Começo
nosso diálogo sobre o desafio de se construir uma prática
avaliativa que efetivamente sirva ao desenvolvimento do processo de
formação escolar do(a) aluno(a) e do trabalho pedagógico
do(a) professor(a) com esse pequeno trecho de uma poesia de Cora Coralina,
que soube tão bem falar da boniteza da vida cotidiana, cotidiana
como é a própria experiência de avaliar(se). Como
bem falou Sacristán (1998), é imprescindível um
esforço por parte da escola, de seus profissionais e de seus
alunos para que não separemos os tempos - e eu diria também
os espaços, os modos e os sujeitos - de ensinar e de aprender.
Segundo ele, nessa separação "a avaliação
desintegra-se da aprendizagem, perdendo seu valor formativo no diálogo
crítico entre professores/as e alunos/as" (p.339). Essa problemática
nos remete ao desafio de tornar ao mesmo tempo a avaliação
tão importante e intrínseca à análise, à
recondução, à reorganização dos processos
de ensinar/aprender, que ela não necessite ser destacada
de tais práticas, em todos os sentidos que tal palavra nos mostre.
A
chamada "cultura da avaliação", atualmente tão
presente nos processos educacionais e que, muitas vezes, tem condicionado
as práticas curriculares, a organização do trabalho
pedagógico escolar e as próprias práticas avaliativas
na tentativa de adequá-las às exigências de tal
"cultura", muitas vezes tem contribuído para a manutenção
de uma avaliação escolar certificativa, classificatória,
perdendo cada vez mais seu sentido pedagógico. Por outro lado,
essa nossa preocupação caminha no sentido de reafirmar
a importância que a avaliação tem como prática
central no trabalho pedagógico, mas não por ser mais valiosa
que as próprias finalidades desse trabalho, ou por estas finalidades
se justificarem apenas pela iminência de serem avaliadas. A importância
central da avaliação está em (dever) ser capaz
de mediar a prática educativa, contribuindo significativamente
para que as suas finalidades sejam alcançadas e, inclusive, possam
até ser (re)significadas, mas fazendo-o sem ser vista, sendo
vista fingindo não ver.
Para que a avaliação ocupe seus espaço/tempo/forma
relevantes do ponto de vista reflexivo, dialógico e criador no
processo de formação escolar, suas atividades específicas
devem ser pertinentes/adequadas e, sobretudo, significativas para não
apenas interessarem como também desafiarem os alunos a mostrarem
suas aprendizagens construídas e, indo além disso, avançarem
no processo de construção do conhecimento (Hadji, 2001).
Em outro momento (Luis, 2000), tivemos a oportunidade de discutir a
respeito do desafio de se construir uma prática avaliativa significativa,
apontando a necessidade de se questionar nossa própria concepção
de conhecimento e de saber(es) escolar(es). Além de identificarmos
o conhecimento e o saber escolar como social e singularmente construído
por cada sujeito, eles devem traduzir uma complexa rede de significados,
implicações e inter-relações - culturais,
sociais, políticos, ambientais, estéticos, corporais -
entre sujeitos, tempos e espaços.
O caráter emancipador dessas inter-relações,
pelas possibilidades de fomentar a compreensão e a atuação
autônomas e críticas pelo sujeito/aluno(a) sobre sua realidade,
pressupõe um saber escolar que valorize múltiplas linguagens
e de forma articulada, portanto, não apenas as tradicionalmente
valorizadas, como a lógico-matemática, a histórica,
mas também a artística, a estética, a corporal,
a lúdica, assim como o pensamento criativo, intuitivo e inventivo.
É nessa concepção mais ampla de saber escolar que
inscrevemos algumas reflexões sobre o papel do ensino de Arte
e de Educação Física e, conseqüentemente,
dos desafios que estes encontram na avaliação escolar.
Primeiramente, é importante destacar o compromisso
que a formação escolar deve ter com a transmissão
das culturas universal e local, entendidas não como acabadas,
estáticas e únicas, mas como "memória viva"
(Forquin,1993), como também cada uma com sua importância
singular na formação do(a) aluno(a). E é nessa
perspectiva que circunscrevemos o ensino de Arte e de Educação
Física como espaços curriculares fundamentais na formação
cultural, tanto estética, criativa, crítica, como lúdica
e corporal. Esses espaços curriculares têm sua importância
não só por trazer para o mundo da escola outras referências
de pensar, agir e criar, ampliando as linguagens e saberes nela valorizados,
mas, sobretudo, quando efetivamente se constituem referências
através das quais os mais diversos campos do saber escolar se
utilizam. Ou seja, como não seria significativa a aprendizagem
da linguagem matemática caso as linguagens artística e
corporal, em toda a sua complexidade, fossem utilizadas como referências
de pensamento e para a elaboração das atividades de aprendizagem?
Esses espaços curriculares, desde que integrados
ao projeto político-pedagógico da escola (Taffarel et
al., 2000), podem levar os professores(as) a "descobrir[em]
aspectos capazes de estabelecer (...) as pontes e diálogos
que garantam aproximações entre as culturas dos jovens
[crianças e adultos] e a da escola [entre o universal
e o local]. Entre o conhecimento racional e contemplativo e a ação,
a percepção e a emoção" (Kenski, 2000:
127). Essas pontes e diálogos - essa articulação
de diferentes formas de pensar e ver o mundo - são passos fundamentais
para uma formação escolar significativa.
Apontar para o papel fundamental da Arte e da Educação
Física e de sua relação com outras áreas
de conhecimento, implica refletirmos sobre o papel de uma avaliação
escolar que legitime, que garanta e que aprimore a relevância
dessas formas de conhecimento. Assim, temos a necessidade de que "a
avaliação não seja vista como ponto de chegada,
mas como ponto de partida para a construção de novas relações
e rede de significados. Essa concepção pressupõe
um processo dinâmico de aprendizagem sempre em construção,
o que nega a fragmentação, seja do ato de aprender, seja
da avaliação" (Luis, 2000:36).
Como ação intrínseca ao processo
complexo de ensinar e aprender e, especialmente pela vinculação
que o ensino de Arte e de Educação Física tem com
a complexidade da formação humana, cultural, artística,
corporal, a avaliação precisa superar a prática
da cópia, do treino, da memorização, da reprodução
de tarefas. Capacidade de compreensão crítica, de criação
autônoma, de desenvolvimento do senso estético, de expressão
corporal, de ludicidade, de articulação de idéias,
de relacionamento inter-pessoal, de apreciação artística,
de espírito de coletividade, entre outras, são práticas
que privilegiam tanto o processo de produção de sentidos
(aprendizagem significativa) da experiência de conhecer, ao desenvolverem
a capacidade de o sujeito situar-se ativamente no mundo, como sua auto-responsabilização
por sua formação.
Esses princípios acima levantados nos remetem
ao desafio duplo de criar momentos e atividades de aprendizagem e avaliação
capazes de atribuir sentido às práticas curriculares e
de formar aluno(a)s capazes de controlarem, analisarem e tomarem decisões
sobre o próprio processo de aprendizagem. Isso é o que
tem sido chamado de exercício de metacognição (Darsie,
1995; Perrenoud, 1998; Hadji, 2001), ou seja, a capacidade de explicitar
formas e especificidades de seus esquemas de pensamento, de analisar
suas possibilidades, dificuldades, suas variadas formas de aprender/pensar
em relação a contextos, professores e saberes diferentes
e de conceitualizar algumas propriedades mais gerais que caracterizam
suas formas de aprender, independentemente de contextos e saberes diferentes
(Wolfs, 2000).
O exercício de metacognição está
circunscrito na capacidade de auto-avaliar-se, mas não no sentido
que comumente é dado à auto-avaliação pelo(a)
aluno(a), de dizer-se capaz ou não de algo ou de atribuir-se
uma menção, mas no sentido de tomar consciência
de seus próprios percursos de aprendizagem "com o fim de elaborar
gestos de natureza corretiva, com o fim de ajustar-se" (Scallon, 2000).
Assim, além de ser uma experiência comprometida com a construção
da autonomia do sujeito, o exercício de metacognição
está intimamente ligado à avaliação formativa,
à avaliação que tem o compromisso com a garantia
da aprendizagem e do sucesso do(a) aluno(a). Dessa forma, quanto mais
nosso(a)s aluno(a)s forem levados a explicitarem suas necessidades,
suas dificuldades, suas características e formas de aprender/estudar,
tanto mais nos apontarão e a si próprios pistas de ação
para superarem problemas e/ou avançarem e investirem naquilo
que conseguem fazer mais facilmente.
Nesse sentido, precisamos reconhecer que nosso trabalho
pedagógico apresenta práticas avaliativas cotidianas que
estão permeadas de múltiplos aspectos, em função
da própria complexidade do ensinar e aprender, as quais constituem
o que se costuma chamar de avaliação informal. Essa avaliação
informal, superando o temor pela subjetividade, precisa ser cada vez
mais valorizada, tornando-se seus critérios cada vez mais claros
e as práticas de observação mais sistemáticas
e abrangentes, a fim de que se constituam como fontes legítimas
de decisões para nós professore(a)s e de reflexão
metacognitiva para nossos aluno(a)s.
Hadji (2001) nos fala da importância do "agir
observando", um agir capaz de interpretar de forma pertinente os dados
que, através de atividades, questionamentos, os aluno(a)s indicam
sobre os seus processos de aprendizagem, implicando uma análise
dos porquês que explicam o não desempenho, as hipóteses,
a falta de atenção e mesmo o bom desempenho. Do contrário,
corre-se o risco de a avaliação não enxergar as
reais necessidades do(a) aluno(a), uma vez que a fecundidade da avaliação
está em ser capaz de interpretar de forma crítico-reflexiva
aquilo que muitos indicadores (exercícios, atividades, atitudes,
etc), na maioria das vezes, apenas insinuam. A avaliação
tem que ser um processo de "escuta sensível", como
nos diz Barbier, na qual há um processo de implicação
por parte do(a) professor(a), ou seja, na qual há uma necessidade
de nós professore(a)s nos vermos implicado(a)s naquilo que o(a)
aluno(a) faz, diz, aprende, sente e mostra através da avaliação,
bem como a necessidade desta mesma estar implicada no processo de ensinar
e aprender.
Contribuindo um pouco mais para a nossa reflexão,
Hadji (idem), apoiando-se em Barlow (1992), afirma que uma avaliação
só será verdadeiramente formativa se houver uma comunicação
útil, um "esforço para compreender melhor como as coisas
se passam" (p.109). Aprofundando essa idéia nós afirmaríamos,
apoiados em Freire, que essa comunicação útil só
é possível numa relação dialógica
entre professor(a) e aluno(a); primeiro porque ela permeia toda a relação
pedagógica, segundo porque não há a preocupação
única de verificar o rendimento escolar, mas de construir um
diálogo sobre conhecimento, aprendizagem e experiência
sociocultural.
Essa relação dialógica tem implicações
claras no exercício de metacognição por parte do
aluno, ao ajudá-lo a refletir sem receios e sem autoprotecionismos
sobre sua aprendizagem. Além disso, numa relação
dialógica, há uma superação da lógica
classificatória e punitiva da avaliação, na qual
a expectativa que o professor cria no processo avaliativo é a
de fazer/ajudar/levar o(a) aluno(a) a aprender significativamente, o
que contribui decisivamente para modificar a relação que
esse(a) aluno(a) estabelece com o saber e com a própria avaliação.
Essa relação com o saber passa de uma finalidade mercadológica
- "eu tenho que estudar/aprender para ter boa nota" - para uma finalidade
sociocultural e pessoal - "eu tenho necessidade, eu quero, eu gosto
de saber sobre isso".
Ainda para Hadji (idem), o momento do "feedback", ou
seja, dessa comunicação entre professor(a) e aluno(a)
deve ser institucionalizado, deve participar sistematicamente do processo
avaliativo, permitindo "captar as reações dos alunos,
suas questões sobre o sentido e o alcance do que foi dito pelo
avaliador, seus pedidos de explicação sobre as apreciações
e as notas" (p.110). E toda comunicação deve ser feita
entre professor(a) e aluno(a), sujeito único, com necessidades
e qualidades específicas, uma vez que "a informação
diferenciada dá a chance de que esse sujeito encontre julgamentos
positivos sobre si, em alguma qualidade, que o motivem e valorizem seu
esforço" (Sacristán, 1998: 315).
Também a comunicação escrita pode
e deve ser coerente com esses princípios formativos, no sentido
de estabelecer um diálogo com o(a) aluno(a) e lhe dar pistas
para reconhecer seus avanços e dificuldades. Os próprios
registros formais dos resultados e da análise dos dados da avaliação
podem corresponder à necessidade de avaliação processual.
Numa perspectiva de aprendizagem como processo contínuo e de
sistematizações em espiral, bem como de uma avaliação
formativa, dinâmica, nenhum aluno é bom/ruim ou
tem dificuldades, mas está bem ou mal, o que significa
dizer duas coisas: uma, que qualquer interpretação do
estado - provisório - do(a) aluno(a) implica uma tomada
de decisão para a superação/avanço; e dois,
que nenhum registro pode ser encarado de forma estática, sendo
permitido e, sobretudo, necessário que ele traduza as práticas
de ensinar e de aprender em sua dinamicidade.
Diante desses elementos, apenas introdutórios,
que discutimos sobre a importância da avaliação
formativa, não poderíamos deixar de citar um instrumento
de avaliação que é capaz de reunir qualidades como
ser processual, dinâmico, trabalhar múltiplas relações
de saberes e proporcionar elementos para o exercício metacognitivo
e o diálogo professor(a)-aluno(a), além de possibilitar
uma construção particular por parte do sujeito da aprendizagem:
o porta-fólio. De acordo com Villas-Boas (2000), o porta-fólio
é um instrumento privilegiado para o "desenvolvimento de processos
ativos (seleção, comparação, auto-avaliação,
parceria, estabelecimento de objetivos), mais do que produtos, o que
constitui um dos seus pontos fortes" (p.5).
Todo tipo de produção - escrita (descritiva,
analítica, poética, etc.), pictórica, fotográfica,
em grupo ou individual - pode fazer parte da constituição
de um porta-fólio, que deve apresentar a sistematização
do conhecimento pelo aluno de forma cumulativa e dinâmica, além
de atender aos desejos e necessidades de complementação
por cada aluno(a). A qualidade de ser cumulativa pressupõe a
necessidade de acompanhar o itinerário do(a) aluno(a)
em seus avanços e suas escolhas e a de ser dinâmica permite
e impõe a necessidade de retomadas, idas e vindas sobre o que
já se sabe e o que ainda não. E é aqui, em especial,
o ponto onde se situa a característica mais especial do porta-fólio
na contribuição para a formação de sujeitos
críticos e autônomos: possibilitar o exercício metacognitivo,
o controle sobre sua aprendizagem.
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NOTAS
* Mestre em Educação/Universidade Federal de Pernambuco
- UFPE.
