral
da ação à qual o texto se articula, tipo
de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade,
por exemplo, existindo em número quase ilimitado."
Partindo do pressuposto de que a apropriação
dos gêneros discursivos, pelos nossos alunos, não pode
estar limitada ao que os livros didáticos trazem, nem ao
que oferecem como atividades, iremos centrar nossa discussão
em alguns projetos didáticos realizados em salas de aula,
cujo eixo central esteja relacionado à leitura e produção
de textos. Os projetos oferecem excelentes condições
de práticas de leitura e produção de textos,
pois:
- Permitem a leitura e análise de uma
grande variedade de textos e seus respectivos portadores;
- Permitem ao aluno se colocar no lugar do
autor que escreve para um leitor possível, fisicamente
ausente, uma vez que todo projeto deve estar voltado para uma
dimensão social e pública;
- Impõem a necessidade de revisão
e legibilidade do próprio texto escrito para leitores virtuais
e possíveis, tirando, assim, a prática nefasta de
se escrever somente para ser avaliado pelo professor;
- Favorecem a intersecção entre
conteúdos de diferentes áreas, na medida em que
trazem para o processo de produção as características
de textos trabalhados, por exemplo, em Ciências ou História
e Geografia;
- Significam o
necessário compromisso do aluno com sua própria
aprendizagem.4
Como os gêneros são em "número
quase ilimitado", priorizamos cinco gêneros para serem discutidos
nesta série Varal de Textos. São eles:
1. Poesia na escola;
2. Do conto ao teatro;
3. Fábulas fabulosas;
4. Lendo e produzindo textos científicos;
5. Trabalhando com cartas.
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PROGRAMA
1 - POESIA NA ESCOLA
Neste
programa, vamos debater o trabalho com o texto poético, a partir
de propostas didáticas realizadas em sala de aula. Esperamos
poder aprofundar a discussão sobre a importância da poesia
e mostrar como boas propostas de atividades podem ser extremamente
enriquecedoras dos universos letrados de alunos das séries
iniciais do Ensino Fundamental, tornando-os não somente ouvintes
e apreciadores de poemas, mas também, produtores de poesia.
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PROGRAMA
2 - DO CONTO AO TEATRO
Teatro
é uma experiência de transformação. Transformar
palavras em atos e ações. Neste programa, a proposta
é inversa: transformar ensaios improvisados de um texto narrativo
ficcional ("Maria Angula") em um texto teatral. Um processo
complexo e cheio de discussões em torno do modo de escrever
este gênero.
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PROGRAMA
3 - FÁBULAS
FABULOSAS
As fábulas,
pelas suas características lingüísticas e textuais,
mas também por seu conteúdo temático, têm
sido apreciadas há muito tempo na literatura universal. Na
escola, sua leitura pode oferecer aos alunos, principalmente para
aqueles que ainda não dominam a leitura e a escrita, uma interação
com o mundo letrado e ficcional de ótima qualidade literária.
Neste programa, iremos discutir as possibilidades deste trabalho e
as riquezas destes textos.
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PROGRAMA
4 - LENDO E PRODUZINDO TEXTOS CIENTÍFICOS
Trabalhar com textos informativos científicos em sala de aula
exige caminhos mais longos e complexos do que aqueles indicados pelos
livros didáticos de Ciências Naturais. A proposta do
programa é discutir as especificidades deste gênero discursivo,
para que possamos levar o aluno a compreender tais textos e, assim,
contribuir para sua formação como leitor e produtor
de textos.
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PROGRAMA
5 - TRABALHANDO COM CARTAS
O gênero epistolar é um dos mais antigos registros de
escrita encontrados na história da humanidade. Suas características
essenciais podem ser destacadas pela relação entre o
"destinatário" e o "remetente", em que
a definição daquele que escreve e daquele a quem se
destina o escrito joga um papel central nesta prática de produção
de texto. O trabalho com este gênero em sala de aula pode ajudar
os alunos a reconhecerem esta relação e a serem efetivos
produtores deste gênero discursivo.
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NOTAS:
1. Eduardo Calil (eco@fapeal.br)
é professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e consultor
desta série.
2. Para saber mais sobre estes programas,
consultar o catálogo Guia de Programas: 1996-2000, elaborado
e distribuído pela Secretaria de Ensino a Distância/MEC.
3. Recomendo a leitura do livro Atividade
de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo,
publicado pela Educ, 1999, de Jean-Paul BRONCKART. Entre as páginas
137 e 150 o autor faz uma preciosa discussão sobre "Gêneros
de textos e tipos de discurso".
4. Nos Parâmetros Curriculares
Nacionais, Língua Portuguesa, volume 2, páginas 70 a
73, encontramos um melhor detalhamento do trabalho com "projetos".
Para quem desejar aprofundar esta questão, sugerimos a leitura
de Formando Crianças Produtoras de Textos de Josette
Jolibert, publicado pela ArtMed, em 1994 e Escola, Leitura e Produção
de Textos de Ana Maria Kaufman & Maria Elena Rodriguez, também
publicado pela ArtMed, em 1995.
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PGM
1 - Poesia na escola
Eduardo
Calil
Geralmente,
o trabalho com a poesia em sala de aula está atrelado, entre
outros problemas, às atividades e aos exercícios oferecidos
pelos livros didáticos que tratam este gênero discursivo
como pretexto para levar os alunos a discutirem conteúdos gramaticais
e ortográficos, deixando de lado o valor literário que,
prioritariamente, tais textos possuem.
Hoje
não podemos mais tratar o ensino da Língua Portuguesa
sem levar em consideração os usos e as funções
sociais do texto. A escola deve, principalmente nas séries
iniciais do Ensino Fundamental, valorizar o trabalho com textos conforme
se apresenta em nossa sociedade letrada. Desse modo, as práticas
de leitura e de produção de texto poderão ganhar
sentidos, sem que o professor as transforme em situações
voltadas, única e exclusivamente, para avaliação
e correção.
Essas
afirmações podem ser fortalecidas se lermos o que dizem
os Parâmetros Curriculares Nacionais, 1º e 2º ciclos (MEC, 1997,
p. 37 a 38):
"A
questão do ensino da literatura ou leitura literária
envolve, portanto, esse exercício de reconhecimento das
singularidades e das propriedades compositivas que matizam um
tipo particular de escrita. Com isto, é possível
afastar uma série de equívocos que costumam estar
presentes na escola em relação aos textos literários,
ou seja, tratá-los como expedientes para servir ao ensino
das boas maneiras, dos hábitos de higiene, dos deveres
do cidadão, dos tópicos gramaticais, das receitas
desgastadas do "prazer do texto" etc. postos de forma
descontextualizada, tais procedimentos pouco ou nada contribuem
para a formação de leitores capazes de reconhecer
as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão
e a profundidade das construções literárias."
Uma
forma de reconhecimento destas "sutilezas", "particularidades",
"sentidos" e "profundidades" das construções
literárias pode ser exemplificada pelo projeto POEMA DE CADA
DIA, desenvolvido junto à Escola Miosótis e à
Escola da Associação dos Dirigentes Cristãos
de Empresa, duas organizações não governamentais
que atendem a alunos sem recursos da cidade de Maceió (AL).
O
projeto se propõe a levar diariamente poemas para a sala de
aula, pois seu pressuposto básico está na idéia
de que a formação de um leitor competente está
vinculada à constante presença de textos no contexto
escolar. Este projeto propõe particularmente a formação
de leitores de poemas.
Para
tanto, foram selecionados 215 poemas dos mais diversos autores e escolas
literárias, podendo o professor escolher qual poema gostaria
de trabalhar com seus alunos. O professor tem, assim, à sua
disposição, poemas para serem simplesmente declamados
ou pode escolher atividades de interpretação mais elaboradas,
já propostas por este material didático.
Nas
declamações, professor e aluno podem declamar
uma ou mais vezes um mesmo poema. Um a cada dia. Estas atividades
podem ocorrer a partir de estratégias bastante diversas, desde
simples leituras e declamações realizadas pelo professor,
em algum momento do dia, cujo objetivo reside na própria declamação,
que não toma mais do que alguns minutos da aula, até
atividades mais elaboradas, como ensaios e preparação
para um jogral.
Um
poema muitas vezes exige ser declamado ou escutado mais de uma vez
para que os sentidos comecem a ser percebidos. Às vezes não
se compreende completamente, de imediato, o que o poeta quis dizer,
mas isto não impede que se possa apreciar a leitura e, através
da leitura e escuta diversa e significativa, de sua musicalidade e
do efeito causado pelo jogo das palavras, possa-se ir construindo
sentidos que inicialmente estavam escondidos e, por vezes, obscuros.
Dentre
os 215 poemas, foram selecionados e elaboradas atividades de leitura
e interpretação de 60 poemas, para que se possa realizar
uma análise e discussão mais detalhada com relação
à "profundidade das construções literárias
presentes nos poemas", nas quais residem aliterações,
repetições, jogos homonímicos, homofônicos,
metafóricos, o uso do espaço gráfico na construção
dos sentidos etc.
Nestas
propostas de atividades, além dos objetivos, da indicação
dos materiais necessários e dos procedimentos do professor
e do aluno, apresento um breve comentário geral acerca de alguns
sentidos que podem estar presentes no texto. No entanto, é
fundamental levar em conta que, apesar do sentido não poder
ser qualquer um, ele nunca é um só. Ele está
sempre aberto a outras interpretações. Por isso, o professor
deve estar atento às discussões suscitadas pelo poema,
pois podem emergir daí sentidos outros.
Os
poemas trabalhados, bem como aqueles que são construídos
pelo próprio aluno, poderão ser registrados em uma espécie
de Diário Poético de cada aluno. Isto porque,
além das atividades de leitura e interpretação,
o projeto prevê a criação de poemas.
É
preciso ressaltar que a elaboração de um poema pode
se dar através de várias versões (versão
1, versão 2 e versão 3), em folhas soltas que favoreceriam
a construção da noção de "rascunho",
até se chegar à versão final, que irá
integrar o Diário Poético.
Obviamente,
propostas como esta podem e devem ser reconsideradas, a partir de
cada realidade educacional e cultural, tanto dos professores quanto
dos alunos envolvidos. O importante é fazer com que o aluno
possa ter acesso ao universo literário mobilizado pela poesia,
levando-o a constituir uma relação diferenciada com
a linguagem, e, conseqüentemente, tornar-se leitor e produtor
de textos competente.
Os
dois poemas que se seguem são exemplos deste intenso trabalho
com a linguagem.
Em
uma das turmas de 2ª série da Escola Miosótis, alunos
que não tinham contato com nenhum tipo de texto literário
puderam produzi-los, utilizando belos jogos metafóricos, construções
que brincam com as palavras e com os sentidos.
QUEM
VEM ME SALVAR
Valdemir
Gomes da silva
Maria
das Graças
Se
eu estivesse no ar
Quem
viria me salvar?
O
céu a terra ou o mar
Um
dos três terá que me salvar.
Se
o céu vem me salvar
Eu
tenho onde voar.
Se
a terra vem me salvar
Eu
tenho onde morar.
Se
o mar vem me salvar
Eu
posso até me afogar.
Ora,
eu não sei quem vem me salvar...
Como
eu tenho ainda vida
Eu
vou me mandar
Para
o céu ou a terra ou o mar.
Este
poema traz interessantes pontos a serem destacados, como por exemplo,
o jogo de sentido entre os elementos "céu", "terra"
e "mar". Estas palavras convocam elementos que, postos em
relação, criam sentidos de oposição. Além
disso, sua repetição produz um certo ritmo e cadência
nas idéias postas em circulação.
Somente
é possível produzir tais efeitos através de um
processo de imersão em um universo poético em que circulam
poemas todos os dias. Deste modo, sem se ter a pretensão de
torná-los poetas, pode-se ter a garantia de que a escola está
contribuindo para inseri-los significativamente no mundo letrado.
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PGM
2 - Do conto ao teatro
Eduardo
Calil
"Compete à escola oferecer
um espaço para a realização dessas
atividades [teatrais], um espaço mais livre e mais
flexível para que a criança possa ordenar-se
de acordo com a sua criação.
Deve ainda oferecer material básico,
embora os alunos geralmente se empenhem em pesquisar e
coletar materiais adequados para as suas encenações."
(PCN, MEC)
O
teatro, o cinema e a televisão com freqüência lançam
mão de obras que pertencem a diferentes gêneros literários,
que foram escritas para serem lidas, para adaptá-las a estes
meios que, apesar de exigirem linguagens bastante particulares, com
recursos e procedimentos técnicos muito diferentes entre si,
têm como objetivo central a representação, a encenação,
a dramatização.
Recentemente,
pudemos assistir a excelentes trabalhos de adaptação.
Por exemplo, o diretor Guel Arraes adaptou para a televisão
a peça de teatro Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.
Também foram feitas outras adaptações, como a
do belíssimo romance Lavoura Arcaica, e a da novela
Um copo de cólera, ambos de Raduan Nassar, para o cinema.
Na TV, foi feita a nova versão do Sítio do Pica-pau
Amarelo, de nosso grande Monteiro Lobato. E, para ficar somente
em algumas adaptações que tivemos a oportunidade de
assistir nos últimos dois anos, citamos também o envolvente
filme "Harry Porter e a Pedra Filosofal", baseado no livro
da autora inglesa J.K. Rowling, que os cinemas do país todo
mostraram no fim do ano de 2001, e que crianças e adolescentes
de boa parte do mundo têm aplaudido tão fervorosamente.
Alguns outros exemplos não tão recentes, mas nem por
isso menos importantes, podem ser lembrados, como a adaptação
para o cinema do romance de Jorge Amado, Dona Flor e seus dois
maridos, ou a adaptação do conto "Sagarana",
de João Guimarães Rosa, para o teatro, bem como do romance
Grande Sertão: Veredas, do mesmo autor, para a televisão.
Todos
estes processos de adaptação não são nada
fáceis e exigem um grande conhecimento a respeito das características
de um gênero discursivo escrito para ser lido e as de um gênero
discursivo escrito para ser representado.
Entretanto,
transpondo esta questão para a escola, podemos tomar como ponto
de partida o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais,
em relação ao trabalho com teatro no Ensino Fundamental:
O teatro no Ensino Fundamental proporciona experiências
que contribuem para o crescimento integrado da criança sob
vários aspectos. No plano individual, o desenvolvimento de
suas capacidades expressivas e artísticas. No plano do coletivo,
o teatro oferece, por ser uma atividade grupal, o exercício
das relações de cooperação, diálogo,
respeito mútuo, reflexão sobre como agir com os colegas,
flexibilidade de aceitação das diferenças e
aquisição de sua autonomia como resultado do poder
agir e pensar sem coerção.
Assim, os objetivos do trabalho com teatro na escola
podem estar relacionados:
a) Ao trabalho com expressão artística
(confecção de figurinos, de cenários, sonoplastia,
expressão corporal etc.);
b) Ao trabalho com língua escrita e oral
(leitura de textos de teatro, adaptação de um conto
para o teatro, compreensão das características lingüísticas,
discursivas e textuais deste gênero etc.);
c) Ao trabalho coletivo (alunos podem assumir
diferentes funções para atingirem um mesmo objetivo,
que é a encenação);
d) Ao produto cultural e apreciação
estética (conhecimento de diferentes autores teatrais e um
pouco da história do teatro, análise e discussão
de peças de teatro ou filmes que fizeram adaptações
deste tipo de texto).
Gostaríamos de destacar aqui o segundo objetivo
indicado acima, referente ao trabalho com a linguagem oral e escrita.
Para isto, tomemos um exemplo real, dentre os excelentes trabalhos
com teatro em sala de aula que têm sido realizados no Ensino
Fundamental.
No ano de 2001, no Centro Educacional Miosótis,
uma escola que atende a alunos que vivem em um bairro muito pobre
da cidade de Maceió (Alagoas), a professora da 3ª série,
em parceria com a coordenação pedagógica, se
propôs a fazer uma peça de teatro com alguns contos de
assombração que estavam sendo lidos para seus alunos.
Dentre os inúmeros contos que eles conheciam, por meio da leitura
diária feita pela professora, foi escolhido o conto "Maria
Angula" (do livro Contos de assombração),
para ser adaptado e encenado.
Este conto narra a história de uma adolescente
que era muito fofoqueira e convencida, que vivia fazendo intriga entre
as amigas. Quando ela se casa, o marido pede que ela prepare diferentes
pratos de comidas. Como ela passou a vida a fofocar e criar intrigas,
nunca aprendeu a cozinhar bem, então ela recorreu à
sua vizinha, dona Mercedes, que era uma cozinheira de mão cheia.
A cada prato ensinado, ela sempre dizia que era fácil e que
aquilo ela já sabia fazer, desprezando e sendo mal-agradecida.
Um dia, Dona Mercedes ficou aborrecida com esta história que
se repetia dia a após dia e inventou uma receita macabra. Para
preparar aquele prato especial, Maria Angula tinha que ir até
o cemitério roubar tripas de um defunto fresquinho. Feito o
prato para o marido com as tripas roubadas, no meio da madrugada aparece
o defunto, acusando Maria Angula e levando-a embora para o Além.
Em primeiro lugar, a professora propôs uma
improvisação deste conto, definindo as personagens para
os alunos que queriam participar como atores, bem como a equipe técnica
que ficaria responsável pela parte técnica, como figurinos,
sonoplastia, cenário etc.
Para dar referências do que era um texto teatral,
de suas características lingüísticas, discursivas
e textuais, a professora leu a peça Auto da Compadecida
e depois mostrou o filme. Depois, ela também leu a tragédia
grega Antígona, de Sófocles. Em alguns momentos,
durante esta leitura em voz alta, a professora teve oportunidade de
discutir estas características, como, por exemplo, a estrutura
dialogal, as rubricas (indicações do autor do texto
dramático para o diretor ou o leitor imaginarem o contexto
daquela fala da personagem), a ausência de um narrador etc.
Todos estes pontos são muito diferentes no texto escrito somente
para ser lido, como o conto de assombração "Maria
Angula". Os alunos precisavam saber disto antes de fazerem a
escrita coletiva deste conto na forma de texto teatral.
Juntamente com a professora, após algumas
improvisações feitas, os alunos escreveram o texto da
peça teatral "Maria Angula". Em primeiro lugar, eles
dividiram o texto por cenas:
Cena 1: Maria Angula conversando e fofocando
com as amigas.
Cena 2: Maria Angula se casando.
Cena 3: Marido pedindo um prato para jantar.
Cena 4: Maria Angula indo até Dona
Mercedes para perguntar como fazer o prato que o marido pediu.
(E assim por diante).
Depois desta divisão da história por
cenas, os alunos e a professora foram escrevendo uma cena por aula.
A primeira cena, que tomou, como apoio, as improvisações
feitas anteriormente pelos próprios alunos, ficou assim:
Cena 1: Maria Angula encontrando-se
com algumas amigas
Maria
Angula: (FALANDO EM TOM DE
INTRIGA) "- Meninas, vocês viram a que horas a Cristina
chegou ontem a noite?! Olhe, eu não quero falar nada não,
mas o namorado dela nem sabe de nada..."
AMIGA 1: (EM TOM DE REPREENSÃO)
"- Nossa, Maria, pare com isto, você só sabe
falar da vida dos outros."
AMIGA 2: (CONCORDANDO
COM A AMIGA 1) "- É! Você devia era cuidar
mais das suas coisas. Um dia você ainda vai se arrepender
das fofocas que você faz."
MARIA ANGULA: (irritada)
"- Não perturbem, suas bobas! Eu que mando na minha
vida e faço e falo de quem eu quiser. Eu é que sei
das coisas, vocês são todas umas chatas!" (SAINDO
DE CENA ENFEZADA E BATENDO O PÉ).
Este trabalho coletivo de produção
de texto foi repetido, ao longo de todas as cenas e, posteriormente,
cada aluno pôde receber, na forma de livro, o texto teatral
"Maria Angula", escrito por eles. Este texto passou a servir
de base para os ensaios que continuavam acontecendo em momentos diversos.
Podemos concluir que as discussões com os
alunos foram extremamente enriquecedoras, pois lhes permitiram uma
boa reflexão não só sobre estas características
da estrutura dialogal, das rubricas, do que é uma cena etc.,
mas também das palavras que seriam mais adequadas para representar
o modo de falar de Maria Angula, de suas amigas e das outras personagens.
Também os alunos puderam discutir significativamente questões
como a pontuação, principalmente aspas, travessão
e dois-pontos, e ainda a ortografia.
Esta peça de teatro foi apresentada na festa
de final de ano pelos alunos de 3ª série, que foram aplaudidos
por todos que assistiram.
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PGM
3 - Fábulas fabulosas
Marcos
Bagno*
A
fábula é um gênero literário muito antigo
que se encontra em praticamente todas as culturas humanas e em todos
os períodos históricos. Este caráter universal
da fábula se deve, sem dúvida, à sua ligação
muito íntima com a sabedoria popular. De fato, a fábula
é uma pequena narrativa que serve para ilustrar algum vício
ou alguma virtude, e termina invariavelmente com uma lição
de moral. Até hoje, quando terminamos de contar um caso
ou algum acontecimento interessante ou curioso, é comum anunciarmos
o final de nossa narrativa dizendo: "moral da história"...
Pois é justamente da tradição das fábulas
que nos vem esse hábito de querer buscar uma explicação
ou uma causa para as coisas que acontecem em nossa vida ou na vida
dos outros, ou de tentar tirar delas algum ensinamento útil,
alguma lição prática.
A
moral de algumas fábulas muito conhecidas acabou se tornando
provérbios nas línguas do Ocidente, muitas vezes até
sem que a maioria das pessoas conheça a fábula original.
É o caso, por exemplo, dos provérbios "quem desdenha
quer comprar" ou "quem ama o feio bonito lhe parece".
O primeiro é a moral da fábula da raposa que, vendo
uvas muito bonitas, mas fora de seu alcance, acaba desistindo de apanhá-las,
alegando que, na verdade, estão verdes. O segundo é
a conclusão da história da águia que devora os
filhotes da coruja - como a coruja tinha lhe dito que seus filhotes
eram de uma beleza incomparável, a águia, ao encontrar
num ninho um punhado de criaturinhas muito feias, não hesitou
em comê-las, porque aqueles jamais poderiam ser os filhotes
lindos de sua comadre coruja. Aliás, é dessa mesma história
que procede a nossa expressão "mãe coruja"
ou "pai coruja", para designar os pais que não vêem
defeitos nos próprios filhos.
A
grande maioria das fábulas tem como personagens animais ou
criaturas imaginárias (criaturas fabulosas), que representam,
de forma alegórica, os traços de caráter (negativos
e positivos) dos seres humanos. Os gregos chamavam a fábula
de apólogo, e esta palavra também costuma ser
usada para designar uma pequena narrativa que encerra uma lição
de moral. A palavra latina fábula deriva do verbo fabulare,
"conversar, narrar", o que mostra que a fábula tem
sua origem na tradição oral - aliás, é
da palavra latina fábula que vem o substantivo português
fala e o verbo falar. É muito provável
que as fábulas que chegaram até nós por meio
da escrita tenham existido durante muito tempo como narrativas tradicionais
orais, o que faz esse gênero remontar a estágios muito
arcaicos da civilização humana. As fábulas devem
ter sido usadas com objetivos claramente pedagógicos: a pequena
narrativa exemplar serviria como instrumento de aprendizagem, fixação
e memorização dos valores morais do grupo social.
Na
história do Ocidente, houve grandes autores de fábulas.
Na Grécia antiga, o mais famoso deles foi Esopo, que viveu
entre os séculos VII e VI antes de Cristo. Diz a tradição
que Esopo era um grande contador de histórias, mas que não
deixou nenhuma fábula escrita. Seus apólogos foram registrados
de forma literária mais tarde por outros autores. O mais importante
deles foi o romano Fedro (15 a.C. - 50 d.C.), que se declarava admirador
e imitador de Esopo. Algumas fábulas de Fedro que se tornaram
extremamente conhecidas são "O lobo e o cordeiro",
"A raposa e o corvo", "A rã e os bois"
e a já mencionada "A raposa e as uvas". No século
XVII, na França, viveu o mais importante fabulista da era moderna:
Jean de La Fontaine (1621-1695). La Fontaine, além de compor
suas próprias fábulas, também reescreveu em versos
franceses muitas das fábulas antigas de Esopo e de Fedro. É
dele a fábula mais conhecida de todo o Ocidente, "A cigarra
e a formiga". Nas escolas dos países de língua
francesa, as fábulas de La Fontaine são estudadas e
aprendidas de cor pelas crianças desde o início de sua
escolarização. Como La Fontaine escreveu suas fábulas
em versos metrificados e rimados, elas são de fácil
memorização.
Em
seu projeto de criar uma literatura brasileira especialmente voltada
para as crianças e os jovens, o grande Monteiro Lobato (1882-1948)
também se interessou por este gênero tradicional. Em
seu livro Fábulas, Lobato reconta em prosa brasileira
moderna algumas das fábulas antigas de Esopo, Fedro e La Fontaine,
além de nos apresentar algumas de sua própria autoria.
Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que existem
no Brasil para a abordagem do gênero fábula em sala de
aula: além do texto da fábula propriamente dita, Monteiro
Lobato insere, depois de cada uma das narrativas, as animadas discussões
que a fábula provoca no círculo de personagens que povoam
o Sítio do Pica-pau Amarelo. Dona Benta, que narra as fábulas,
representa a voz da tradição, a opinião ponderada
e refletida das pessoas já vividas. Tia Nastácia, representante
da sabedoria popular, também se mostra bastante inclinada a
aceitar a moral das fábulas. Pedrinho e Narizinho fazem comentários
de acordo com seu espírito irrequieto de crianças curiosas
e dispostas a aprender, enquanto a irreverente Emília tenta,
a cada momento, contestar a lição de moral que a fábula
encerra.
Uma
proposta interessante para a abordagem da fábula em sala de
aula seria tentar reproduzir de algum modo esse ambiente do Sítio
do Pica-pau Amarelo. O professor poderia narrar a fábula, ou
lê-la junto com os alunos, garantindo que cada um ou cada dupla
tenha uma cópia, e em seguida debater os valores morais contidos
na história. Como a questão da ética tem sido
muito enfatizada nas propostas atuais de ensino (como nos Parâmetros
Curriculares Nacionais), as fábulas poderiam suscitar boas
discussões em torno de temas como a solidariedade, a (in)justiça
so- cial, a vaidade, a ganância, o espírito de vingança,
o autoritarismo etc. Em que medida a lição de moral
contida em determinada fábula ainda se aplica ao modo de vida
da sociedade contemporânea? Não estaria representado
ali algum tipo de moralidade muito conservadora? Ou, pelo contrário,
estariam veiculados ali alguns princípios fundamentais da convivência
humana, válidos para qualquer época, qualquer lugar
e qualquer cultura? Ou a mudança dos valores morais ao longo
do tempo terá feito envelhecer a lição de ética
contida nas fábulas?
Essa
reavaliação das fábulas tradicionais tem sido
feita por muitos escritores, humoristas, teatrólogos e artistas
em geral. A fábula da cigarra e da formiga talvez tenha sido
aquela que mais passou por esse tipo de (re)-interpretação.
Humoristas como Jô Soares e Millôr Fernandes já
fizeram suas paródias dessa historinha muito conhecida. Como
interpretar a atitude da formiga e da cigarra nessa fábula?
Dependendo do ponto de vista, a história pode ser entendida
como um elogio da acumulação de bens, do aumento do
patrimônio, como um louvor da sociedade capitalista e uma crítica
à vida despreocupada e ociosa dos artistas - ou então,
precisamente ao contrário, como uma crítica à
frieza do capitalista, que só se preocupa em aumentar sua fortuna,
sem gozar dos prazeres da vida e sem se importar com os necessitados.
"A cigarra e a formiga" foi escrita na França no
século XVII por um membro da aristocracia e decerto retrata
os valores éticos daquela época e daquela classe social
- como avaliar a moral ali contida numa sociedade como a brasileira
do século XXI?
Outra
proposta de trabalho com as fábulas pode ser a produção
de um livro feito pelos alunos. Inicialmente, o professor selecionaria
e apresentaria várias fábulas 1,
usando procedimentos didáticos diversos, como, por exemplo,
pedir que leiam uma fábula que ainda não conhecem e
dêem um título ou coloquem uma outra moral, orientar
a preparação de leituras em voz alta etc. Posteriormente,
das muitas fábulas lidas, o professor pediria a (re)-escrita
de algumas delas, após ter garantido que os alunos a memorizaram.
(Se os alunos ainda não conseguirem ler convencionalmente,
o professor poderia escrever na lousa, enquanto os alunos vão
contando a fábula escolhida, e/ou propor a ilustração
das fábulas para, depois, compilá-las em um livro a
ser presenteado aos pais). O professor poderia, ainda, dar continuidade
a este projeto de trabalho, depois de estar seguro que os alunos têm
alguma intimidade com este gênero, sugerindo a criação
de fábulas a partir da sugestão de um título
como "O elefante e a formiga" ou de alguma moral como "Quem
muito gasta, pouco tem". Seria interessante que neste processo
de criação fosse incentivado o trabalho em dupla de
alunos, assim como o trabalho com algumas versões antes de
se chegar à versão final, que fará parte do livro
de fábulas. O final deste projeto de Língua Portuguesa
poderia ser a leitura das fábulas deste livro para alunos de
outras séries ou para os pais, em uma tarde de autógrafos.
Assim,
as fábulas podem ser um importante aliado tanto para o trabalho
pedagógico com a língua oral, a leitura e a língua
escrita, como também em uma perspectiva sociológica
e antropológica, já que oferecem esquemas de análise
e/ou explicação para um sem-número de comportamentos
sociais e de traços de personalidade individuais.
Estes
pontos justificam, sobremaneira, a presença deste gênero
literário já nos primeiros anos escolares.
NOTAS:
* Lingüista
e escritor; autor de diversos livros de literatura para crianças
e jovens.
1.
Um interessante projeto de trabalho com fábulas, produzido
por Eduardo Calil (Universidade Federal de Alagoas) pode ser conferido
no site www.cedu.ufal.br
|
PGM
4 - Lendo e produzindo textos científicos
Eduardo
Calil 1
A
presença de textos científicos em sala de aula está,
freqüentemente, vinculada ao ensino de Ciências Naturais,
através do uso de livros didáticos. Em geral, nestes
livros, os "textos científicos" oferecidos sofrem
adaptações que visam a uma melhor compreensão
pelos alunos, a partir daquilo que os autores destes livros julgam
relevantes para o aprendizado dos conteúdos escolhidos e tematizados.
A forma utilizada nestas adaptações dos textos científicos,
na maioria das vezes, acaba por reduzir e simplificar as características
lingüísticas, textuais e discursivas destes gêneros.
Além disso, são muito poucos os livros didáticos
de Ciências que levam em conta uma necessária interlocução
com o ensino de Língua Portuguesa e, especificamente, a prática
de produção de texto.
É
por este prisma - aproximações entre o ensino de Ciências
Naturais e o de Língua Portuguesa - que pretendo discutir aqui
o trabalho com textos informativos científicos. Meu ponto de
partida toma como pressuposto básico a impossibilidade de se
tratar qualquer área de conhecimento sem passar por alguma
compreensão dos complexos processos que envolvem as condições
de produção dos textos. Assim, mesmo que o professor
esteja discutindo com seus alunos conteúdos relacionados aos
conhecimentos e conceitos científicos, como, por exemplo, o
conceito de ser vivo ou de ambiente, é de fundamental importância
que ele tenha claro qual(is) tipo(s) de texto(s) está oferecendo
a seus alunos e quais usos e funções sociais estes textos
demandam, de modo que as propostas de atividades possam ser o mais
significativas possíveis.
Isto
se aproxima do que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais,
volume 4, sobre Ciências Naturais, no item "A leitura de
textos informativos":
"É importante que o aluno possa ter
acesso a uma diversidade de textos informativos, pois cada um deles
tem estrutura e finalidade próprias. Trazem informações
diferentes, e muitas vezes divergentes, sobre um mesmo assunto,
além de requererem domínio de diferentes habilidades
e conceitos para sua leitura."(MEC, 1997, volume 4:124)
Para ser mais claro, tomemos um exemplo. Se o professor
oferecer aos seus alunos um texto sobre as "minhocas" para
servir de base para uma discussão teríamos, pelo menos,
três ou quatro possibilidades de gêneros textuais. Ele
pode escolher:
1. Um verbete de enciclopédia ("minhoca"),
que apresenta uma definição um tanto quanto ampla
deste anelídeo;
2. Um livro com fins paradidáticos sobre
o modo de vida das minhocas;
3. Um texto que instrua o leitor a construir
um "minhocário", com materiais simples;
4. Um texto da revista Ciência Hoje
das Crianças, discutindo a importância das minhocas
para a agricultura, ou sobre o modo como se reproduzem e seu hermafroditismo;
5. Um texto da revista Super Interessante
ou Galileu, listando algumas curiosidades sobre as minhocas,
como por exemplo, porque elas são boas iscas para atrair
peixes;
6. Um relato de experiências feitas por
pesquisadores para a obtenção de húmus de melhor
qualidade.
Cada um destes textos exige condições
de leitura bastante diversas e todos eles poderão ser utilizados
como base para as práticas de produção de textos
a serem feitas sobre este assunto.
Para mostrar isto de modo mais claro, apresento,
brevemente, duas versões de um texto sobre minhocas escrito
por dois alunos de uma 1ª série e a interferência da
professora, feita entre a 1ª e a 2ª versão. É importante
ressaltar que a professora, junto com seus alunos, já havia
lido e discutido vários textos informativos sobre o assunto
e estava propondo a elaboração de um livro, que seria
o fechamento deste projeto.
Na solicitação
inicial para a produção de texto (a 1ª versão),
a professora queria que eles escrevessem um texto sobre como as minhocas
eram, mas sua consigna foi muito ampla. Ela disse "escrevam um
texto sobre as minhocas". Isto terá efeitos sobre os alunos2.
Rodrigo e Matheus, dois dos seus alunos, escreveram
do seguinte modo.
Texto 1 (Rodrigo e Matheus): [1ª série - 1ª versão]
RODRIGO E MATHEUS (16/3/95)
AS MINHOCAS
AGENTEVIU ASMINHOCAS
AGENTE VIU APART
E PRETA É
MAS PORSIMA DA CABEÇA... AGENTi
VIU QUE
ELA E SURDA E NÃO
TEIOLHO CUANDO A MINHOCA
VAINANOSA MÃO
ELADESVIA DANOSA MAO PORQUE
ELA SEITE O CALOR
DANOSA MAO PELAPELE
A MINHOCA VIVE NA TERRA
Diante de um texto como este, o que dizer aos alunos?
Antes de analisar, o que fez o professor através do bilhete
que escreveu, alguns problemas poderiam ser destacados.
a) Questão de segmentação
- palavras grudadas;
b) Erros ortográficos: "ma(i)s",
"sima", "tei", "éla", "seite",
"nos(s)a", "genti", "cuando";
c) Divisão silábica equivocada:
"part - e";
d) Ausência de pontuação
(somente "reticências");
e) Ausência de parágrafos;
f) Repetição de expressões:
"a gente viu", "nossa mão";
g) Problemas que envolvem relações
sintáticas: "a gente viu a parte preta é mais
por cima da cabeça";
h) Relato de observação oralizado,
em que predomina a perspectiva enunciativa de quem fez alguma experiência
com minhocas.
Seria interessante chamar a atenção
para estes itens e analisar o que eles estão mobilizando, pois
indiciam diferentes formas de relação com a linguagem,
apesar de produzirem efeitos inter-relacionados.
Para fins didáticos, irei agrupar os itens
acima em dois conjuntos.
1. Aspectos formais: relacionados à ortografia,
à divisão silábica, à separação
de palavras (itens a, b, c);
2. Aspectos discursivos: os que se encontram
diretamente relacionados à produção de efeitos
de sentido no texto, que permitem a ele tomar uma direção
ou outra (d, e, f, g, h).
Na realização
da interferência da professora (que é necessariamente
uma interpretação do texto do aluno), optar por um conjunto
de aspectos ou outro irá depender, por um lado, de um imaginário
constituído em torno do efeito de unidade do texto para a professora
e, por outro, mas interligado ao primeiro, da "escuta"3
desta professora diante do texto do aluno. Em outras palavras, a interpretação
destes "problemas" (ou de outros que não foram levantados4)
neste texto (assim como em qualquer outro) depende do modo como se
constitui o olhar da professora, do que a professora acha que deve
ser ensinado para estes alunos, que estão na 1ª série
do Ensino Fundamental.
Vejamos, então, o modo como que a professora
"leu" este texto. Ela escreveu um pequeno bilhete para o
Rodrigo e o Matheus fazerem uma 2ª versão.
Rodrigo e Matheus,
Ao invés de vocês relatarem
o que observaram, tentem reescrever o texto colocando
apenas o que vocês sabem sobre as minhocas.
Lembrem-se de que, num texto informativo,
o autor "informa" sobre o assunto desejado.
Nesse caso, ele não usa "a gente",
pois não está dizendo o que viu e sim,
o que sabe e o que conhece sobre o assunto. Reescrevam
o texto a partir das discussões feitas em classe
e escrevam então o que vocês sabem sobre
as minhocas.
Bom trabalho!
Denise
Ao analisar este bilhete,
um primeiro destaque pode ser dado à posição
da professora e sua "escuta" do texto dos alunos. Há
um destacamento dos aspectos ligados a uma ordem discursiva5,
parecendo deixar para outro momento os aspectos formais que agrupei
no conjunto 1(isto não é um mero detalhe).
Neste texto, alguns pontos podem ser discutidos com
algum cuidado, entre eles, a definição do que é
"informar". O professor afirma que em um texto informativo
"não (se) está dizendo o que viu e sim, o que sabe
e o que conhece sobre o assunto". Há uma imprecisão
no modo como ela escreveu o bilhete, pois as crianças não
se limitam a relatar o que observaram, como aparentemente poderia
ser suposto. Há um cruzamento de enunciados relacionados a
uma provável observação de uma minhoca e a textos
científicos lidos pela professora ou pelos próprios
alunos. Estes enunciados "mais científicos", que
não são inferidos a partir de uma simples observação,
podem ser destacados abaixo:
"ela é surda e não tem
olho"
"'ela desvia da mão' porque
sente o calor pela pele"
"a minhoca vive na terra"
A heterogeneidade marcada por estes cruzamentos parece
ficar, em parte, apagada para a professora, pela imponente presença
da expressão "a gente viu" que, discursivamente,
pode estar sendo convocada pelos alunos, mobilizados através
da experiência que fizeram em sala com as minhocas do "minhocário".
Esta construção talvez esteja produzindo
a emergência de expressões como "nossa mão",
e sua repetição ao longo do texto, e "mais por
cima da cabeça" (expressão que indica que a criança
está localizando a "parte preta" a partir do lugar
de observador), apesar disto não ser homogêneo.
Apesar de a leitura da professora apagar ou não
reconhecer isto no texto dos alunos, sua interferência é
bastante precisa e incide justamente sobre este enunciado, procurando
apontar para um outro modo de dizer que configura "textos científicos"
- Nesse caso, ele (texto informativo) não usa "a gente",
pois não está dizendo o que viu e sim, o que sabe e
o que conhece sobre o assunto.
Assim, o que o professor diz/escreve tem um efeito
sobre a escrita da 2ª versão. Vamos ao texto.
Texto 2 (Rodrigo e Matheus): [1ª série - 2ª versão]
MATHEUS E RODRIGO (29/3/95)
AS MINHOCAS
A MINHOCAS SC ENTE O CALOR
PELA
PÉLE ÉLA TEM
UMA PARTE PRETA E A PARTE PRETA
CHANMA CLITELO E SE ÉLA
FICA MUITO TENPO
NA LUS E SOL A PÉLE
RECECA E A MINHOCA MORE É
A MINHOCA RASTEJA E A MINHOCA
TEM 5 PARES DE CORAÇÃO
Em relação ao texto anterior (1ª versão)
parece haver algumas mudanças bastante significativas, que
apontam, por um lado, para a "escuta", por parte de Rodrigo
e Matheus, das colocações da professora e, por outro,
para o efeito do próprio texto sobre os alunos.
Na 2ª versão, há a produção
de uma unidade de sentido que se aproxima mais de um "texto científico"
e do que a professora parece esperar. Estes efeitos podem ser observados
através de enunciados como:
- a parte preta chama clitelo
- se ficar muito tempo no sol e na luz a pele resseca e a minhoca
morre
- a minhoca rasteja
- a minhoca tem cinco pares de coração
Deste modo, há uma configuração
textual-discursiva desta 2ª versão bastante diferente em relação
à 1ª versão. A saída da expressão "a
gente viu" cede lugar a certos conceitos, bastante adequados
ao tipo de texto informativo científico que estão escrevendo,
como "clitelo", "rasteja", "resseca",
e a uma organização sintática diferenciada, como
o uso da oração subordinada condicional (se ficar...
a pele resseca), apesar da presença excessiva do "e".
Além disso, as informações passam a ser muito
mais precisas e objetivas, como, por exemplo, ter 5 pares de coração.
A clareza do uso e da função que deveria
cumprir aquele texto permitiu à professora fazer um bilhete
que redirecionasse o texto escrito por Rodrigo e Matheus, dando a
ele uma unidade muito mais adequada em relação à
função que deveria cumprir, isto é, ao fato de
fazer de um texto científico sobre as minhocas.
É neste sentido que comentei acima que o professor
que trabalha com Ciências tem que, necessariamente, saber o
que está em jogo nestas práticas de produção
de texto. Assim, ele poderá contribuir efetivamente para a
formação de habilidades e competências dos alunos,
enquanto produtores de textos, um dos objetivos maiores do ensino
de Língua Portuguesa na escola.
NOTAS:
1. Para maiores contatos,
falem comigo: eco@fapeal.br
2. Um interessante projeto de trabalho com fábulas,
produzido por Eduardo Calil (Universidade Federal de Alagoas) pode
ser conferido no site www.cedu.ufal.br
3. Para quem desejar ler uma análise mais
detalhada desta interferência ver meu artigo "Os efeitos
da intervenção do professor no texto do aluno".
In: Moura, Denilda (org.). Língua e Ensino: dimensões
heterogêneas. Maceió: EDUFAL (p. 29-40).
4. A noção de "escuta" aqui
diz respeito ao que a professora entende como problemas que precisam
ser resolvidos no texto do aluno. No texto, há várias
ordens distintas de problemas a serem resolvidos. Ela terá
que optar por algumas, já que não é possível
(nem adequado) para os alunos sanarem todos os problemas de uma só
vez.
5. Por exemplo, a "letra feia" poderia
ser considerada como um "problema".
6. Nos livros didáticos, em geral, as "orientações
para professores" omitem as questões que tocam nos aspectos
discursivos dos textos dos alunos. Também se pode observar
que raramente se costuma interferir, através de bilhetes, no
texto do aluno.
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PGM
5 - Trabalhando com cartas
Caros professor e professora,
Ucy
Soto 1
Prezados professores,
Não, não! Assim parece demasiado formal.
Talvez fosse melhor...
Queridas professoras!
Será que..., não..., parece íntimo
demais... e nem todos os professores são mulheres!
De qualquer maneira,
uma coisa é certa: começando assim, o que se espera
é que o texto que venha a seguir seja o que comumente designamos
como carta. Nesse espaço, gostaríamos de chamar
a atenção para dois aspectos intimamente interligados,
como dois lados de uma mesma folha de papel: 1o)
as formas e os sentidos que se materializam numa carta e 2o)
a história do que se convencionou chamar de gênero
epistolar.
Entre as práticas de ensino que o professor
propõe aos alunos no período de ingresso no mundo letrado
da escrita, e mesmo posteriormente a ele, a leitura e produção
de cartas se nos oferece como uma atividade quase que evidente. Entre
os muitos benefícios que pode oferecer, a carta apresenta a
vantagem adicional de ser um texto que é pensado como um diálogo
que acontece a distância e por isso tem como características
imanentes ser escrito e se realizar sem a presença
dos interlocutores.
Por esse motivo, muitos professores propõem
atividades de escrita epistolar a seus alunos com o objetivo de:
Desenvolver o lado
social das crianças, utilizando a correspondência,
como meio de expressar suas experiências, valorizando assim
seus conhecimentos, e que as mesmas despertem para o ato de ler
e escrever de forma significativa. (Profa. Rita de Cássia
V. Sarmento de Rio Largo/AL)2 .
Esses fatores que caracterizam o gênero epistolar
possibilitam que, na sala de aula, a escrita de uma carta equacione
uma atividade escolar com uma prática socialmente
estabelecida e de grande penetração.
Tão importante parece ser o papel da carta
no mundo ocidental, que ela chama para si aspectos nem sempre evidentes
quando se pensa neste gênero. Vejamos alguns desses aspectos.
Apresentaremos, em primeiro lugar, um aspecto que gira em torno do
mundo escolar e, em segundo, um grupo de aspectos que dizem respeito
ao lugar que esse gênero ocupa como prática de escrita
estabelecida e reconhecida socialmente.
Quando uma pessoa, apesar de alfabetizada, é
incapaz de redigir uma pequena carta ou um bilhete, que seja, considera-se
que ela é um analfabeto funcional. Esse tipo de analfabeto,
ligado já não mais ao mundo rural, mas ao urbano, tem
como característica básica não encarar a escrita
como uma prática social significativa. A carta funciona aqui
como um parâmetro desvelador. Ela revela uma aprendizagem (e
talvez devêssemos também pensar em um ensino) de produção
escrita deficiente, sem ou com pouca significação. Em
sociedades democráticas, saber escrever uma carta constitui
um grande instrumento, que deveria estar ao alcance de todo cidadão.
Talvez seja por esse motivo (e aqui começa
o segundo aspecto) que uma das mais antigas instituições
brasileiras - os Correios e Telégrafos - mantém
um serviço que não paga seu custo mas que, sem sombra
de dúvida, assegura a qualquer cidadão o direito
de enviar uma comunicação, por escrito, a distância.
Referimo-nos à carta social, que tem um preço
que, sem maiores problemas, poderíamos adjetivar de simbólico:
1 centavo de real. É difícil pensar em algo mais
barato!
No entanto, a uma pessoa
não alfabetizada, seria, em princípio, vetado o acesso
a esse meio de produção escrita. Em princípio...
Sim. Mas, se nos lembrarmos de figuras como a da personagem Dora
do filme Central do Brasil3 ,
podemos perceber que a questão epistolar como prática
social não é simples e que, mesmo analfabetos, podem
enviar e, efetivamente, enviam cartas. Ainda que nos passem despercebidas,
essas "escrevinhaDoras" públicas estão espalhadas por
esse Brasil afora, mediando a comunicação de quem deseja
enviar uma carta a um ente querido ou, mesmo, ao santo de sua devoção.
Por último, o
aspecto legal da questão epistolar. O mundo epistolar está
permeado por muitas questões jurídicas. Por um lado,
a sociedade cria mecanismos para salvaguardar o direito de seus cidadãos
de poder e saber escrever cartas, mas por outro, ela se organiza para
controlar a circulação pública de cartas. A "carta-missiva",
tal como designada pelo jargão jurídico, é protegida
por mecanismos legais solidamente edificados, na maioria dos países
ocidentais. A legislação brasileira, por exemplo, não
só regulamenta e pune a violação de correspondência4
mas também se pronuncia quanto ao direito autoral do remetente5
e legisla sobre os direitos do destinatário e, até mesmo,
de terceiros citados em cartas. É como se se tratasse de proteger
um sentido inviolável, sagrado das cartas escritas.
Prestando atenção
aos usos epistolares em nossa sociedade, verificamos que as funções
de numa carta podem ser mais complexas do que parecem à primeira
vista. A carta como desveladora do analfabetismo funcional, a carta-social,
as "escrivinhaDoras" públicas e a legislação
que diz respeito à correspondência são alguns
dos aspectos sociais que circundam o mundo epistolar, fazendo com
que seus sentidos se configurem, se fixem ou, aos poucos, se transformem.
No uso que fazemos desse objeto portador de texto, se encontra uma
das chaves para compreensão de seus significados. Uma carta
é um texto, ao mesmo tempo, livre e codificado, íntimo
e público, que pode ser considerado como segredo e como algo
voltado para a sociabilidade. A carta, melhor que qualquer outra expressão
de nosso tempo, associa o laço social e a subjetividade6 .
Examinando um pouco mais de perto a configuração
interna de uma carta, percebemos rapidamente que há determinadas
formas lingüísticas inexoravelmente ligadas ao modelo
epistolar. O fato de que duas palavras colocadas no início
de uma carta, como vimos, por exemplo, "Queridas professoras",
funcione como uma chave, é interessante. É como
se o viés de leitura, a partir desse momento, se encontrasse
estabelecido, direcionado, como se se orientasse para um determinado
sentido... Poderíamos estabelecer um paralelo, guardando a
devida distância, com o que ocorre em um outro gênero,
o conto de fadas. Quando a chave verbal "Era uma vez..." é
acionada, abre-se a escrita - ou a escuta, se nos posicionarmos do
outro lado da folha - de um tipo de gênero determinado.
Como acontece esse direcionamento, que se faz marcar
em nosso gesto de leitura motivado por essa seqüência de
palavras? Como compreender que duas palavras iniciais, mesmo desprovidas
do que hoje esperamos de uma carta (que venha dentro de um envelope,
trazido pelo correio etc.) possam despertar em nós toda uma
série de sentidos?
A tessitura (de tecido,
de texto) junta num só objeto questões de forma e de
sentido. A tessitura epistolar pode ser compreendida na tensão
que se estabelece entre as formas lingüísticas ali empregadas
("Querida amiga", "Agora vou terminar por falta de assunto")
e as formas socialmente estabelecidas de se expressar em uma determinada
língua, ou, como prefere chamar Bakhtin, os gêneros do
discurso7 .
Essas formas relativamente estáveis de se expressar em uma
língua são socialmente construídas, sendo a carta
uma delas.
Quase todos reconhecemos uma carta, sabemos qual
é o seu aspecto formal.

(Carta de Tiago, aluno da prof.
Mônica de Mogi-Guaçu8 )
Uma carta se nos apresenta como um tipo de comunicação
que se auto-identifica. O modelo formal desse gênero é
bem conhecido. Junto com os contos de fada, talvez seja um dos textos
escritos mais conhecidos. No entanto, a história de constituição
desse gênero e suas implicações para a construção
do modelo epistolar não o são. São exatamente
os gêneros do discurso, essas formas relativamente estáveis
de dizer, que funcionam como elo de união entre a história
da sociedade e a história da língua, diria Bakhtin.
Compreender como se constitui um gênero enriquece a percepção
que temos sobre ele em muitos aspectos. Vamos, pois, a essa história.
A história do gênero epistolar se constituiu
gradativa e muito lentamente. Seu traçado se manteve muito
ligado à história do Ocidente, principalmente ao período
medieval. A forma epistolar e seu/s sentido/s foram se definindo,
ou pelo menos consolidando determinadas formas e não outras,
conjuntamente com as práticas do Cristianismo e a expansão
das artes notarial e legislativa durante a Idade Média. É
nesse período que acontece o que poderíamos chamar de
"a invenção" do que hoje chamamos de carta. A chave
dessa questão, diz Boureau, um estudioso francês do assunto,
pode ser encontrada se compreendermos melhor como se deu a internalização
da necessidade de se escrever cartas e de se seguir certas regras.
Antes de o Cristianismo introduzir no Ocidente uma
correspondência sagrada (as epístolas), o eixo importante
das discussões se dava através da Retórica Clássica,
primordialmente oral na Grécia Antiga. As epistolas
de Paulo (150 d.C., aproximadamente) se constituem como o primeiro
conjunto de escrituras sagradas do Cristianismo, antes mesmo dos Evangelhos.
Essas epístolas, canonizadas pela liturgia, asseguram a mediação
entre o céu e a terra, entre Deus e os homens, por escrito.
Nelas já se encontra a originalidade constitutiva do mundo
cristão, uma certa mistura de familiaridade (Paulo escreve
a seus amigos) e de sacralidade (Paulo transmite a palavra de Deus).
A importância das epístolas cresce à
medida que o Cristianismo se separa dos ritos judeus e toma para si
um lugar cada vez mais singular durante a Idade Média. Na missa
católica romana, no final do primeiro milênio, a autonomia
da liturgia epistolar já se encontra bem marcada, da carta
se proclama o título e o tratamento ("irmãos",
"meu muito caro amigo", "meus muito caros amigos") antes
de sua leitura. Lembremos que neste período toda liturgia era
realizada em latim apesar de que a maior parte da população
já não falasse essa língua.
Muitos tratados começaram a ser redigidos,
por religiosos, procurando fixar as regras epistolares como uma disciplina
autônoma. Para que se possa avaliar a crescente importância
do gênero epistolar durante a Idade Média, é interessante
ressaltar que, até o século XII, o verbo dictare,
que se encontra no título de muitíssimas obras sobre
cartas, como Ars dictaminis ou ainda Ars dictandi, dizia
respeito à atividade precisa de ditar uma carta a um secretário.
O gesto epistolar aqui se encontra a meio caminho, ainda ligado à
tradição oral: dita-se uma carta a um secretário
que a escreve.
No começo do século XII, a prática
epistolar já se encontra difundida fora dos muros da Igreja.
A carta funciona no mundo laico medieval como um instrumento intermediário
entre o direito civil, que timidamente começa a se firmar,
e a arte notarial. É deste período a fixação
de uma das normas que mais caracterizam o texto epistolar: a obrigatoriedade
de se citar o nome do destinatário antes do nome do autor da
carta. A marcação do lugar de quem escreve uma carta
em relação a quem a receberá foi uma das grandes
querelas entre os escritores de tratados epistolares. Num princípio,
essa regra de tratamento se aplicava somente ao tratamento dispensado
a um destinatário de origem social superior à do autor
da carta, mas não tardou muito para que este traço se
generalizasse. Daí, hoje, as formas de tratamento estarem situadas
no começo da carta (Querida Marta) e o nome de quem
escreve só aparecer depois do tratamento ou mesmo só
na assinatura, no final do texto (do teu sempre amigo, Fábio
Augusto).
O grande apogeu da arte epistolar ocorre nas cidades
italianas entre os séculos XII e XIII. Surgem os mestres
epistolários, intelectuais em sua época, muitos
ligados a instituições universitárias, que se
dedicavam a escrever cartas além de tratados sobre essa arte.
Durante esse período, um grande número de tratados epistolares
busca propor modelos de cartas que podiam servir de exemplo para serem
recopiáveis com boa letra tal qual. Alguns poucos manuais propunham
regras gerativas de composição de cartas. Todos eles
escritos em latim, o inglês da época medieval. O primeiro
manual em língua moderna data de 1260, escrito em francês
por Bruno Latini.
O desenvolvimento dos Estados Nacionais, nos últimos
anos da Idade Média, reforça o triunfo dos representantes
da lei (notários e legisladores), em prejuízo dos mestres
epistolários. A comunicação com as camadas superiores
do Poder Judiciário e político começa a adotar
fórmulas cada vez mais estandardizadas e complexas nas quais
pouco espaço é reservado à iniciativa dos sujeitos.
Começa o período de declínio da importância
dos mestres epistolários que renunciaram às suas ambições
públicas de mediadores entre o indivíduo e a Justiça.
Os grandes mestres passaram a dedicar-se, cada vez mais, à
esfera privada, às cartas de cumprimento, de apresentação
de serviços, de agradecimento, cartas de amor, entre amigos,
vindas do coração, o protótipo, por excelência,
do gênero epistolar da atualidade.
Para que possamos descobrir, conhecer e agir no mundo
em que estamos inseridos, muitas vezes se faz necessário deslocar
o nosso olhar para que, posteriormente, possamos voltar a olhar e
ter a possibilidade de enxergar de novo. Nós nos propomos,
nesse breve espaço, deslocar o olhar do texto carta
para que a noção de gênero epistolar, como
uma prática socialmente construída através da
sua história, pudesse surgir. Essa história, que atravessa
um período que vai desde o momento em que a carta não
tinha maior relevância como gênero na Antigüidade
Clássica até o fim do período medieval, no qual
a carta tem um papel de alta significação, claro está,
não pára ali. Mas durante a Idade Média, podemos
observar, como salienta Boureau, que uma série de práticas
das instituições cristãs com relação
à arte epistolar possibilitou organizar uma transferência
capital na história cultural do Ocidente do oral para o escrito.
É essa mesma transferência
capital que busca o professor em sala de aula: fazer com que a escrita
se torne tão significativa quanto a oralidade, pois só
se aprende a ler e escrever quando se internaliza um sentido, uma
necessidade de fazê-lo. É esse sentido que falta ao analfabeto
funcional e que está presente, mesmo que a técnica da
escrita lhe falte, a quem procura uma "escrivinhaDora" numa estação
de trens. A escolha de um determinado gênero, e não de
outro, traz à tona não só questões quanto
à forma interna que será mais ou menos adequada, mas
todos os sentidos que foram gestados significativamente no percurso
de constituição daquele gênero. Quando, por exemplo,
um livro sobre livros9
se estrutura desta forma:
Queridíssima Lenice,
você lembra do Ronaldo, aquele colega de
turma que logo depois de formado foi trabalhar com os índios
do Amazonas? A gente jurava que ele jamais iria suportar morar num
clima tão quente e chuvoso. É, nós duas nos
enganamos! Já faz mais de quinze anos que ele se foi. Pois
é, de tantos anos em silêncio, ele deu notícias
três semanas atrás, enviando uma carta anexada a um
livro belíssimo, O livro das árvores, dos índios
Ticuna. [...]
Resolvi ler este livro com
os alunos da 8a
série, que acham que índios brasileiros só
existem em livros de História. Todos ficaram curiosíssimos:
observaram as ilustrações, leram os textos, entenderam
os mitos e a multiplicidade de tipos de árvores que compõem
a floresta. [...]
Fico aguardando uma resposta sua!
Beijos,
Bárbara.
P.S.: Evidentemente comentei com o professor de
História as dificuldades dos alunos em resgatar sua própria
história e estamos combinando atividades conjuntas para começar
a sanar essa grave lacuna.
(Excertos do livro Histórias e
Histórias, p. 65)
Ou seja, o livro se estrutura com base na escolha
de um modelo epistolar, em forma de cartas escritas a amigos, o que
não é simples coincidência! Ler uma carta é
entrar em conexão com alguém de forma mais direta, íntima,
em primeira mão. A carta representa a possibilidade de um elo
de união privilegiado na dispersão que caracteriza a
nossa modernidade. A carta, enfim, quando não é a nossa,
mas que nos foi dada a permissão de ser lida, nos introduz
no universo do outro, do qual sempre queremos saber mais.
Aqui me despeço, como nas cartas antigas
entre amigos,
Subscrevo-me atenciosamente desejando
que essa encontre a todos com muita saúde e paz,
Ucy Soto
PS. Querendo, escreva-me. Deixo
o endereço eletrônico para contato: ucy@fapeal.br
NOTAS:
- Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de
Alagoas.
- Atividade com cartas, desenvolvida
pela Profa
Rita Sarmento, a partir do convite de uma colega do PROFA, Profa.
Rosângela, durante o ano de 2001, em Rio Largo, Alagoas.
- Filme de Walter Sales, no qual Fernanda Montenegro interpreta
um personagem que escreve cartas para analfabetos na Estação
de Trens Central do Brasil.
- Constituição de 1988 e Código Penal, artigos
151 e 152.
- Código Penal artigos 184 a 186.
- Baseio-me aqui no trabalho organizado por Roger Chartier (1991,
p. 9) sobre Correspondência.
- Sobre essa noção de gêneros do discurso,
que é um pouco diferente da noção de tipologia
textual, veja a obra de Bakhtin, na bibliografia.
- Trabalho com cartas realizado pelos
alunos das professoras Maria Irene de Rio Largo/ AL e Mônica
C. Floriano de Mogi-Guaçu / SP, a partir do anúncio
da Profa Mônica
na Revista Nova Escola de março de 2001.
- Trata-se do livro Histórias e Histórias:
Guia do Usuário do Programa Nacional Biblioteca da Escola
- PNBE/99.
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BIBLIOGRAFIA:
Bakhtin, Mikhail. Estética
da criação verbal. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
Boureau, Alain. La norme épistolaire,
une invention médiévale. In: Chartier, R. (dir.)
La correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle.
Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.
BRASIL. Ministério
da Educação. Parâmetros Curriculares
Nacionais (de 1a
a 4a séries e de 5a a 8a séries).
Brasília, SEF/MEC, 1997/1998.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividade
de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo.
EDUC, 1999.
CALIL, Eduardo."Os efeitos
da intervenção do professor no texto do aluno".
In: Moura, Denilda (org.). Língua e Ensino: dimensões
heterogêneas. Maceió: EDUFAL (p. 29-40).
Chartier, Roger. (dir.) La
correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle.
Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.
Histórias e Histórias:
Guia do Usuário do Programa Nacional Biblioteca da
Escola - PNBE/99. Secretaria de Educação Fundamental,
Brasília: MEC, SEF, 2001.
JOLIBERT, Josette. Formando
crianças produtoras de textos. Porto Alegre, ArtMed,
1994.
KAUFMAN, Ana Maria & RODRIGUEZ,
Maria Elena. Escola, leitura e produção de
textos. Porto Alegre, ArtMed, 1995.
MAIA, Ângela Maria dos
Santos. O Texto poético: leitura na escola. Maceió:
Ed. UFAL, 2001.
Maria Irene. "Correspondências:
um bom incentivo à leitura e a escrita". Projeto
Produção de texto através de correspondência.
Escola de ensino fundamental Odylo Álvares de Souza,
Rio Largo/ Alagoas, 2001.
Sarmento, Rita de Cássia
V. "Amizade pelo Correio: na prática, alunos da escola
Renado Jarsen de Melo e Escola Aquino Japiassu, descobrem, juntos,
o uso social da escrita e da leitura de forma significativa",
Rio Largo, Alagoas, 2001.
Soto, Ucy. Variação
e Mudança do pronome de tratamento alocutivo: uma análise
enunciativa em cartas brasileiras. Tese apresentada ao Programa
de Pós-graduação em Letras da UNESP, Araraquara,
2001.
Consultar na Internet:
eco@fapeal.br
www.cedu.ufal.br
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