A pedagogia de projetos estimula a introdução
de atividades mais dinâmicas na relação ensino/aprendizagem.
Atividades cooperativas, baseadas no diálogo, em que professoras/es,
alunos e alunas interagem no processo permanente de construção
de conhecimentos. Essa modalidade, que pretende produzir aulas mais
favoráveis à aprendizagem, também imprime um novo
desenho ao processo de ensino, exigindo uma redefinição
das ações relacionadas ao ensinar e ao aprender.
Os procedimentos didáticos criam oportunidades
para que os diferentes percursos de aprendizagem que se entrecruzam
no cotidiano escolar se explicitem, evidenciando a sala de aula como
um espaço constituído pela heterogeneidade. Os pontos
de partida são múltiplos, assim como são diferentes
os caminhos percorridos, o que só pode gerar vários pontos
de chegada. Ao potencializar a diferença, a pedagogia de projetos
nos faz interrogar o processo avaliativo constituído na perspectiva
da homogeneidade.
Tradicionalmente, avaliar tem se confundido com a possibilidade
de medir a quantidade de conhecimentos adquiridos pelos alunos e alunas,
considerando o que foi ensinado pelo professor ou professora. O ensino
tem sido a referência para a atribuição de valor
à aprendizagem. No entanto, a dinâmica estabelecida pela
pedagogia de projetos tira os pontos de apoio para os procedimentos
e instrumentos de avaliação que comparam o desempenho
do aluno ou aluna ao resultado previsto, gerando uma medida (traduzida
em nota ou conceito) que orienta a produção da hierarquia,
oferecendo elementos para a classificação (maduros/imaturos;
capazes/incapazes; fortes/fracos, etc.), o que justifica a seleção
(aprovação/reprovação) e a exclusão.
Essa avaliação, através das classificações
que promove, define o lugar de cada aluno ou aluna, atuando no sentido
de isolá-lo/la dos demais pela constante negação
dos sujeitos que a busca da homogeneidade impõe; o isolamento
dificulta o diálogo, reduzindo as potencialidades educativas
das práticas escolares. O isolamento dificulta que a heterogeneidade
enriqueça o processo e que cada um atue para saber mais, ampliando
suas possibilidades individuais, sem deixar de investir nas possibilidades
de ampliação dos conhecimentos de todo o grupo. Acredito
que nem sempre a dinâmica de exclusão fique clara para
o professor ou professora que utiliza a avaliação classificatória
como parte do processo pedagógico.
Embora muito criticada, a avaliação do
desempenho escolar como resultado do exame que o professor ou professora
realizam a respeito do aluno ou aluna ainda é predominante, fazendo
com que práticas como a Pedagogia de projetos sejam vistas como
procedimentos relevantes para o processo ensino/aprendizagem, que não
oferecem informações significativas para a avaliação
da aprendizagem do estudante. Como o conceito de avaliação
está "aprisionado" à idéia de verificação,
a diferença que emerge na realização dos projetos
não permite a comparação entre a resposta que o
aluno dá e a resposta esperada, que tem como referência
o que o professor ou professora pretenderam ensinar. Se a pedagogia
de projetos tem como fundamento a compreensão da aprendizagem
como ato dinâmico, compartilhado e processual, a avaliação
classificatória se configura a partir de uma concepção
mecanicista de aprendizagem, que valoriza as capacidades de armazenamento
e de reprodução do que foi ensinado. Nesse caso, estabelecem-se
práticas contraditórias no cotidiano escolar: por um lado,
o convite à diferença, por outro, o enquadramento dos
alunos e alunas.
A avaliação fomenta a distância
entre processo e produto. Pode-se prever que, no processo de realização
do projeto, vão sendo avaliados o comportamento do aluno ou aluna,
seus hábitos e atitudes, sua capacidade de trabalhar em grupo,
seu espírito de liderança, sua iniciativa, atributos que
se referem ao seu modo de interagir com os demais sujeitos, deixando
em segundo plano sua aprendizagem. É sobre o produto que se realiza
a verificação da aprendizagem: mede-se o desempenho do
aluno ou aluna a partir dos conhecimentos predeterminados como relevantes
pelo professor ou professora. Entende-se que a avaliação
do sujeito é o resultado da soma da análise do processo
com a verificação do desempenho.
Esta perspectiva de avaliação "fragmenta"
o aluno ou aluna, reduz a dinâmica do processo ensino/aprendizagem
e esvazia a riqueza que se anuncia com a explicitação
da heterogeneidade. Muito mais interessante é redefinir o sentido
da avaliação, para que ela seja parte da prática
pedagógica, inserida no movimento proposto pelo projeto, e possa
dialogar com a diferença que tece a dinâmica escolar, fazendo
da heterogeneidade um elemento significativo para o processo de ampliação
dos conhecimentos de todos. Como evidencia o conceito de zona de desenvolvimento
proximal (Vygotsky; 1988), a colaboração entre sujeitos
com conhecimentos diferentes potencializa a aprendizagem e o desenvolvimento.
A diferença nos ajuda a compreender que somos sujeitos com particularidades,
com experiências próprias, constituídas nos processos
coletivos de que participamos dentro e fora da escola; posta em diálogo,
enriquece a ação pedagógica.
Uma possibilidade de conectar a avaliação
ao processo estabelecido pela Pedagogia de projetos é torná-la
uma prática de investigação (Esteban, 2001) dos
processos desenvolvidos e dos resultados apresentados, incorporando
alunos/as e professores/as como sujeitos interativos no desenvolvimento
do projeto que está sempre atravessado por conhecimentos, desconhecimentos
e aprendizagens. Como prática de investigação,
expõe a natureza coletiva e dialógica da avaliação
por envolver diversas pessoas, diversos pontos de vista e várias
possibilidade de compreensão. No lugar de conclusões que
definem o lugar do aluno ou aluna, esta modalidade de avaliação
encontra no processo do aluno ou aluna espaço para perguntas.
Perguntas que trazem a multiplicidade de sentidos, a complexidade e
a heterogeneidade com que os sujeitos encarnados (Najmanovich) tecem
as práticas pedagógicas. Perguntas que podem indicar os
percursos, mesmo que aparentemente tortos, pelos quais os conhecimentos
vão sendo tecidos, expondo os fios que estão sendo puxados
e os modos de fazer a trama. Perguntas que podem nos ajudar a ver, no
aparente desconhecimento, aprendizagens relevantes e processos significativos.
O enfoque da avaliação muda. O importante
não é a atribuição de nota ou o conceito,
interessa coletivamente a compreensão do processo ensino/aprendizagem
para permitir a ampliação do conhecimento. Ampliar para
onde? Para o que se revela, no processo, desconhecido, necessário,
interessante, desejado, significativo.
Também muda o sujeito da avaliação.
Como não se trata apenas de verificar o desempenho do aluno ou
aluna, todos os sujeitos participantes do processo ensino/aprendizagem
estão implicados na investigação. A avaliação
é um processo compartilhado, que busca contribuir para uma melhor
compreensão de como o outro - parceiro no processo pedagógico
- compreende, como aprende, o que aprende, o que ensina, como ensina,
o que sabe e o que não sabe, não apenas ao final do processo,
mas enquanto o realiza. Aqui a avaliação focaliza o desconhecido,
porém não como registro da incapacidade, mas como locus
potencial de ampliação, individual e coletiva, do conhecimento.
A avaliação como prática de investigação
dá visibilidade ao processo permanente de construção/desconstrução/reconstrução
dos conhecimentos de todos os que participam da relação
pedagógica.
Como a pedagogia de projetos trabalha na perspectiva
do movimento e da diferença, entendo que a avaliação
precisa estar conectada ao permanente movimento de construção
de conhecimentos, aqui traduzido pela idéia de ainda não
saber, que traz para a avaliação a ênfase no processo
permanente e estimula o diálogo e o encontro das diferenças.
A palavra ainda marca, no processo, a possibilidade, a continuidade,
o movimento, o devir. A palavra ainda ressalta na aprendizagem sua potencialidade,
sua dinâmica, permitindo que a dinâmica pedagógica
seja enriquecida pela heterogeneidade. A palavra ainda alimenta o processo
de investigação.
A avaliação como prática de investigação
tem um horizonte móvel, indefinido, pois não trabalha
a partir de uma única resposta esperada, mas indaga as muitas
respostas encontradas, os diferentes caminhos percorridos, os múltiplos
conhecimentos anunciados, com o sentido de ampliação permanente
dos conhecimentos existentes. Assim, o aluno ou aluna pode ir se sentindo
livre para dar a sua resposta, mesmo que diferente da resposta padronizada,
porque sua resposta será admitida como conhecimento e, como tal,
é considerada parcial e provisória.
Nesse caso, o erro deixa de representar a ausência
de conhecimento válido, sendo apreendido como pista que indica
como o aluno ou aluna está articulando os conhecimentos que já
possui com os novos conhecimentos que vão sendo elaborados na
realização do projeto, permitindo uma melhor compreensão
dos conhecimentos consolidados, dos desconhecimentos presentes e dos
conhecimentos necessários e/ou em processo de construção.
O erro explicita percursos possíveis para o saber mais, ressaltando
a diferença de conhecimentos, lógicas e processos; expõe
a diferença que efetivamente compõe a sala de aula e anuncia
modos de incorporá-la potencializando a relação
ensino/aprendizagem, pois ele indica particularidades que devem ser
integradas à dinâmica coletiva e trabalhadas com a marca
da originalidade e da criação, aspectos centrais no desenvolvimento
dos projetos.
A avaliação não prioriza o resultado
ou o processo: como prática de investigação, interroga
a relação ensino/aprendizagem em sua complexidade e busca
identificar os conhecimentos e desconhecimentos que estão em
diálogo. Toda resposta, certa ou errada, é simultaneamente
um ponto de chegada aceitável, por mostrar os conhecimentos já
elaborados, e um novo ponto de partida, por possibilitar novos questionamentos.
A avaliação oferece elementos para uma melhor compreensão
do movimento vivido individual e coletivamente na realização
do projeto, contribui para a elaboração de propostas que
possam alimentar o processo de construção de conhecimentos
e indica desconhecimentos que podem gerar desdobramentos no próprio
projeto ou novos projetos.
Bibliografia
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São Paulo, Cortez, 2001.
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São Paulo, Cortez, 1991. 2ª ed.
VYGOTSKY, L. S. A formação social
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NOTAS
1. Texto apresentado ao Programa Salto para o Futuro: Avaliação
e aprendizagens significativas.
* Doutora em Educação. Professora da Faculdade de Educação
da Universidade Federal Fluminense.
