CARDÁPIO DE PROJETOS

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Apresentação

 Vinicius Signorelli*

“(...) a pessoa inteligente dirige a sua conduta mediante projetos, e isso permite-lhe aceder a uma liberdade criadora.”(...) Criar é submeter as operações mentais a um projeto criador” (Teoria da Inteligência Criadora, José Antonio Marina, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, p.168.)

Na semana de 21 a 25 de outubro, o programa Salto para o Futuro, da TV Escola, estará apresentando a série Cardápio de projetos. O objetivo da série é dedicar uma semana à divulgação de idéias sobre projetos e discutir a importância deles para a educação. E, ainda, dar sugestões sobre formas de criar, planejar e implementar projetos.

Durante os primeiros anos da década de 90, ganhou grande destaque a idéia de que, na maioria das atividades profissionais, o trabalho pode ser organizado de duas formas diferentes e que se complementam. De um lado, encontram-se as atividades funcionais cotidianas, aquelas que estão relacionadas a uma rotina associada ao funcionamento da instituição em que se trabalha; de outro lado, encontram-se os projetos, que são atividades criadas e planejadas com um propósito bem determinado (o projeto em si ou seus objetivos) e que têm sempre uma duração temporal fixa, ou seja, uma vez atingidos os objetivos, o projeto termina.

O que é um projeto? Quais são as características básicas de um projeto? O que diferencia um projeto de outras atividades profissionais? Quais são as providências essenciais a tomar durante a criação, planejamento e gestão de um projeto?

Vamos discutir o conceito de projeto e a capacidade humana de fazer projetos. Uma discussão inicialmente ampla, tomando idéias de várias áreas de atuação, e que considera os projetos educativos como um exemplo entre outros. O objetivo principal é apresentar a idéia de que a capacidade de pensar e realizar projetos é o que diferencia os seres humanos de todos os outros seres vivos. Pretende-se mostrar, além disso, que na escola os projetos são utilizados pelos professores como estratégia de ensino, mas devem também ser considerados conteúdos da educação. Ou seja, os alunos de Ensino Fundamental devem saber como se faz para criar, planejar e implementar um projeto.

Traremos para a discussão os projetos de escrita, como são propostos por educadores brasileiros que têm sido responsáveis pela realização de projetos nas escolas. Os diferentes tipos de texto e suas funções sociais ganham relevância no trabalho por projetos. 

Vamos  enfocar os projetos como estratégia de ensino e como conteúdo de aprendizagem. O conteúdo diz respeito também à formação de professores e alunos. Um dos objetivos do trabalho com  projetos na formação de professores é que eles se apropriem da capacidade de criar, planejar e implementar projetos em sala de aula. A experiência do Programa Escola que Vale, criada a partir de uma parceria entre o CEDAC – Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária e a Fundação Vale do Rio Doce, denominada Cardápio de Projetos, será um dos temas da discussão.

 Abordaremos o tema projetos didáticos, que são propostas que partem de um desafio, de uma situação-problema. Na maioria dos casos, estes projetos envolvem mais de uma área do conhecimento, sendo portanto interdisciplinares.

Vamos mostrar e discutir projetos em que os alunos realizam ações sociais fora da escola, enfatizando a relação escola/comunidade. A idéia é também mostrar como os próprios alunos se apropriam do conceito de projeto para dar vida às suas idéias.

Programas que serão apresentados nesta série:

PGM 1: Projetos: estratégia de ensino e conteúdo de aprendizagem

Este primeiro programa da série Cardápio de projetos pretende abordar o tema projetos de uma forma ampla, procurando estabelecer algumas conexões entre o mundo do trabalho fora da escola e a presença dos projetos como uma vertente do trabalho pedagógico desenvolvido em nossas escolas.

PGM 2: Os projetos e a escrita

Este programa tratará dos projetos de escrita, considerando que uma das funções sociais da escola é a inserção dos alunos no mundo letrado e na sociedade contemporânea fortemente influenciada pela cultura audiovisual. O papel do(a) professor(a) será enfatizado na perspectiva da mediação no trabalho por projetos.

PGM 3 : Projetos: formando alunos e professores

Neste programa, vamos discutir a formação profissional dos(as) professores(as) em função do desafio de colocar os projetos em prática na sala de aula, como estratégia de ensino. O projeto é visto como estratégia de ensino e como conteúdo da aprendizagem. O conteúdo diz respeito à formação do(as) professores(as), e um dos objetivos desta formação é que ele(as) se apropriem da capacidade de criar, planejar e implementar projetos em sala de aula.

PGM 4:  Projetos didáticos no Ensino Fundamental

Vamos abordar, neste programa, os projetos didáticos como situações que partem de um desafio, uma situação-problema, e  que sempre têm como um de seus objetivos um produto final. Na maioria dos casos, tais projetos envolvem mais de uma área de conhecimento sendo, portanto, interdisciplinares.

PGM 5: Projetos – a escola e o mundo

Neste programa, serão mostrados e discutidos projetos em que os alunos realizam ações sociais fora da escola. A idéia é também mostrar como os próprios alunos se apropriam do conceito de projeto para dar vida às suas idéias. Dessa forma, eles estão colocando em prática o trabalho com a ética nas relações humanas e investindo na formação cidadã.

 

Trabalhando com projetos:
texto básico para a discussão de todos os programas da série

O que são projetos?

São inúmeras as atividades humanas nas quais, atualmente, a idéia de projetos está colocada como uma nova forma de organizar e realizar as atividades profissionais.

Profissionais dotados de maior autonomia para tomar decisões, valorização do trabalho em grupo, desenvolvimento de vínculos de solidariedade e aprendizado constante são algumas das características incentivadas pela realização de projetos de trabalho. Em uma equipe que trabalha com vistas a realizar um projeto, são mais importantes a solidariedade e o cuidado com a contribuição de cada um para o todo, do que os níveis hierárquicos. A questão não é quem manda em quem, mas se o projeto está se tornando realidade.


Entendendo a idéia de projeto


A palavra projeto tem sido muito utilizada em várias áreas de atuação profissional. Nas escolas, falar em projeto pedagógico já se tornou moda há algum tempo. Mas, afinal, o que é um projeto? Qual das afirmações a seguir você acha mais correta?

Projeto é intenção, pretensão, sonho: “Meu projeto é comprar uma casa”.

Projeto é doutrina, filosofia, diretriz: “Meu projeto de país é muito diferente”.

Projeto é idéia ou concepção de produto ou serviço: “Estes dois carros são projetos muito semelhantes”.

Projeto é esboço ou proposta:
“Todos têm o direito de apresentar um projeto de lei ao Congresso”.

Projeto é desenho para orientar construção:
“Já aprovei e pedi ao arquiteto que detalhasse o projeto”.

Projeto é empreendimento com investimento: “A Prefeitura vai construir novo projeto habitacional”.

Projeto é atividade organizada com o objetivo de resolver um problema:
“Precisamos iniciar o projeto de desenvolvimento de um novo motor, menos poluente”.

Projeto é um tipo de organização temporária, criada para realizar uma atividade finita:
“Aquele pessoal é a equipe do projeto do novo motor”.

Todas as definições são corretas e abrangem significados do termo projeto. Neste texto, interessam os dois últimos, que definem projeto do ponto de vista do gerenciamento e administração. Projeto é atividade organizada, que tem por objetivo resolver um problema.

Uma importante distinção: projetos são diferentes de atividades funcionais.

Atividades funcionais são regulares (repetem-se sempre do mesmo modo, com pequenas variações) e são também “intermináveis”, ou seja, não têm perspectiva de serem finalizadas.

Já os projetos têm as seguintes características:


ü
  Objetivo definido em função de um problema, cuja solução é o critério para definir seu grau de sucesso.

ü
  Em geral, são realizados em função de uma necessidade específica, um problema.

ü  São finitos: têm começo e término programados. Solucionado o problema, o projeto termina.

ü
  São “irregulares”, ou seja, fogem da rotina.

Optar pela criação e implementação de um projeto, para resolver determinado problema que se tem pela frente, é uma decisão gerencial, que depende de critérios. No transcorrer do trabalho cotidiano, os profissionais envolvidos percebem problemas que atrapalham o bom desenvolvimento das ações. Esse é um exemplo de situação em que a criação e implementação de um projeto podem ajudar a resolver um determinado problema e, em conseqüência, colaborar de maneira decisiva para o trabalho em geral.

Um exemplo real: Em uma escola estadual da periferia da cidade de São Paulo, professores e direção constataram a necessidade de melhorar muito os serviços da cantina. Organizaram a partir daí um “projeto para nova cantina”. Em seguida, escolheram a comissão de educadores e pais que iria implementar o projeto. Em poucas semanas, a equipe já havia organizado uma concorrência para admitir novos administradores para a cantina. Com o esforço pessoal da diretora da escola, a comissão conseguiu uma verba junto à Secretaria de Estado da Educação para a reforma da cantina. Depois de três meses, a nova cantina já estava em funcionamento. É importante ressaltar que a verba foi conseguida pela escola graças a uma pesquisa anterior dos participantes do projeto. Pesquisando junto aos órgãos da Secretaria, o grupo descobriu que havia um fundo destinado à construção ou reforma de cantinas e outros equipamentos escolares. Essa experiência ilustra bem uma das características de um bom projeto, ou seja, a capacidade de conseguir os recursos materiais, financeiros ou humanos necessários para a sua conclusão.

A equipe de educadores de uma escola, além de considerar os projetos do ponto de vista didático, deve sempre estar atenta para os diversos problemas que existem ou surgem no trabalho e que podem ser resolvidos com a criação e implementação de um projeto.


Problemas comuns na implementação de projetos


Nenhuma abordagem, por mais sofisticada, assegura o êxito de um projeto. Muitas vezes, um detalhe põe tudo a perder. Há problemas que devem ser evitados:


ü
  Objetivo confuso. Projeto com objetivo confuso tem alta probabilidade de fracasso. Não se sabendo onde se deve chegar, não se chega a lugar nenhum. O objetivo confuso pode ter várias origens: 1. O problema não foi estudado e entendido corretamente. Houve pressa em iniciar, sem clareza do problema. 2. Coordenador e equipe não entendem o problema e fazem suposições incorretas sobre o resultado a ser alcançado. 3. Objetivo claro, mas não coerente com o problema. O resultado a ser alcançado é incompatível com o problema.


ü
  Execução confusa. As condições de execução tornam-se confusas nas situações a seguir: 1. As regras de decisão são imprecisas. Não há políticas nem procedimentos para resolver problemas e conflitos. 2. Autoridade e responsabilidade estão indefinidas. Não se sabe direito quem tem poderes e atribuições para quê. 3. Atividades não são coerentes com o objetivo. Isso pode ocorrer mesmo quando o problema e o objetivo são coerentes. 4. A previsão de recursos é incoerente com as atividades. Os recursos podem ter sido subestimados ou superestimados. 5. A atividade avança muito sem que pelo menos as intenções básicas do projeto estejam bem definidas.

ü
  Falhas na execução: Projetos podem ser muito bem planejados e organizados, mas isso ainda não é garantia de sucesso. Podem ocorrer falhas na execução. Uma das mais comuns é a seguinte: um detalhe vital não funciona e põe tudo a perder, simplesmente porque todo mundo achou que era importante demais e que outra pessoa iria cuidar daquilo.

Condições para o êxito


A experiência mostra que as seguintes condições afetam positivamente a probabilidade de sucesso do projeto:


ü
  Definição do problema. Projetos bem sucedidos, de forma geral, são definidos a partir do problema a ser resolvido e da clareza com que se define a solução do problema. O mais importante é definir com clareza os objetivos do projeto. Uma vez decidida a realização de um projeto, deve-se discutir exaustivamente como o problema pode ser resolvido e as características do resultado final, descritas nos objetivos do projeto ou em suas metas. Sempre que possível, o próprio título do projeto deve indicar as características do resultado final. Por exemplo: reforma, instalação e colocação em funcionamento da cantina escolar. Quanto mais tarde se deixa para realizar essas discussões e definições, mais difícil se torna a implementação do projeto.

ü
  Envolvimento da equipe. Quanto mais o projeto representa um desafio para a equipe envolvida, maior é a probabilidade de que venha a ter sucesso. Projetos bem sucedidos criam na equipe uma sensação de propriedade: “Este é o nosso projeto, o problema que temos de resolver”.

ü
  Planejamento. Projetos bem sucedidos são muito bem planejados. Uma vez estabelecidos os planos, no entanto, a equipe tem grande liberdade para executá-los. A probabilidade de o projeto ter sucesso aumenta se durante a sua implementação houver um cronograma de providências e resultados bem elaborado, a partir do qual, os participantes possam controlar o bom andamento dos trabalhos em direção aos resultados previstos. Outro fator que contribui com o sucesso de um projeto é procurar prever problemas que possam surgir em sua implantação e, com a antecedência necessária, preparar-se para resolvê-los, caso eles realmente aconteçam. Existem projetos que necessitam de recursos financeiros para sua implementação. Nesses casos, é preciso haver um bom planejamento dos custos do projeto, considerando-se quanto se vai gastar e de onde sairá o dinheiro. A existência de um coordenador é também uma providência necessária para que um projeto seja bem implementado e atinja a meta definida. A definição da função de coordenador e sua importância para um projeto encontram-se no item a seguir.

(Final do trecho adaptado do texto Gestão de projetos, presente no livro Gestão da Escola, do Programa de Melhoria do Desempenho da Rede Municipal de Ensino de São Paulo)


Cuidados para o bom desenvolvimento de projetos


Criar um projeto é definir um resultado a ser alcançado


Existem situações em que os resultados de um projeto são fáceis de definir. Por exemplo, em meados de maio, muitas escolas começam a pensar na festa junina. Para que não seja apenas um evento, pode-se então desenvolver um projeto para planejar, organizar e realizar uma festa junina que envolva toda a comunidade escolar. Em casos assim, os resultados bem definidos orientam o planejamento e a implementação do projeto. Para fazer uma festa junina é preciso escolher uma data e pensar nos preparativos: decoração da escola, quadrilha, venda de refrigerantes e comidas (quais?), jogos (derrubar latas com bolas de meia, coelho que entra na casa, argola, etc.). É preciso pensar ainda na divulgação externa (faixas, cartazes, rádio local, jornal do bairro, carta aos pais e responsáveis) e interna (comunicação aos alunos, professores e funcionários). Em muitas escolas pode ser necessário, em uma festa na qual a escola permanecerá aberta, pedir a presença de policiais para evitar ocorrências indesejáveis. Para cada um dos itens mencionados acima é preciso haver pessoas que se responsabilizem por sua resolução. É fundamental destacar que  esta e outras festividades que têm origem na tradição popular devem ser sempre contextualizadas, possibilitando um enfoque enriquecedor e envolvendo a família e toda a comunidade.

Outros casos em que os resultados do projeto já estão definidos pela própria situação: limpeza e pintura das paredes externas da escola; mutirão de limpeza das áreas externas da escola (pátio, jardins, quadras, corredores, etc.); mutirão para a remodelação dos jardins da escola; organização e realização de um torneio de voleibol entre as turmas de Ensino Médio; organização e realização de um festival de música aberto a todos os alunos, professores, funcionários e familiares de alunos. Porém, nem sempre as coisas são tão simples assim. Quando o problema é o que fazer para acabar com depredações nas instalações da escola, ou como diminuir o número de alunos em recuperação nas quintas séries, ou ainda, como conseguir a participação das famílias dos alunos na vida escolar, as coisas se tornam mais complicadas. É preciso, então, refletir sobre os problemas e pensar em quais podem ser os resultados esperados para um projeto, pois este é o primeiro passo para planejar e implementar esse projeto com grandes possibilidades de êxito.


A implementação do projeto e a avaliação permanente


O projeto começa a se tornar uma realidade, diversas pessoas já estão em plena atividade resolvendo problemas, tomando providências, realizando tarefas necessárias à consecução dos objetivos. Durante esse período de implementação do projeto, é muito importante que a equipe, liderada pelo coordenador, mantenha-se atenta à execução do cronograma, acompanhando se as coisas estão dando certo, se o que foi imaginado está se realizando. O papel do coordenador nesse processo é muito importante, pois essa preocupação com a avaliação deve estar presente todo o tempo, desde o começo da execução do cronograma, e não somente quando o projeto está no final, ou quando as coisas já não deram certo. Por exemplo, se uma tarefa deve estar pronta dentro de uma semana e ainda não há perspectivas de ser resolvida, o coordenador precisa chamar o responsável, ver o que está acontecendo, se a pessoa precisa de ajuda, se há algum problema relacionado com a própria tarefa e se tudo estará resolvido no prazo previsto. A avaliação permanente deve se concretizar em ações corretivas, assim, se for preciso, o coordenador deve tomar as providências necessárias para que a tarefa esteja feita no prazo.


Perguntas e providências que auxiliam no planejamento e implementação de projetos


Quais as tarefas e providências necessárias à implementação do projeto e quando elas devem ocorrer?

O que não pode ser esquecido, pois poria tudo a perder?

Itens do planejamento que não devem ser esquecidos:


ü
  Todo bom plano de trabalho tem um cronograma, no qual todas as tarefas e providências estão relacionadas, com data de início, final e nome dos responsáveis.

ü
  Fechando o cronograma, encontram-se os resultados do projeto e a data planejada para sua finalização.

ü
  Relacionada a cada tarefa ou providência, aparece(m) o(s) nome(s) do(s) responsável(is) pela sua execução.

ü  Um bom cronograma de implementação deve estabelecer os momentos em que a equipe irá se reunir com o propósito principal de avaliar a execução do plano e verificar se o que foi imaginado está acontecendo, ou se há necessidade de alterar tarefas, providências e prazos.

Os projetos no espaço escolar


Em uma escola, os projetos podem ser utilizados em vários aspectos diferentes do trabalho. Pode-se desenvolver projetos em trabalhos da administração escolar, em ações de apoio ao trabalho pedagógico e em outros aspectos do funcionamento escolar que não envolvem o ensino diretamente. Já os projetos didáticos têm por meta principal o ensino de alguns conteúdos predeterminados e neles a participação dos alunos é, evidentemente, indispensável.

No texto relativo ao quarto programa da série (Os projetos didáticos no Ensino Fundamental) discutiremos as condições em que se deve dar a participação dos alunos na criação, planejamento e implementação de projetos didáticos.

Professores, equipe técnica, direção e pais podem utilizar a idéia de projeto para planejar, organizar e realizar uma festa na escola, uma feira cultural ou um festival de música. Nesses casos, a participação de alunos deve ser decidida pelos educadores. Os alunos podem estar presentes desde o planejamento, ou serem convidados a colaborar somente no momento da realização. Os objetivos educativos relacionados ao projeto é que devem orientar os educadores quanto à participação de alunos nesses casos.

A presença de um coordenador de projeto também deve ser uma decisão relacionada ao tipo de projeto e seus objetivos. Nos projetos didáticos, os alunos geralmente desenvolvem suas atividades organizados em equipes. O trabalho em equipe deve ser considerado no planejamento anterior feito pelos professores. É preciso considerar se os alunos já têm autonomia suficiente para desenvolver as principais tarefas relativas ao desenvolvimento do projeto, ou se os professores envolvidos deverão acompanhar os alunos em algumas delas. A própria existência de um coordenador de equipe deve ser decidida em função dos objetivos educativos relacionados ao projeto. Nos projetos didáticos desenvolvidos com alunos das séries iniciais, por exemplo, o trabalho do coordenador é geralmente feito pela própria professora que, por sua vez, compartilha as decisões com seus alunos.

Quando os projetos são desenvolvidos pelos educadores e funcionários, com objetivos relacionados ao trabalho desses profissionais, a existência de um coordenador de projetos é importante. O coordenador tem como principal função controlar o desenvolvimento das tarefas necessárias à boa implementação do projeto. Ter certeza que todas as tarefas têm um responsável por sua execução, controlar o cronograma de trabalhos evitando atrasos e auxiliando os responsáveis, quando necessário, são algumas responsabilidades do coordenador. Quando o projeto necessita recursos financeiros, o coordenador deve também controlar o orçamento, com ou sem auxílio de outras pessoas.


Os projetos didáticos na escola de Ensino Fundamental


A professora Delia Lerner, em seu texto “É possível ler na escola?” nos mostra que o planejamento do ensino pode ser organizado a partir de quatro diferentes modalidades de ensino: as atividades seqüenciadas, as atividades permanentes, os projetos didáticos e as situações independentes.

As atividades seqüenciadas são situações didáticas articuladas, que sempre possuem uma seqüência de atividades, cujo principal critério de organização é o nível de dificuldade, e que estão sempre voltadas ao ensino de um conteúdo pré-selecionado. Têm um tempo de duração variável, que depende do conteúdo que se está ensinando.

As atividades permanentes são situações didáticas propostas com regularidade, cujo objetivo principal é a construção de atitudes e o desenvolvimento de hábitos. Promover o gosto pela leitura e a escrita, aprender a ler o jornal diário são aprendizagens que podem ser desenvolvidas a partir de atividades permanentes. A principal característica dessas atividades é que elas se repetem sistematicamente em horários preestabelecidos com os alunos, podendo ser diárias, semanais ou quinzenais. São exemplos dessas modalidades de ensino a roda de leitura de jornais, a leitura compartilhada, a hora da notícia, etc.

As situações independentes são situações ocasionais em que algum conteúdo importante está em jogo e deve ser trabalhado em sala de aula. Mesmo que esse conteúdo não tenha uma relação direta com o que está sendo tratado nas seqüências didáticas ou nos projetos. Têm tempo de duração variável, podendo ser um assunto que está interessando à comunidade escolar em um determinado momento, ou mesmo uma discussão sobre um livro trazido à classe por um aluno.

Já os projetos didáticos são situações que partem de um desafio, de uma situação-problema e que sempre têm como um de seus objetivos um produto final. Na maioria dos casos, os projetos envolvem mais de uma área de conhecimento sendo, portanto, interdisciplinares.

A seguir, comentamos as principais características didáticas e pedagógicas dos projetos didáticos.

Uma unidade didática é “um conjunto ordenado de atividades, estruturadas e articuladas para a consecução de um objetivo educativo em relação a um conteúdo concreto.” (Ver Construtivismo na Sala de Aula, Cesar Coll e outros, editora Ática, 1996, capítulo 6: Os enfoques didáticos).

Quando os educadores planejam uma unidade didática, pensando em como os conteúdos podem ser trabalhados com os alunos, as propostas de ensino podem ser organizadas de duas formas básicas:


1.  Uma unidade didática simples, ou

2. Uma unidade didática organizada como projeto.


Nos dois casos, o planejamento da unidade didática deve conter:


ü
  Uma definição clara dos conteúdos a serem ensinados e seus respectivos objetivos educativos, isto é, o enfoque e a profundidade com que o processo de aprendizagem deve ocorrer. (Um objetivo em educação é sempre um processo de crescimento pessoal que se pretende proporcionar ao aluno por meio do ensino.)

ü
  Uma seqüência ordenada de atividades que serão propostas aos alunos com o propósito de atingir os objetivos relacionados acima.

ü
  Uma avaliação permanente das propostas de ensino e dos processos de aprendizagem que ocorrem durante todo o desenvolvimento da unidade.

Tanto na unidade didática simples, quanto nos projetos, o educador deve sempre considerar algumas preocupações relacionadas à concepção construtivista de aprendizagem escolar (Ver Construtivismo na Sala de Aula, Cesar Coll e outros, editora Ática, 1996, capítulo 1: Os professores e a concepção construtivista), tais como:


ü
  Para agir, o professor deve considerar o estado inicial de seus estudantes, a partir do qual ele construirá situações de ensino com o propósito de desencadear nos alunos um processo cognitivo e afetivo que envolva os conteúdos escolhidos, de modo a provocar aprendizagens significativas relacionadas a esses conteúdos.

ü
  O estado inicial dos alunos é definido pelos conhecimentos anteriores que eles possuem sobre os conteúdos envolvidos em cada proposta de ensino. Conhecimentos esses que serão a base a partir da qual os alunos poderão fazer relações e construir significados para aquilo que estão aprendendo.

ü
  Para que haja desenvolvimento integral do cidadão, é preciso que os alunos aprendam também o que é aprender. Esta preocupação deve se refletir na prática pedagógica através de aprendizagens que permitam realizar reflexões de natureza metacognitiva, isto é, aquelas que tratam de explicar o que se está fazendo para aprender e por quê. A Concepção Construtivista da Educação Escolar diferencia-se de outras concepções educacionais por considerar que pensar-se como estudante é um CONTEÚDO da educação, incluindo aqui, ainda, o desenvolvimento da autonomia intelectual desse estudante.

Mas, o que DIFERENCIA uma unidade didática simples, de uma unidade didática desenvolvida por projeto?

A principal resposta a essa questão é: em um projeto há uma idéia, uma possibilidade de realização, uma meta, um querer que orienta e dá sentido às ações que se realizam com a intenção de transformar a meta (o sonho) em realidade.

Num projeto há sempre um futuro que pode tornar compreensível e dar sentido a todo o esforço de busca de informações e construção de novos conhecimentos.

[...] o projeto é a possibilidade eleita. Aquela que está orientada para a ‘realização’, palavra magnífica que deveria reservar-se para a livre ação humana.” (Teoria da Inteligência Criadora, José Antonio Marina, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, p.168.)

Esta é a segunda tese deste livro, que pode enunciar-se assim: a pessoa inteligente dirige a sua conduta mediante projetos, e isso permite-lhe aceder a uma liberdade criadora.” [...] Criar é submeter as operações mentais a um projeto criador.”(Idem, p.169.)

A primeira componente do projeto é a meta, o objetivo antecipado pelo sujeito, como fim a realizar.” (Idem, p. 178.)

   Nesse sentido, em uma unidade didática desenvolvida por projeto, todos os alunos devem conhecer e compreender qual é a idéia que está sendo posta em prática, todos devem conhecer e compreender a meta: fazer um livro; preparar uma campanha de esclarecimento; organizar um passeio ecológico.

   Esse conhecimento inicial da meta que dá origem ao projeto é fundamental para que os alunos possam compreender as decisões que vão sendo tomadas durante a realização do mesmo. Durante o desenrolar do projeto, deve-se estabelecer uma cumplicidade de propósitos entre os alunos e destes com o(s) professor(es), provocando o surgimento de um ambiente de trabalho criativo, no qual cada indivíduo pode contribuir com suas aptidões, ou estar disposto a enfrentar o esforço de aprender algo novo e que se mostrou necessário em função do próprio projeto.

O trabalho com projetos pode dar conta de alguns objetivos educacionais com maior profundidade, em particular o desenvolvimento da autonomia intelectual, o aprender a aprender, o desenvolvimento da organização individual e coletiva, bem como a capacidade de tomar decisões e fazer escolhas com o propósito de realizar pequenos ou grandes projetos pessoais.

Para que o trabalho com projetos dê bons resultados, o professor deve tomar alguns cuidados, além daqueles necessários em qualquer situação de ensino:


ü
  O projeto precisa estar bem definido, ou seja, alunos e professores devem ter uma idéia bem clara daquilo que se vai fazer, a meta: um objeto (livro, maquete, desenho, cartaz, escultura) ou uma ação (passeio, campanha, seminário, show musical).

ü
  É a idéia básica do projeto (a meta, o sonho) que determina e justifica as fases do projeto. Essas fases podem envolver estudo, pesquisa, construção, ensaio, e todas a ações que forem necessárias para a realização do projeto.

   Nesse sentido, costuma-se dizer que, para ser um projeto, o desenvolvimento do trabalho na sala de aula deve ter a participação dos alunos em algumas decisões, para que eles aprendam também a analisar situações, tomar decisões e ter a experiência de pôr em prática o que foi planejado. Dizendo de outro modo: no desenvolvimento de um projeto, as decisões devem ser partilhadas entre professor e alunos. Mesmo as decisões que são tomadas previamente pelo professor devem ser explicadas e justificadas, ou seja partilhadas com os alunos, tendo como referência a realização do projeto.


ü
       É sempre importante que os professores comentem com seus alunos as semelhanças e diferenças que existem entre o projeto desenvolvido na escola pelos alunos, e o mesmo tipo de projeto quando é desenvolvido em situações reais, naquilo que podemos chamar “mundo real”. 

NOTAS: 

1   Adaptado do texto Gestão de projetos, presente no livro Gestão da Escola, do Programa de Melhoria do Desempenho da Rede Municipal de Ensino de São Paulo; iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em convênio com a Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, 1999.

 

O Programa Escola que Vale

O Programa Escola que Vale é desenvolvido por uma parceria entre a Fundação Vale do Rio Doce e a organização não governamental CEDAC – Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária. A partir de 2001, o Programa também conta com a parceria das empresas Albrás e Pará Pigmentos S/A.

O Programa Escola que Vale tem como objetivos:


ü
   Criação de novas condições de trabalho na escola pública, de forma que toda a unidade escolar possa oferecer um aprendizado que seja um estímulo constante à reflexão e à criação, tanto para as formas de entendimento dos alunos, quanto para a prática pedagógica dos professores.

ü
   Fortalecimento dos laços entre a escola e a comunidade, entre o que se discute e o ue se faz e entre o que se aprende e o que se vive.

ü
   Aprimoramento pedagógico dos professores do ensino básico, visando à melhoria da aprendizagem dos alunos.

O programa está se desenvolvendo em vários municípios: Marabá, Parauapebas, Barcarena e Ipixuna, no Pará; São Luís e Açailândia, no Maranhão; João Neiva, no Espírito Santo e Catas Altas, em Minas Gerais.

No portal do Programa Escola que Vale, na internet, (www.escolaquevale.com.br), lemos: “O professor é o eixo central das ações do Programa, mas não exclusivo; é, sim, um ponto de partida. Como os problemas da educação não se restringem à formação do professor, o Programa abrange também diretores, alunos, pais, técnicos das secretarias de educação, enfim, toda a comunidade próxima à escola.” (Neste texto, a partir deste ponto, os trechos entre aspas são citações literais de textos do portal do Programa Escola que Vale.)

O Programa Escola que Vale se constitui de “um conjunto flexível e aberto de ações”. Essas ações podem se combinar para constituir uma solução própria à realidade de cada município onde o Programa está sendo implantado.

O conjunto de ações propostas pelo Programa é constituído por:

1. Oficinas de arte, leitura e escrita  voltadas para o desenvolvimento pessoal e profissional do professor. “Oficinas de música, dança, fotografia, artes plásticas, literatura e teatro oferecem para o professor a oportunidade de vivenciar novas situações, aprendendo e experimentando novas técnicas, e descobrindo, ao aprender, novas formas de ensinar. Arte e pedagogia acabam incorporando-se numa mesma prática para que ele possa se desenvolver do ponto de vista pessoal e profissional.”

2. Projetos de trabalho realizados com o objetivo de permitir que as equipes escolares possam produzir conhecimento pedagógico e refletir sobre o quê e como os alunos aprendem.

3. Coordenação local e regional por meio dessas coordenações, “os professores são acompanhados e supervisionados regularmente, de forma que os projetos de trabalho, as oficinas de artes, leitura e escrita possam ser desenvolvidos com qualidade.”

4. Casa do professor um “espaço de exposições, eventos, convívio e troca de experiências entre professores”.

5. Recursos tecnológicos e digitais “câmaras de vídeo, computadores, gravadores, câmeras fotográficas e Internet são colocados à disposição dos alunos e dos professores, facilitando-se o seu acesso à tecnologia.”

6. Projetos de infra-estrutura “voltados para a melhoria das condições físicas da escola”.

O Programa Escola que Vale conta, ainda, com um sistema de avaliação e acompanhamento de suas ações. “Esse sistema é composto por um banco de dados que contém informações sobre as escolas e seus professores, registros dos projetos, indicadores dos eventos efetuados. Assim, o banco de dados permite acompanhar o desenvolvimento e o alcance do Programa e analisar a necessidade de ocasionais ajustes.”

Os projetos de trabalho

“O Programa Escola que Vale oferece um conjunto de projetos de trabalho a serem desenvolvidos pelos professores junto a seus alunos. São projetos voltados para a aprendizagem da leitura, da escrita e da comunicação oral, mas que também envolvem conteúdos de outras áreas do currículo (Ciências, História, Geografia, Arte etc.) e favorecem o uso de recursos tecnológicos como o computador, o gravador, a máquina fotográfica etc.”

O Programa oferece aos professores uma série de possíveis projetos a serem desenvolvidos nas escolas em que eles trabalham. Esse “cardápio de projetos” se constitui de projetos que “foram elaborados de modo a favorecer:


ü
   O envolvimento de professores, alunos e também de pessoas da comunidade.

ü
   O trabalho com conteúdos que envolvem conceitos, atitudes, valores e procedimentos, favorecendo o desenvolvimento de capacidades física, ética, estética, afetiva, intelectual, de relação e inserção social.

ü
   O embasamento em princípios éticos como: respeito, diálogo, justiça e solidariedade.

ü
   A abertura para as contribuições de cada um dos participantes.

ü
   O uso de recursos tecnológicos (computador, câmera de vídeo, gravador etc.).

ü
   O envolvimento de conhecimentos de diferentes áreas: História, Geografia, tecnologia, Matemática, Ciências, Arte.

ü
   A valorização de conhecimentos relativos ao saber fazer (aquisição de procedimentos como: capacidade de fazer uma entrevista, buscar informações na Internet ou em uma enciclopédia, fazer uma pesquisa de campo, produzir cartazes, escrever relatórios etc.)

ü
        O incentivo à aprendizagem da língua escrita.”

O cardápio de projetos oferecido pelo Programa Escola que Vale contém vários títulos, que podem ser escolhidos pelos professores participantes. Alguns dos projetos já oferecidos pelo Programa são: “Álbum de figurinhas”, “As pessoas e as paisagens do lugar onde vivo”, “As receitas da minha terra...”, “Guia turístico da cidade”, “Uma página para o jornal da cidade”, “Narrativas literárias”, “Criação de um museu local”, “Com a câmera na mão e uma idéia na cabeça...”,  “Quem canta seus males espanta...” .

Todos os projetos são apresentados de forma bastante completa, por meio de uma ficha técnica com os seguintes itens: título; ciclo de escolaridade a que se destina; áreas envolvidas; temas transversais abordados; tempo de duração e conteúdo de aprendizagem dos alunos; recursos tecnológicos utilizados e produto final. Além desses itens de descrição do projetos, no portal do Programa Escola que Vale (www.escolaquevale.com.br) encontramos também um texto denominado “Fundamentação Teórica”.

Na fundamentação teórica o leitor encontra sempre os itens: por que desenvolver este projeto; o que os alunos aprenderão com este projeto; qual o tempo de duração do projeto; onde pesquisar; que recursos tecnológicos poderão ser utilizados; que outros produtos poderão ser gerados; que atividades desenvolver.

A forma como os projetos do Programa Escola que Vale são apresentados está em perfeita harmonia com a concepção de projetos didáticos que estamos abordando nesta série de programas do Salto para o Futuro.

Diz o texto do portal do Programa, na Internet: “Este instrumento oferece a vantagem de atuar concomitantemente sobre o processo de desenvolvimento profissional do professor e sobre o processo de aprendizagem dos alunos. Essa proposta implica aprender na prática (aprender a fazer fazendo), ousar trabalhar de uma nova maneira, o que certamente abrirá novas perspectivas de ensino. Os projetos, quando bem escolhidos, favorecem a configuração de situações de aprendizagem significativas e a abordagem de diversos conteúdos. Por meio dos projetos que serão realizados em sala de aula, os alunos estão sendo impulsionados a construir significados e atribuir sentido aos conteúdos escolares.”

Para os professores, pode ser uma experiência muito interessante estudar em detalhes a forma como os projetos estão descritos no portal do Programa, para que, posteriormente, quando forem redigir seus próprios projetos, utilizem esse mesmo formato em suas apresentações. 

NOTAS: 

 

 

Ainda tem muita história para contar e muita estrada para andar

Ricardo Bernardes*

Nas comunidades pobres, ¼ dos jovens entre 15 e 24 anos não completam oito anos na escola, uma parte significativa se envolve com o tráfico de drogas e, num número cada vez mais assustador, alguns acabam sendo vítimas de assassinatos.

A nossa comunidade não é diferente de outras favelas do Rio de Janeiro: crianças e jovens crescem neste ambiente, acostumados com a banalização da vida; vivem em habitações pra lá de desconfortáveis; alguns catam comida no lixão da CEASA: outros vivem do subemprego, outros tantos do trabalho muito mal remunerado. Há também quem viva do dinheiro ilícito do tráfico. Dentro deste caldeirão, estão algumas escolas públicas.


Muitas dessas escolas estão percebendo que a sua clientela cada vez mais sofre todas essas influências, que a incomodam tanto que a distanciam do espaço escolar. Foi pensando assim que nós, professores do CIEP Dr. Adão Pereira Nunes, percebemos que era preciso fazer algo mais. A escola precisa ser prazerosa, garantir os sonhos e propiciar a possibilidade de que os alunos se apropriem dos saberes universais, que os ajudarão a situar-se na sua história.

Analisando o trabalho desenvolvido pela escola percebemos que o projeto político-pedagógico acertadamente apontava para trabalhar com a identidade. Sabíamos que era necessário situar este aluno no mundo e que ele se entendesse enquanto cidadão desse universo. Magnífico! No entanto, apesar de todos os esforços dos professores e direção, a escola amargava um índice ainda muito alto de evasão e repetência. Nas avaliações, estas situações eram detectadas, mas precisávamos de algo maior para envolver toda a escola. Foi pensando numa saída que propusemos no dia 7 de fevereiro de 2001 a criação da TV Pedagógica do CIEP Adão. Este projeto, desde o princípio, teve como objetivos: trabalhar a auto-estima do aluno, professor e comunidade; facilitar o uso das novas tecnologias e, na construção dos trabalhos de mídias, buscar, na relação do grupo, um espaço de participação e reflexão.

Inicialmente, todos os professores gostaram do projeto, alguns se engajaram de imediato, outros ficaram reticentes, esperando por um novo fato que comprovasse a possibilidade de um ato tão ousado. Durante seis meses, o projeto foi exaustivamente discutido. Publicamos, em julho de 2001, na primeira edição impressa do jornal Informadão, um resumo com os principais objetivos do projeto. E isto contribuiu para que o nosso projeto fosse publicamente especulado, refletido, negado e, logicamente, ampliado. Já era um debate interno do CIEP Adão. Trocamos idéias com várias escolas de nossa rede. Desta forma, encontramos um caminho para o debate. Participamos de mesas-redondas, reuniões com alunos, pais e responsáveis, com outras escolas, encontros com CREs, Secretaria de Educação e MultiRio, canais de televisão, associação de moradores, universidades e, nesta troca, enriquecemos nossa proposta.

Hoje temos que lidar com vários desafios! Como compreender os impactos dos avanços tecnológicos na sociedade? E a escola poderá contribuir para que nossas crianças se tornem usuárias críticas e criativas dessas tecnologias ou meras consumidoras de enlatados?


Trabalhando com as mídias


Durante o processo de discussão inicial do projeto, resolvemos intensificar o trabalho com as mídias. Trabalhamos com a novela O Cravo e a  Rosa. Alguns capítulos eram apresentados em sala de aula e diversas reflexões e atividades foram propiciadas a partir deste material. Trabalhamos época, costumes, sociedade, economia e os marcos, que precisamos fortalecer, da alfabetização. Fizemos pesquisas com os alunos para entendermos o que eles assistiam na TV, que tipo de escolhas faziam nos momentos que estavam em suas casas. Também trabalhamos com jornal. Através de um artigo de nosso jornal, tornamos públicas algumas técnicas que estavam sendo utilizadas em sala de aula. Assim começou o nosso envolvimento com as novas tecnologias. A partir desta leitura do mundo da comunicação, a que o nosso aluno teve acesso, fomos descobrindo novos caminhos para a nossa proposta de trabalho.

A resistência inicial foi transformada num grande mutirão, no qual todos os atores deste processo (aluno, professor, direção, funcionário, comunidade) passaram a ter um compromisso e um envolvimento muito maior. A primeira edição do jornal foi feita com recursos de uma grande mobilização dos professores e comunidade. Fizemos um festival de pipoca com guaraná para arrecadar os recursos que precisávamos para pagar a gráfica. Diante do sucesso do trabalho e da amplitude que tinha o projeto, a visibilidade através do jornal fez com que difundíssemos na comunidade, em maior escala, a nossa intenção.

Os alunos começaram a lidar com os equipamentos de vídeo que a escola dispunha em sua sala de leitura. Começaram a se ver na tela da televisão. Passaram a produzir imagens. Nos primeiros trabalhos, colher a imagem deles era muito difícil. Todos queriam ficar diante da câmara, todos queriam acenar, mandar beijos para a mãe...

Conversando com o professor Túlio da E. M. Arthur da Costa e Silva, amigo e parceiro, comentei sobre isto. Ele explicou que isto era muito normal, depois de um certo tempo mudaria e tudo seria mais natural. E foi o que aconteceu. Mas o impacto do primeiro momento foi de surpresas e aprendizados, que marcaram a nossa caminhada. Uma determinada aluna, depois de várias tentativas nossas no sentido de ela se arrumar, cuidar do corpo, lavar e pentear os cabelos, quando percebeu sua imagem pela primeira vez no vídeo, perguntou surpresa: –Eu sou assim? Gente! Olha o meu cabelo...  e no dia seguinte apareceu toda arrumada e com os cabelos penteados. Ela agiu como qualquer pessoa agiria diante do video, mas este momento mudou sua vida. Começou até a dizer que vai ser jornalista.


Os avanços na proposta


O jornal
Informadão ganhou vida própria
.

Este nome já existia na escola há cinco anos. Era um boletim mimeografado. Tinham sido publicados quatro números e depois o jornal parou de ser feito. A elaboração deste boletim foi uma iniciativa das professoras Eliane, Elizabeth e Sueli. Achamos o nome fortíssimo, entendíamos que não precisávamos criar outro nome, mas dar outro formato. Imprimir o primeiro
Informadão (julho de 2001) foi o jeito que encontramos para discutir a TV; no entanto, o jornal, já no seu número dois (setembro), avançou para a comunidade e para a rede municipal. Passamos a utilizar o jornal não só para divulgar os nossos projetos, mas para trabalhar com a imagem dos nossos alunos e documentar alguns fatos de nossa rede. Assim também foi o número três (dezembro).

O CIEP Adão, no ano de 2002, recebeu mais de 15 professores novos, originários do último concurso. No início do ano letivo, foi necessário diminuir o ritmo para integrar este novo grupo ao projeto. Uma parte do grupo foi atraída pela possibilidade de um trabalho diferente na escola, isto foi muito bom. Alguns já estavam predispostos a engajar no trabalho. Algumas professoras choravam quando chegavam em casa, por estarem dando aula pela primeira vez e por ser uma comunidade como a nossa. Infelizmente, ainda existe um enorme abismo entre a escola que os cursos de formação de professores idealizam e o mundo real da escola pública. Neste mesmo momento, recebemos alguns alunos originários de outras escolas. Ainda não conheciam o nosso ritmo. Percebi que nos dois primeiros meses tudo andou mais devagar. No entanto, graças à persistência de um grupo, logo alguns dos novos professores já estavam completamente integrados com os seus alunos e com o projeto. E novamente voltamos com outra edição do jornal Informadão (maio).

O amadurecimento do trabalho proporcionou uma surpresa para esta edição de maio, os alunos estavam cobrando da gente cada vez mais espaço dentro do jornal. Percebemos que tínhamos que canalizar esta intenção. Foi então que surgiu o encarte dentro do jornal, chamado Tagarelando. O jornal Tagarelando (nome escolhido pelos alunos), como ele ficou conhecido, na realidade consiste nas páginas 4 e 5 (centrais) do Informadão e neste espaço o aluno decide a pauta, faz e escolhe textos, desenhos e fotografias. Tudo realizado por eles. Em setembro (Informadão 5) esta tendência teve continuidade. Percebi que tínhamos a necessidade de provocar algumas situações para facilitar o texto dos alunos. Juntamente com as professoras Lúcia e Karina usamos o jargão “Ninguém merece...” para criar uma parte do jornal que ficou leve e bem-humorada e foi muito bem acolhida por alunos de outras escolas. “Ninguém merece comer cebola cortada” disse o aluno Ramon, da 3ª série. Esta frase provocou muitas gargalhadas de alunos de várias escolas.


A TV e o vídeo


Passamos a aprimorar o conhecimento sobre o uso dos equipamentos. Através de várias iniciativas, passamos a estudar a melhor forma de usar a câmera de TV. Fizemos um primeiro material de vídeo inspirado em uma campanha publicitária iniciada em nosso jornal, após a morte de um aluno da escola, atropelado na avenida Brasil. Apesar de os pais pedirem para que os alunos atravessem a passarela, eles próprios não davam o exemplo, arriscavam a vida na travessia. Então, um grupo de alunos do grêmio foi até a passarela fazer uma reportagem. Estes alunos filmaram alguns moradores atravessando entre os carros e fizeram perguntas sobre o assunto. Conseguiram colher imagens ótimas. Segundo a aluna Gabriele “nunca eles tremeram tanto em suas vidas”. O trabalho até não ficou muito bem finalizado, mas serviu para dar um gostinho na boca dos alunos. A professora Cássia, da sala de leitura, acompanhou este trabalho. Depois de colhidas as imagens, nos reunimos com todos os participantes para avaliarmos o material.

O trabalho foi crescendo e buscando caminhos e soluções inovadoras. No início, alguns alunos que vivem no grupo de risco social foram convidados para conhecer e manipular a câmera de TV. Aprenderam a lidar com o vídeo, TV, máquina fotográfica e a colher algumas imagens com a nossa câmera Super VHS. No início (ano de 2001) não tínhamos uma preocupação com o uso mais apurado, queríamos o básico.

Com esta caminhada, conquistamos o apoio da Secretaria Municipal de Educação juntamente com a MultiRio, que é uma empresa de multimeios que serve de suporte para as ações de mídia da secretaria. A MultiRio produz publicações, sites e programas de TV. Com este apoio passamos a buscar mais conhecimentos para consolidar o projeto. Outros professores foram agregrandose ao projeto.


Simplesmente Acari


Em dezembro de 2001, a MultiRio organizou o Projeto Carta Animada pela Paz, que tinha como objetivo produzir um trabalho para o Dia Internacional da Criança na Mídia (12 de dezembro). A proposta, que é uma iniciativa da UNESCO, visa criar oportunidade para que crianças do mundo inteiro possam expressar-se livremente através dos meios de comunicação. Lá na MultiRio, Patrícia Alves, responsável pela área artística, resolveu visitar o CIEP Dr. Adão e conhecer o nosso trabalho. Em decorrência dessa visita, iríamos realizar um trabalho neste sentido.

Patrícia pediu para conversar com o grêmio estudantil que estava totalmente integrado no projeto e, a partir daí, perguntou o que eles gostariam de dizer para o mundo. A conversa rolou com todos sentados no chão, superdescontraídos, e os alunos afirmaram e reafirmaram o que gostariam de falar sobre violência familiar.

Estavam lançadas as bases para o trabalho que, depois, foi intitulado “Simplesmente Acari”.

O projeto Carta Animada para Paz previa uma ação que envolvesse uma escola que já trabalhasse com mídia (no caso o CIEP Adão) e outras duas que não tivessem experiência com este trabalho. Partindo desta premissa, fizemos a opção por duas escolas que trabalham com clientela similar a nossa: a comunidade do complexo de Acari. Acompanhamos o grêmio estudantil do Adão até o CIEP Zumbi dos Palmares e lá procuramos também o grêmio, depois fomos a E. M. Charles Anderson Weaver e conversamos também com o grêmio. Com a aprovação do assunto pelos três grêmios, e em todos os momentos deixando a opinião dos alunos aflorar, ficou combinado que estes, juntamente com os professores de cada escola, escolheriam alunos que estivessem no grupo de risco social e dificuldade de aprendizado. Fizemos uma escolha que envolvesse os dois e o grupo constituído passou o dia inteiro junto com alguns profissionais da MultiRio e uma equipe de professores dos CIEP e num trabalho de oficina aprenderam como construir uma sinopse, roteiro, como animar os seus desenhos... Tudo aconteceu na quadra poliesportiva CIEP Zumbi dos Palmares. Na parte da manhã, aconteciam as oficinas, na parte da tarde, a realização prática. As tarefas foram divididas entre 30 alunos que desenhavam. O grupo de alunos da TV CIEP Dr. Adão filmou toda movimentação do dia e a MultiRio filmou todos. O trabalho só foi interrompido para o almoço e lanche. Todos os alunos, numa só alegria, produziram como nunca. Durante o dia, outros 80 alunos passaram pela quadra. Observavam curiosos, participavam também das animações nas mesas de desenho que não estavam sendo utilizadas, olhavam-se no vídeo... A lição foi boa. Aprendemos que é possível buscar um outro caminho dentro da escola. É preciso que nos apropriemos de outras ferramentas para vencer os desafios de nossa sala de aula.

Finalizamos o trabalho em janeiro na MultiRio. Os alunos, em nenhum momento, quiseram som para os personagens. Depois de muito refletir, entendemos a mensagem. Eles não queriam vozes, mas o som do bêbado chegando em casa, o som do pai que só conversa com o filho para brigar. Percebemos que, muitas vezes, falta a palavra no relacionamento familiar e, se a gente não se der conta, pode faltar até na escola.


As oficinas de TV, vídeos, informática, livros, desenhos, animação e os sonhos


Percebemos que as oficinas eram momentos mágicos para todos, professores e alunos. A hora passa muito mais depressa e sempre fica o gostinho de querer mais. Com isto, mudamos o formato das atividades. A sala de leitura passou a oferecer oficinas e a tornar o trabalho com os alunos muito mais dinâmico. Eles passaram a aprender algo, desde “mexer” no vídeo e na televisão até a elaboração de um roteiro. Trabalharam com carvão, pastel seco, pastel oleoso e lápis. Descobriram na informática uma importante ferramenta para finalizar os seus trabalhos. Aprenderam o que é um segundo no desenho animado, aprenderam como o seu desenho ganha movimento, voz, som... Descobriram que através do jornal eles podem dizer o que pensam, mostrar o seu olhar do mundo. Descobriram de que são capazes.

Precisamos dar asas para que, na ficção, os fantasmas que assustam o sono e sonho de nossas crianças sejam afastados. É, necessitamos, acima de tudo, dar voz para que os alunos expressem os seus sentimentos, as suas emoções e as suas reflexões. É na escola que vamos desconstruir a cultura da violência que tanto nos aflige. É certo que, com esta atividade, não afastamos os medos totalmente de suas vidas, porém, é bem certo que fortalecemos os seus sonhos. Não sei se é o nosso olhar precipitado querendo enxergar mudanças, mas acreditamos que os nossos alunos escritores saíram, dessa aventura, fortalecidos e percebendo que cresceram.


Educação de qualidade sim... o resto é silêncio (Texto do professor Ricardo Bernardes, publicado no Informadão setembro de 2002)


Educar com qualidade. Este é o nosso principal desafio. Temos que prestar contas à sociedade brasileira que tem sofrido agruras com a globalização, desemprego, miséria e muito mais violência. Bem certo é que a nossa herança histórica propiciou grande parte da miséria vivida pelas massas dos excluídos. No entanto, a agonia chegou ao limite.

Enquanto a dor e o sofrimento estavam presos aos porões fétidos da escravidão, aos massacres dos “sem terra”, às crianças morrendo subnutridas e doentes, as classes mais privilegiadas suportavam muito bem o modelo econômico, a corrupção e a internacionalização de nossa economia. A sociedade não dava a mínima para o fato de o escravo liberto não ter direito de possuir terra ou, mais recentemente, ao abandono da criança pobre que não conseguia ingressar na escola. Bastava garantir seus direitos individuais, que as decisões políticas por mais excludentes, que fossem eram referendadas. Atravessamos mais de cem anos de história pensando assim, vivendo para garantir os próprios interesses e as palavras fraternidade e solidariedade perderam o seu significado: ora eram resumidas às ações paternalistas, ora eram usadas para garantir currais eleitorais e para desencargos das consciências cristãs. Nesse longo caminhar, a classe política e a elite empresarial conseguiram dividir o bolo entre eles muito bem, mas deixaram milhões de brasileiros fora da festa, afastados das decisões e vítimas da exclusão social.

Hoje, as calçadas, os becos, os estampidos de tiros nos centros urbanos mostram um Brasil diferente das varandas, dos pipoqueiros, das brincadeiras de ruas e do medo de assombração. É unânime a constatação de que o caos está instalado nestes centros e que ninguém em sã consciência deseja perpertuar esta desordem.

Todos os setores da sociedade hoje têm um entendimento, que é consenso: para mudar este país cabe aos governos investimentos sérios em educação. Disso não temos dúvida, mas urge, neste momento, que a nossa função social ganhe um destaque nas prioridades nacionais e que nós, educadores, façamos uma reflexão criteriosa sobre que tipo de educação é capaz de contribuir para a reestruturação de nossa sociedade.

Clamamos por uma educação de qualidade, a única capaz de ter eficácia numa sociedade tão desestruturada moralmente como a nossa. E perguntamos: o que é educar com qualidade? Uma reflexão aqui se faz necessária.

É fundamental que toda sociedade compreenda que educar é uma tarefa coletiva e que governo, sociedade, ONGs percebam que o espaço da escola pública precisa ser fortalecido e que a credibilidade dos profissionais de educação seja garantida. Parcerias são necessárias para desenvolvermos um projeto sério de escola pública com qualidade social, no qual os excluídos possam dominar as novas tecnologias, possam expressar-se livremente e que se tornem donos de suas ações e pensamentos.

Estamos buscando a educação de qualidade sim... O resto é silêncio.


Simplesmente Acari no Festival do Rio BR-2002 (
Publicado no Jornal Informadão – setembro de 2002)

A febre do desenho animado no CIEP Dr. Adão Pereira Nunes, que teve seu início em dezembro de 2001 quando um grupo de alunos produziu o desenho animado Simplesmente Acari, continua rendendo bons resultados. Na ocasião, os alunos do Adão uniram-se aos do CIEP Zumbi dos Palmares e da E. M. Charles Anderson Weaver e resolveram usar a linguagem do desenho animado para dizer para o mundo como é o drama de uma família que sofre com a violência do alcoolismo e da droga. Simplesmente Acari retrata a violência doméstica que atinge diretamente a infância, mas termina com um final feliz.

Esta obra é fruto do Projeto Carta Animada pela Paz, que a MultiRio vem desenvolvendo desde o ano passado.

Simplesmente Acari é um marco na educação pública brasileira, pois em breve o desenho animado será mais um instrumento que os professores usarão para garantir um maior desenvolvimento do aluno”, afirmou Carmen Lúcia Pinheiro S. da Silva, professora da 3ª série do CIEP Adão.

O curta-metragem será exibido no Festival do Rio BR-2002, além de estar inscrito em festivais internacionais como o de Annecy, na França, e o de Ottawa, no Canadá.

A MultiRio, através da produtora de desenho animado Patrícia Alves, organizou oficinas com alunos e professores. Patrícia, no intuito de ver este trabalho multiplicado, dedicou-se inclusive aos sábados na formação de um grupo de professores animadores. “Hoje a escola ganhou cor e movimento” – comenta a professora Cristina, que está preparando um desenho animado partindo de uma parlenda.

No CIEP Adão, vários professores foram preparados para trabalhar com oficina de animação e já atuam com seus alunos. Vale ressaltar que, além do CIEP Adão, há o empenho de Ana Rosa que é coordenadora pedagógica e das professoras Verônica e Márcia que, no CIEP Zumbi dos Palmares, estão fazendo animação com suas crianças.


A BRUXA QUE ROUBAVA SONHOS (Maria do Socorro Ramos de Souza – Diretora/DED - 6ª CRE – Este texto é parte do prefácio do livro A BRUXA QUE ROUBAVA SONHOS)


“Era uma vez uma turma de Progressão do CIEP Dr. Adão Pereira Nunes, do Bairro de Acari. Eram meninos e meninas de 9 a 13 anos, em processo de alfabetização que, orientados pelo professor Ricardo Bernardes, resolveram escrever um livro.

Tudo começou assim...

As crianças conversaram muito sobre medos e sonhos. Uma conversa puxava a outra. Uma idéia puxava outra. Leram livros... Cada um falava de seus medos e de seus sonhos.

E que medos!!! E que sonhos!!!

Fizeram listagens de todos os medos e sonhos da turma. E quiseram também escrever um livro. Deles. De seus medos e de seus sonhos. Sob a orientação do professor, foram criados os personagens: os medos, concretizados na bruxa e os sonhos, na fada.

Trabalho suado, exaustivo. Dias e dias de escritas e reescritas; de composições gráficas para ilustração do texto; de atividades individuais e coletivas; de debates e negociações entre professor e turma o que seria realmente importante para entrar na história?

Como caracterizar o personagem?

A bruxa recebeu todas as palavras dos medos da garotada (quase uma catarse!!!).

E a escolha dos desenhos?

E o tipo de narrativa?

A história tomou forma e se constitui num relato de experiências, de vivências da escola e da vida.

Da escola, a contextualização da receita, o projeto da dengue, a conversa com os responsáveis, a visita ao Instituto Oswaldo Cruz, o bilhete das mamães, e... por aí vai. É o saber formalizado na escola.

Da vida, o relato e as expressões fortes, a subjetividade ao final da história...

E onde a fada? A fada acabou não entrando na história. A bruxa era mais forte no cotidiano da garotada. Não havia espaço para fadas. Sonhos, quem sabe? Para eles são apenas para serem sonhados. Onde a concretude? Talvez nos próximos livros...


E foi assim que se deu o ato de aprender a ensinar... E foi assim que se deu a interação professor-aluno... E foi assim que se deu a aquisição da leitura e da escrita...” 

NOTAS: 

* Professor do CIEP Dr. Adão Pereira Nunes e Coordenador do Projeto TV Pedagógica.

Referências bibliográficas:

Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, MEC/SEF, 1997/1998. (vários volumes)

Dalla Zen, Maria Isabel (org.). Projetos Pedagógicos: Cenas de Sala de Aula, Porto Alegre, Ed. Mediação.

Fonseca, Lúcia Lima da. O Universo na Sala de Aula – Uma Experiência em Pedagogia de Projetos. Porto Alegre, Ed. Mediação.

Hernández, Fernando e Ventura Montserrat.  A Organização do Currículo por Projetos de Trabalho – O Conhecimento é um Caleidoscópio. Porto Alegre, Ed. Artmed.

Hernández, Fernando. Transgressão e Mudança na Educação – Os Projetos de Trabalho. Porto Alegre, Ed. Artmed.

Revista Nova Escola. Edição nº146. Outubro de 2001.

Observação:

O quadro que se encontra na página 19 do boletim é um mapa semântico criado pelo professor Vinicius Signorelli, que sintetiza a dinâmica dos projetos didáticos. Ele pode ser obtido acessando o site da revista Nova Escola: www.novaescola.com.br

 

NOTAS:

 

*  Consultor na área de Educação. Consultor desta série.

 

 

 

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