Debates:
Complexidade e seus reflexos na educação
Ubiratan
D’Ambrosio*
Estamos
vivendo um momento de contestação e de renovação do conhecimento, que
se originou no Renascimento, resultado de insuficiências e fragilidades
da sociedade moderna, em especial no que se refere à ciência.
O progresso, baseado no conhecimento científico, sobre o qual se fundou a
civilização moderna, prometeu relações éticas entre todos os seres
humanos.
As promessas não foram cumpridas!
Estaremos vivendo um novo renascimento? Talvez. Mas o fato incontestável
é que se está buscando a superação do paradigma da ciência moderna. Várias
denominações destacam focos distintos para essa superação: novos
paradigmas, era da consciência, transdisciplinaridade, nova era, holismo,
complexidade.
O paradigma da ciência moderna estabelece um determinismo na
explicação da realidade, que se expressa mediante uma relação de causa
® efeito e estabelece critérios
de verdade, como promessa de um pretendido conhecimento final.
O novo pensar reconhece a insuficiência do conhecimento e os
desacertos do comportamento e procura entender a indissolubilidade do
quaterno COSMOS, NATUREZA, INDIVÍDUO, O OUTRO, e das intermediações
criadas pelo homem.
Insuficiência do conhecimento
O paradigma da ciência moderna repousa em três pilares:
1. o determinismo newtoniano, que
procura leis universais, estabelecendo uma relação de causa e
efeito;
2. a lógica clássica, cujo
fundamento deriva do princípio do terceiro excluído, o TERTIUM NON
DATUR, e que permite estabelecer critérios para afirmar é OU não é,
sim OU não, verdadeiro OU falso;
3. os sistemas formais, fechados em
seu universo, que dão validade a proposições sobre objetos desse
universo.
Uma resposta à insuficiência do conhecimento pode ser sintetizada em três
grandes avanços em direção ao novo pensamento.
O primeiro avanço foi a introdução da mecânica quântica, por Max
Planck, em 1900, que diz que um estado físico requer, para a sua descrição,
variáveis selecionadas a partir de uma variedade de observações possíveis.
A relação entre instinto e consciência foi repensada e, também em
1900, surge A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud. Ambas
propostas sugerem percepções de diferentes níveis de realidade e uma
nova visão do universo material e do universo psíquico.
O segundo avanço se refere à lógica clássica. O matemático holandês
Luitzen Brouwer publicou importante trabalho em 1905, no qual contesta a
total subordinação do pensamento lógico ao princípio do terceiro excluído,
dizendo que ele não corresponde à nossa intuição. Há sistemas que
necessitam uma lógica mais geral, poderíamos dizer mais flexível, nos
seus critérios de decisão. A proposta de Brouwer ficou conhecida como
intuicionismo.
O terceiro avanço, com importantes implicações filosóficas, foi dado
em 1935 pelo matemático Kurt Gödel. Estudando sistemas formais da aritmética,
Gödel enunciou um teorema que não pode ser demonstrado no próprio
sistema. Isto é, esses sistemas só podem ser estudados num contexto mais
amplo, com considerações fora do sistema. Conseqüentemente, é necessário
considerar sistemas abertos de conhecimento.
Desacertos do comportamento
O comportamento humano revela um inaceitável índice de arrogância,
prepotência, fanatismo, ganância, inveja, presunção e tantas outras
manifestações de desacerto.
O ser humano tem se perguntado:
QUEM É?
e se vê como o favorito de algum deus
O QUE É?
e se vê como um sistema complexo de músculos,
ossos, nervos e humores
COMO É?
e se explica
como uma anatomia com vontade
QUANTO É?
e se acredita sem limitações à sua vontade e ambição.
mas
evita perguntar por que é?
É
necessário reconhecer o valor intrínseco do indivíduo:
VALE PORQUE É, NÃO PELA MANEIRA COMO É
e a essencialidade do outro, para que o indivíduo possa ser.
Para se encaminhar uma nova proposta de conhecimento e de comportamento,
devemos fazer uma reflexão sobre a relação meios-fim. E uma discussão
sobre educação tampouco pode escapar dessa relação, que se traduz em
afirmações sobre a importância da educação. São valores associados
à ação educativa. Espera-se o efeito da ação educativa no
comportamento dos indivíduos. E a estratégia da ação educativa, que é
o currículo, tem, portanto, como finalidade, o comportamento dos indivíduos
que passam pelo processo. Como o currículo é baseado em conhecimento, em
saberes e fazeres, somos levados a uma questão maior: como se relacionam
conhecimento e comportamento?
Sempre ficamos chocados quando vemos uma pessoa com um bom nível de
conhecimento comportando-se de maneira criticável, algumas vezes até
abominável. Porque o conhecimento não influi no seu comportamento?
Paradoxalmente, o conhecimento é muitas vezes utilizado para um
comportamento ainda mais criticável.
Quando pensamos no comportamento social, no qual o consumismo irresponsável,
a ganância desmedida e a corrupção são comuns nas classes média e
alta, perguntamos: por que indivíduos que tiveram educação esmerada e
adquiriram um bom nível de conhecimento não são capazes de ter um
comportamento adequado? Para abordar essas questões devemos entender a
natureza humana e o conhecimento humano.
Ao longo da sua curta história, o ser humano tem avançado muito no
conhecimento a respeito de si mesmo. Mas a grande angústia existencial,
que resulta de não se encontrar uma resposta satisfatória à questão
maior “por que sou?”, dá origem a contradições na qualidade de ser
humano.
As distorções na maneira como o homem tem se acreditado o induziram a
atitudes de poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância,
indiferença. O combate a esses antivalores deve ser o objetivo maior dos
sistemas educacionais.
Para entender o fenômeno vida devemos reconhecer a essencialidade dos três
componentes absolutamente interdependentes, o indivíduo, o outro e o
ambiente, habitat natural das espécies vivas. Os três fatos,
conjugados e indissolúveis, constituem o fenômeno vida. Vida é uma tríade
representada pelo triângulo:
[Subentende-se
indivíduo e outro como sendo da mesma espécie e ambiente como a
totalidade planetária e cósmica.]
A complexidade da vida está sintetizada nesse triângulo, que chamo triângulo
da vida. Os três fatos – o INDIVÍDUO, o OUTRO e o AMBIENTE – são
mutuamente essenciais, e a vida se realiza somente na sua conjugação.
NENHUM DOS TRÊS PODE EXISTIR SEM OS DEMAIS, e as relações entre esses
fatos são reguladas por mecanismos fisiológicos e ecológicos.
Em todas as espécies, o indivíduo se sujeita, na busca de sobrevivência,
a comportamentos vitais básicos [meios], associados a um tipo de
conhecimento que resulta da memória individual [experiências anteriores]
e coletiva [genética]. Os acertos e equívocos nos comportamentos vitais,
obviamente associados a essa forma de conhecimento, são o que se denomina
INSTINTO.
Exemplo de comportamentos dessa natureza são:
¨ reconhecer
o outro,
¨ aprender,
¨ ser
ensinado,
¨ adaptar-se
¨ e
cruzar
cujos
objetivos [fins] são SOBREVIVER e dar CONTINUIDADE À ESPÉCIE.
Uma
questão maior, ainda não respondida, é “QUAIS AS FORÇAS QUE LEVAM OS
SERES VIVOS A ESSES COMPORTAMENTOS VITAIS?”.
O homem, como todo organismo vivo, é complexo na sua definição e no seu
funcionamento, e está sujeito aos mesmos comportamentos vitais básicos
de todo ser vivo. Busca sobrevivência.
Mas, diferentemente dos demais seres vivos e mesmo das espécies mais próximas,
busca algo além da sobrevivência. Algumas vezes até rejeita sua
sobrevivência.
Onde se situa a diferença entre a espécie humana e as demais espécies?
A diferença essencial está na criação de MEDIADORES para a resolução
do triângulo da vida: INSTRUMENTOS e TECNOLOGIA entre o indivíduo e o
seu ambiente, COMUNICAÇÃO e EMOÇÕES entre o indivíduo e o outro e a
sociedade como um todo; e TRABALHO e PRODUÇÃO entre o indivíduo e a
sociedade e o seu ambiente. Os acertos e equívocos na produção dessas
intermediações resultam do encontro do COMPORTAMENTO e do CONHECIMENTO,
que é o que se denomina CONSCIÊNCIA.
Esses mediadores permitem ao homem transcender o momento da sobrevivência,
buscando, no passado, explicações para o presente, e se preparar,
prover, para o futuro. O presente se torna o encontro de passado e futuro,
e a característica mais importante da espécie humana se torna
transcender o presente.
O comportamento humano resulta de duas grandes pulsões:
1. a sobrevivência, do indivíduo
e da espécie que, como em toda espécie viva, se situa na dimensão do
momento;
2. a transcendência do
momento que, diferentemente das demais espécies, se situa numa outra
dimensão, levando o homem a indagar “por quê?”,”como?”,”onde?”,”quando?”.
Sobrevivência e transcendência guardam uma relação simbiótica e
distinguem o ser humano das demais espécies. Essa simbiose é a consciência.
Na resposta à pulsão de sobrevivência, o homem define suas relações
com a natureza e com o outro e desenvolve as intermediações já
mencionadas acima. Na resposta à pulsão de transcendência, incursiona
no passado e no futuro, desenvolvendo mitos e artes, religiões e ciências.
O conhecimento de cada indivíduo resulta das informações percebidas da
realidade, o que inclui fatos e memórias, de seu processamento e de ações
que obedecem a estratégias definidas pela sua vontade.
No encontro com o outro, que também está em busca de sobrevivência e de
transcendência, desenvolve-se a COMUNICAÇÃO. O indivíduo e o outro,
mesmo próximos, percebem a realidade de modo diferente, processam essa
informação diferentemente e, portanto, definem estratégias diferentes
de ação. Indivíduo e outro têm conhecimentos e comportamentos
distintos. Através da comunicação é possível compartilhar
conhecimentos e compatibilizar comportamentos.
O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos quando
subordinados a parâmetros, que se denominam valores e que
determinam os acertos e equívocos na produção e utilização das
intermediações criadas pelo homem para sua sobrevivência e transcendência.
Valores, assim conceituados, relacionam os meios com os fins. Os fins
constituem as grandes utopias de indivíduos e de sociedades, dos sistemas
de explicações e dos mitos, da cultura. Os meios dependem dos
instrumentos materiais e intelectuais de que dispomos, também dependentes
da cultura. Assim, os valores são manifestações culturais.
Uma excursão pela história revela que novos meios de sobrevivência e de
transcendência fazem com que valores mudem. Mas alguns valores
permanecem:
¨ solidariedade
com o outro,
¨
cooperação com o outro.
Esses
valores constituem uma ética maior, sem a qual a qualidade de ser humano
se dilui.
Mas por que a humanidade caminha em direção contrária a essa ética,
sem a qual a espécie humana não pode sobreviver?
Essa questão maior tem sido a motivação dos grandes modelos filosóficos,
religiosos e científicos.
Os modelos filosóficos, religiosos, científicos propõem “verdades”
que têm sido aceitas como absolutas e que constituem sistemas de valores
que guiam o comportamento humano.
A prioridade passa então a ser a defesa do sistema de valores. A questão
fundamental, que é a busca de sobrevivência associada à transcendência,
passa a ser subordinada à defesa do sistema de valores
[fundamentalismos].
Os sistemas de valores, da mesma maneira que as ciências e as religiões,
são vistos na cultura ocidental como saberes concluídos.
O conhecimento disciplinar, e conseqüentemente a educação, têm
priorizado a defesa de saberes concluídos, inibindo a criação de novos
saberes e determinando um comportamento social a eles subordinado.
O conhecimento disciplinar evoluiu para a multidisciplinaridade, praticada
nas escolas tradicionais, e para a interdisciplinaridade, ainda difícil
de ser conseguida. O avanço efetivo, abrindo novas possibilidades para o
conhecimento e para o entendimento humano, é a transdisciplinaridade.
Exemplos de saber concluído são as ciências como apresentadas nas
escolas. Há poucas oportunidades de explorar o novo. Trata-se
prioritariamente de aprender o que é ensinado pelo professor.
Da mesma maneira que os sistemas de valores e as religiões, o ensino das
ciências desencoraja novos enfoques. A transdisciplinaridade, assumindo a
inconclusão do conhecimento e do próprio ser humano, rejeita o saber
concluído e as certezas convencionadas e propõe uma busca permanente.
O comportamento humano responde às pulsões de sobrevivência e de
transcendência, que estão intimamente ligados. Vai além de
comportamento orientado pelo cérebro. Existe algo mais: a mente, que tem
intrigado os filósofos desde a Antigüidade, e a consciência, igualmente
intrigante. Onde se situam mente e consciência? No cérebro, que vem
sendo tão bem estudado pelos neurologistas? Ou no que se costuma chamar
inteligência, hoje bem estudada no âmbito de uma disciplina que se
denomina inteligência artificial? E o que é inteligência?
As teorias vão surgindo, vão sendo aceitas ou recusadas, algumas
marginalizadas e outras refutadas. Algumas idéias, que são aceitas por
se desviarem pouco das anteriores, se tornam as novas explicações e
encontram seu espaço nas universidades. Outras idéias se desviam dos
chamados paradigmas e criam novos paradigmas.
Os paradigmas newtonianos e os chamados novos paradigmas
No século XVII, Galileo Galilei (1564-1642), Francis Bacon
(1561-1626) e René Descartes (1596-1650) criaram as bases conceituais
sobre as quais Isaac Newton (1642-1726) produziu seu trabalho monumental,
que explica certos fenômenos naturais, e que foi rapidamente ampliado
para explicar o comportamento humano. Esse sistema de explicações
repousa sobre uma Matemática muito elaborada, principalmente o Cálculo
Diferencial, que se estabeleceu como a linguagem por excelência do
paradigma científico proposto por Newton.
A Matemática se tornou o protótipo das chamadas ciências exatas, deu
origem a valores que são considerados importantes no pensamento moderno,
como precisão, rigor, certeza, verdade. Mas na busca de um conhecimento
mais amplo não será possível rejeitar outros modos de pensar e outras
visões da natureza do mundo mental, físico e social que são parte de
“outras” maneiras de formular e organizar conhecimento. Refiro-me
especificamente a culturas que foram excluídas, subordinadas e
marginalizadas no processo de dominação colonial. Valores mudam,
subordinados ao que prevalece nos sistemas sociais e econômicos.
O maior equívoco da filosofia ocidental tem sido considerar o homem como
um corpo MAIS uma mente, e separar o que sentimos do que somos. O
conhecimento tem focalizado CORPO e MENTE, muitas vezes privilegiando um
sobre o outro.
¨ PENSO,
LOGO EXISTO?
¨ NÃO!
EXISTO PORQUE RESPIRO, BEBO, COMO, EXCRETO,
INTUO, CHORO E RIO, e PENSO.
Fazemos
tudo isso diferentemente das demais espécies vivas, porque subordinamos
essas ações a sistemas de valores.
Somos ao mesmo tempo um ser SENSORIAL, INTUITIVO, EMOCIONAL e RACIONAL.
Mas o sistema de valores que prevalece é focalizado no intelectual,
identificado com o “penso”. Possivelmente aí encontraremos a razão
da valorização desmesurada do trabalho intelectual sobre o manual e a
busca de satisfação das necessidades materiais como uma mera questão de
sobrevivência. O valor solidariedade fica, assim, totalmente deturpado
como mera satisfação de necessidades materiais. Esse valor, na forma de
caridade, era freqüente nas sociedades escravocratas. O escravo devia ser
bem alimentado para produzir. Mas era privado de liberdade nesse sistema
de valores. Muitas das propostas sociais e econômicas ainda carregam esse
tom de paternalismo que, em última instância, poderá degenerar em
confronto e violência.
A proposta da complexidade ou da transdisciplinaridade procura responder o
“como?” e o “por quê?” dessas diferenças. Outras maneiras de
expressar essa mesma mudança de paradigma vêm surgindo de muitas áreas
do conhecimento. A visão holística, o pensamento complexo, as teorias da
consciência, as ciências da mente, a inteligência artificial, e inúmeras
outras propostas transdisciplinares vêm sendo elaboradas e vão se
tornando conhecidas.
Essa proposta equivale a um sistema de valores e constitui a essência de
uma outra maneira de estar no mundo.
Vivenciar na escola sistemas de valores e acompanhar a sua transformação
é o desafio do educador. Propor e defender um sistema de valores
subordinado à ética maior de respeito, solidariedade e cooperação é a
missão do educador.
Nesta série de programas, vamos examinar como isso tudo se manifesta nas
relações humanas, em algumas situações específicas:
ü
na busca de paz,
ü
no cotidiano escolar,
ü
nas relações humanas,
ü
na busca de novo conhecimento,
ü
nas relações ambientais.
Estes são os temas da série Debates: Complexidade e seus reflexos na
educação
PGM 1 - Na busca da paz
A paz é o resultado de um comportamento de respeito, solidariedade
e cooperação. O comportamento humano resulta da busca de cada ser humano
pela satisfação de suas necessidades materiais e espirituais. O
comportamento é muitas vezes justificado por mitos e crenças que se
fundamentam em fatos passados. A superação desses mitos e crenças é o
passo essencial para se atingir a paz total.
PGM 2 - No cotidiano escolar
A escola é o espaço onde, em crescente intensidade, assistimos à
eclosão de comportamento violento. A violência não se dá somente no
comportamento das crianças e dos jovens. É muitas vezes provocada pelas
pressões do ambiente escolar e das relações entre colegas e entre
professores e alunos. Respeito, solidariedade e cooperação são os
ingredientes para uma relação de paz entre todos os envolvidos.
PGM
3 - Nas relações humanas
A motivação da atividade empresarial pode ser centrada no acúmulo,
no seu sentido mais amplo, criando tensões que podem resultar em violência
e agressividade. O comportamento ancorado em respeito, solidariedade e
cooperação é o caminho para se chegar a um relacionamento que leva em
conta a dignidade do ser humano.
PGM 4 – Na busca de novos conhecimentos
O conhecimento tem se organizado a partir de crenças intelectuais fixas.
Essas crenças têm sido consideradas critérios de verdade e a defesa
dessas crenças, identificadas como verdades, tem sido impulsionadora do
conhecimento. A busca de novo conhecimento depende da superação da
rigidez de crenças.
PGM 5 - Nas relações ambientais
O ser humano aprendeu a se considerar o ápice das espécies vivas,
acreditando ser a sua vontade uma justificativa para exercer, sobre as
demais espécies, preponderância e domínio. Como resultado, a
desenfreada busca de satisfação de suas vontades desequilibra o que
deveria ser uma interdependência harmoniosa entre o indivíduo e a
natureza.
Bibliografia comentada:
Uma reflexão expandida dos temas discutidos neste trabalho, com mais
detalhes e ampla bibliografia, está no livro:
Ubiratan D’Ambrosio: Transdisciplinaridade, Editora Palas Athena,
São Paulo, 1997
Um livro muito interessante, apontando para os desacertos do
comportamento humano, é a curiosa estória de um gorila que aprende a se
comunicar com os homens e passa a dar aulas sobre a história da
humanidade como vista pelo gorila:
Daniel Quinn: Ismael. Um
Romance sobre a Condição Humana,
Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 199?
Uma reflexão aprofundada sobre o comportamento humano, apontando
para a necessidade de um novo pensar, está no livro de
Humberto Mariotti: As Paixões do Ego, Editora Palas Athena, São
Paulo, 2000.
Sites:
www.redepaz.org
www.girasonhos.org.br
NOTAS:
*
Professor Emérito da UNICAMP. Consultor desta série.
A
complexidade, o comum e a construção da paz
Carlos
Alberto Emediato *
Podemos
examinar a complexidade, entendida como o que foi tecido junto, o
interconectado, através de três princípios: o princípio da interdependência,
o princípio da evolução e o princípio da multidimensionalidade.
Perceber o mundo através da interdependência, evolução e
multidimensionalidade nos leva a estabelecer uma outra forma de conexão
com o todo. Reconhecemos cada indivíduo como uma manifestação original
dentro do tecido comum e constatamos nossa vinculação a um destino
compartilhado. Essa nova percepção de nós mesmos e do mundo se faz
necessária para a construção da paz nessa transição em que
nossa civilização se encontra.
Complexidade e Interdependência
O princípio da interdependência nos oferece uma imagem espacial na qual
os diversos fenômenos do mundo físico, biológico e social estão
interligados. O homem faz parte da sociedade que está contida na biosfera
e ambas se integram no mundo físico. Estas esferas interagem entre si,
afetando a composição e a dinâmica uma das outras.
Esta espacialidade interdependente nos dá uma experiência do comum.
Afetamos e somos afetados todo o tempo. Vivemos numa ambiência de relações
simultaneamente físicas, biológicas, sociais e psíquicas.
A fluição entre estas esferas depende da harmonização dos fluxos e
componentes desta espacialidade. Requer o comportamento sincronizado dos
diversos agentes, tanto das esferas naturais como daqueles resultantes da
ação humana. Esta ação demanda percepção, motivação e estratégias
adequadas ao universo dessas relações interdependentes, para propiciar
um nutrir-se e um criar sem o esgarçamento das teias de sustentação do
mundo físico e biológico e sem violentar a integridade física, psíquica
e espiritual dos seres humanos.
Complexidade e Evolução
Outro caminho para se ver a complexidade é através do princípio da
evolução. A interconexão se processa através do tempo. Formas de
organização da matéria vão se tornando mais elaboradas, destas surgem
as primeiras formas de vida, e em seguida formas mais complexas até o
surgimento do homem. Mas este não é um caminho linear, a evolução do
cosmos se dá através de sínteses progressivas. A cada nível mais
elaborado de elementos, componentes, órgãos, ações, sistemas
encontra-se um maior grau de complexidade, o que requer uma forma mais
sofisticada e poderosa de organização.
Sob o ângulo da evolução, podemos dizer que há um aprendizado
constante no mundo manifesto. Acontece um aumento de inteligência de
formas menos elaboradas para formas mais elaboradas. Isto implica mais
autonomia e mais poder. Uma ameba é constituída de mais informação
organizada do que um pedaço de metal, e menos que de um gato. Por outro
lado, o mundo mineral está presente e reelaborado no mundo biológico que
está presente e reelaborado nos seres humanos. A humanidade contém toda
a herança desse aprendizado registrado na memória do átomo, da célula,
dos instintos animais e de sua forma própria de organizar seus elementos
constitutivos ao longo da sua trajetória.
Observando a complexidade na dimensão temporal da evolução podemos
dizer que o futuro é que conterá o passado e não o passado é que contém
o futuro. Este também não é um processo linear e determinista. A partir
dos dois princípios, da
interdependência e da evolução, podemos ver que as esferas estão
contidas uma nas outras, cada uma com sua dinâmica, movimento e características
próprias.
A aprendizagem e criação constantes são
outras dimensões a serem consideradas na complexidade, no tecer
junto do cosmos, da vida, do humano.
As hipóteses da ignorância assim como da destruição precisam ser
sempre levadas em conta. Significa dizer que o que foi tecido junto pode
aumentar em conectividade e intimidade ou em separatividade e segmentação.
Complexidade e Multidimensionalidade
Um terceiro princípio para se examinar a complexidade é o princípio
da multidimensionalidade.
A humanidade, depois de bilhões
de anos de evolução, milhões de anos de vida no planeta e milhares de
anos de caminhada sobre a Terra vem deparando-se com questões
fundamentais que remetem o ser humano ao conhecimento de si mesmo, de suas
relações e de seu poder de afetar o mundo e os outros.
Vivemos nos últimos séculos diante de um grande avanço do nosso poder
sobre a natureza, sobre a vida e sobre nós mesmos, gerado pela ciência e
tecnologia. Entretanto, os dilemas colocados diante das nossas formas de
conceber o mundo, da nossa motivação para a ação, e as estratégias
que usamos para nos organizar e desenvolver têm demonstrado que a
humanidade está desafiada a promover um salto de qualidade nos seus padrões
de conhecimento, de relações e de uso de seu poder como condição para
sua própria sobrevivência. Desta vez não mais como questões regionais
ou de segmentos da população, mas como questões globais. A construção
da paz se coloca no centro destes desafios.
Bem como a paz, outras questões globais como a sustentabilidade da vida
no planeta, a satisfação
das necessidades básicas de todos, o respeito às liberdades
fundamentais, os mecanismos solidários de participação e criação
coletiva são questões comuns a cada ser humano.
A nossa comunalidade pode ser atestada pelos princípios da interdependência
e da evolução, mas nossa capacidade de elaborar mudanças civilizatórias
ou evolutivas, que o momento está a exigir, depende de um aprendizado
coletivo a respeito de nós mesmos, de como criamos nossos problemas e
quais os caminhos para cessá-los e transformar as condições que os
propiciam.
A educação e os mecanismos de transformação da cultura são
ferramentas fundamentais nesse processo. Entretanto, o conhecimento que
pode dirigir esta transformação requer reconceber o próprio homem e
entender como criamos os mecanismos de destruição ou desenvolvemos
cooperação, respeito e reverência pela vida.
O homem moderno foi se tornando um homem unidimensional, especializado,
identificado com pensamentos, com cargos e posições fixas. A própria
dinâmica acelerada de mudança que estamos experimentando está fazendo
estas referências se desmontarem exigindo
uma visão mais ampla e multifacetada de nós mesmos. Muitos
ficaram sem pontos de apoio, outros tantos, valendo-se da capacidade
constante de aprender e mudar começaram a (re)descobrir dimensões
perdidas ou não exploradas da nossa experiência.
O afeto, as sensações, a intuição e uma nova percepção da
corporalidade conectada à terra e ao universo foram se tornando mundos a
serem desvelados e integrados.
A ótica da complexidade nos ajuda a reconhecer que as diversas dimensões:
do corpo, do sentimento, do pensamento e do espírito estão presentes
todo o tempo e atuam juntas mesmo que não estejamos conscientes delas.
(Re) conhecer estas dimensões e como suas dinâmicas interagem, nos
possibilita sair do coexistente para o integrado.
Os princípios da interdependência, evolução e multidimensionalidade
apresentam correspondência com valores que dizem respeito a reconhecermos
que afetamos e somos afetados
por tudo, e nos coloca diante de decisões quanto à direção que
queremos empreender ao nosso movimento pessoal no mundo.
Valores Universais e Motivação
Sob a ótica da construção da paz, devemos examinar quais os valores que
realmente incorporamos na nossa ação. O que nos motiva, como
arregimentamos e organizamos nossos recursos originários das diversas
dimensões nas quais transitamos.
A questão dos valores e da motivação não pode ser tratada simplesmente
como preferências ideológicas ou sentimentos experienciados. Valores
como a compaixão, a alegria, a justiça
são qualidades que atuam no mundo, são fluxos motores de energia,
manifestações do núcleo do ser. O exercício destas qualidades demanda
não somente o exame contínuo e cuidadoso de como nos conhecemos e nos
posicionamos no mundo como, também, requer a aprendizagem de práticas
capazes de incorporarem essas forças motrizes na nossa manifestação no
mundo.
O exame dos valores e da motivação do que fazemos e do que faz a
sociedade, do local ao planetário, nos coloca diante do núcleo ético e
material das questões que vivemos enquanto indivíduos e enquanto
humanidade. Já foi dito que a origem das guerras está na mente e nos
corações dos homens e é lá que ela precisa cessar. É lá, também,
onde encontramos a fonte do fluir da paz e da felicidade. E lá onde o
encontro com o inimigo é possível. Uma vez que o inimigo externo é uma
criação bizarra da nossa ilusão da separatividade. Este encontro não
é senão o encontro da outra parte de nós mesmos que chamamos inimigo.
Se é de lá que flui a seiva curadora e criativa capaz de transformar
guerra em paz, é pelas nossas mãos e inteligência que saberemos usar os
recursos com justiça e reverência, inventar soluções engenhosas e
brincar com as possibilidades que se revelam diante do foco de uma motivação
alinhada com a construção uma nova cultura no planeta.
Assumir a ótica da interdependência nos coloca diante da responsabilidade
universal. A contrapartida também é verdadeira: nos sentir
conectados com o universo nos leva a reconhecer a interdependência.
Sabermos herdeiros e guardiães do desenvolvimento de todas as formas de
vida e cultura, o que nos coloca diante do compromisso com as próximas
gerações. Assumir este compromisso também nos ajuda a desenvolver o
apreço pelo que recebemos de graça, pela exuberância da criação, e
comemorar nossa capacidade, hoje desafiada, de deixar o mundo melhor do
que encontramos.
A multidimensionalidade nos convoca ao exercício da integridade.
Sabermos viajantes de diversas esferas e síntese de vários processos da
natureza e do espírito, o que nos demanda alinhar o que sentimos com o
que pensamos e o que fazemos. Requer de nós aproximar o poder de suas
fontes e alinhá-lo com os serviços que deve gerar. Demanda exercitar a
verdade, a aceitação incondicional da condição humana e a abertura
para o processo de conhecer sem preconceitos e sem as
limitações dos padrões que têm respondido pelo sofrimento
generalizado da humanidade.
Precisamos nos aventurar na conquista da paz, buscar caminhos novos e
confiar que a possibilidade criada pelo alinhamento de motivações
corretas de muitos poderá sustentar o salto de qualidade que a humanidade
aspira.
Decisões e Estratégias
Esta transição civilizatória está a nos exigir decisões, mudanças de
rumo, novos alinhamentos. Com certeza uma nova percepção de nós mesmos
e do mundo é necessária, bem como o exercício de valores que construam
paz e bem-estar.
Não se fazem transições civilizatórias sem se examinar mitos e crenças
arraigados que nos foram ensinados como verdades absolutas e como
representações fiéis do que somos e do que é o mundo. Uma ciência
livre de seus próprios mitos, e liberta das amarras do poder de dominação,
tem um papel importante a desempenhar. Bem como as artes no
treinamento da sensibilidade, no exercício da imaginação e na prática
do transformar o mais rudimentar no mais refinado e harmônico. As disciplinas
espirituais com suas potentes tecnologias de aprendizagem mais
profundas e integradoras podem dar base a uma nova educação.
Criar ambientes e dinâmicas pedagógicas nos quais se exercite uma nova
visão do mundo, como as fundamentadas na interdependência, evolução e
multimensionalidade, nos quais se exercitem comportamentos em sintonia com
a responsabilidade compartilhada pelo todo, com o deixar melhor do que
encontramos, com o tornar consistentes fala, afeto e ação são estratégias
educacionais que podem fazer diferença na contribuição da educação
para a construção da paz.
NOTAS:
*
Rede Global de Educação para a Paz.
PGM
2 - No cotidiano escolar
(in)disciplina:
questão de entendimento
Maria
Salett Biembengut*
Qual
o principal problema que vocês enfrentam no ensino?
Essa foi a pergunta que fiz a professores e dirigentes de uma escola pública,
na qual pretendia promover ações que atendessem aos professores nas
questões de natureza metodológica. Por supor que um dos principais
problemas dos professores era saber o quê, quanto e como
ensinar e avaliar os conteúdos programáticos, elaborei um projeto com a
finalidade de contribuir nessas questões.
Para minha surpresa, a resposta rápida e quase unânime foi: indisciplina
dos alunos. Afirmaram que a maioria dos alunos não
respeitava os professores, conversava durante as aulas, não se
interessava por aprender, rabiscava as carteiras, destruía objetos da
escola, não utilizava uniforme, saía correndo das salas de aula ou da
escola no instante do sinal, dentre outras coisas. Tal resposta deixou-me
sem ação. Não me considerava apta para lidar com atitudes ou
comportamento dos alunos. O projeto que tinha não se aplicaria nessa
escola, ou pelo menos não com a adesão e o interesse dos professores.
Mesmo assim, devido ao interesse da direção em implantar o projeto, após
essa reunião fui conhecer as instalações físicas da escola.
Ao passar algumas horas na escola para conhecer a estrutura e a dinâmica,
algumas coisas chamaram-me a atenção:
1. Imagem interna e externa da
escola
ü
pintura das paredes em tom mostarda e já desgastada;
ü
jardim e várias instalações destruídos;
ü
sujeira, lixo em diversas instalações;
ü
salas dos professores, da administração, da coordenação apáticas,
sem identidade, sem expressão;
2. Atitude de alguns
professores
ü
desleixados em sua aparência física;
ü
falta de dinamismo em suas aulas permanecendo sentados o tempo
todo;
ü
descaso com a sala na qual descansavam e faziam lanche deixando
xícaras de café por todos os lados, cascas de frutas sobre a mesa, migalhas de lanches pelo chão,
pontas de cigarro nos pires;
ü
negligência com o horário caminhando lentamente para as
salas, parando na porta para dar continuidade à conversa com o colega e,
vez por outra, gritando com os alunos, devido à algazarra, para que
o aguardassem em silêncio;
3. Postura de alunos,
professores e funcionários ao final das atividades do dia saíam em
disparada, quase todos ao mesmo instante, causando transtorno com manobras
de carros em meio à correria de crianças, jovens e adultos.
Essas, dentre outras coisas que observei naquele momento, levaram-me a
refletir sobre a questão levantada pelos professores – indisciplina.
Mas, o que é indisciplina? Pelo dicionário, indisciplina significa:
desordem, desobediência, não cumprimento das normas. Nestes termos, quem
não cumpre as normas? O que se entende por desordem, desobediência? Em
que óptica?
Para esses professores, os alunos não recebiam a devida educação da família
e, portanto, que a atitude deles era reflexo da atitude familiar. Sem dúvida
a atitude das pessoas é reflexo da convivência familiar, mas também da
convivência com os demais seres do meio em que vivem. Assim, como a
escola é parte dessas pessoas, ela tem boas e legítimas razões para
também auxiliar os alunos a terem atitudes que estejam em sintonia
com as que a sociedade requer como condição de boa convivência. O que
exige uma atitude coerente dos partícipes da escola (professores, funcionários,
coordenadores, dirigentes).
A convivência ocorre em ambiente de respeito e cooperação. Não há
como conviver socialmente sem que haja normas de conduta. Desse modo, a
disciplina precisa ser trabalhada, caso contrário, não há como conviver
em harmonia.
Essas observações e reflexões levaram-me a (re)estruturar o projeto e
promover algumas ações nessa escola. Passei a entender que, embora
necessário, não é suficiente promover cursos de formação
continuada de conteúdos e propostas metodológicas, implantar
tecnologias, reduzir carga horária de trabalho e melhorar o salário, sem
antes buscar meios para que os partícipes da escola tenham um mínimo de
respeito às normas de convivência. E mais, é necessário que esses partícipes
assumam o que fazem com responsabilidade.
Dessa forma, iniciei por sensibilizar a todos, inclusive, os pais sobre a
importância dessa postura, e juntos estabelecermos uma série de ações
visando promover o prazer e o bem-estar na escola.
Começamos por (re)formar e embelezar o espaço físico, promovendo
diversas campanhas da estética, do verde, do lixo, da limpeza com a
coordenação de alunos, pais e professores. A partir de apoio recebido de
empresas circunvizinhas e de pais, foi feita a reforma de alguns ambientes
e a seguir, a escola foi pintada com cor clara. A campanha do verde junto
aos alunos garantiu a formação de jardins. A maioria contribuiu não
apenas para trazer plantas de suas casas como também para ajudar a plantá-las.
Na campanha da estética, alguns alunos e professores buscaram,
inicialmente, aprender algumas regras essenciais e promoveram cursos aos
demais alunos e desfiles de moda. A campanha do lixo e da limpeza não
apenas sensibilizou a todos sobre a necessidade do respeito ao meio
ambiente, como também sobre a importância da reciclagem, promovendo, por
exemplo, a aquisição de
vasilhames para a coleta e separação dos materiais a serem reciclados. O
estacionamento dos carros passou a ser de ré para facilitar a saída, uma
vez que saem todos no mesmo momento, para evitar transtornos e possíveis
acidentes.
A mudança da imagem da escola e dos professores, sem dúvida, contribuiu
para a imagem dos alunos. O aspecto físico do espaço escolar cor das
paredes, sujeiras, móveis ou objetos destruídos, ausência de harmonia e
de estética não pode ser fator relevante da falta de disciplina dos
dirigentes? E a falta de estética de alguns professores, também, não
pode ser considerada desrespeito com aqueles que se espera “educar”?
Tenho claro que as escolas públicas não dispõem de recursos suficientes
para a manutenção, bem como os professores não recebem salários que
lhes permitam se apresentar com vestuário melhor. Mas, entendo que
desleixo é questão de atitude. Alguns cuidados simples podem mudar essa
condição. O descuido, com certeza, contribui para que o aluno não
respeite a estrutura escolar, induzindo-o a dar continuidade destruindo os
demais participantes da escola. Como podemos esperar que os alunos
respeitem o ambiente escolar, gostem da Escola, tenham interesse por ela
se nem mesmo nós temos este respeito, gosto, interesse?
Em meio a esse movimento pela “identidade” da escola, procurei
promover algumas atividades, como palestras e reuniões, a fim de
discutir, dentre outras coisas, sobre como somos reconhecidos. A razão
dessas atividades era o problema enfrentado pela escola, com relação às
atitudes de alguns professores, como: ausências constantes (apresentando
atestado médico), não cumprimento do horário e, ainda, a não promoção
de atividades que pudessem estimular os alunos à aprendizagem.
Sabemos que só aprende quem quer. Assim, o professor precisa estar atento
aos meios que permitam “conquistar” os alunos a quererem aprender. E
ainda, o professor precisa gostar do que faz, gostar do ambiente em que
atua. Essas são condições mínimas, no meu entendimento, para ser um
partícipe da Escola. Como podemos esperar que os alunos cumpram as
tarefas, se não a cumprimos? Como queremos que os alunos aprendam, se não
nos esforçamos para buscar meios que os motivem para isso? Como esperamos
que eles nos respeitem, se não os respeitamos? E, como estamos sendo
reconhecidos por eles?
Na tentativa de amenizar esses problemas,
procurei por meio de palestras e reuniões, refletir sobre a importância
de ser reconhecido de forma positiva. Afinal, a forma com que nos
apresentamos, expressamos, agimos, mantemos, o ambiente delineia nossa
identidade. Somos responsáveis pela imagem que criamos de nós mesmos. Há
um dito popular que diz “que a primeira impressão é a que fica”.
Assim, podemos não ter a oportunidade de causar uma segunda boa impressão.
Acredito que é através do olhar do outro que podemos ter ou não o
reconhecimento de alunos, familiares, comunidade. Se educar é
transferir às gerações o que conhecemos e fazemos, naturalmente os
alunos não estão agindo de acordo com o que estamos lhes representando?
Será que os alunos não estão mostrando a forma como nos reconhecem?
Essas e tantas outras ações levaram muitos professores, funcionários e
dirigentes dessa escola a mudarem a postura em relação à escola; conseqüentemente,
a postura de muitos alunos também mudou. Talvez, a promoção da beleza,
em sentido amplo, dos participantes da escola seja o caminho para
reconhecerem-se e serem reconhecidos.
Afirmo que o interesse que temos pelo conhecimento acadêmico advém do
interesse pelo que representamos, percebemos e sentimos.
NOTAS:
*
Universidade Regional de Blumenau. salett@furb.br.
PGM
3 - Nas relações humanas
A
era da avareza (A
concentração de renda como
patologia das relações humanas)
Humberto
Mariotti*
O
dicionário assim define a avareza: “1. Excessivo e sórdido apego ao
dinheiro. 2. Falta de generosidade, mesquinhez”.
É principalmente nesses dois sentidos que o termo será usado e ampliado neste
texto. A avareza é uma patologia do Ter e essa é uma definição que
a amplia. Assim, ao falar em avarentos, podemos incluir, além de pessoas,
grupos humanos, períodos históricos, nações inteiras.
Como se sabe há muito tempo, o Ter e o Ser são duas dimensões
fundamentais da condição humana. O Ter relaciona-se às necessidades
concretas, da vida dita mecânica, que correspondem à satisfação de
exigências como alimentação, excreção, sexo, reprodução, abrigo. E
também a inclinação que varia de pessoa a pessoa de acumular
dinheiro e bens materiais. A dimensão do Ser liga-se à vida que pode ser
chamada de não-mecânica, e compreende os sentimentos, as emoções, a
intuição, a imaginação e os impulsos de realização pessoal e
interpessoal.
Centrarei minhas considerações na aquisição e acumulação de dinheiro
e bens materiais, mas sem esquecer que todas as formas de avareza são
manifestações de um fenômeno básico: a perversão da dimensão do Ter.
É importante, porém, que não adotemos uma posição moralista diante
das relações entre o Ter e o Ser, ou mesmo em relação à eventual
predominância de uma dimensão sobre a outra, nessa ou naquela fase da
vida. Ambas são inerentes ao nosso cotidiano. É também indispensável
compreender que a predominância exacerbada e prolongada de uma delas
sobre a outra acaba trazendo conseqüências marcantes e é aqui que
começam os problemas.
Na avareza, a posse das coisas não faz cessar a necessidade que sentimos
delas, como observou Rousseau. Nem ao menos a diminui. Pelo contrário,
estimula-a indefinidamente. O avarento caminha sempre na direção da
ansiedade e o faz ao longo de uma seqüência: a) a posse não o
satisfaz; b) por isso, a necessidade de seguir acumulando jamais o
abandona; c) a essa circunstância se juntam o medo de perder o já
acumulado e o pavor de não conseguir continuar concentrando.
Amartya Sen, Prêmio Nobel de
Economia, afirma que o processo econômico pode se tornar mais produtivo
se olhar mais para o lado ético do comportamento humano. A recíproca é
verdadeira. Para Sen, o fenômeno econômico tem aspectos
“engenheiros”, que são os que tratam principalmente do lado numérico
da economia e constituem a tendência dominante na teoria econômica
atual. Mas também tem um lado ético, ligado aos valores e necessidades
humanos e que é parte integrante da economia, por mais que com isso não
concorde o pensamento econômico hoje dominante.
Nos últimos tempos, começam a despontar tentativas de recuperar a dimensão
ética por tanto tempo deixada em segundo plano. A obra de Sen faz parte
desses esforços. Em seu modo de ver, os aspectos numéricos da economia
podem ser úteis ao lado ético e vice-versa. Ao raciocinar dessa maneira
ele reconhece, de modo implícito, que é indispensável a interação
entre a vida mecânica e a não-mecânica que, como já vimos, são dois
aspectos destacados do Ter e do Ser.
Sen observa que os economistas “engenheiros” pressupõem que os
seres humanos têm um comportamento racional, que deve ser
considerado como o comportamento real. Eis um bom exemplo de como funciona
a lógica que predomina em nossa cultura: ela separa o irracional do
racional e toma este último como o “real”. Afasta-se do mundo real
(fragmentando-o) e em seguida afirma que o comportamento humano “real”
é o racional – como se a
conduta humana irracional fosse desprovida de realidade. Ao proceder
assim, esse modo de pensar se revela irracional, porque atribui o status
exclusivo de realidade a um fragmento cujo oposto foi artificialmente
tornado irrelevante.
Como assinala Sen entre outros é comum em economia identificar-se a racionalidade com a
maximização do auto-interesse, ou seja, do egocentrismo. É o que
caracterizo como o impulso básico do avarento: privilegiar o “meu” e
buscar por todos os meios transformar o “não-meu” em “meu”.
É importante, contudo, fazer a diferença entre auto-interesse e maximização
do auto-interesse. Trata-se da mesma diferença que pode ser feita,
por exemplo, entre fome e voracidade. O auto-interesse faz parte da condição
humana e não tende a excluir o próximo. É um dos componentes da
individualidade, e permite que o ser humano se afirme como indivíduo sem
negar a sua pertença à condição humana. Quando ele é exacerbado, porém,
entra-se na área do individualismo, que é excludente.
As conseqüências éticas de cada uma dessas circunstâncias são bem
conhecidas. A principal delas, que vimos há pouco, é identificar a
maximização do auto-interesse com a racionalidade que é o mesmo que apresentar
a avareza como comportamento racional, fingindo ignorar que o fato de ela
ser muito disseminada não a torna normal.
Hoje, porém, há outros modos
de abordar a questão, que levam a conseqüências éticas bem diferentes.
Em obra já clássica, os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco
Varela observam que freqüentemente se diz que os seres vivos são mais ou
menos adaptados, ou que sua adaptação é o resultado de sua história
evolutiva. Afirmam ainda que essa interpretação da adaptação é
equivocada, pois se baseia em crenças, modelos e critérios estabelecidos
por observadores que se julgam externos aos processos que investigam. Tais
critérios traduzem os pressupostos desses observadores e suas
necessidades de confirmá-los, e não aquilo que de fato acontece no âmbito
dos fenômenos.
Como acentuam os dois biólogos, se estão confinadas ao contexto das
descrições feitas pelo observador, as comparações sobre maior aptidão
e maior adaptação só podem gerar descrições e teorias que não têm
relação direta com as histórias individuais de manutenção da adaptação
dos seres vivos. Conclusão: não existe sobrevivência do mais apto (a
chamada “competitividade”), e sim sobrevivência do apto (que chamo de
competência).
Nos dias atuais, vários outros autores vêm publicando estudos sobre as
relações entre biologia, cultura e solidariedade, que apontam para
evidências de que no mundo natural há cooperação e competição, e não
apenas competição.
No entanto e na contramão de todas essas novas evidências a idéia
de sobrevivência do mais apto continua a ser apresentada como sobrevivência
do mais forte. Essa concepção só é possível quando se acredita que
somos separados do mundo natural. Ela gera a “certeza” de que o mundo
é uma fonte de “recursos” e “bens” dos quais somos os “usuários”.
A visão utilitarista, que vê os seres humanos como coisas (chamando-os
de “recursos humanos”), é a mesma que vê o mundo como uma coisa
(considerando-o uma fonte de “recursos naturais”).
Enquanto não for abalada a nossa convicção da separação entre o homem
e o mundo, continuaremos a nos considerar “autorizados” a ver a
natureza como o objeto da guerra que travamos uns contra os outros em nome
da sobrevivência dos “mais fortes”. Estamos de tal modo condicionados
a essa atitude, que de pouco adiantam os relatos sobre a má situação do
meio ambiente e a lamentável qualidade de vida da maioria das populações.
O avarento vê a si mesmo como um funcionário da acumulação. Em seus
esforços para desempenhar essa função, ignora o fato de que cedo ou
tarde suas ações acabarão privando os outros muitas vezes
totalmente e seus haveres. Como, em sua opinião, os valores humanos
se reduzem ao valor dos bens e do dinheiro, acaba convencido de que quando
fica sem estes o ser humano deixa de existir: deixa de ter interesse,
transforma-se num estorvo. Em conseqüência, precisa ser excluído.
Portanto, a avareza é também uma patologia da exclusão social.
Sabemos que projetar os ganhos
para o futuro, com o objetivo de acumular, é um dos princípios do
capitalismo. O avarento apropria-se dele e o transforma em patologia. Adia
a experiência do viver em troca dos prazos necessários à acumulação.
Prorroga a vida para um porvir no qual os ganhos de capital e demais benefícios
do valor econômico permitirão a “realização”.
O universo da acumulação é também o do controle e da padronização. E
tudo aquilo – principalmente as pessoas que não puder ser reduzido
a essas dimensões precisa ser excluído. O diferente, o incerto, o
imprevisível ou seja, o criativo e o vivo aterrorizam o avarento.
Apavoram-no sobretudo as idéias novas, os fenômenos não-quantificáveis
e a diversidade.
Por isso, é imperioso que ele imagine um mundo em que todos pensem sempre
do mesmo modo e continuem indefinidamente assim. Tal estado de coisas lhe
convém, dada a sua necessidade de prever as ações dos outros (que
considera adversários a serem eliminados), suas estratégias, seus mínimos
movimentos.
É por essas razões que aquilo que não se move ou que se move
repetitivamente, de modo previsível vale mais. É por isso que as
coisas têm mais valor do que as pessoas. Coisas juntas, concentradas,
padronizadas, proporcionam poder e tranqüilidade.
Já pessoas reunidas e pensando de modo diferente umas das outras trazem
problemas – a não ser que seja possível controlá-las, bitolá-las. Ou
seja: dar o máximo de valor aos homens-coisa e excluir ao máximo os
homens-pessoa. Dessa forma, como é fácil concluir, a avareza é também
uma patologia da autoridade, um elogio do autoritarismo.
O historiador Eric Hobsbawm observa que a estrutura fundamental da
globalização do neoliberalismo é a área econômico-financeira e não a
política. O centro de tudo é o dinheiro. Para apropriar-se dele e acumulá-lo,
é necessário padronizar as pessoas e o seu cotidiano. É o que se vem
tentando fazer, por meio de esforços destinados a apresentar a
padronização das culturas e o “pensamento único” como valores éticos e sociais.
Hobsbawm assinala que um dos maiores problemas do século 21 será definir
até onde se pode ir, em termos de eliminação da diversidade das
culturas humanas, sem provocar reações mais ou menos drásticas. Em
outras palavras: determinar até onde é possível prosseguir com a estratégia
de transformar as pessoas em clientes/investidores, descartando as que não
puderem (ou não quiserem) adaptar-se a essa condição. A padronização
da educação como instrumento de imposição da “cultura única” é
um aspecto importante desse fenômeno.
Vimos que a experiência do Ter implica controlar, prever, ter
“certezas”. Já a experiência do Ser significa abertura, convivência
com a incerteza. Controlar equivale a imobilizar, a isolar. Conviver
significa experienciar, o que por sua vez implica deixar fluir, observar
participando, estar atento. O Ter se volta para a coisa. O Ser se orienta
para o processo. São duas vivências fundamentais. Cada uma delas, se
tomada isoladamente, se mostra necessária mas não suficiente para nos capacitar a lidar com a complexidade do mundo e com a nossa própria.
A conclusão é óbvia:
precisamos das duas. Precisamos
aprender a complementá-las, a equilibrá-las. A
relação entre elas deve ser de inclusão mútua, jamais de exclusão. É
essa interação que precisamos aprender a pôr em prática, mas é
exatamente isso que temos mais dificuldade de fazer. Por enquanto,
voltamo-nos para um lado só e quanto mais o fazemos mais somos
levados à repetição.
Por todas essas razões é possível afirmar que hoje, mais do que nunca,
estamos em plena Era da Avareza. Atravessamos uma situação em que se
enfrentam essas duas grandes dimensões: a da coisa e a do processo, isto
é, o Ter e o Ser. Mas é uma luta sem sentido, pois a exclusão de uma
delas em prejuízo da outra dificulta nossa interação com o mundo
real.
É o que acontece quando as pessoas estão muito voltadas para o objetivo,
para o concreto (o que leva, no exagero, à avareza), ou quando elas estão
demasiadamente orientadas para o experiencial, o sensualismo (o que leva,
no limite, ao esbanjamento). Como em nossa cultura essas tendências se
manifestam mais em termos econômicos, pode-se complementar as idéias de
Amartya Sen e dizer que, na Era da Avareza, a economia “engenheira” (o
universo do Ter) está separada da ética (o universo do Ser).
Sen afirma que a economia voltada apenas para os números atrasa o
desenvolvimento. Quando baseado apenas em indicadores como o crescimento
do PIB ou a industrialização (ligados ao universo do Ter), o
desenvolvimento se reduz aos critérios da avareza. E assim deixa de lado
as liberdades políticas e sociais, a educação, os anseios de
auto-realização das pessoas, o saneamento básico, a extensão e
qualidade da assistência médica e assim por diante.
Estes últimos parâmetros são intimamente ligados ao Ser. Permitem uma
qualidade de vida que, além de ajudar na manutenção das necessidades
fundamentais, proporciona às pessoas oportunidades de pensar com suas próprias
cabeças e fazer escolhas. Não é nada disso, porém, que estamos vivendo
hoje em dia. Ainda não aprendemos que a avaliação do desenvolvimento
econômico deve se basear tanto nos critérios do Ter quanto nos do Ser.
Eis alguns dos resultados da avareza no mundo atual: a) a progressiva
deterioração dos hábitos comunitários e associativos; b) o progressivo
abandono de formas de convivência capazes de contrabalançar o
individualismo agressivo e predatório; c) a crescente erosão das conexões
sociais; d) o desprestígio da idéia de um Estado em que haja lugar para
a assistência (não o assistencialismo) e a compaixão; e) a visão das
pessoas como coisas e suas conseqüências; f) a diminuição da
solidariedade e da lealdade.
Como nota Hobsbawm, nos dias de hoje nosso grande problema é garantir a
sobrevivência dos excluídos por uma economia que é capaz de produzir
cada vez mais com cada vez menos pessoas. A questão da produção diz
ele já foi resolvida. Nunca se produziu tanto. Acrescento que a
grande dificuldade é como distribuir a riqueza produzida, numa época em
que a avareza reina, globalizada e triunfante.
Sabemos que o Estado é a instituição que tem mais condições de
contrabalançar a avareza, e portanto de ser um agente eficaz de distribuição
de renda. Mas ultimamente ele vem sendo posto em xeque (com razão, em
alguns casos, mas nem sempre) pela ordem econômica dominante. Se como
consideram Hobsbawm e muitos outros por um lado as funções econômicas
do Estado já não têm a importância de outros tempos, de outra parte o
seu papel de agente desconcentrador de renda continua. Mas como
conciliar essa circunstância com a mentalidade avara predominante?
As propostas de solução comumente apresentadas têm uma limitação
fundamental: partem do princípio de que não há nada de errado com o
modelo mental dominante em nossa cultura, isto é, com o sistema de
pensamento, excludente e de causalidade imediata que recorta o todo e
imagina poder pensá-lo apenas por meio de fragmentos isolados.
Imagina-se que tal modelo seja capaz de produzir idéias que resolvam
problemas criados por ele mesmo, mas não é o que mostra a prática. Há
muitos anos, Albert Einstein disse que nenhum problema pode ser resolvido
pelo mesmo estado de consciência que o criou. Há muitos séculos, Platão
já denunciava a limitação do modelo mental parcelar: “Separar cada
coisa de todas as demais é a maneira mais radical de reduzir a nada todo
o raciocínio. Pois o raciocínio e a conversa nasceram em nós pela
combinação das formas entre si”.
Há pessoas que só se impressionam
com números. É pensando nelas que passo as seguintes informações,
relativas a alguns dos resultados da globalização: a) nos dias atuais,
1,3 bilhão de seres humanos está abaixo da linha de miséria. Essa
população constitui mais de um quinto da população do globo e
sobrevive com menos de US$ 2 por dia; b) apenas um quinto da população
mundial possui 86% das riquezas da Terra; c) somente 10% da população
produzem e consomem mais de 70% dos bens e serviços do planeta.1
É
inegável que houve mudanças positivas no mundo, em especial no século
20. Mas os efeitos colaterais danosos da visão mecanicista mostram que o
outro lado da moeda é também significativo. Como disse Hobsbawm, o século
20 foi ao mesmo tempo o melhor e o pior dos séculos. De qualquer maneira,
as melhorias conseguidas poderiam ter produzido muito menos
efeitos colaterais, ou seja, seu preço não precisaria ter sido tão
alto.
Há outro ângulo da questão política que pode fornecer mais alguns
dados esclarecedores. É conhecida a apatia de populações inteiras
diante do processo político, em especial da política partidária. Como
se sabe, a manipulação das eleições pelas pesquisas de opinião pública
tem contribuído muito para disseminar essa situação. As pessoas estão
se acostumando a acreditar que, vença quem vencer, os resultados práticos
são previsíveis.
Existe uma relação entre esse fenômeno, algumas situações históricas
e certas concepções de política e economia. Um exemplo clássico é a
chamada “tese de Lee”, atribuída a um antigo primeiro ministro de
Cingapura, Lee Yuan Yew, segundo a qual suprimir os direitos políticos e
civis do governados favorece o desenvolvimento econômico.
Convém lembrar que essa tese faz parte da estratégia de inúmeros
regimes autoritários, tanto anteriores como posteriores a ela. E tem a
ver com o pressuposto de que o povo é ignorante e, portanto, sua atuação
política e o fato de ele poder exercer direitos civis são fatores de
atraso econômico e social. Esse fenômeno é revelador. Com efeito, a
observação dos fatos históricos mostra que em muitos casos as elites
econômicas projetam inconscientemente sua própria ignorância sobre as
populações mais pobres.
Tudo isso visto, façamos uma última pergunta: afinal de contas quem são
os avarentos? Quem com tanto entusiasmo participa da atual escalada da
avareza?
A resposta é fácil: esses avarentos somos nós. Somos nós próprios, na
medida em que cada um à sua maneira e cada qual num determinado grau
achamos que é “racional” negar a legitimidade humana do outro e
excluí-lo; pensar apenas em termos de partes isoladas do todo; fingir que
o mundo real não existe e tentar ser observadores não-participantes e
“imparciais”.
Enfim, somos avarentos na medida em que entramos e permanecemos nesse
grande jogo, que nos permite exercer um sem-número de formas de
auto-engano. Uma delas consiste em eleger representantes que pensam e agem
do mesmo modo que nós e depois, comodamente, alegar que tudo o que ocorre
de desagradável é culpa exclusiva deles.
Referências bibliográficas
D’AMBROSIO, Ubiratan. “Etnomatemática e Transdisciplinaridade: As Razões
do Coração”. Thot (São Paulo) 65: 3-8, 1997.
FROMM, Erich. To Have or to Be? Nova York: Harper & Row,
1976.
MARIOTTI, Humberto. As Paixões do Ego: Complexidade, Política e
Solidariedade. São Paulo, Palas Athena, 2000.
MARIOTTI, Humberto. “Competitividade e Violência Estrutural”. In
ESTEVES, Sérgio A.P., (org.) O Dragão e a Borboleta: Sustentabilidade
e Responsabilidade Social nos Negócios. São Paulo: Axis Mundi/AMCE,
2000.
MATURANA, Humberto, VARELA, Francisco. A Árvore do Conhecimento: As
Bases Biológicas da Compreensão Humana. São Paulo: Palas Athena,
2001.
HOBSBAWM, Eric. O Novo Século: Entrevista a Antonio Polito. São
Paulo; Companhia das Letras, 2000.
PLATÃO. Sofista, 259e.
SEN, Amartya. Sobre Ética e Economia. São Paulo, Companhia das
Letras, 1999.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
NOTAS:
* Médico, psicoterapeuta, conferencista nacional e internacional e
coordenador do Grupo de Estudos de Complexidade e Pensamento Sistêmico
da Associação Palas Athena, em São Paulo. E-mail: homariot@uol.com.br
PGM
4 – Na busca de novos conhecimentos
Saberes
Culturais e educação do futuro
Edgard
de Assis Carvalho*
O que são saberes culturais?
São o acervo de conhecimentos, entendimentos, realizações,
progressos, regressões, utopias, desencantamentos, produto de uma
aventura que nós construímos no planeta Terra, datada de pelo menos 130
mil anos. As sociedades humanas, tal como as conhecemos hoje, são o
produto de uma longa evolução que possibilitou a um pequeno bípede, com
um cérebro muito assemelhado ao de um chimpanzé, e ainda mais ao de um
bonobo, criar cognições, transmiti-las, codificá-las. Nossas diferenças
para com os primatas não humanos diminuem a cada dia. O genoma das duas
espécies tem semelhanças de 99%. Mês passado, foi identificado o FOXP2.
Humanos que apresentam defeito nesse
gene apresentam graves problemas de fala. Chimpanzés, orangotangos, resus
e gorilas também o possuem. Talvez uma dissipação genética tenha sido
responsável pelo fenômeno da fala, essa fantástica marca dos primatas
humanas que tornou possível criar e transmitir saberes.
De qualquer modo, denominou-se Cultura a esse patrimônio material
e imaterial de proporções milenares.
Desde que o mundo passou a ser explicado pela ciência, instituiu-se uma
fronteira entre humanos e não humanos que nunca foi suficientemente
explicitada. Essa divisão entre animalidade e humanidade foi responsável
por muitas das definições pelas quais o conceito de cultura passou a ser
entendido. Em finais do século XIX, por exemplo, a cultura era definida
como a mera soma de fatos que incluía desde tecnologias, artes, até
magias, religião, parentesco. Em meados dos anos XX, o conceito adquiriu
contornos mais precisos, dado que o Ocidente voltou seu olhar e sua cobiça
para outros mundos, considerados por uns como inferiores, por outros
simplesmente como diferentes, nativos, primitivos, selvagens.
Instalou-se a partir daí a pulsão da descoberta e a compulsão da descrição,
definidoras do metiê antropológico. As sociedades humanas passaram a ser
identificadas a organismos, cujas partes garantem, por vezes
precariamente, a continuidade
harmoniosa do todo. Embora a analogia fosse precária, os pesquisadores
passaram a admitir que o funcionamento das instituições era o único
responsável pela regulação da engrenagem da sociedade.
Se, por um lado, esse tipo de explicação propiciou uma
radiografia pormenorizada de usos e costumes, deliberadamente não levou
em conta que essas diferenças já faziam parte de um processo histórico
altamente desigual, que opunha, e opõe até hoje, Oriente a Ocidente,
civilizado a primitivo, moderno a arcaico,
capitalista a nativo ou indígena.
No final dos anos 40, a distinção entre o natural e o cultural passou
por alteração significativa, mesmo que a idéia da natureza como
universalidade dos instintos e a de cultura, como diversidade de padrões
tenha sido mantida. Passou-se a postular que entre a natureza e a cultura
havia algo simultaneamente universal e particular, um fenômeno que se
encontrava presente em todas as sociedades humanas e que, ao mesmo tempo,
era diferente em muitas delas. Esse algo mais era a proibição do
incesto. O responsável por este estudo foi Claude LéviStrauss.
Se o incesto não tinha nada a ver necessariamente com uniões
consanguíneas,
o apelo da “voz do sangue” tornou-se inútil, preconceituoso para
explicar a essência dos interditos. De qualquer forma, a proibição
passou a sinalizar a passagem da natureza à cultura, da universalidade à
diversidade, garantia da perpetuação e reprodução do mundo, propiciada
pela circulação de mulheres, bens econômicos e mensagens.
Em decorrência disso, passou-se a questionar se essas alteridades eram
mesmo diferentes em natureza (primitivo/civilizado), em grau
(inferior/superior) e pensamento (pré-lógico e lógico). Admitir que
outros povos pensavam como nós e, por vezes, melhor do que nós,
representou um duro golpe para muitos, já narcisicamente abalados pelas
impertinências e ferimentos provocados pelas revoluções copernicana,
darwiniana e freudiana. Mesmo que não tivessem escrita para registrar
seus saberes, os mitos que construíram para entender melhor a realidade
em que viviam atravessaram gerações e, até hoje, surpreendem leitores e
pesquisadores.
O arrogante pensamento domesticado, moderno, científico que se consolidou
a partir do século XV, cercado de certezas, leis, determinismos,
causalidade, teleologias, deixou de lado a preocupação com a totalidade,
com a intuição, com o imaginário, passando a se concentrar no entendimento do fragmento, da parte, supondo que através
deles seria possível atingir uma objetividade sem parênteses. Com isso,
virou as costas para o sujeito, para a incerteza e para a
complementaridade, privatizou terras e mares, considerou magias e mitos
como algo irracional, produto descartável criado pela mente obscura de
selvagens, ou por alucinações dos civilizados.
A principal conseqüência dessa visão de mundo, no plano da educação,
acabou por consagrar, em décadas posteriores, a figura do especialista,
esse humano fechado em si mesmo, egoísta, que descarta e desconsidera
tudo aquilo que ocorre para além dos contornos infinitamente pequenos de
sua existência e de seu objeto de pesquisa.
O final dos anos 60 provovou outra alteração no entendimento entre nós
e os outros, só que agora referente às formas materiais de vida, às
relações com a natureza propriamente dita. Um número considerável de
pesquisadores, identificados com o materialismo histórico, debruçou-se
sobre populações não capitalistas, demonstrando que uma vida igualitária,
regida por normas coletivas e solidárias não era coisa do outro mundo.
Constatou-se, também, que não era necessário trabalhar arduamente em
tempo integral para que a comunidade sobrevivesse dignamente. Maurice
Godelier e tantos outros foram os responsáveis por essa estocada no
relativismo substantivista, que sempre se traveste de tolerante para
justificar e manter a dominação.
Para surpresa de muitos, esses estranhos mundos passaram a ser
considerados como as primeiras “sociedades da afluência”, pois
dedicavam poucas horas ao trabalho e, em muitas delas, a palavra trabalho
nem existia. O restante do tempo era dedicado aos rituais reforçadores da
vida e da solidariedade coletivas.
Essa ampliação cognitiva não conseguiu abalar o sólido edifício do
grande paradigma do Ocidente, e isso porque ainda mantinha a definição
do humano dentro de padrões normativos demais. Afinal de contas, fazendo
parte do gênero homo, a espécie sapiens é igualmente faber, porque
fabrica instrumentos, loquens porque articula fantásticos jogos de
linguagem, ludens porque se encanta com jogos e rituais,
simbolicus, porque atribui significados ao mundo e acumulava e
transmitia saberes.
Não foi fácil admitir que não éramos apenas sapiens. Se
chimpanzés, bonobos, gorilas já exibem sapientalidade, ganhamos um
segundo adjetivo e passamos a ser definidos como sapiens sapiens. A
repetição do termo não se deu por acaso. As pesquisas de Richard e
Louis Leakey, Jane Goodall, Frans de Waal
mostram a todos nós que a cultura, antes privilégio nosso, é
algo muito mais amplo do que supúnhamos anteriormente. O
“antropocentrismo satírico” de de Wall fundamenta-se no pressuposto
de que chimpanzés, por
exemplo, vivem em sociedades complexas, e se arranjam como podem para
enfrentar alianças, conflitos e
lutas pelo poder. Bonobos preferem fazer amor sob formas as mais variadas
para que as contendas se anulem e a reconciliação seja reposta.
A diminuição da distância intelectual e cognitiva entre primatas exigiu
que o conceito fosse visto de modo menos excludente, o que de fato ocorreu
a partir dos anos 70. Ao manter acopladas as noções de unidade e
diversidade, a cultura passou
a ser entendida como um conjunto complexo de saberes, por vezes contraditório,
por outras harmônico, de regras, normas, valores, mitos, sonhos, que
primatas, humanos preferencialmente, acionam ao se defrontarem com os
desafios do ecossistema circundante.
Semelhantes e diferentes, universais e particulares, produzimos diferenças
locais que não devem ser entendidas como ilhas incomunicáveis de um
arquipélago, mas como um continente de objetos complexos,
manifestações de algo mais profundo e universal, construído num
longo processo evolutivo não linear,
que envolveu sempre perdas, ganhos, avanços e recuos.
Longe de serem consideradas como uma dualidade intransponível, é preciso
acionar os operadores da recursividade e da dialógica e enxergar a
natureza na cultura e vice-versa. Somos naturais porque inscritos numa
complexa ordem biológica; somos culturais porque capazes de elaborar
estratégias de sobrevivência e adaptação, a curto, médio e longo
prazos, onde quer que nos encontremos. Em resumo, e a idéia
é de Edgar Morin, somos 100% natureza, 100% cultura, ou melhor
dizendo, somos seres vivos uniduais, carregamos conosco uma trajetória
biológica milenar, ao mesmo tempo que somos portadores de um vasto acervo
cultural constituído pela memória coletiva da espécie.
Porque falamos, comunicamos, planejamos, calculamos, competimos, amamos e
odiamos, passamos a nos auto-atribuir uma superioridade ímpar perante os
demais seres vivos. Em cada um de nós existe algo que escapa a essas
características normativas demais, sistemáticas demais. A cada momento,
somos invadidos por delírios, sonhos, excessos, loucuras, descomedimentos
que escapam a nosso controle explícito, consciente.
Treinados pela educação familiar e escolar a afastá-los de nossa
imaginação e a recalcá-los em nossa psique, temos que reaprender a
conviver e dialogar com eles, ou seja, introjetar em nossas cabeças que
somos sábios e loucos, unos e múltiplos,
duplos, e que é exatamente isso que vialibizará, sem excessos,
processos civilizatórios solidários e processos educativos
religados. Sapiens sapiens demens, eis nossa condição, plano de
imanência que nos permite viver, sobreviver, afrontar, e talvez superar,
a insignificância dos mal-estares pós-modernos comandados pela
unidimensionalidade da tecnociência, pela compulsão da conectividade,
pela desrazão da política, pela insuficiência dos afetos.
Precisamos de um novo sujeito do conhecimento, que não seja tecnofóbico
e muito menos antropofóbico, que reconheça o papel das tecnologias do
infinitesimal, sem atribuir-lhes papel
determinante para destinos futuros. O planeta tem urgência de ser
mais integrativo e interdependente. Se fosse possível traduzir esse
ponto de vista em slogans de um programa politico, as palavras de
ordem dessa biocosmopolítica serão: conservação em lugar de
destruição, religação em lugar de fragmentação, cooperação em
lugar de competição, partilha em lugar concentração, inclusão em
lugar de exclusão.
A UNESCO, ao promover os quatro pilares da educação para o século XXI
em torno de quatro formas de aprendizagem, a saber, conhecer, fazer, viver
junto e ser, estava certamente imbuída da idéia de que a humanidade, a
Terra-Pátria, não pode ser concebida como um meio de obter lucros e
vantagens para poucos, mas como um fim a ser construído por todos e para
todos. Na verdade, trata-se de um aprendizado complexo, a ser exercitado não
apenas nas escolas, mas na vida em geral.
Um amplo processo participativo, restaurador do homem genérico,
que envolve princípios, valores, utopias e, certamente, um contrato
planetário, social e natural, no qual animais e homens, natureza e
cultura não se separem mais.
Traduzir esses pilares para a sala de aula é uma tarefa complexa, dadas
as condições em que o ensino se encontra, debatendo-se entre uma utopia
democrática, a escola para todos, e uma realidade meritocrática, a
escola para alguns. Além disso, a fragmentação disciplinar, empenhada
em transmitir conteúdos e gerar competências, esquece-se de que a formação
do sujeito responsável requer como ponto de partida a religação dos
saberes, cabeças bem-feitas como pretendia Montaigne.
Uma vez perguntaram a um poeta, mais exatamente a Yves Bonnefoy, porque
ele considerava fundamental o ensino da poesia nas escolas. Sua resposta
foi direta e incisiva. Disse ele que a poesia propiciava a prática da
liberdade para com as palavras e a vivência da responsabilidade com um
mundo melhor, com o sentido da vida. A poesia e a literatura em geral, as
artes, com as imagens que constroem, criam uma fantástica reserva de emoções,
abrem janelas para o mundo, acionam níveis de realidade não percebidos
pela linguagem fria e distante dos conceitos. Quando se aprende um poema
de cor, quando se lê um romance pela décima vez, ou se guarda a imagem
de uma pintura, eles permanecem para sempre em nossa mente, como fiéis
companheiros que nos convidam a encarar a desregulação do mundo de modo
menos pessimista, a perceber a realidade de forma menos linear, a descrer
nos ditames da razão, a usufruir das delícias do imaginário.
Essa escuta do mundo não implica obrigar as escolas a incluirem a poesia
em seus currículos, embora isso fosse até desejável. Ela alerta, porém,
para o fato de que ciência e imaginação não se excluem, mas se
complementam, empenhadas que estão na decifração dos enigmas da vida. Não
é mais possível que a educação do século XXI mantenha a separação
entre as duas culturas, a saber, a cultura científica e a cultura das
humanidades. Refiro-me mais uma vez aos propósitos da UNESCO que pregam
os princípios de educação permanente, sociedade educativa, reciclagem e
atualização contínua dos conteúdos, sinergia entre alunos e
professores. Um ensino compartimentalizado não conseguirá jamais
promover esses objetivos. A religação exige não apenas cabeças
bem-feitas, mas disponilidade e revolta docentes para abrir
compartimentos, fomentar incertezas, promover o diálogo, reinventar o
mundo.
Se o século XX presenciou a irrupção da desordem, da incerteza e da
complementaridade e expôs como nunca a interface entre ciência e política,
o século XXI tem pela frente a inédita possibilidade de restaurar o
conhecimento pertinente e não se deixar seduzir pelos confortáveis
apelos da fragmentação e da hiperespecialização. Restaurar o
conhecimento pertinente implica integrar razão e paixão, onda e partícula,
unidade e multiplicidade, arte e ciência, em acionar uma espécie de
significante flutuante, uma força primordial que circula por toda parte,
que atravessa todos os códigos, que recupera o sentir, o agir e o pensar,
que religa indivíduo, sociedade e cosmo,
que se situa além e aquém da vida e da morte.
Toda vez que pensadores instauradores de discursividade utilizaram-se da
forma metafórica da arte para aclarar o conteúdo sombrio e metonímico
da ciência, os saberes culturais se enriqueceram, as duas culturas se
interligaram, a educação sentiu-se mais gratificada. Vejamos alguns
poucos momentos escolhidos ao acaso na vasta história do pensamento em
que isso ocorreu.
Claude LéviStrauss, em 1962, muniu-se de um pequeno quadro de François
Clouet do século XVI (1515-1572), Elisabeth da Áustria, para construir a
idéia de modelo reduzido como elemento propiciador da emoção estética
e da visibilidade dialógica entre a parte e o todo, magia e ciência,
arte e ciência, jogo e rito.
Humberto Maturana e Francisco Varela abrem seu fabuloso livro, A Árvore
do conhecimento, com Hieronimus Bosch (1450-1516),
O Cristo coroado de espinhos. Para Maturana e Varela, o quadro
expressa as tentações da certeza. Cristo, no centro, revela imensa paciência
diante dos verdugos, coisa que precisamos muito diante da vigilância
cognitiva que nos ataca constantemente. O personagem do canto direito
segura Jesus pelo manto. Restringe sua liberdade, parece dizer “eu sei,
eu sei”. Certezas demais, convicções demais.
Edgar Morin refere-se com certa freqüência a Guiseppe Archimboldo
(1527-1593). Quando tomamos
contato com suas pinturas, nos supreendemos com o caráter alegórico da
harmonia e do caos, a interdependência dos quatro elementos, das estações
do ano, a complementaridade de flores, frutos e peixes, as agruras e o
peso da acumulação dos saberes. O Livreiro, um de seus quadros mais
comentados pelos críticos de arte, encontra-se
literalmente embriagado de livros, tragado pelo conhecimento. Descarnado,
a cortina o livra das intempéries do frio. Um pouco de todos nós estamos
contidos nas imagens desse Livreiro, que acumula e religa saberes sem
saber ao certo o que fazer com eles, como operacionalizálos.
Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química de 1977,
debruçou-se recentemente sobre René Magritte (1898-1967). Para
Prigogine, Magritte enfatiza sempre os mistérios da existência humana,
insistindo que a obra de arte os explicita e a ciência pretende apenas
decifrá-los e analisá-los. Se
a história humana possui sempre um caráter não determinista, devemos
privilegiar as experiências da criatividade, esse algo mais que resiste
ao pensamento em detrimento das experiências da repetição, prosaicas,
equilibradas demais. A arte de viver expressa exatamente isso: a
luminosidade da criatividade e a singeleza da repetição. Simetricamente
irreversíveis, nos debatemos entre essas duas dimensões existenciais, pulsões constitutivas do sernomundo, como se a ordem
nascesse sempre da desordem, a vida sempre da morte e assim
sucessivamente.
Finalmente reencontramos Fernando Diniz (1918-1999). Em 1944, foi preso e
levado para o manicômio judiciário, porque, segundo dizem,
andava nu pelas areias de Copacabana. Em 1949, foi internado no
Centro Psiquiátrico D. Pedro II, de onde não saiu nunca mais. Iniciou-se
nos ateliês de artes coordenados por Nise da Silveira, a doutora Nise,
odiada pela vigilância cognitiva instalada na psiquiatria cartesiana, que
considerava os co-terapeutas utilizados pelos clientes simplesmente como
animais destituídos de emoções. A doutora sabia muito bem
que seus gatos e cachorros sofreriam muito nos corredores
hospitalares do Pedro II. Não esmoreceu. Colocou tintas, pincéis, barro,
tecidos, linhas nas mãos de Artur Bispo do Rosário, Adelina, Carlos,
Raphael, Emygdio, Fernando, permitindo que “inúmeráveis estados do
ser” aflorassem, mesmo diante das tristes conseqüências que choques,
medicamentos, desafetos e abandonos provocam na psique. Qualquer visita ao
Museu das Imagens do Insconsciente, criado em 1952 no Rio de Janeiro,
produz uma infinita sensação
de êxtase diante dos símbolos que as forças do inconsciente acionam e
explicitam.
Fernando Diniz produziu não apenas tapetes digitais e mandalas, mas um
mosaico de imagens figurativas, abstratas, orgânicas, inorgânicas. 30
mil obras: telas, desenhos, modelagens, tapetes, alguns titulados outros não.
Diz ele: “mudei para o mundo das imagens”. Instado a definir o que era
um pintor afirmou: “o pintor é feito um livro que não tem fim”.
Desfez a separacão entre arte e loucura, consciente e inconsciente,
religou saberes.
Afinal de contas, como ele mesmo afirma num texto que escreveu, “a
estrela existe antes de tudo, em cima da estrela se desenham círculos, e
em cima dos círculos borboletas ou margaridas. Em 1996, foi premiado no
Festival de Gramado na categoria de melhor curta-metragem com o desenho
animado “A estrela de oito pontas”, para o qual realizou cerca de 40
mil desenhos. Realizou
sua última exposição em 1998, no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de
Janeiro. Morreu em 1999.
NOTAS:
*
Professor Titular de Antropologia. Coordenador do COMPLEXUS – Núcleo
de Estudos da Complexidade da Faculdade/PG de Ciências Sociais da
PUC/SP.
PGM
5 - Nas relações ambientais
Complexidade
nas Relações Ambientais
Elizabeth
da Conceição Santos*
Uma
inquietação constante provocada pela visão reducionista da questão
ambiental tanto a visão divulgada pela mídia quanto a que é
abordada pelos sistemas educacionais tem impulsionado um profundo
envolvimento na busca de alternativas que permitam uma reflexão crítica
da realidade. Essa reflexão deverá fomentar mudanças individuais e
coletivas, principalmente na população dos países ditos emergentes, de
modo a minimizar as desigualdades estabelecidas em nível planetário.
A desarticulação do componente social e a redução do tratamento
ambiental ao meramente ecológico vêm respondendo, em parte, ao esquema
positivista da ciência e do conhecimento, impedindo uma adequada
compreensão das complexas e múltiplas expressões dos fenômenos da
realidade. Qualquer situação ambiental é, em si mesma, muito complexa,
em razão de suas causas, da natureza dos agentes que a originam, da própria
dinâmica ambiental. Sua abordagem requer o concurso de diferentes áreas
do conhecimento.
Associe-se a isso a postura dos países “desenvolvidos” em relação
aos “emergentes”, agravando o estado do planeta numa exploração
desigual que inviabiliza um processo de comprometimento da humanidade com
o Meio Ambiente, entendido em sua complexidade e totalidade, considerando
os fatores sociais, econômicos, políticos, culturais e ecológicos.
A multiplicidade de fatores que compõem o Meio Ambiente, aliada à
diversidade de inter-relações, é suficiente para inferir um juízo
sobre a complexidade da dimensão ambiental que tem emergido como uma
crise de civilização. A constatação dessa crise não é, nem deve ser,
tão-somente a do conflito. Deve impulsionar a capacidade para colocar em
jogo todo o potencial criativo dos seres humanos, para entender que, numa
perspectiva complexa, a realidade que emerge como problemática é
qualitativa e quantitativamente mais grave que a acumulação de
problemas; é o resultado da interação entre todos eles, em um cenário
dominado pelas atuações humanas, cujos eixos legitimadores, nos campos
ético e social, têm-se mostrado ineficazes.
A questão ambiental contemporânea a complexidade dos problemas nos
desarma
A problemática ambiental contemporânea tem emergido como uma crise de
civilização. Crise que tem sido atribuída a diferentes fatores,
associados às visões que se sobrepujam na ótica daqueles que se detêm
a analisar as sociedades e suas relações. No conjunto da crise global,
que caracteriza nosso histórico momento atual, a ambiental é a mais
complexa porque se origina não só como conseqüência do modelo
civilizatório dominante, mas também porque agrava, dentro de um ciclo
danoso, os impactos negativos da própria globalização. Desta forma, a
crise ambiental é uma questão de sobrevivência, principalmente, para os
países do Sul; no Norte ela se define como ameaça à qualidade de vida.
A constatação da crise remete à certeza de que a situação exige uma
posição de todos, e todos estão obrigados a responder, como
pesquisadores, como educadores, ou como, simplesmente, cidadãos.
Enfrentar o desafio é
imprescindível, seja qual for o plano em que se situe o indivíduo. Um
dos elementos positivos da crise é a capacidade em estimular todo o
potencial criativo do ser humano; sua força provocadora para possibilitar
o surgimento de novas idéias e pôr em prática novas condutas.
Morin, Bocchi & Ceruti (1996:22-23), ao refletirem sobre os problemas
de final de século, assinalam que:
“Estamos
numa era agônica, de morte e de nascimento, onde como nunca até hoje
as ameaças convergem sobre o planeta, a sua biosfera, os seus seres
humanos, as nossas culturas, a nossa civilização. O mais trágico, ou
cômico, é que todas estas novas ameaças (desastres ecológicos,
aniquilamento nuclear, manipulações tecnocientíficas, etc.) provêm
dos próprios desenvolvimentos da nossa civilização”. (...) Trata-se
atualmente de controlar o desenvolvimento descontrolado da nossa era
planetária. A Terra-Pátria está em perigo. Estamos em perigo, e o
inimigo, podemos finalmente apreendê-lo hoje, não é outro senão nós
próprios.”
Certamente,
as alterações ambientais não constituem um subproduto exclusivo das
sociedades modernas. As alterações ambientais existem ao longo da história
das civilizações, desde o momento em que o ser humano começou o seu
inacabado processo de hominização, distanciando-se dos ciclos naturais.
O que ocorreu é que, na etapa inicial, a capacidade desestabilizadora do
ser humano não superava o poder de restauração e reequilíbrio dos próprios
ciclos naturais. As idéias acerca da inesgotabilidade da natureza, da sua
infinita capacidade de recuperação e de sua perdurável auto-regulação
eram preponderantes.
A problemática ambiental começa a aparecer, no horizonte das preocupações
do homem moderno, a partir da década de 70, do século passado, com a
advertência da extinção das espécies, dos graves problemas da
contaminação, da presença de resíduos tóxicos, dos depósitos de
metais pesados em arrecifes coralinos, da destruição de ecossistemas
inteiros, etc. E é com isto, ao tomar consciência de que a natureza não
é inacabável e infinita, que começa a constituir-se o primeiro campo de
significações para desencadear um processo de mudança (Gaudiano,
1997:16).
Em 1972, aparece o Informe do Clube de Roma sobre os limites do
crescimento The Limits to Growth questionando, abertamente,
pela primeira vez, o progresso vinculado à exploração ilimitada dos
recursos do planeta; abriu-se um profundo debate, que foi, então,
contestado por muitos. Hoje, trinta anos depois, são menos os contestatários,
quando o próprio Clube de Roma continua aportando dados sobre as dimensões
do problema La primeira revolución global o que vem situar
o debate em um momento crucial para o futuro da vida sobre a Terra (Martín-Molero,
1996: 40-41).
No período inicial de estudos sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento,
que antecedeu à Conferência de Estocolmo de 1972, multiplicaram-se as
tomadas de posições categóricas, e diametralmente opostas, em favor
de uma ou outra, das seguintes teses:
– economismo selvagem a deterioração do Meio Ambiente
constitui uma conseqüência inevitável do crescimento econômico, da
industrialização e do desenvolvimento urbano, um preço do progresso que
se deve pagar, evitando que os estragos não superem o limite tolerável;
– ecologismo sem limites a desconfiguração do planeta, as
modificações irreversíveis do clima, as contaminações de diversas
origens e esgotamento dos recursos não renováveis põem em perigo a
sobrevivência da civilização, reduzindo a qualidade de vida, até tal
ponto que seria melhor sacrificar o crescimento em favor do Meio Ambiente,
pôr freio à expansão industrial e estimular o retorno dos cidadãos ao
campo.
O grande mérito da Conferência de Estocolmo foi de invalidar as posições
tanto dos partidários do crescimento selvagem como do crescimento zero.
Reconhecendo a complexidade e gravidade dos desafios com os quais a
humanidade se debate, o Relatório Founex – 1972, as Declarações de
Estocolmo – 1972 e de Cocoyoc – 1974, fomentaram a necessidade e a
possibilidade de se projetar e implementar estratégias ambientalmente
adequadas para promover um desenvolvimento socioeconômico eqüitativo, ou
ecodesenvolvimento, mais tarde preconizado pelo Relatório Bruntland 1987,
como desenvolvimento sustentável.
O fundamental é a harmonização dos objetivos econômicos e sociais com
uma gestão ambiental prudente dos recursos e do meio. O crescimento é
indubitavelmente necessário apesar de subsistirem as desigualdades na
distribuição dos recursos e do tempo da sociedade, entre os diferentes
países e no interior de cada um deles, o que conduz a disparidades nos
ingressos, e nas condições de vida e a oposição, cada vez maior, entre
uma minoria altamente produtiva e uma maioria de marginalizados pouco
produtivos ou privados das condições necessárias para o exercício de
uma atividade significativa.
Morin, Bocchi & Ceruti (1996:7) enfatizam: “Não estamos nos primórdios
da pós-história, não estamos no fim da pré-história humana, estamos
num novo começo”. Desta forma, segundo eles, é preciso enfrentar
os imensos problemas do subdesenvolvimento do Terceiro Mundo e do próprio
subdesenvolvimento humano, psíquico e moral; as conseqüências da invasão
da tecnociência sobre a democracia, sobre a vida quotidiana e sobre o
pensamento. É preciso reaprender a ver, a conceber, a pensar e a agir,
diante da necessidade de salvar a biosfera e civilizar o mundo. Ao
concluir, destacam: “A complexidade dos problemas nos desarma. Desta
forma devemos rearmar-nos intelectualmente procurando pensar a
complexidade” (op.cit.:15).
Definindo novos rumos pensar a complexidade nas relações ambientais
A gravidade da problemática ambiental vem assim vinculada à complexidade
de suas causas e de seus resultados. É impossível tentar compreendê-la
ou resolvê-la por procedimentos analíticos, fragmentados, explicando com
leis e teorias o que é, na realidade, a crise de um paradigma.
Entender Meio Ambiente no contexto atual significa entendê-lo em termos
de relações. Existe uma variedade de concepções de Meio Ambiente e até
mesmo muita imprecisão na literatura ambientalista. Na tentativa de
esquematizálas, pode-se identificar pelo menos duas perspectivas básicas.
Por um lado, uma perspectiva “naturalista”, que restringe e privilegia
o significado de Meio Ambiente em seus aspectos físicos e biológicos,
dissociando a sociedade da natureza. Por outro lado, uma perspectiva “sócio-ambientalista”
que, além do ambiente natural, considera o meio antrópico, sujeito aos
empreendimentos condicionados essencialmente pelas relações sociais.
Nessa concepção, o Meio Ambiente assume um significado mais abrangente,
à medida que é interpretado como resultado das inter-relações da
natureza e sociedade.
Portanto, se o Meio Ambiente é um sistema complexo, requer, para sua
interpretação, um enfoque que somente se conseguirá através da superação
das diferentes perspectivas disciplinares, e não simplesmente de sua
somatória. Resulta que, para interpretar as questões ambientais, esses
conhecimentos devem ser articulados. Para isso é necessária uma
abordagem que permita gerar um conhecimento integrado, superando a simples
acumulação de enfoques científicos e técnicos.
Os problemas ambientais, como emergentes dos sistemas ambientais, não
podem ser interpretados a partir de propósitos simplistas. Há que se
superar os modelos de causalidade linear que o método científico
tradicional tem enfatizado ao longo de sua existência; é preciso tomar
novas referências e parâmetros da ciência moderna, que permitam falar
de uma causalidade circular. Descobrir, por exemplo: os mecanismos de
auto-organização dos sistemas; as relações ordem-desordem que ocorrem
dentro dos sistemas; como são geradas novas formas de ordem; etc.Tudo
isto se constitui em desafio para que se promova uma interpretação
complexa dos problemas ambientais.
A crise ambiental é uma crise planetária, uma crise de conhecimento e de
formas de conhecimento. Neste sentido, paradigmas emergem na busca da
construção de uma nova visão de mundo, de como interiorizá-lo, como
interpretá-lo, como construir novas relações igualitárias, entre
outras metas.
A crise, portanto, obriga a falar de paradigma e de mudanças de
paradigmas. O que se constata é que talvez não existam modelos
perfeitamente articulados para conduzir a um novo modo de entender o fenômeno
da vida e as relações homem-meio; o que está em evidência é que o
velho modelo tem conduzido a sociedade a uma crise global e que, a partir
de suas propostas, se faz impossível encontrar uma saída
qualitativamente distinta. Entender a crise como um fenômeno complexo,
global, emergente, que apresenta características próprias mais graves e,
também, mais desafiadoras que as manifestadas em cada um dos problemas
isolados, significa ter que se aproximar dela a partir de um novo
paradigma conceitual e metodológico que permita apressar essa
complexidade e trabalhar com ela.
O debate sobre a complexidade nasce no seio da ciência e da epistemologia
da ciência de forma totalmente separada do nascimento do movimento
ecologista, das novas concepções psicopedagógicas que se referem à
construção do conhecimento e a uma forma diferente de afrontar os
processos educativos. Estes três procedimentos tendem a percorrer
caminhos que se cruzam cada vez mais e que, em qualquer caso, parecem avançar
na mesma direção. No domínio da ciência, ou das ciências, três idéias
poderosas, de algum modo, davam a certeza de ter um conhecimento
verdadeiramente pertinente, segundo Morin (1999: 22), constituindo o
fundamento absolutamente incontestável do saber:
– a idéia de ordem – o universo obedece a um determinismo universal e
se, às vezes, parece haver nele o acaso, é que não se conhece o
suficiente;
– o princípio da separação – era inteiramente legítimo à
circunscrição de um domínio disciplinar para fazer progredir o
conhecimento sem levar em conta as interferências;
– o princípio da razão – era a coerência autentificada
especialmente pela obediência aos princípios clássicos.
O próprio desenvolvimento da ciência física, que se dedicava a revelar
a ordem impecável do mundo, o seu determinismo absoluto e perpétuo, a
sua obediência a uma lei única e a sua constituição desembocou
finalmente na complexidade do real. Descobriu-se no universo físico: um
princípio de degradação e de desordem segundo princípio da termodinâmica;
a extrema complexidade microfísica; o cosmos é um processo em vias de
desintegração e de organização simultâneas.Deste então é preciso
enfrentar a complexidade e não dissolvê-la ou ocultá-la.
O pensamento complexo para Morin (1995:9-19) é animado por uma tensão
permanente entre a aspiração a um saber não parcelado, não fechado, não
redutor e o reconhecimento do inacabado, da incompletude de todo o
conhecimento.
Os três princípios apontados por Morin que podem ajudar a pensar a
complexidade são: o princípio dialógico permite manter a
dualidade no seio da unidade; o princípio da recursão
organizacional os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo
causas e produtores daquilo que os produziu; e o princípio hologramático
não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. Mas os três
princípios estão necessariamente interligados entre si, ou seja, a idéia
hologramática está ligada à idéia recursiva, que por sua vez está em
parte ligada à idéia dialógica, enfim, o pensamento complexo exige a
reflexão circular, em detrimento da linear (op.cit.: 106-109). Morin
enfatiza ainda: “Juntai a causa e o efeito, e o efeito voltará sobre
a causa, por retroação, o produto será também o produtor” (op.cit.:
112).
Os princípios preconizados por Morin (op.cit.: 173-174), no paradigma da
complexidade, permitem, portanto, pensar a problemática ambiental
contemporânea, de modo a minimizar os estragos que as visões
simplificadoras fizeram não só no mundo intelectual, mas também, na
vida. Muitos dos sofrimentos que milhões de seres suportam resultam dos
efeitos do pensamento parcelar e unidimensional. O fundamental é um
pensamento que una; por isso a palavra complexidade, que segundo
Morin (op.cit.:33) é tão importante já que complexus significa
“... o que é tecido junto...”. Enfatiza a necessidade de
contextualizar e globalizar, na nossa era planetária, em que não há
problemas importantes de uma nação que não estejam ligados a outros de
natureza planetária, como por exemplo: o desenvolvimento técnico, o
problema demográfico, o econômico, a droga, a aids, a bomba atômica,
etc. Desta forma explicita-se a necessidade, neste início de milênio, de
um pensamento capaz de unir e diferenciar.
Para Morin & Kern (1993:137-139), “(...) a reforma do pensamento
necessária é aquela que gerará um pensamento do contexto e do
complexo”. Por “pensamento do contexto” os autores destacam
que se deve pensar em termos planetários a política, a economia, a demografia,
a ecologia, procurando sempre a “(...) relação de inseparabilidade e
de interretroação entre todo o fenômeno e o seu contexto e de todo o
contexto com o contexto planetário”. Por “pensamento complexo” ressaltam
que é necessário um pensamento que “(...) reúna o que está separado
e compartimentado, que respeite o diverso sem deixar de reconhecer o
uno, que tende discernir as interdependências(...)”. Enfrentar
problemas que comportam incertezas e imprevisibilidades, interdependências
e interretroações com extensão planetária, com descontinuidades, não-linearidades,
desequilíbrios, comportamentos caóticos e bifurcações.
Morin (1999), citado por Santos (2001:25) acredita que essa reforma de
pensamento só poderá começar na escola primária e em pequenas classes.
Segundo ele, neste nível, deve ser desenvolvido o sentido das relações
entre os problemas e os dados, aproveitando a maneira natural e
espontaneamente complexa do espírito das crianças.
A reforma do pensamento requer uma reforma na educação, portanto,
uma reforma das instituições. No entanto, as reformas do ensino não têm
logrado êxito porque se reformam as instituições sem reformar os espíritos.
D’Ambrósio (1997) destaca que o conhecimento disciplinar evoluiu para a
multidisciplinaridade, praticada nas escolas tradicionais, e para a
interdisciplinaridade, ainda difícil de ser conseguida, porém o avanço
efetivo é a transdisciplinaridade.
Por fim torna-se importante ressaltar que “o Paradigma da Complexidade
surgirá do conjunto de novas concepções, de novas visões, de novas
descobertas e de novas reflexões que vão conciliar-se e juntar-se” (Morin,1990:112);
os princípios do pensamento complexo serão necessariamente princípios
de distinção, de conjunção e de implicação.
Referências Bibliográficas:
D’AMBRÓSIO, Ubiratan. (1997): Transdisciplinaridade. São Paulo:
Palas Athenas.
GAUDIANO, Edgar González. (1997): Educación Ambiental: história y
conceptos a veinte años de Tbilisi. México: Thalpan, Sistemas Técnicos
de Edición.
MARTÍN-MOLERO, F. (1996): Educación Ambiental. Madrid: Síntesis.
MORIN, Edgar. (1990): Introdução
ao Pensamento Complexo. 2a
ed. Trad. Dulce Matos.
Lisboa: Instituto Piaget. Epistemologia e Sociedade, n.2.
MORIN, Edgar. (1999): Por uma Reforma de Pensamento. In: PENA-VEGA,
Alfredo; NASCIMENTO, Elimar Pinheiro. O pensar complexo: Edgar Morin e
a crise da modernidade. Rio de Janeiro: Garamond.
MORIN, Edgar; BOCCHI, Gianluca; CERUTI, Mauro. (1996): Os problemas do
fim do século. 3a
ed. Trad. Cascais Franco.
Lisboa/Portugal: Editorial Notícias.
MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. (1993):
Terra-Pátria. Trad. Armando Pereira da Silva. Lisboa: Instituto
Piaget. Coleção Epistemologia e Sociedade, n.5.
SANTOS, Elizabeth da C. (2001): Educação Ambiental e Festas Populares
– Um estudo de caso na Amazônia utilizando o Festival Folclórico de
Parintins (AM). Tese de Doutorado. Cuiabá: UFMT.
NOTAS:
*
Universidade Federal do Amazonas.
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