PGM 4
– Materiais
didáticos em Geografia, História e Ciências
A
Geografia na sala de aula: a importância dos materiais didáticos
Sueli
Ângelo Furlan1
Mesmo
antes do ingresso na escola, a criança observa, pergunta e procura
explicar o mundo em que vive. Esse modo de ler nosso dia-a-dia está impregnado de
Geografia. Na escola é
importante que o aluno possa ampliar, rever, reformular e sistematizar as
noções que construiu, de forma espontânea, através da aprendizagem de
conteúdos da Geografia.
Esse processo de ampliação, reformulação e
sistematização é sempre inacabado ao longo da vida de uma pessoa, mas a
escola tem um papel importante na sua consolidação.
A Geografia como leitura do mundo que vivemos é uma construção
gradativa, que ocorre na escola, à medida que os alunos aprendem a
observar, perguntar-se sobre o que observam, descrever, comparar,
construir explicações, representar e espacializar acontecimentos sociais
e naturais de forma cada vez mais ampla, considerando dimensões de tempo
e do espaço.
Por isso o ensino de Geografia não se restringe à exposição do
professor, à leitura do livro didático, à memorização de conceitos ou
às respostas de questionários. É
algo muito mais complexo e desafiador. Envolve a compreensão de um modo
de pensar e explicar o mundo, pautada em noções, conceitos,
procedimentos e princípios através dos quais os fatos são estudados e
contextualizados no tempo e no espaço.
Para promover a ampliação do conhecimento dos alunos a respeito de temas
cuja relevância é de inquestionável
valor para a sociedade atual, os materiais didáticos são fundamentais no
trabalho do professor.
Em Geografia, os conteúdos trabalhados enfocam, explícita ou
implicitamente, temas relacionados à sociedade e à natureza e isto é um
grande desafio para esse campo do conhecimento e, do mesmo modo, para o
trabalho escolar. Por
exemplo: qual deve ser a abordagem geográfica do estudo do clima no
Ensino Fundamental? Sabemos que para entender os fenômenos climáticos,
necessitamos conhecer a
natureza desses fenômenos, ou seja, como o clima acontece.
Mas em Geografia é preciso também entender como o clima se
relaciona com a nossa vida. Como o clima está relacionado com a
agricultura, com as cidades, com a saúde e como as práticas sociais
interferem no clima? Como tratar do clima buscando essa articulação dos
conhecimentos científicos, transformando-os em conhecimentos escolares?
Em primeiro lugar, é preciso ter claro que os temas geográficos sempre
buscam um enfoque socioambiental. Portanto, não se deve separar o
estudo do clima (como fenômeno da natureza) do estudo social (das interações
humanas com o clima). Por
outro lado, os estudos geográficos não podem deixar de enfocar a
sociedade e a integração com outras áreas. Além disso, os estudos
escolares devem promover também a ampliação dos conhecimentos sobre ética,
trabalho e consumo, saúde, pluralidade cultural e a diversidade ambiental
que caracterizam nosso país e o mundo.
O trabalho do professor de Geografia precisa ser ancorado por uma ampla
variedade de materiais que possibilitem planejar boas situações didáticas,
buscando essa articulação ampla de conteúdos que acabamos de citar.
Criar situações que permitam que os alunos possam progredir em
suas aprendizagens sobre o mundo e sua própria vida nas diferentes
paisagens que compõem esse mundo é a “meta geográfica” da sala de
aula. Portanto, os materiais
devem promover discussões e favorecer o desenvolvimento de uma atitude
propositiva perante os temas abordados. Podem conter ou permitir ao
professor planejar atividades em que os alunos são convidados a informar,
comunicar e influenciar colegas, funcionários da escola, os familiares e
a comunidade mais ampla na sua compreensão de que todos fazem parte dos
assuntos e problemas discutidos pela escola, tais como a conservação
ambiental, a relação entre qualidade de vida e saúde, a valorização
da pluralidade cultural e da diversidade ambiental, o ingresso no mundo do
trabalho e as desigualdades socioeconômicas.
Os materiais escolhidos pelos professores para o seu trabalho didático
podem também dar ênfase aos temas que possibilitem a criação de
projetos que envolvam mudanças de atitudes e discussão dos valores dos
próprios alunos. Para isso,
costumamos dizer que o professor de Geografia não deve restringir o seu
trabalho ao uso de um único tipo de material, por exemplo o livro didático.
Já é comum observar, no trabalho com a Geografia na sala de aula, quase
sempre ancorado pelo livro didático, a necessidade do uso de diferentes
materiais. O que é menos freqüente observar é a criação pelo
professor de situações em que ele seja protagonista de suas próprias
seqüências didáticas. Explicando
melhor: por exemplo, o uso de uma fonte textual de revista ou de jornal
pode ser objeto de trabalho dos alunos como leitura de aprofundamento,
leitura de informação de atualidade, ou mesmo como fonte de problematização
de um tema de pesquisa. No
entanto, muitas vezes o uso dessa fonte se faz sem que o professor
estabeleça objetivos para este uso, considerando o planejamento de uma
seqüência de atividades pensadas e coerentes com os objetivos de
aprendizagem, ou seja, do planejamento de uma
situação em que este material faça parte de suas estratégias de
trabalho a partir desses objetivos. Prevalece
um uso espontaneísta dos materiais, como se eles dessem conta de
“ensinar sozinhos”. Defendemos que qualquer material didático precisa entrar na
sala de aula dentro de um planejamento que permita ao aluno desenvolver
conhecimentos conceituais, procedimentais e atitudinais através do seu
uso. Tradicionalmente,
os materiais têm sido mais utilizados como fonte de informação
conceitual e muito menos como meios, nos quais o fazer de alunos e
professores se combinem para que o aluno possa confrontar conhecimentos,
desenvolver habilidades, problematizar questões geográficas, etc.
Os materiais podem e
devem promover a aprendizagem, pois podem envolver os alunos em situações
concretas de estudo, cuja realização implica a aprendizagem de
procedimentos, valores e atitudes característicos do ofício de
estudante.
O professor de Geografia tem, neste sentido, uma ampla variedade de fontes
documentais que pode utilizar. Vamos discuti-las brevemente caso a caso.
Uso de fontes textuais
Ø O livro didático como fonte de informação e material
de leitura
livro didático tem sido o material mais freqüente no cotidiano
escolar do aluno. O livro é usado de diferentes maneiras: como fonte de
informação, como seqüência de conteúdos, às vezes até como currículo
e, muitas vezes, como seqüência didática. Em relação a isto, o livro
guarda em si mesmo uma enorme responsabilidade. Deve ser fonte atualizada
de informações, conter textos de boa qualidade, propor atividades
interessantes e que permitam o
conhecimento geográfico estudado se ajustar ao conhecimento do aluno. Com
essa ampla tarefa, o livro, em seus limites restritos, efetivamente não
pode cumprir sozinho todas as expectativas depositadas nele.
Neste sentido, o livro didático é o principal material de sala de aula,
mas oferece um contexto fragmentado e muitas vezes superficial no qual o
professor pode e deve se pautar para definir sua estratégia de trabalho,
mas nunca adotá-lo como o único material.
Uma primeira iniciativa, ainda difícil, é conceber o livro sem
linearidade. Não é preciso
seguir o livro página a página, capítulo a capítulo.
Embora os livros, em sua maioria, tenham sido pensados pelos
autores para serem usados como seqüência de conteúdos, o professor tem
autonomia e liberdade de planejar o seu trabalho a partir de recortes
necessários à sua turma de alunos.
Vale lembrar ao professor o seu papel de mediador entre os alunos e
as fontes de informação utilizadas no processo de aprendizagem.
Eventualmente, pode ocorrer de os alunos não compreenderem ou não
conhecerem o significado de um assunto, de um texto, ou do vocabulário
específico da Geografia que está no livro.
Cabe ao professor, como mediador do livro, ajudá-los a resolver as
dúvidas lingüísticas, orientar procedimentos de busca de novas informações,
comparar idéias a respeito do tema, debater com os colegas, etc.
É possível flexibilizar a seqüência de conteúdos proposta nos livros
didáticos de Geografia e permitir, por exemplo, que o tema urbanização
dialogue como tema da água, ou das enchentes e bacias hidrográficas.
Para isto, o professor tem que intervir e planejar seqüências didáticas
que não estão prontas nos livros didáticos. Ele pode lançar mão de
uma variedade de materiais complementares que possam ser trabalhados junto
com o livro, tais como outras fontes documentais.
Ø
Outras fontes documentais: Revistas e jornais, na pesquisa e debate
de informações geográficas, temas de atualidade.
O trabalho com documentos é especialmente importante no ensino de
Geografia, pois através deles os alunos podem compreender o conhecimento
geográfico enquanto elaboração humana, realizada por pessoas em
determinados contextos. Para conhecer a paisagem, ler sobre ela, é
preciso ter acesso a fontes documentais, que forneçam pistas para aquele
que realiza a pesquisa construir seu conhecimento.
As revistas e jornais além de outras fontes documentais, tais como
livros de arte, álbum de fotografias, cartões postais, relatos de memórias,
livros de cartas, livros de literatura, biografias, etc. fornecem
aos professores uma diversidade de documentos que podem ser articulados ao
uso do livro didático no estudo de temas geográficos.
É importante, nessa articulação, ressaltar que os documentos não
representam a verdade sobre uma determinada época ou lugar. Eles revelam
ou fornecem pistas para aqueles que os consultam parte da realidade
passada ou presente. Estão
impregnados pelos valores de quem os produziu. O aluno precisa, neste
sentido, conhecer sempre quem escreveu aquilo que ele está lendo, em que
época, em que contexto e para quem escrevia.
Por isso, é fundamental ensinar os alunos a ter uma posição mais
interrogativa e crítica frente aos documentos, incentivando-os a refletir
sobre as intenções daqueles que os elaboraram.
O professor, ao permitir que as revistas e jornais entrem na sala
de aula, deve propor aos alunos pesquisarem informações adicionais que
os ajudem a contextualizar os documentos oferecidos a eles.
Existem muitas revistas de geografia que podem ser adquiridas em
banca de jornal ou por assinatura, portanto esse material pode se tornar
menos raro na escola. O hábito
de uso da revista deve ser mais incentivado. Ainda é muito pouco freqüente
esse hábito entre os professores.
Ø
Livros paradidáticos abordagem temática de aprofundamento de
conteúdos
Esse material vem sendo cada vez mais utilizado nas escolas, pois cumpre o
papel de aprofundamento conceitual que o livro didático muitas vezes não
consegue alcançar. Existem coleções paradidáticas de Geografia para
todas as etapas da escolaridade, que oferecem seqüências de conteúdos
muito boas para desenvolvimento do trabalho, por exemplo, com projetos.
Neste caso as resenhas, os fichamentos e a leitura têm sido os hábitos
mais difundidos no uso destes materiais.
Algumas coleções têm sido adotadas para atuar no papel central
de material didático de sala de aula, ou seja, substituindo o livro didático,
mas isso é mais difícil na escola pública. O papel dessas coleções
tem sido possibilitar a abordagem temática de conteúdos de Geografia e,
muitas vezes, são usadas como material de atualidades.
A leitura é a prática mais comum, no entanto as mesmas observações
feitas para os livros didáticos valem para esse material, ou seja, o
professor é sempre seu mediador, o material não precisa ter um uso
linear.
Ø Produção de textos como fonte documental os textos produzidos
pelos alunos.
O material produzido por alunos e professores constitui-se uma valiosa
fonte documental. Muitas
vezes a consolidação de conhecimentos inéditos sobre os lugares
acontece quando o próprio grupo produz.
No Brasil não existem informações sobre os lugares e suas
paisagens e a escola é o lócus privilegiado de produção deste
conhecimento. Textos, coleções de mapas, documentação fotográfica
podem ser produzidos para serem revisitados, questionados e ao mesmo tempo
formar uma memória documental dos diferentes lugares do Brasil.
Normalmente não se valoriza tanto essas produções como aquelas
que recebem tratamento editorial mais comercial, mas o que os professores
muitas vezes não sabem é que livros didáticos e paradidáticos muitas
vezes nascem destes materiais. Hoje,
com os recursos da informática podemos melhorar a qualidade editorial
dessas produções, utilizando softwares para produção de textos e
trabalho com multimídia. Isto depende, no entanto, de investimentos na
infra-estrutura escolar. A produção de material didático escolar deve
ser valorizada pela própria escola. O seu uso, evidentemente, deve partir dos mesmos princípios
pedagógicos comentados anteriormente.
Uso dos mapas
Ø
O uso dos mapas em diferentes situações didáticas
A leitura espacial é uma
aprendizagem específica para a Geografia.
Todas as pessoas têm noções espaciais, mas a Geografia em
particular é a ciência que sistematiza os procedimentos de leitura e
escrita da linguagem cartográfica. A cartografia é um meio de transmissão
de informação. Estamos deixando para trás a época em que, na escola,
somente se copiavam mapas, pela simples razão de copiá-los, não
objetivando a análise das relações que ocorrem no espaço geográfico,
ou mesmo não discutindo as intenções de quem produziu estes mapas.
A cartografia escolar, além de constituir um recurso visual muito
utilizado, oferece aos professores a possibilidade de trabalhar em três níveis:
1. Localização
e análise – Quando se trata um fenômeno em particular e procura-se
lê-lo espacialmente. Por
exemplo, a distribuição das chuvas no Brasil, a ocorrência de florestas
tropicais, os tipos de solos, as regiões mais populosas, etc.
2. Correlação -
São muitas as situações em que os professores podem combinar
duas cartas de análise para correlacionar simultaneamente dois fatos. Por
exemplo, a ocorrência de florestas tropicais e a distribuição das
chuvas no Brasil.
3. Síntese – Ao se
reunir vários mapas de análise, estamos realizando uma síntese. Por
exemplo, o professor pode juntar os mapas de chuvas no Brasil, florestas
tropicais e população para discutir os problema do desmatamento ou erosão
dos solos.
O Atlas, em geral, contém mapas analíticos que devem ser trabalhados nos
três níveis. É
fundamental, no entanto que o professor inicie com as crianças pequenas
oferecendo os primeiros passos da alfabetização cartográfica.
Ou seja, a partir de um texto (o mapa), o aluno inicie a leitura (a
linguagem do mapa). O que
é fundamental neste aspecto do uso dos mapas? Em primeiro lugar,
utilizar o Atlas ou mapas avulsos, aproveitando o interesse natural das
crianças. Para isso, podemos utilizar inúmeros recursos visuais,
desenhos, fotos, maquetes, plantas, mapas, imagens de satélite, figuras,
tabelas, jogos e representações feitas por crianças, acostumando o
aluno com a linguagem visual. O
conteúdo programático para o estudo dos mapas é desenvolvido segundo o
saber ensinado e o saber adquirido na escola ou fora dela, sendo que os
temas devem ser aprofundados de forma progressiva, acompanhando o conteúdo
da Geografia e o desenvolvimento da criança. O trabalho com produto
cartográfico já elaborado é o trabalho que deve ser feito a partir da
alfabetização cartográfica.
Em
geral, da 5a
série em diante o professor deve buscar a leitura de mapas para formar um
leitor crítico ou mapeador consciente ao final do processo do Ensino
Fundamental.
O uso do mapa quotidianamente na sala de aula favorece o trabalho nesta
direção. Podemos dizer que toda aula de Geografia deve se apoiar em
mapas. O problema básico que o professor tem a enfrentar é o da percepção
que o aluno tem sobre um determinado fenômeno, portanto sua percepção
individual, sua leitura individual daquele espaço, sua criatividade e seu
processo de cognição.
A utilização de croqui nos três níveis propostos tem sido uma prática
valiosa para o desenvolvimento da representação figurativa e ajuda o
aluno a se colocar despojadamente diante dos mapas que, muitas vezes,
exigem níveis de aquisições de leitura e escrita cartográfica que só
se concretizam com o tempo. Pode-se
ensinar, por exemplo, a elaboração de croquis de localização, de
correlação e síntese.
Ø
Mapas e o estudo do Meio
Cada paisagem é um todo, que pode ser compreendido desde as suas partes.
Enquanto totalidade, as paisagens envolvem componentes naturais e humanos
e, sobretudo, a maneira como apreendemos esses componentes.
Na leitura da paisagem, nos aproximamos de diversas e não raras vezes
diferentes e divergentes maneiras de apreensão e compreensão da
paisagem, expressas nos sentimentos e na memória das pessoas, nos textos
científicos sobre o lugar, na literatura, no modo de vida das pessoas.
Essa apreensão está relacionada também às nossas referências, ou
seja, àquilo que conhecemos de antemão, às nossas vivências, à nossa
maneira de perceber e compreender o mundo. Alguns procedimentos,
entretanto, nos são comuns.
Ao entrar em contato com uma paisagem, procuramos observá-la, descrevê-la,
compará-la com aquilo que conhecemos, explicá-la. Esses procedimentos,
na escola, devem ser ampliados. É preciso ensinar os alunos a perceberem
uma paisagem não apenas por meio daquilo que nela podemos enxergar, mas
também através dos sons, das cores, dos cheiros que nela percebemos.
Principalmente, devemos ensinar os alunos a olhar a paisagem buscando além
daquilo que nos é mais imediato, observá-la de maneira intencional,
procurando explicá-la. O estudo do meio tem sido uma maneira didática
prazerosa de aprender sobre a paisagem.
Nem sempre as explicações que construímos dão conta da totalidade da
paisagem. Nem sempre temos a intenção de abarcar essa totalidade. Às
vezes, nos interessam apenas alguns aspectos da paisagem.
Neste sentido, a produção e as representações por mapas,
maquetes e croquis ampliam as possibilidades dos alunos para refletir
sobre os objetos e os seus conteúdos nem sempre visíveis.
Por exemplo, a leitura da paisagem por meio da representação de
suas estruturas auxilia também a perceber que muitos problemas
enfrentados no bairro, na cidade, no município e em outras paisagens são
resultados de ações humanas, nem sempre tão explícitas.
O uso dos mapas também auxilia a contextualização das paisagens
em seus aspectos naturais e sociais. Por exemplo, estar ou não numa região
metropolitana, estar ou não na caatinga, estar ou não nas margens de um
rio sujeito a inundações. O uso dos mapas em estudos do meio para
leitura de paisagens é um procedimento que permite responder o porquê
das coisas e fenômenos que estão sendo lidos.
A produção de análises e correlações também auxilia a compreender a
extensão das diferentes interações entre sociedade e natureza.
Ø
Escrita e produção de mapas
As construções de novas fontes de leituras de assuntos estudados sínteses
locais de temas estudados são fundamentais como forma de documentação
dos lugares. Muitas vezes sem
nenhum registro cartográfico. A
produção de mapas e croquis pode representar a única fonte acessível
à escola, uma vez que os produtos cartográficos oficiais são caros e
mais raros. Essa produção
pode ser temática, pode partir de um assunto da turma de alunos, pode ter
tema de projetos coletivos, etc.
Uso da imagem
As imagens têm um papel importante no estudo da Geografia.
A força das imagens nos dias atuais é inquestionável.
Elas constituem material didático extremamente importante para o
professor. Vale a pena
ressaltar que, tradicionalmente, os materiais didáticos produzidos para
os livros didáticos não trazem fontes documentais reproduzidas na íntegra,
muitas vezes não atribuem autoria, nem datam as imagens. Dessa forma,
restringem o acesso dos alunos à informação. Para a Geografia, as
imagens são documentos que revelam intencionalidade de quem as produziu,
devendo ser contextualizadas e datadas.
Alguns tipos de imagens são mais usuais na sala de aula do que
outros. Vamos comentar
brevemente as potencialidades desses usos.
Ø
Programa de vídeo utilizado em conjunto com outros materiais
O vídeo entra na sala de aula dentro de um contexto didático planejado
pelo professor. Nesse sentido, ele pode ter diferentes usos.
Neste pequeno texto a seguir resumimos como o trabalho com a imagem pode
ser desenvolvido pelo professor, considerando seus objetivos de ensino.
Existem muitos exemplos de como a televisão ou o cinema podem
entrar na sala de aula como auxiliares ou detonadores de um processo de
aprendizagem.
A seguir, apresentamos dez sugestões de atividades com videoaulas
propostas pela Profa. Mônica Segreto:
1. Procure desenvolver a
oralidade, estimulando os alunos a falarem sobre o que viram no vídeo. No
caso de filmes de ficção, sugerir, por exemplo, que os alunos modifiquem
o desfecho da história, que criem outras falas para os personagens, que
relacionem a história com outras.
2. Solicite que os alunos
façam associações das questões levantadas pelo vídeo com o meio em
que vivem (o bairro, a rua, a escola, etc.).
É importante incentivar o aluno a trazer suas experiências para
dentro da escola. Ao exprimir
a emoção através das palavras, o aluno articula, organiza o pensamento.
3. Pode-se dramatizar as
cenas mais marcantes do vídeo. Estimule a expressão musical, plástica e
artística dos alunos.
4. Os vídeos podem gerar
vários tipos de textos, como poesias, narrativas, relatórios, etc. Os
textos podem ser organizados em jornais de sala de aula, etc.
5. Após assistir ao vídeo,
observando os enquadramentos da câmera, o professor pode solicitar aos
alunos para representar ou recriar os melhores momentos do vídeo.
6. Trabalhando com os sons. Chame a
atenção para a música e sons do ambiente apresentados no vídeo. Faça a experiência de abaixar o volume do áudio e peça
para os alunos recriarem ritmos que traduzam o clima do vídeo, por
exemplo passagens mais românticas, dramáticas, cômicas, suspense,
terror.
7. Simule um tribunal de
julgamento com todos os seus elementos: juiz, advogado de defesa,
promotor, escrivão, jurados. As
idéias contidas no vídeo serão atacadas e defendidas neste tribunal.
8. Pesquise você mesmo
um pouco da televisão que os seus alunos assistem.
Compare as imagens dessa televisão cotidiana com aquelas que você
escolher para entrar na sala de aula.
Discuta com outros professores este assunto e proponha atividades
conjuntas a partir das imagens.
9. Peça para os alunos
uma pesquisa sobre os comerciais que conhecem.
Discuta aspectos estéticos, de conteúdo e a natureza das escolhas
dos alunos. Peça para os
alunos criarem comerciais e discuta os objetivos de suas criações.
10. Forme equipes de
reportagens na classe para entrevistar pessoas da escola sobre algum tema
suscitado pelo vídeo. A partir das entrevistas, faça um jornal de sala
de aula que poderá ser apresentado em uma TV feita com caixa de papelão.
Ø
Fotografia: produção e leitura da imagem de uma fotografia
O trabalho com o registro fotográfico pode ser muito útil como forma de
ensinar como se produz leituras através do olhar.
Isto é fundamental para a Geografia, pois a representação geográfica,
seja pelos mapas, fotos, vídeos, sempre coloca em jogo o autor e as técnicas.
Por esta razão a sala de aula de Geografia pode
conter uma farta cobertura de exemplos de tipos de documentos
fotográficos, sejam eles as imagens de diferentes épocas, as fotografias
produzidas pelos próprios alunos, as imagens de satélite, as fotografias
aéreas, as imagens dos livros didáticos e paradidáticos, etc.
O professor pode explorar esse material de várias formas, dentre
elas:
ü
Solicitando trabalho de interpretação de imagens, com perguntas.
ü
Solicitando comentário oral ou em texto sobre as imagens.
ü
Sugerindo complementação com pesquisa individual ou coletiva em
outras fontes imagéticas sobre um mesmo tema, tais como nos jornais,
revistas, enciclopédias, arquivos municipais, etc. Nos jornais, é muito
interessante comparar como diferentes fotógrafos e editores de jornais
tratam o mesmo assunto através de imagens diferentes. Provocar nos alunos
a sua percepção e discutir as possíveis intencionalidades das imagens
produzidas na mídia.
ü Procurando compará-las com outras fontes complementares de imagem,
ou transformando em outras linguagens (por exemplo transformando uma
imagem fotográfica em outra imagem sob forma de desenho, uma tabela em gráfico,
comparando diferentes imagens de lugares). Atualmente, já é possível
também analisar páginas da Web na Internet. Ler as notícias pelo veículo
da imagem. O que elas procuram nos contar? Como
podemos lê-las?
“Cada
indivíduo cria sua própria imagem, mas parece existir uma coincidência
fundamental entre os membros de um mesmo grupo. Existem imagens públicas,
representações mentais comuns em grande parte dos habitantes de um
mesmo lugar... Existe uma interação de uma realidade física única,
uma cultura comum e uma natureza fisiológica.” (Lynch, 1980).
Seguindo
as idéias de Lynch, podemos dizer que o trabalho com a percepção da
imagem pelos alunos pode ajudar em sua competência leitora do mundo,
mostrando a eles que as imagens que lemos são recortes da visão e da
intenção de quem as produziu. Elas registram o tempo e o olhar de seus
autores. Além disso, elas
também se configuram como uso da técnica, pois os instrumentos (máquinas
fotográficas, câmeras de vídeo, televisão e computadores) são seus
intermediários.
NOTAS:
1
Professora do Departamento de Geografia – FFLCH-USP, assessora da
SEF/MEC no Programa Parâmetros em Ação.
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