Ainda tem muita
história para contar e muita estrada para andar
Ricardo Bernardes*
Nas
comunidades pobres, ¼ dos jovens entre 15 e 24 anos não completam oito
anos na escola, uma parte significativa se envolve com o tráfico de drogas
e, num número cada vez mais assustador, alguns acabam sendo vítimas de
assassinatos.
A nossa comunidade não é diferente de outras favelas do Rio de Janeiro:
crianças e jovens crescem neste ambiente, acostumados com a banalização da
vida; vivem em habitações pra lá de desconfortáveis; alguns catam comida
no lixão da CEASA: outros vivem do subemprego, outros tantos do trabalho
muito mal remunerado. Há também quem viva do dinheiro ilícito do tráfico.
Dentro deste caldeirão, estão algumas escolas públicas.
Muitas dessas escolas estão percebendo que a sua clientela cada vez mais
sofre todas essas influências, que a incomodam tanto que a distanciam do
espaço escolar. Foi pensando assim que nós, professores do CIEP Dr. Adão
Pereira Nunes, percebemos que era preciso fazer algo mais. A escola
precisa ser prazerosa, garantir os sonhos e propiciar a possibilidade de
que os alunos se apropriem dos saberes universais, que os ajudarão a
situar-se na sua história.
Analisando o trabalho desenvolvido pela escola percebemos que o projeto
político-pedagógico acertadamente apontava para trabalhar com a
identidade. Sabíamos que era necessário situar este aluno no mundo e que
ele se entendesse enquanto cidadão desse universo. Magnífico! No entanto,
apesar de todos os esforços dos professores e direção, a escola amargava
um índice ainda muito alto de evasão e repetência. Nas avaliações, estas
situações eram detectadas, mas precisávamos de algo maior para envolver
toda a escola. Foi pensando numa saída que propusemos no dia 7 de
fevereiro de 2001 a criação da TV Pedagógica do CIEP Adão. Este projeto,
desde o princípio, teve como objetivos: trabalhar a auto-estima do aluno,
professor e comunidade; facilitar o uso das novas tecnologias e, na
construção dos trabalhos de mídias, buscar, na relação do grupo, um espaço
de participação e reflexão.
Inicialmente, todos os professores gostaram do projeto, alguns se
engajaram de imediato, outros ficaram reticentes, esperando por um novo
fato que comprovasse a possibilidade de um ato tão ousado. Durante seis
meses, o projeto foi exaustivamente discutido. Publicamos, em julho de
2001, na primeira edição impressa do jornal Informadão, um resumo com os
principais objetivos do projeto. E isto contribuiu para que o nosso
projeto fosse publicamente especulado, refletido, negado e, logicamente,
ampliado. Já era um debate interno do CIEP Adão. Trocamos idéias com
várias escolas de nossa rede. Desta forma, encontramos um caminho para o
debate. Participamos de mesas-redondas, reuniões com alunos, pais e
responsáveis, com outras escolas, encontros com CREs, Secretaria de
Educação e MultiRio, canais de televisão, associação de moradores,
universidades e, nesta troca, enriquecemos nossa proposta.
Hoje temos que lidar com vários desafios! Como compreender os impactos dos
avanços tecnológicos na sociedade? E a escola poderá contribuir para que
nossas crianças se tornem usuárias críticas e criativas dessas tecnologias
ou meras consumidoras de enlatados?
Trabalhando com as mídias
Durante o processo de discussão inicial do projeto, resolvemos
intensificar o trabalho com as mídias. Trabalhamos com a novela O Cravo e
a Rosa. Alguns capítulos eram apresentados em sala de aula e diversas
reflexões e atividades foram propiciadas a partir deste material.
Trabalhamos época, costumes, sociedade, economia e os marcos, que
precisamos fortalecer, da alfabetização. Fizemos pesquisas com os alunos
para entendermos o que eles assistiam na TV, que tipo de escolhas faziam
nos momentos que estavam em suas casas. Também trabalhamos com jornal.
Através de um artigo de nosso jornal, tornamos públicas algumas técnicas
que estavam sendo utilizadas em sala de aula. Assim começou o nosso
envolvimento com as novas tecnologias. A partir desta leitura do mundo da
comunicação, a que o nosso aluno teve acesso, fomos descobrindo novos
caminhos para a nossa proposta de trabalho.
A resistência inicial foi transformada num grande mutirão, no qual todos
os atores deste processo (aluno, professor, direção, funcionário,
comunidade) passaram a ter um compromisso e um envolvimento muito maior. A
primeira edição do jornal foi feita com recursos de uma grande mobilização
dos professores e comunidade. Fizemos um festival de pipoca com guaraná
para arrecadar os recursos que precisávamos para pagar a gráfica. Diante
do sucesso do trabalho e da amplitude que tinha o projeto, a visibilidade
através do jornal fez com que difundíssemos na comunidade, em maior
escala, a nossa intenção.
Os alunos começaram a lidar com os equipamentos de vídeo que a escola
dispunha em sua sala de leitura. Começaram a se ver na tela da televisão.
Passaram a produzir imagens. Nos primeiros trabalhos, colher a imagem
deles era muito difícil. Todos queriam ficar diante da câmara, todos
queriam acenar, mandar beijos para a mãe...
Conversando com o professor Túlio da E. M. Arthur da Costa e Silva, amigo
e parceiro, comentei sobre isto. Ele explicou que isto era muito normal,
depois de um certo tempo mudaria e tudo seria mais natural. E foi o que
aconteceu. Mas o impacto do primeiro momento foi de surpresas e
aprendizados, que marcaram a nossa caminhada. Uma determinada aluna,
depois de várias tentativas nossas no sentido de ela se arrumar, cuidar do
corpo, lavar e pentear os cabelos, quando percebeu sua imagem pela
primeira vez no vídeo, perguntou surpresa: –Eu sou assim? Gente! Olha o
meu cabelo... e no dia seguinte apareceu toda arrumada e com os
cabelos penteados. Ela agiu como qualquer pessoa agiria diante do video,
mas este momento mudou sua vida. Começou até a dizer que vai ser
jornalista.
Os avanços na proposta
O jornal
Informadão ganhou
vida própria.
Este nome já existia na escola há cinco anos. Era um boletim mimeografado.
Tinham sido publicados quatro números e depois o jornal parou de ser
feito. A elaboração deste boletim foi uma iniciativa das professoras
Eliane, Elizabeth e Sueli. Achamos o nome fortíssimo, entendíamos que não
precisávamos criar outro nome, mas dar outro formato. Imprimir o primeiro
Informadão (julho de 2001) foi o
jeito que encontramos para discutir a TV; no entanto, o jornal, já no seu
número dois (setembro), avançou para a comunidade e para a rede municipal.
Passamos a utilizar o jornal não só para divulgar os nossos projetos, mas
para trabalhar com a imagem dos nossos alunos e documentar alguns fatos de
nossa rede. Assim também foi o número três (dezembro).
O CIEP Adão, no ano de 2002, recebeu mais de 15 professores novos,
originários do último concurso. No início do ano letivo, foi necessário
diminuir o ritmo para integrar este novo grupo ao projeto. Uma parte do
grupo foi atraída pela possibilidade de um trabalho diferente na escola,
isto foi muito bom. Alguns já estavam predispostos a engajar no trabalho.
Algumas professoras choravam quando chegavam em casa, por estarem dando
aula pela primeira vez e por ser uma comunidade como a nossa.
Infelizmente, ainda existe um enorme abismo entre a escola que os cursos
de formação de professores idealizam e o mundo real da escola pública.
Neste mesmo momento, recebemos alguns alunos originários de outras
escolas. Ainda não conheciam o nosso ritmo. Percebi que nos dois primeiros
meses tudo andou mais devagar. No entanto, graças à persistência de um
grupo, logo alguns dos novos professores já estavam completamente
integrados com os seus alunos e com o projeto. E novamente voltamos com
outra edição do jornal Informadão (maio).
O amadurecimento do trabalho proporcionou uma surpresa para esta edição de
maio, os alunos estavam cobrando da gente cada vez mais espaço dentro do
jornal. Percebemos que tínhamos que canalizar esta intenção. Foi então que
surgiu o encarte dentro do jornal, chamado Tagarelando. O jornal
Tagarelando (nome escolhido pelos alunos), como ele ficou conhecido, na
realidade consiste nas páginas 4 e 5 (centrais) do Informadão e neste
espaço o aluno decide a pauta, faz e escolhe textos, desenhos e
fotografias. Tudo realizado por eles. Em setembro (Informadão 5) esta
tendência teve continuidade. Percebi que tínhamos a necessidade de
provocar algumas situações para facilitar o texto dos alunos. Juntamente
com as professoras Lúcia e Karina usamos o jargão “Ninguém merece...” para
criar uma parte do jornal que ficou leve e bem-humorada e foi muito bem
acolhida por alunos de outras escolas. “Ninguém merece comer cebola
cortada” disse o aluno Ramon, da 3ª série. Esta frase provocou muitas
gargalhadas de alunos de várias escolas.
A TV e o vídeo
Passamos a aprimorar o conhecimento sobre o uso dos equipamentos. Através
de várias iniciativas, passamos a estudar a melhor forma de usar a câmera
de TV. Fizemos um primeiro material de vídeo inspirado em uma campanha
publicitária iniciada em nosso jornal, após a morte de um aluno da escola,
atropelado na avenida Brasil. Apesar de os pais pedirem para que os alunos
atravessem a passarela, eles próprios não davam o exemplo, arriscavam a
vida na travessia. Então, um grupo de alunos do grêmio foi até a passarela
fazer uma reportagem. Estes alunos filmaram alguns moradores atravessando
entre os carros e fizeram perguntas sobre o assunto. Conseguiram colher
imagens ótimas. Segundo a aluna Gabriele “nunca eles tremeram tanto em
suas vidas”. O trabalho até não ficou muito bem finalizado, mas serviu
para dar um gostinho na boca dos alunos. A professora Cássia, da sala de
leitura, acompanhou este trabalho. Depois de colhidas as imagens, nos
reunimos com todos os participantes para avaliarmos o material.
O trabalho foi crescendo e buscando caminhos e soluções inovadoras. No
início, alguns alunos que vivem no grupo de risco social foram convidados
para conhecer e manipular a câmera de TV. Aprenderam a lidar com o vídeo,
TV, máquina fotográfica e a colher algumas imagens com a nossa câmera
Super VHS. No início (ano de 2001) não tínhamos uma preocupação com o uso
mais apurado, queríamos o básico.
Com esta caminhada, conquistamos o apoio da Secretaria Municipal de
Educação juntamente com a MultiRio, que é uma empresa de multimeios que
serve de suporte para as ações de mídia da secretaria. A MultiRio produz
publicações, sites e programas de TV. Com este apoio passamos a buscar
mais conhecimentos para consolidar o projeto. Outros professores foram
agregrandose ao projeto.
Simplesmente Acari
Em dezembro de 2001, a MultiRio organizou o Projeto Carta Animada pela
Paz, que tinha como objetivo produzir um trabalho para o Dia Internacional
da Criança na Mídia (12 de dezembro). A proposta, que é uma iniciativa da
UNESCO, visa criar oportunidade para que crianças do mundo inteiro possam
expressar-se livremente através dos meios de comunicação. Lá na MultiRio,
Patrícia Alves, responsável pela área artística, resolveu visitar o CIEP
Dr. Adão e conhecer o nosso trabalho. Em decorrência dessa visita, iríamos
realizar um trabalho neste sentido.
Patrícia pediu para conversar com o grêmio estudantil que estava
totalmente integrado no projeto e, a partir daí, perguntou o que eles
gostariam de dizer para o mundo. A conversa rolou com todos sentados no
chão, superdescontraídos, e os alunos afirmaram e reafirmaram o que
gostariam de falar sobre violência familiar.
Estavam lançadas as bases para o trabalho que, depois, foi intitulado
“Simplesmente Acari”.
O projeto Carta Animada para Paz previa uma ação que envolvesse uma escola
que já trabalhasse com mídia (no caso o CIEP Adão) e outras duas que não
tivessem experiência com este trabalho. Partindo desta premissa, fizemos a
opção por duas escolas que trabalham com clientela similar a nossa: a
comunidade do complexo de Acari. Acompanhamos o grêmio estudantil do Adão
até o CIEP Zumbi dos Palmares e lá procuramos também o grêmio, depois
fomos a E. M. Charles Anderson Weaver e conversamos também com o grêmio.
Com a aprovação do assunto pelos três grêmios, e em todos os momentos
deixando a opinião dos alunos aflorar, ficou combinado que estes,
juntamente com os professores de cada escola, escolheriam alunos que
estivessem no grupo de risco social e dificuldade de aprendizado. Fizemos
uma escolha que envolvesse os dois e o grupo constituído passou o dia
inteiro junto com alguns profissionais da MultiRio e uma equipe de
professores dos CIEP e num trabalho de oficina aprenderam como construir
uma sinopse, roteiro, como animar os seus desenhos... Tudo aconteceu na
quadra poliesportiva CIEP Zumbi dos Palmares. Na parte da manhã,
aconteciam as oficinas, na parte da tarde, a realização prática. As
tarefas foram divididas entre 30 alunos que desenhavam. O grupo de alunos
da TV CIEP Dr. Adão filmou toda movimentação do dia e a MultiRio filmou
todos. O trabalho só foi interrompido para o almoço e lanche. Todos os
alunos, numa só alegria, produziram como nunca. Durante o dia, outros 80
alunos passaram pela quadra. Observavam curiosos, participavam também das
animações nas mesas de desenho que não estavam sendo utilizadas,
olhavam-se no vídeo... A lição foi boa. Aprendemos que é possível buscar
um outro caminho dentro da escola. É preciso que nos apropriemos de outras
ferramentas para vencer os desafios de nossa sala de aula.
Finalizamos o trabalho em janeiro na MultiRio. Os alunos, em nenhum
momento, quiseram som para os personagens. Depois de muito refletir,
entendemos a mensagem. Eles não queriam vozes, mas o som do bêbado
chegando em casa, o som do pai que só conversa com o filho para brigar.
Percebemos que, muitas vezes, falta a palavra no relacionamento familiar
e, se a gente não se der conta, pode faltar até na escola.
As oficinas de TV, vídeos, informática, livros, desenhos, animação e os
sonhos
Percebemos que as oficinas eram momentos mágicos para todos, professores e
alunos. A hora passa muito mais depressa e sempre fica o gostinho de
querer mais. Com isto, mudamos o formato das atividades. A sala de leitura
passou a oferecer oficinas e a tornar o trabalho com os alunos muito mais
dinâmico. Eles passaram a aprender algo, desde “mexer” no vídeo e na
televisão até a elaboração de um roteiro. Trabalharam com carvão, pastel
seco, pastel oleoso e lápis. Descobriram na informática uma importante
ferramenta para finalizar os seus trabalhos. Aprenderam o que é um segundo
no desenho animado, aprenderam como o seu desenho ganha movimento, voz,
som... Descobriram que através do jornal eles podem dizer o que pensam,
mostrar o seu olhar do mundo. Descobriram de que são capazes.
Precisamos dar asas para que, na ficção, os fantasmas que assustam o sono
e sonho de nossas crianças sejam afastados. É, necessitamos, acima de
tudo, dar voz para que os alunos expressem os seus sentimentos, as suas
emoções e as suas reflexões. É na escola que vamos desconstruir a cultura
da violência que tanto nos aflige. É certo que, com esta atividade, não
afastamos os medos totalmente de suas vidas, porém, é bem certo que
fortalecemos os seus sonhos. Não sei se é o nosso olhar precipitado
querendo enxergar mudanças, mas acreditamos que os nossos alunos
escritores saíram, dessa aventura, fortalecidos e percebendo que
cresceram.
Educação de qualidade sim... o resto é silêncio (Texto do professor
Ricardo Bernardes, publicado no Informadão setembro de 2002)
Educar com qualidade. Este é o nosso principal desafio. Temos que prestar
contas à sociedade brasileira que tem sofrido agruras com a globalização,
desemprego, miséria e muito mais violência. Bem certo é que a nossa
herança histórica propiciou grande parte da miséria vivida pelas massas
dos excluídos. No entanto, a agonia chegou ao limite.
Enquanto a dor e o sofrimento estavam presos aos porões fétidos da
escravidão, aos massacres dos “sem terra”, às crianças morrendo
subnutridas e doentes, as classes mais privilegiadas suportavam muito bem
o modelo econômico, a corrupção e a internacionalização de nossa economia.
A sociedade não dava a mínima para o fato de o escravo liberto não ter
direito de possuir terra ou, mais recentemente, ao abandono da criança
pobre que não conseguia ingressar na escola. Bastava garantir seus
direitos individuais, que as decisões políticas por mais excludentes, que
fossem eram referendadas. Atravessamos mais de cem anos de história
pensando assim, vivendo para garantir os próprios interesses e as palavras
fraternidade e solidariedade perderam o seu significado: ora eram
resumidas às ações paternalistas, ora eram usadas para garantir currais
eleitorais e para desencargos das consciências cristãs. Nesse longo
caminhar, a classe política e a elite empresarial conseguiram dividir o
bolo entre eles muito bem, mas deixaram milhões de brasileiros fora da
festa, afastados das decisões e vítimas da exclusão social.
Hoje, as calçadas, os becos, os estampidos de tiros nos centros urbanos
mostram um Brasil diferente das varandas, dos pipoqueiros, das
brincadeiras de ruas e do medo de assombração. É unânime a constatação de
que o caos está instalado nestes centros e que ninguém em sã consciência
deseja perpertuar esta desordem.
Todos os setores da sociedade hoje têm um entendimento, que é consenso:
para mudar este país cabe aos governos investimentos sérios em educação.
Disso não temos dúvida, mas urge, neste momento, que a nossa função social
ganhe um destaque nas prioridades nacionais e que nós, educadores, façamos
uma reflexão criteriosa sobre que tipo de educação é capaz de contribuir
para a reestruturação de nossa sociedade.
Clamamos por uma educação de qualidade, a única capaz de ter eficácia numa
sociedade tão desestruturada moralmente como a nossa. E perguntamos: o que
é educar com qualidade? Uma reflexão aqui se faz necessária.
É fundamental que toda sociedade compreenda que educar é uma tarefa
coletiva e que governo, sociedade, ONGs percebam que o espaço da escola
pública precisa ser fortalecido e que a credibilidade dos profissionais de
educação seja garantida. Parcerias são necessárias para desenvolvermos um
projeto sério de escola pública com qualidade social, no qual os excluídos
possam dominar as novas tecnologias, possam expressar-se livremente e que
se tornem donos de suas ações e pensamentos.
Estamos buscando a educação de qualidade sim... O resto é silêncio.
Simplesmente Acari no Festival do Rio BR-2002 (Publicado
no Jornal
Informadão – setembro de 2002)
A febre do desenho animado no CIEP Dr. Adão Pereira Nunes, que teve seu
início em dezembro de 2001 quando um grupo de alunos produziu o desenho
animado Simplesmente Acari, continua rendendo bons resultados. Na
ocasião, os alunos do Adão uniram-se aos do CIEP Zumbi dos Palmares e da
E. M. Charles Anderson Weaver e resolveram usar a linguagem do desenho
animado para dizer para o mundo como é o drama de uma família que sofre
com a violência do alcoolismo e da droga. Simplesmente Acari
retrata a violência doméstica que atinge diretamente a infância, mas
termina com um final feliz.
Esta obra é fruto do Projeto Carta Animada pela Paz, que a MultiRio vem
desenvolvendo desde o ano passado.
“Simplesmente Acari é um marco na educação pública brasileira, pois
em breve o desenho animado será mais um instrumento que os professores
usarão para garantir um maior desenvolvimento do aluno”, afirmou Carmen
Lúcia Pinheiro S. da Silva, professora da 3ª série do CIEP Adão.
O curta-metragem será exibido no Festival do Rio BR-2002, além de estar
inscrito em festivais internacionais como o de Annecy, na França, e o de
Ottawa, no Canadá.
A MultiRio, através da produtora de desenho animado Patrícia Alves,
organizou oficinas com alunos e professores. Patrícia, no intuito de ver
este trabalho multiplicado, dedicou-se inclusive aos sábados na formação
de um grupo de professores animadores. “Hoje a escola ganhou cor e
movimento” – comenta a professora Cristina, que está preparando um desenho
animado partindo de uma parlenda.
No CIEP Adão, vários professores foram preparados para trabalhar com
oficina de animação e já atuam com seus alunos. Vale ressaltar que, além
do CIEP Adão, há o empenho de Ana Rosa que é coordenadora pedagógica e das
professoras Verônica e Márcia que, no CIEP Zumbi dos Palmares, estão
fazendo animação com suas crianças.
A BRUXA QUE ROUBAVA SONHOS (Maria do Socorro Ramos de Souza – Diretora/DED
- 6ª CRE – Este texto é parte do prefácio do livro A BRUXA QUE ROUBAVA
SONHOS)
“Era uma vez uma turma de Progressão do CIEP Dr. Adão Pereira Nunes, do
Bairro de Acari. Eram meninos e meninas de 9 a 13 anos, em processo de
alfabetização que, orientados pelo professor Ricardo Bernardes, resolveram
escrever um livro.
Tudo começou assim...
As crianças conversaram muito sobre medos e sonhos. Uma conversa puxava a
outra. Uma idéia puxava outra. Leram livros... Cada um falava de seus
medos e de seus sonhos.
E que medos!!! E que sonhos!!!
Fizeram listagens de todos os medos e sonhos da turma. E quiseram também
escrever um livro. Deles. De seus medos e de seus sonhos. Sob a orientação
do professor, foram criados os personagens: os medos, concretizados na
bruxa e os sonhos, na fada.
Trabalho suado, exaustivo. Dias e dias de escritas e reescritas; de
composições gráficas para ilustração do texto; de atividades individuais e
coletivas; de debates e negociações entre professor e turma o que seria
realmente importante para entrar na história?
Como caracterizar o personagem?
A bruxa recebeu todas as palavras dos medos da garotada (quase uma
catarse!!!).
E a escolha dos desenhos?
E o tipo de narrativa?
A história tomou forma e se constitui num relato de experiências, de
vivências da escola e da vida.
Da escola, a contextualização da receita, o projeto da dengue, a conversa
com os responsáveis, a visita ao Instituto Oswaldo Cruz, o bilhete das
mamães, e... por aí vai. É o saber formalizado na escola.
Da vida, o relato e as expressões fortes, a subjetividade ao final da
história...
E onde a fada? A fada acabou não entrando na história. A bruxa era mais
forte no cotidiano da garotada. Não havia espaço para fadas. Sonhos, quem
sabe? Para eles são apenas para serem sonhados. Onde a concretude? Talvez
nos próximos livros...
E foi assim que se deu o ato de aprender a ensinar... E foi assim que se
deu a interação professor-aluno... E foi assim que se deu a aquisição da
leitura e da escrita...”
NOTAS:
* Professor do CIEP
Dr. Adão Pereira Nunes e Coordenador do Projeto TV Pedagógica.

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