PGM 5 -
Escola inclusiva e as novas tecnologias
Elisa Tomoe Moriya Schlünzen1
elisa@prudente.unesp.br
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional - LDB, nš 9.394/96 apresenta-se como um marco muito significativo
na educação brasileira, uma vez que ela prevê a inclusão
e a ampliação do atendimento educacional, em rede pública,
aos educandos com necessidades especiais nos níveis de Educação
Infantil e Superior. Esta lei é fundamental e abre uma perspectiva
para essas crianças. Braga (1996) declara que Vygotsky versava
que o futuro das crianças com necessidades especiais depende muito
da possibilidade que elas venham a ter de interação com
o meio social. Para a autora, o meio contribui significativamente no desenvolvimento
da criança com necessidades especiais e o contato com o outro provoca,
na criança, um desenvolvimento intrapsicológico melhor.
Russo (1994, p. 37) acrescenta afirmando que, nas pessoas com necessidades
especiais, pode-se formar uma delimitação secundária
para a sua dificuldade, caracterizada pela ausência de experiências
socioculturais que lhes é imposta durante sua trajetória
de vida. Essas delimitações podem ser tão fortes
nas características pessoais destes indivíduos, que passam
a fazer parte do quadro de suas patologias.
Logo, acredito que, a escola como instituição
que é, seja o ambiente propício para possibilitar a interação
da criança com o meio social. A inclusão pois, deve ser
o início para que a sociedade receba estes seres especiais, oferecendo
a oportunidade para que eles possam relacionar-se com seus amigos, com
ou sem necessidades especiais, no contato com ambientes dos quais eles
foram privados pela sua própria condição, oportunizando-lhes
interagirem, experienciarem e vivenciarem situações como
qualquer outro ser.
No entanto, apesar dos esforços
de pessoas dedicadas das Secretarias Municipais, Estaduais e Federais,
que buscam melhorar as condições das crianças especiais,
a tão desejada inclusão não acontece. Esta conclusão
ocorreu após ter orientado uma pesquisa (Portela, 2001)2,
na qual observou-se a existência de um descompasso entre a teoria/prática
no que se refere à inclusão, ou seja, existe um distanciamento
entre a lei que a garante e a prática que a nega. As principais
dificuldades que impedem a operacionalização da inclusão
no ambiente são: a falta de formação e preparo
do professor; a necessidade de mudança na prática pedagógica
e, conseqüentemente, no processo educacional; a falta de critério
para selecionar os professores que venham a atuar junto a esses alunos,
sem considerar a sua vocação ou histórico de vida;
a prática do professor, que geralmente busca atender à dificuldade
do aluno e não explorar a sua potencialidade; a falta de preparo
dos próprios alunos da sala para receber um aluno especial; a falta
de adaptação na estrutura física do ambiente. Este
fato é completado com o relato de uma ex-aluna do curso de Licenciatura
de Matemática da FCT/Unesp-PP. Ela declara que, em uma das salas
que atuava como professora de Matemática na cidade de São
José dos Campos-SP, existia um aluno portador de necessidades especiais
educativas, que permanecia isolado, não participando das atividades
da sala de aula. A professora sentia-se angustiada com a situação,
porém encontrava grande dificuldade em modificar este quadro, pois
não havia sido preparada para lidar com crianças portadoras
de necessidades especiais.
Com as experiências teórico-práticas
vivenciadas, posso afirmar que uma das grandes dificuldades de incluir
alunos com essas necessidades deve-se à abordagem metodológica
instrucionista praticada nas escolas: todos devem saber tudo, respeitando
um mesmo tempo, ritmo e caminhos, buscando-se promover na escola uma homogeneização
de seres heterogêneos. Portanto, incluir crianças especiais,
sob a perspectiva metodológica instrucionista, é uma atitude
a ser repensada. Dessa forma, percebo que a escola deve rever sua maneira
de ensinar e propiciar a aprendizagem, respeitando as diferenças,
oportunizando aos alunos descobrirem suas habilidades, capacidades e potencialidades,
oferecendo assim reais condições para que esses alunos especiais
participem do ambiente escolar.
Vygotsky (1993) sinaliza para uma mudança, enfatizando
a necessidade de uma revisão dos currículos e métodos
de ensino, substituindo a abordagem quantitativa por uma abordagem qualitativa
baseada em novos princípios educacionais. Neste sentido, Perrenoud
(1999) afirma que uma abordagem para construir competências, tanto
de professores como de alunos, seria a voltada para o desenvolvimento
de projetos. Para Almeida (1999), com o desenvolvimento de projetos cria-se
um melhor ambiente de aprendizagem nos quais professores e alunos são
sujeitos participantes de todas as etapas do processo, desde sua concepção
até a reflexão final sobre as vivências desencadeadas,
os resultados obtidos e a avaliação da aprendizagem.
Com este cenário,
busquei investigar3
os princípios básicos que orientariam o professor para construir
uma metodologia que usa o computador para criar um ambiente Construcionista,
Contextualizado e Significativo4
para crianças com necessidades especiais físicas, despertando
as potencialidades e habilidades do aluno, usando como estratégia
o desenvolvimento de projetos (Schlünzen, 2000). Logo, em uma formação
em serviço, pretendi, junto com o professor, resgatar um ambiente
no qual as crianças pudessem aprender os conceitos de forma lúdica,
conhecerem-se melhor, promovendo contato e vivência com a sociedade,
e que as habilidades e potencialidades de cada um fossem valorizadas e
o uso do computador ganhasse sentido.
Nesta pesquisa, o computador no desenvolvimento dos projetos
pôde potencializar a comunicação, a criação
e a produção dos alunos, sendo também usado como
um instrumento de diagnóstico e de avaliação formativa,
uma vez que permitia verificar a capacidade intelectual da criança
portadora de necessidades especiais físicas. Além disso,
por meio da formalização e representação,
execução e depuração de suas idéias
(Valente, 1993), os próprios alunos descobriram e corrigiram os
seus erros com maior facilidade, depurando e refletindo sobre todo o seu
processo de construção do conhecimento. Com o computador,
o educando conseguiu realizar as tarefas de maneira independente, sem
o auxílio de outras pessoas, superando ou minimizando as barreiras
com o mundo sem que o seu comprometimento se evidenciasse. O uso do computador
foi articulado ao cotidiano da sala, propiciando a construção
do conhecimento e a busca de informações. O aluno pôde
construir algo palpável (Valente, 1997) e significativo dentro
do projeto que os alunos estavam desenvolvendo, ampliando o trabalho desenvolvido
para as dimensões afetivas e valorativas. Assim, o professor articulou
o uso desta ferramenta e todos os benefícios que ela traz para
a Educação Especial, na sua prática pedagógica.
Neste ambiente, foi possível também trazer
o dia-a-dia para a sala de aula, permitindo aplicações práticas
e a aprendizagem com a experiência, com a realidade e necessidade
do aluno (Masetto, 1998). Dessa forma, o professor descobriu uma maneira
mais prazerosa de ensinar, de dar significado à aprendizagem, integrando
e contextualizando os conceitos. O conhecimento foi construído
e a Educação deixou de ser a definida por Freire (1970)
como "bancária", na qual o aluno é um ser passivo
em quem são depositadas as informações. O ensino
deixou de ser centrado no professor que fala, dirigindo-se para o aluno
que precisa interagir com o mundo a sua volta.
No desenvolvimento dos projetos com os alunos, o professor
aproveitou toda a riqueza dos momentos que surgiram para conseguir contemplar
o currículo. Com sua experiência docente, percebeu os conceitos
que podiam ser desenvolvidos e pôde estar atento à sua formalização,
colaborando com a construção dos conceitos a partir dos
temas escolhidos, vividos e abordados.
Logo, o currículo foi organizado e construído
a partir dos problemas e preocupações que interessavam aos
alunos. Isto é diferente dos currículos acadêmicos
e fragmentados por disciplinas, como Hernandez (1998) ressalta que estão
presentes na maioria das escolas. Para contemplar o currículo a
cada atividade, o professor fazia um levantamento e uma reflexão
dos conceitos que foram abordados junto com os alunos, o que permitiu
verificar que, mesmo não tendo ocorrido de maneira linear, ele
conseguiu contemplar os mais diversos conteúdos, com a vivência
dos alunos. Nos momentos de reflexão e sistematização,
verificava-se também o que poderia ser explorado, delineando as
novas atividades por meio de um processo reflexivo.
Além disso, a metodologia favoreceu às
crianças terem consciência de seu crescimento e habilidades,
permitindo que o aluno percebesse e verificasse suas capacidades, descobrindo
sua auto-imagem para atuar em sociedade. Logo, foi possível realizar
uma auto-avaliação com os alunos, permitindo-lhes demonstrar
suas percepções e com isso, ampliar o diagnóstico,
a avaliação e a atuação do professor.
Portanto, o professor conseguiu
realizar uma avaliação formativa dos alunos (Perrenoud,
1999) ou mediadora (Hoffmann, 1993), porque pôde analisar as várias
manifestações sociais, emocionais, afetivas e cognitivas
deles em situação de aprendizagem. Assim, conseguiu-se perceber
as facilidades ou os problemas de elaboração, de raciocínio,
de proporção, de articulação, de sociabilidade.
Isto permitiu ao professor conhecê-los de uma maneira mais completa,
podendo decidir e atuar para ajudá-los a melhorar, a se desenvolverem
e a descobrirem as suas habilidades, competências (Perrenoud 1999),
inteligências (Gardner, 1995), potencialidades e seus caminhos isotrópicos5
(Vygotsky, 1993; Braga, 1996). Os alunos atuavam muito, individualmente
e coletivamente, e o que produziam não estava direcionado apenas
para a expectativa do professor, mas estava relacionado com seus interesses.
Nesta avaliação contínua, foram observados os aspectos:
emocionais, sociais e cognitivos. Consideramos o desempenho de cada aluno
e sua evolução individual e coletiva no decorrer do ano
letivo.
O ambiente favoreceu ainda mais os trabalhos em grupo,
o que contribuiu para que um completasse as idéias e dificuldades
do outro. A aprendizagem não ocorreu apenas com os professores
em uma relação individual e de dependência (Masetto,
1998), havendo uma grande parceria com os amigos, professores e voluntárias
da instituição. Dessa forma, cada aluno pôde contribuir
com suas idéias a partir de sua criatividade, interesses e desejos,
não sendo um espectador das mudanças que estavam ocorrendo
(Fazenda, 1995), tornando-se o ser ativo do processo de ensino-aprendizagem.
Houve também uma mudança na relação
do professor com os pais, uma vez que agora eles compartilham o desenvolvimento
do aluno e colaboram com depoimentos. Dessa forma, foi muito importante
a interação das pessoas diretamente ligadas aos alunos,
para que o professor pudesse dialogar e obter informações
para avaliar de maneira mais precisa o desenvolvimento deles também
no convívio familiar e social. Nas análises das professoras,
elas declararam que ao observar as grandes evoluções, o
progresso e a satisfação que as crianças apresentavam
em cada uma de suas conquistas, vivenciadas no desenvolvimento dos projetos,
é praticamente impossível negar os benefícios do
novo ambiente e dos recursos computacionais.
Logo, pude verificar que é possível melhorar
o processo ensino-aprendizagem de crianças com necessidades especiais
físicas, as quais construíram conhecimento, aprenderam de
forma contextualizada e significativa. O computador foi o potencializador
de suas habilidades, o currículo foi construído durante
as atividades desenvolvidas, houve mudanças na prática pedagógica
do professor e nas relações com os pais, entre outros resultados
expressivos. Neste ambiente, o ritmo e o tempo, as habilidades, as potencialidades
e as dificuldades de cada criança foram respeitados, possibilitando
que cada uma encontrasse seu caminho isotrópico.
Tudo isto permitiu-me vislumbrar que estas crianças
poderiam ser incluídas em uma escola normal que fizesse uso desta
nova metodologia, sustentando a tese de Mantoan (1997) sobre o aprimoramento
da qualidade do ensino regular e a adição de princípios
educacionais válidos para todos os alunos, resultando, naturalmente,
na perspectiva de uma inclusão escolar com o uso das novas tecnologias.
Finalizando, acredito que a comunidade educacional deva
assumir um compromisso para que o professor possa apropriar-se da metodologia
construída, por meio da qual os alunos, com necessidades especiais,
encontrem seus caminhos isotrópicos, possibilitando-lhes participar
deste ambiente escolar. Logo, após todas estas constatações,
sinto a necessidade de a escola regular mudar seu paradigma educacional
e oferecer oportunidade para estas crianças de se relacionarem
com outros alunos, desenvolvendo suas potencialidades, sentindo-se incluídas
e não excluídas. Portanto, nasce um novo desejo, desenvolver
um ambiente Construcionista, Contextualizado e Significativo para ser
compartilhado por crianças "normais" e com necessidades
especiais. Minha pesquisa não se encerrou quando coloquei um ponto
final em meu texto/tese. Ela me remeteu a novos caminhos que surgiram
durante o percurso de meu amadurecimento como pesquisadora.
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York: Plenum.
NOTAS
- Professora Doutora do Departamento de Matemática e do Programa
de Pós-Graduação em Educação da Faculdade
de Ciências e Tecnologia/Universidade Estadual Paulista - FCT/Unesp
- Presidente Prudente.
- Pesquisa sobre a "Inclusão do Portador de Necessidades
Educativas Especiais no Cotidiano Escolar" financiada pela Fundação
de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, sob minha
orientação, que visava verificar se de fato cumpre-se
a lei em termos de inclusão de alunos portadores de necessidades
especiais.
- As reflexões apontadas a seguir são resultados da pesquisa
de doutorado realizada por mim na Associação de Assistência
à Criança Deficiente - AACD, no período de maio
de 1998 a dezembro de 1999, com crianças portadoras de necessidades
especiais físicas.
- Construcionista porque o aluno usa o computador como uma ferramenta
para produzir um produto palpável na construção
do seu conhecimento e que é de seu interesse (Valente, 1997);
Contextualizado porque o tema do projeto parte do contexto da
criança, desenvolvendo-se a partir da vivência dos alunos,
relacionando-o com a sua realidade;
- Significativo quando os alunos se deparam com os conceitos
das disciplinas curriculares e o professor media a formalização
dos conceitos, cada aluno deve conseguir dar significado ao que está
sendo aprendido, atuando conforme suas habilidades, resolvendo o problema
de acordo com aquilo que mais se identifica.
- Vygotsky (1993) afirma que a criança deficiente teria seus
próprios caminhos para processar o mundo. Para ele, a necessidade
especial da criança faz com que ela se desenvolva por meio de
um processo criativo (físico e psicológico), definindo-o
como caminhos isotrópicos. Ou seja, a criança portadora
de necessidades especiais pode encontrar seus caminhos por rotas próprias
e diferentes.
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