PGM
4 - A
IMAGEM NAS PAREDES DA ESCOLA
Arte e Livros
na educação escolar
Eva Furnari*
Leitura de texto e leitura de imagem
Costumamos usar a palavra
leitura significando leitura de texto. Uma leitura que requer decifrar
signos, letras, sinais convencionados, que nos remetem ao universo da
linguagem oral. Ler um texto é ler o registro de nossa comunicação
verbal, no qual as palavras contam os significados.
Essa é uma maneira
de ler o mundo. Uma maneira importante, que traz informação,
troca, que alarga horizontes e permite a constante ampliação
dos níveis de conciência humana.
Podemos, também,
usar a palavra leitura em um sentido menos comum, significando leitura
visual. Essa é uma outra maneira de ler o mundo, não
decifrando letras, mas decifrando imagens.
Imagens que preenchem nossos
olhos do momento em que acordamos até a hora de dormir. São
paisagens da cidade, do campo, das ruas, das casas, por dentro, por fora,
dos outdoors, dos livros, revistas, TVs. Paisagens cheias de objetos
e sujeitos.
Com o olhar, a gente pode,
por exemplo, ler um objeto que esteja na paisagem, digamos, um carro.
Ao vê-lo, sabemos se é antigo, moderno, esporte ou clássico,
se nos agrada ou não e assim por diante.
A gente também pode
ler e decifrar um sujeito passando na rua. Digamos que, só de olhar,
a gente vê se é jovem, velho, pobre, rico e pode até
perceber seu estado de humor; deprimido, emburrado, bem disposto, de bem
com a vida. Lemos sujeitos o dia todo, a todo momento. Quem é que,
ao se relacionar com uma pessoa, não envia e recebe mensagens para
serem entendidas pelos olhos? São caras e bocas sem legenda, que
vão fazendo pedidos, convites, dando comandos, fazendo intimações
e outras coisas assim. Isso é ler imagem. Essa leitura visual do
mundo nos é tão íntima e familiar, que muitas vezes
não nos damos conta do quanto ela é presente em nossa vida.
Captamos uma quantidade
enorme de informações por essa via, muito maior do que costumamos
supor. É todo um sistema de comunicação que se processa
pela imagem, e que é, em parte, inconsciente e, é interessante
notar que, mesmo sendo inconsciente, somos capazes de usá-lo com
perícia.
É como se houvesse
uma leitura silenciosa, às vezes vaga, outras vezes precisa, feita
não por nosso lado racional, mas por nossas sensações
e emoções. Parece algo natural, espontâneo, universal,
independente da cultura e da linguagem verbal de cada povo.
Vale observar que, mesmo
ocorrendo com baixos níveis de consciência, essa relação
visual com o mundo é extremamente atuante e determinante nas nossas
escolhas, em nossas relações, em estados de felicidade ou
de tristeza estética, enfim, em muitos aspectos da nossa vida.
O espaço interno da escola
Tanto a leitura visual
do sujeito e do objeto, quanto a leitura da paisagem, também são
extremamente presentes em nosso cotidiano. É uma presença
forte, que interfere e atua através de informações,
significados, conteúdos simbólicos, que educam ou deseducam,
agridem ou acolhem.
É comum que tenhamos
sensações e impressões nos lugares onde estamos.
Chamamos aqui de paisagem a qualquer entorno; tanto ambientes internos,
quanto externos. Quantas vezes, por exemplo, nos sentimos confortáveis
num lugar bem arranjado com plantas, bem iluminado, agradável.
Ou também, numa cidade grande, quantas vezes amortecemos o olhar
e nos insensibilizamos, focalizando apenas o que interessa, na intenção
de proteger a alma da feiura da paisagem.
O entorno parece penetrar
em nossos corações e nos contaminar, interferindo até
em nossos ânimos, otimistas ou pessimistas, dando sensações
leves ou pesadas, aconchegantes ou frias, caóticas ou ordenadas,
feias ou belas.
Alguém já
disse que os olhos são a janela da alma. E através de uma
janela, tanto se olha de dentro para fora, quanto de fora para dentro.
O tom do ambiente chega em nosso inconsciente, levando todo tipo de informação
e de sensação, levando um alimento, que pode ser bom ou
ruim.
Essa questão, tão
importante para nossa qualidade de vida, muitas vezes nos passa despercebida,
mas merece, sem dúvida nenhuma, toda nossa atenção.
Se estamos em nossa casa,
temos, em geral, a liberdade de interferir no lugar conforme nos aprouver.
Porém, quando se trata de um espaço coletivo, como no caso
da escola, da empresa, da cidade, a sua apropriação implica
questões mais complexas, que requerem conhecimentos e cuidados
especiais.
O ambiente interno da escola
- com suas salas, corredores, pátios, paredes - é um espaço
essencialmente coletivo e sua peculiaridade é que pode ser usado
como recurso educacional. Sendo que a vocação da escola
é educar, parece óbvio que seu espaço e suas paredes
também sirvam de "lição", mas nem sempre é
o que ocorre, nem sempre o óbvio é tão evidente.
É comum que as escolas ainda tenham uma idéia antiga, uma
crença que até passa despercebida, que se educa somente
com lousa, com livros, aulas e palavras.
Observamos, também,
que há uma outra crença permeando essa questão: o
hábito de achar que o indivíduo pouco pode fazer quando
se trata de espaços coletivos. Esses espaços, com frequência,
parecem ser terra de ninguém, parecem ser resultado de um amontoado
de ações independentes entre si, formando um todo confuso,
desprovido de cuidados estéticos e de informações
visuais de qualidade. Inúmeras vezes, não há sequer
a preocupação e o cuidado com a manutenção
física desses locais, fato que dá uma sensação
deseducadora de abandono e depressão.
É evidente que essa
é toda uma problemática complexa; faltam recursos nas escolas
públicas. É necessário, porém, que se perceba
que muitas vezes o cuidar não está somente nos recursos
materiais, mas também nas atitudes e que, nesse caso, o desafio
é ainda maior. A proposição de usar as paredes da
escola com intuitos educativos requer, sim, dedicação, planejamento,
conciliação de interesses, vontade e disposição.
E, sem dúvida nenhuma, o conhecimento e a consciência do
potencial desse trabalho para aqueles que estão de fato preocupados
em educar é que vai dar a energia e o entusiasmo para realizá-lo.
Podemos dizer que já
existe, hoje, uma atuação importante e consistente da educação
no sentido de ampliar os espaços de aprendizado. Não temos
aqui a pretensão de estar colocando um novo conceito educacional.
Nossa intenção
é a de colaborar com conscientização desses caminhos
tão novos que os educadores vêm percorrendo, diante da importância
crescente da imagem no mundo todo.
E, por sua vocação,
cabe à escola a responsabilidade, de certa maneira nova em nosso
país, pela difícil tarefa da educação do
olhar.
A Educação do Olhar
Sem dúvida alguma,
um dos lugares privilegiados para a educação do olhar é
a escola.
E o que vem a ser exatamente
a educação do olhar?
Essa pergunta pode ter
muitas respostas, entre elas, uma bastante simples; basta oferecer aos
olhos qualidade estética, arte. Muita, em quantidade e variedade.
Isso será processado
numa alquimia interior e veremos que, depois, a alma da criança
e do jovem, que foi assim alimentada, passará a buscar, automaticamente,
a qualidade estética como alimento necessário.
Porém, não
podemos nos iludir com soluções simplistas, achando que
prover uma criança de arte seja tão fácil e óbvio.
Pode parecer simples, à primeira vista, para o artista, que já
convive com essa dimensão estética do olhar. Mas não
é tão simples para o professor, que muitas vezes não
tem em seu cotidiano essa preocupação ou não teve
a oportunidade de ter essa dimensão estética na sua própria
formação.
É provável,
também, que o professor esteja distanciado disso. Pendurar a reprodução
de uma obra de arte e ocupar os murais com coisas belas, novas e ricas
para os olhos, pode parecer supérfluo quando ele está envolvido
com questões urgentes; problemas de disciplina, falta de recursos,
dificuldades educacionais e até políticas internas da escola.
Situações e problemas concretos, que o senso comum manda
eternamente priorizar.
Se formos observar essa
realidade de outro ponto de vista, veremos, porém, que o feitiço
pode virar contra o feiticeiro, isto, é, a escola pode mergulhar
nos aspectos práticos de seu ofício, de tal forma que perde
de vista o olhar profundo e enriquecedor da natureza humana, oferecido
pela reflexão interiorizada e incomum da arte.
Por que Arte na escola?
A arte é a linguagem
que possibilita a expressão e a produção de saberes
de uma comunidade.
Pela arte, pela pintura,
fotografia, música, teatro, cinema, o homem se reconhece como em
um espelho, vê sua própria cultura por diferentes prismas,
investiga para além da ciência e do pensar meramente lógico,
mergulha em aspectos éticos, mitológicos, mágicos,
religiosos e busca compreender os sentidos do seu próprio viver.
A arte é, para um
indivíduo, a possibilidade de expressão, de elaboração
de conteúdos inconscientes e até de integração
para alguns excluídos e marginalizados. Em nosso cruel contexto
social, crianças e jovens abandonados, que nunca receberam um olhar
atento para si mesmos, podem ter por sua produção artística
(um grafite que é admirado, uma poesia que é lida) o reconhecimento
de seu valor, o validamento de sua própria dignidade, portanto,
o fazer da arte é também uma possibilidade de cura.
É sabido que jovens
delinqüentes, com talento para a liderança, quando são
chamados a participar em um contexto comunitário e são reconhecidos
por sua criatividade, passam a contribuir com o seu lado melhor, e muitos
deles se regeneram e se integram de maneira comovente.
As manifestações
culturais e a arte têm uma importância cada vez maior na sociedade
de hoje, tornando-se via possível para transformar a violência
da exclusão em integração comunitária.
A escola como lugar de Ética e Estética
A consciência e o
reconhecimento do valor do ensino de arte na escola é de fundamental
importância. A amplitude desse ensinamento tem alcance tanto no
sentido do desenvolvimento individual quanto no sentido social.
O uso das paredes da escola,
seja para mostrar arte produzida por alunos ou reproduções
de obras de outros artistas, vai para além da sala de aula, pois
é uma interessante oportunidade para o exercício da cidadania.
A ocupação
do espaço escolar é uma experiência do indívíduo
perante o coletivo e pode ser determinante de futuras atitudes diante
de estruturas maiores como a cidade, o país, o planeta. Os futuros
cidadãos podem ter aí, nesse espaço organizado, a
prática da consciência de direitos e deveres, o hábito
de se apropriar da paisagem, o cultivo de modificar e cuidar do espaço
de convivência de maneira democrática, a compreensão
que o bem coletivo reverte para o bem do próprio indivíduo.
Ao educador é que
cabe coordenar o uso desse espaço com certa competência,
considerando questões de organização e de estética
tais como equilíbrio, harmonia, cor. Uma ocupação
criativa, não poluída, com reproduções de
obras de arte, com desenhos de alunos organizados de maneira a saber como
valorizá-los, com cartazes e avisos que contenham a reflexão
da linguagem e da comunicação.
Para que tal trabalho tenha
bons frutos, e não fique no mero decorativo e na cópia mecânica
sem conteúdo, é necessário capacitar e instrumentalizar
aqueles professores que não se sentem capazes de realizá-lo.
O ensino de arte é um ensino que requer especialização,
conhecimento de técnicas específicas e estratégias
de desbloqueio da criatividade do aluno.
Cabe, porém, não
só ao professor de arte, mas ao educador de uma maneira geral,
cuidar não só das palavras, mas também das imagens
e paisagens que se oferecem ao olhar da criança, a janela de sua
alma.
O livro infantil também é
espaço para conviver com a Arte
O professor que tem a preocupação
da educação do olhar tem um parceiro generoso: o livro infantil.
O livro infantil tornou-se,
nas últimas décadas, um dos espaços mais importantes
e constantes que a criança tem para conviver com o universo da
arte. Não que museus, esculturas em praça pública
e livros de arte não sejam uma fonte importante, mas o fato é
que, em nosso país, não temos o hábito e a tradição
de frequentá-los, e mais, nossas atribulações do
dia-a-dia não nos permitem a calma necessária para sua contemplação.
Nos livros infantis, a
arte vem de maneira natural pela ilustração, pelo projeto
gráfico, vem contando suas histórias; é a linguagem
visual fluindo com a linguagem verbal. São imagens que trazem consigo
maneiras próprias de olhar o mundo. Uma maneira distinta do olhar
e da intenção puramente mercadológica de um sistema
econômico dominante.
As ilustrações,
quando são de qualidade, têm, potencialmente, a possibilidade
de fazer frente ao massacre da indústria de consumo, que invade
nossas vidas por todos os lados, com padrões pobres, vazios, camisas
de força impostas aos nossos olhos. Os personagens da mídia,
da propaganda e dos desenhos animados, em sua maior parte feitos com meras
intenções comerciais, invadem tudo, das mochilas aos desenhos
dos alunos.
Imagens estereotipadas
da TV, da internet, de outdoors pela cidade, das embalagens de produtos
consumidos, que vêm servindo de modelo para as crianças,
podem ter nos livros infantis um contraponto saudável.
O termo estereotipia,
segundo a definição do dicionário quer dizer padrão
formado de idéias preconcebidas e alimentado por uma falta real
de conhecimento, falsa generalização, falta de originalidade,
lugar comum. E isso, imagino que seja o que um bom educador quer evitar
para seu aluno.
O sentido da verdadeira
arte é justamente caminhar escapando da estereotipia que invade
nossos olhos.
O livro infantil, não
só com suas imagens, mas também com suas histórias,
contém freqüentemente o olhar genuíno sobre nós
mesmos, que busca a reflexão criativa fora dos padrões alienantes
que nos cercam. A tradição das histórias no percurso
do homem é, em essência, transmitir sabedoria e não
apenas informação e diversão, como pode se supor
à primeira vista.
A literatura para crianças
vem se tornando, cada vez mais, um espaço interessante e saboroso,
apreciado inclusive por adultos. Histórias realistas ou simbólicas,
que aparentemente falam de um mundo imaginário, na verdade, falam,
de um jeito bem-humorado e poético, de questões, conflitos,
problemas para os quais todos nós buscamos solução.
Sair do cotidiano, aproximar-se
da arte e de suas reflexões incomuns, fora de um sistema consumista
aprisionador, nos leva a pensar em nossa própria condição
humana em seus aspectos físicos, psíquicos, anímicos
e espirituais.
Acredito que a iniciativa
de buscar soluções para melhorar a qualidade de vida, apropriar-se
de nossos espaços, ao invés de apenas esperar passivamente
que as iniciativas governamentais resolvam a totalidade de nossos problemas,
é sinal de amadurecimento. É um sinal saudável de
superação de um sentimento social de orfandade.
NOTAS:
* Escritora e ilustradora
de livros para crianças e jovens.

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