PARCERIA ESCOLA-FAMÍLIA

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Apresentação

Carlos Alberto de Medina*

"Uma verdadeira viagem de descoberta
não é procurar novas terras,
mas ter um olhar novo."

Marcel Proust

A TV Escola, canal educativo do Ministério da Educação, tem como proposta apoiar o professor no que diz respeito à sua formação e à sua prática em sala de aula.

O Salto para o Futuro faz parte dessa programação, sendo estruturado para permitir o debate entre os participantes. Mais do que recomendações, o programa busca criar um espaço de diálogo sobre temas pertinentes à formação do professor, atendendo a demandas formuladas por professores, orientadores e demais agentes educacionais.

É ponto pacífico a necessidade de se buscar formas de articulação entre a Família e a Escola. Fácil falar sobre ela, difícil construí-la. Ainda mais que se vê a Educação hoje como algo permanente, por toda a vida, um processo continuado e não mais como uma etapa: estudar, para depois, entrar no mercado de trabalho.

Se assim é, a relação Família-Escola não diz respeito apenas aos filhos-alunos, mas a todos, familiares e professores e comunidade em geral.

A presente série visa discutir alguns destes aspectos. Primeiro, caracterizando o que entendemos por família; depois, apresentando várias situações do relacionamento entre as duas instituições. Finalmente, a perspectiva do futuro.

A série Parceria Escola e Família, que será apresentada pela TV Escola no programa Salto para o Futuro, de 20 a 24 de maio de 2002, é composta de cinco programas, que buscam oferecer uma possível compreensão das questões envolvidas e os limites e possibilidades de cada uma destas duas instituições para uma ação comum, a educação de crianças e jovens. Norteia a série uma pergunta dupla: O que a família espera da escola e o que a escola espera da família?

Antes de mais nada, é preciso entendermos o que estamos falando quando mencionamos os termos Família e Escola. Aparentemente, todos sabemos do que se trata. Todos nós temos uma família, quase todos nós freqüentamos a escola. Então sabemos do que estamos falando. Sabemos?

A instituição Família teve uma importância fundamental na história brasileira. Livros, hoje clássicos, como os de Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mocambos), descrevem a importância que a "grande família extensa" dos "senhores de engenho" teve na formação social e econômica. Mostram a importância das relações familiares, não apenas como relações afetivas de confiabilidade, mas como relações de poder. Tanta foi a sua força, que ainda nos utilizamos de dois mecanismos que "garantem" formas de acesso a benesses e aos benefícios: o "pistolão" e o nepotismo. Ter um parente ou amigo em determinado posto ou função pode abrir as portas das instituições e, certamente, tendo um parente próximo, ocupando cargos, podemos garantir um emprego.1

Ser parente, portanto, seria algo positivo, confiável. Ocorre que, na história brasileira, tivemos a escravidão. Houve um contingente populacional, os escravos, que não tinha direitos. Eram propriedade de terceiros e não podiam por si mesmo constituir família, criar filhos. Seus filhos seriam propriedade de seu dono e senhor até a promulgação da Lei do Ventre Livre.

Como podemos perceber, uma parte da população podia ter família e valorizava fortemente as relações familiares, enquanto outra, majoritária, não tinha o direito à instituição familiar.

Duas são as repercussões deste fato na camada social menos favorecida economicamente, formando um verdadeiro paradoxo: 1) a eliminação da responsabilidade paterna e 2) a suposição, para a mulher pobre, de que, tendo filhos, manteria junto a ela o homem, o pai de seus filhos. Afinal o ideal da família era o homem, provedor, casado, e com muitos filhos. A função ativa era masculina. A função da mulher era reprodutiva e seria tanto mais valorizada quando mais filhos tivesse.

Este retrato, apresentado aqui em rápidas pinceladas, é um retrato parcial do passado, embora ainda o encontremos em muitos recantos do país. É uma imagem valorizada, a da permanência de um casal com filhos, articulado com a rede ampla de parentesco, avós, tios, primos, sobrinhos. A família extensa, aglutinando várias famílias conjugais.

Hoje, o retrato é diferente. Está nas propagandas, que na verdade "vendem" não só produtos, mas sobretudo representações, de modo claro e restrito: as imagens mostram um casal, homem e mulher, e poucos filhos, certamente dois, um menino e uma menina. Esporadicamente aparece uma pessoa idosa: avô ou avó. E é este modelo de família, o "nuclear", que está presente também nos livros didáticos, como se fosse o único, o correto, o "normal", o "desejável", reforçando sua força como "modelo" que é, e não como a família se apresenta na realidade, em que o que predomina é a diversidade.

A família que não segue esse modelo é considerada "desestruturada". E, certamente, ela se apresentará "desestruturada" nas camadas pobres da população, aquelas mais vinculadas ao passado da escravidão. E certamente muitas das soluções encontradas pelas camadas menos favorecidas da população para encontrar novas possibilidades de organização de novos núcleos familiares são taxadas como modelos desestruturados, porque se afastam muito do modelo familiar tido como hegemônico.

É curioso nos lembrarmos de um outro fato. O autor de livros para crianças mais conhecido no Brasil é Monteiro Lobato. E que família ele nos mostra? Uma avó, Dona Benta, seus netos e outros personagens, inclusive a cozinheira, negra, e o preto velho. Lobato mostra que a família é dos brancos, mas a apresenta sem o casal - os pais (família conjugal). Mostra apenas o eixo da descendência, omitindo o eixo da aliança (expressa pelo casamento de dois membros, um homem e uma mulher, oriundos cada um de uma outra família conjugal). Isto se verifica, também, nas inúmeras histórias de fadas do passado, em que os pais, em geral, não estão presentes. Cabendo aos pais a função disciplinadora, omiti-los é fazer esta desaparecer e valorizar os momentos de liberdade dos filhos em casa, ou em casa dos avós, supostamente mais permissivos. Também surge a figura da madrasta, hoje presente nos casais recasados com filhos, mas cuja denominação é problemática, exatamente por carregar a tônica negativa que ganhou no passado.

Depois dessa consideração, voltemos à questão inicial: De que família estamos falando? Passo, agora, a expressar melhor o que queremos dizer quando usamos o termo Família. Isto é, para uma família se formar, seria indispensável que cada família de origem cedesse um de seus membros para a constituição de uma nova família. O eixo da filiação: pai, mãe, filho, neto, avós, ou o eixo da aliança: sogros, genro, nora, cunhados. Para a criança, temos tios e primos, independentemente da família de origem. Assim, Dona Benta, Pedrinho e Narizinho são família, mas tio e sobrinho também o são. Essa denominação "tio", "tia" tem uma característica interessante, pois extrapola o núcleo familiar e chega a outros por afinidade ou respeito. Está presente até em outras situações. Não é incomum, nos grandes centros, ouvirmos expressões como: "tia, me dá um dinheiro", que às vezes pode ser um pedido, e às vezes, um assalto. Tanta é a importância da instituição familiar no Brasil, que os professores/as são chamados de "tios/tias"...

O aluno, ao entrar na escola, tem uma família. Qual é esta, de quantas pessoas se compõe, isso é variável. Às vezes, a avó é a família que a criança conhece.

O fato é que poucas instituições conheceram mudanças tão significativas como a família em uma geração: o seu tamanho se reduziu e ela se tornou menos estável no que se refere à contribuição do casal conjugal. O casamento passou a ter um papel social menos central e o "companheirismo" tornou-se corrente e aceito.

Além disso, ganhou terreno a igualdade entre os sexos. A sociedade, antes marcada por uma distribuição forte entre os sexos e uma divisão clara entre trabalho produtivo e reprodutivo (atividades domésticas) se transformou, dado o valor do pensamento feminista e de uma política de emancipação da mulher, o que levou a uma redistribuição importante, embora ainda com limites, das atividades profissionais e privadas.

No âmbito privado, houve a perda da exclusividade feminina das funções domésticas, permitindo-se e, ali, justificando-se, a entrada do homem. Este tornou-se mais atuante, tanto na educação dos filhos, quanto na gestão cotidiana do "lar".

Entre as transformações ocorridas na família temos:

1. Controle da natalidade - a mulher pode hoje decidir se quer ou não ter filhos. Há uma aceitação social do sexo em si mesmo, e não mais para a reprodução.

2. Redução do número de filhos, donde menos irmãos, tios, sobrinhos, primos.

3. Prolongamento do tempo de vida - mais pessoas idosas com saúde e vida ativa.

4. Alteração do papel doméstico atribuído só à mulher - ruptura do quadro tradicional provedor/dona de casa.

5. Instabilidade do casal aceita socialmente, com facilitação da dissolução do vínculo conjugal - a razão do unir-se é afetiva e não ter filhos. Isto gerou uma multiplicidade de situações: casal sem filhos; casal temporário com filhos; famílias extensas; famílias uniparentais; casal homossexual com ou sem filhos; recasamento de avós, antes separados.

6. Forte mobilidade geográfica e social dos membros da família.

7. Igualdade entre os sexos.

8. Clima de incerteza: nada é seguro, donde a exigência de processos de ajustamentos contínuos, isto é, a construção permanente da identidade de cada um que exije liberdade individual de movimentos na incerteza da construção de sua trajetória social.

Qual a conseqüência disto tudo? Não há critérios para se julgar: o modelo de família das gerações anteriores nada mais tem a ver com a realidade.

E o aluno, a criança, o jovem, diante disso? Na sua educação valoriza-se sua autonomia, autenticidade, criatividade. E a família coloca filhos na escola e não alunos, mas esta recebe alunos e não filhos. Mas se pensamos em parceria entre estas duas instituições, temos de compreender suas diferenças. E a família lida com os filhos 24 horas por dia, durante a semana toda. Já a escola lida com os alunos por período determinado e, normalmente, apenas algumas horas, em 5 dias da semana.

É uma parceria entre instituições distintas. Se a desejamos eficaz temos de reconhecer as características de cada uma e descobrir as pontes possíveis existentes.

Ao aceitar este trabalho comecei a pensar no tema "Parceria Família-Escola" e percebi não estar presente um terceiro componente, o "filho-aluno". Afinal é ele o elo destas duas instituições, ambas em "crise", sendo criticadas pelo que "não" fazem (e deveriam fazer) numa realidade de intensas transformações. Por mais que seja criticada a Escola, e a família vista como desestruturada, ambas são instituições valorizadas. Talvez seja o aluno quem capte o atual desejo da Escola como instituição de ter a família mais próxima dela, para enfrentar as atuais dificuldades, senão as intencionalidades e obrigações decorrentes para efetivar a parceria desejada.

Mas que "aluno"/filho está chegando ou por chegar à escola? Sobre isto permito-me apresentar três situações:

1. Criança de 1 ano e 8 meses - a avó chega e vê a criança. Pede-lhe um beijo e a criança sai correndo, dizendo, bem alto: Que saco!

2. Criança de 4 anos - mãe, sem problemas de sobrevivência. É seu segundo casamento e ela diz que pode dedicar-se a seus filhos. Não trabalha. Mas está sempre nervosa, gritando, falando aos berros com os filhos. E a filha mais velha diz: "Mãe, você pediu ao Papai do Céu para que ele te desse a mim e à Dedé (irmã de 2 anos). Você devia saber: criança dá muito trabalho".

3. Criança, 10 anos - esta pergunta à mãe. "Mãe, você é minha dona?" E a mãe explica que ninguém é dono de ninguém. Horas mais tarde a mãe manda a filha fazer alguma coisa, e a filha responde: "Você não me manda. Você não é a minha dona!".

Falar em parceria é fácil. Construí-la é um trabalho exigente que terá de levar em consideração as condições reais da Escola, da Família e, também, desses novos filhos/alunos.

Para terminar, algumas considerações:

O tema, por sua complexidade, permite múltiplas visões. A relação escola e família precisa ser analisada do ponto de vista da cultura, o que implica visões de mundo diferenciadas, tanto no que se refere aos valores, quanto à realidade socieconômica. O recorte apresentado nos textos é fruto da reflexão de profissionais que vêm se dedicando ao tema, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Sendo assim, determinadas realidades provavelmente não foram contempladas. Algumas destas abordagens são passíveis de generalização, enquanto outras, por sua peculiariedade, estão diretamente relacionadas ao contexto do qual emergiram. Certamente, os debates no programa televisivo comportarão outras visões e experiências, não só devido à participação dos debatedores, quanto pela intensa participação dos professores que constituem o diálogo interativo do programa Salto para o Futuro.

Bibliografia

BOSCO, João (ed). A Escola entre o local e o global. Perspectivas para o Século XXI. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1999.

MEDINA, C.A. de. Família e Mudança, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1974.

Família: ontem, hoje, amanhã. Debates Sociais (nº especial) XXVI, CBCISS, Rio de Janeiro, 1991.

Dificuldades da avaliação na situação de transição da família e da escola. Psicopedagogia - ABPp, XIX, nº 58, São Paulo, 2001.

NOTAS:

* Sociólogo, autor de Favela e o Demagogo (Martins); Família e mudança, autoridade e participação, participação e trabalho social. 5ª edição; A arte de viver em família (Vozes); Socorro, Rio de Janeiro 1999-2000 (Vida & Consciência). Consultor desta série.

1 Como dizia um deputado federal no ano 2000 quando se discutia, mais uma vez, a extinção do nepotismo na ocupação dos cargos no Congresso: "Um dos nomeados é minha mãe, que me pariu; o outro é minha esposa, que dorme na minha cama e os outros são meus filhos, dos quais tenho a responsabilidade de cuidar".