De 1 a 5 de outubro de 2001, a TV Escola estará
veiculando, no programa Salto para o Futuro, a série Tecnologia
na escola. São cinco temas a serem cuidadosamente abordados
durante a semana: 1. Prática: eixo da formação;
2. Rede de conhecimentos; 3. Ambientes virtuais de aprendizagem;
4. Formação de professores a distância; 5. Tecnologia
e escola inclusiva.
A integração da tecnologia de informação
e comunicação - TIC na educação pública
brasileira já passou por várias fases e traz em sua
trajetória uma perspectiva inovadora, que distingue o Programa
Nacional de Informática em educação - ProInfo,
da Secretaria de Educação a Distância - SEED,
do MEC, das ações correlatas de outros países
e respectivas políticas públicas para o setor. Em
nosso caso, a característica básica é a inter-relação
entre pesquisa, formação e prática com o uso
da tecnologia de informação e comunicação.
Aprende-se a conhecer, aprendendo a fazer e a refletir sobre esse
fazer.
Nos anos 80 e início de 90, do século
XX, a versão primeira do Programa Nacional de Informática
em Educação visava à preparação
de professores para o uso da informática com seus alunos
e a criação de centros de informática educativa,
CIEDs, localizados nas secretarias estaduais de educação,
os quais se dedicavam a preparar professores e a atender aos alunos
das escolas públicas no que diz respeito ao uso do computador.
Esse programa formou professores em pequena escala e não
conseguiu chegar à sala de aula.
O programa atual do MEC, ProInfo, que se desenvolve
por meio de parceria com as Secretarias Estaduais de Educação,
começa a concretizar nosso sonho de introduzir o computador
na escola para ser incorporado à prática pedagógica
de diferentes áreas de conhecimento, favorecendo a aprendizagem
do aluno. Esse programa prioriza a formação de professores
e educadores em um processo que integra o domínio da tecnologia,
teorias educacionais e prática pedagógica com o uso
dessa tecnologia. Daí decorre o grande impacto não
só no sistema educacional, mas também no desenvolvimento
humano e na cultura brasileira, de tradição essencialmente
oral.
Concordamos com Cury (2001)2,
que o acesso de uma camada da população, sobretudo
os escravos, à escola foi impedido pelo processo de colonização.
Tal fato impediu, ainda, a participação de muitos
brasileiros no mundo da leitura e da escrita, bem como a formação
de leitores e escritores.
Estamos diante da constatação de
que escrever significa registrar, compreender e interferir na história
pessoal e na transformação do mundo. Portanto, de
acordo com Kramer3
(2001, p. 114) "escrever é deixar-se marcar pelos traços
do vivido e da própria escrita, reescrever textos e ser leitor
de textos escritos e da história pessoal e coletiva, marcando-a,
compartilhando-a, mudando-a, inscrevendo nela novos sentidos".
Com o uso da tecnologia de informação
e comunicação, professores e alunos têm a possibilidade
de utilizar a escrita para descrever/reescrever suas idéias,
comunicar-se, trocar experiências e produzir histórias.
Assim, em busca de resolver problemas do contexto, representam e
divulgam o próprio pensamento, trocam informações
e constroem conhecimento, num movimento de fazer, refletir e refazer,
que favorece o desenvolvimento pessoal, profissional e grupal, bem
como a compreensão da realidade.
Temos assim a oportunidade de romper com as paredes
da sala de aula e da escola, integrando-a à comunidade que
a cerca, à sociedade da informação e a outros
espaços produtores de conhecimento, aproximando o objeto
do estudo escolar da vida cotidiana e, ao mesmo tempo, nos transformando
em uma sociedade de aprendizagem e também da escrita.
Para alcançarmos o patamar de uma sociedade
da leitura, da escrita e da aprendizagem, precisamos enfrentar inúmeros
desafios, vários deles no interior da escola. Entre esses,
os mais contundentes são: a dessacralização
do laboratório de informática e da senha do computador;
o acesso à tecnologia de informação e comunicação;
o uso dessa tecnologia para a resolução de problemas
do cotidiano que favoreçam a articulação entre
as áreas de conhecimento, ao mesmo tempo que propiciam o
aprofundamento de conceitos específicos e levam à
produção de novos conhecimentos; a flexibilização
do uso do espaço da escola e do tempo de aprender; o desenvolvimento
da autonomia para a busca e troca de informações significativas
em distintas fontes e para a respectiva utilização
dos recursos tecnológicos apropriados.
Pode parecer banalidade escrever um texto centrado
na potencialidade da produção da escrita na escola
através do uso das TIC, uma vez que a ênfase dada pela
escola à leitura e à escrita se direciona à
elaboração de algo produzido para ser corrigido e
muito pouco como prática para despertar o prazer da escrita
para a leitura. Porém, com maior freqüência do
que gostaríamos, temos ouvido professores reclamarem que
seus alunos não sabem escrever. De sua parte, os alunos têm
apontado que a escola os leva a ler e a escrever sobre aquilo que
não tem significado para a sua realidade ou a fazer cópias
e repetir palavras desarticuladas.
Quem de nós não se lembra dos ditados
de palavras e das regras gramaticais decoradas sem que soubéssemos
em que situação poderíamos empregá-las?
Da mesma forma, sem conseguir atribuir significado, memorizamos
datas históricas, acidentes geográficos, ossos do
corpo humano, fórmulas matemáticas e executamos infindáveis
seqüências de exercícios com a justificativa de
que um dia isso nos seria útil!
Em seu texto Dígrafos4,
Rubem Alves nos faz lembrar
que fazer ditados, análise sintática e morfológica
e outras análises, consideradas necessárias ao aprimoramento
da escrita, não desenvolve o prazer da leitura e a compreensão
do texto nem o gosto pela escrita. No entanto, a atividade de sala
de aula prima pela exigência das análises gramaticais,
textuais e discursivas em detrimento da leitura e interpretação
do mundo e do escrever para representar idéias, comunicar-se
e registrar a própria história.
Não queremos com isso dizer que o conteúdo
perdeu a sua importância, mas salientamos a necessidade premente
de mudar a forma de trabalhar conceitos, informações,
procedimentos e regras, procurando partir do que é significativo
para o aluno, e criar situações que favoreçam
transformar os conhecimentos do senso comum em conhecimento científico.
O professor não é culpado por essa
situação. Ele foi preparado para cumprir esse papel,
cujo desempenho deve voltar-se para o ensino de um conteúdo
programático definido fora da sala de aula, para ser seguido
da mesma maneira em diferentes contextos.
Não se trata de encontrar bodes expiatórios
para jogar toda a culpa pela complexidade de uma situação
gerada pelo avanço da ciência, da tecnologia e da sociedade
contemporânea. Houve um momento da evolução
da sociedade em que a escola, que ainda temos hoje, atendia às
suas exigências. Todos somos frutos dessa escola e, apesar
de seu rigor e austeridade, temos boas lembranças dos momentos
felizes que nela desfrutamos.
De nada adianta saudosismos. Mudaram os tempos
e as necessidades. É imperioso mudar a escola e todos nós
somos sujeitos dessa mudança. Como dizia Paulo Freire, temos
de ser homens e mulheres de nosso tempo e empregar todos os recursos
disponíveis para promover a grande mudança que nossa
escola está a exigir. Não podemos ser omissos. A neutralidade
representa a aceitação da situação atual,
a conivência com o que já está posto.
Felizmente, aumenta de forma abrupta o contingente
de professores inconformados com essa situação, em
busca de alternativas para encontrar novos caminhos em que possam
empregar a escrita e outras formas de representação
para contar a sua história, registrar o seu cotidiano, a
sua escola e o seu mundo, compreendendo o passado para agir no presente
e construir o futuro. Esses professores sentem necessidade de levar
seus alunos a se tornarem escritores de sua próprias histórias
e experiências, sujeitos de suas vidas.
No bojo dessa necessidade, insere-se a tecnologia
de informação e comunicação não
só como uma ferramenta, mas principalmente como um artefato
que propicia representar e comunicar o pensamento, atualizá-lo
continuamente, resolver problemas e desenvolver projetos. Outros
recursos tecnológicos também permitem o registro de
idéias e de visões de mundo. Porém, até
o presente, apenas a tecnologia de informação e comunicação
tem como característica o fazer e o refazer contínuo,
transformando o erro em algo que pode ser revisto e reformulado
instantaneamente para produzir novos saberes.
Além disso, o uso da TIC por meio da navegação
em sistemas hipermediáticos permite a quem o utiliza percorrer
distintos caminhos, criar múltiplas conexões entre
informações, textos e imagens; ligar contextos, mídias
e recursos. Cada sujeito que explora um sistema hipermídia
torna-se receptor e emissor de informações, leitor,
escritor e comunicador. Assim, a TIC envolve o sujeito em um mar
de informações e, ao mesmo tempo, incita-o à
leitura e à expressão através da escrita textual
e hipertextual.
No hipertexto cada sujeito define o caminho a seguir
entre os distintos caminhos, nós e conexões existentes.
Cada nó caracteriza-se como um espaço de referência
que pode ser visitado e explorado, e não como local de visita
obrigatória. Mesmo que exista da parte dos conceptores do
sistema hipermediático uma tentativa de aproximar a estrutura
do hipertexto da linearidade (característica do ensino tradicional)
e do respectivo controle e direcionamento, a interatividade inerente
desse sistema impulsiona o ir e vir pelos nós e ligações,
não permitindo aprisionar quem o utiliza. Cada pessoa assume
o risco de escolher seus próprios caminhos, de aventurar-se
a enveredar pelo desconhecido e de descobrir-se perdido ou de chegar
a novas descobertas.
Com o uso de sistemas hipermediáticos, como
a Internet, redefine-se o papel do professor que finalmente pode
compreender a importância de ser parceiro de seus alunos,
aquele que navega junto com os outros, apontando as possibilidades
dos novos caminhos sem a preocupação de ter experimentado
passar por eles algum dia, provocando a descoberta de novos significados,
permitindo aos alunos resolver problemas ou desenvolver projetos
que tenham sentido para a sua aprendizagem.
As experiências que temos acompanhado de
uso da TIC na educação, numa perspectiva de favorecer
a representação do pensamento do aluno, levam o professor
a engendrar situações de aprendizagem que exigem investigação,
reflexão crítica, aprimoramento e transformação
de sua prática. Essa atuação começa
a se desprender do livro didático, que deixa de ser o guia
da prática do professor e passa a ser mais uma, entre outras
fontes de informações.
Assim, o uso da TIC na educação caminha
no sentido da produção compartilhada de conhecimento,
favorecida pela resolução de problemas ou desenvolvimento
de projetos, nos quais a escrita, por meio da TIC, induz à
liberdade de expressar e comunicar sentimentos, registrar percepções,
idéias, crenças e conceitos, refletir sobre o pensamento
representado e reelaborá-lo.
A aprendizagem por projetos ou situações-problema
ocorre por meio da interação e articulação
entre conhecimentos de distintas áreas, conexões estas
que se estabelecem a partir dos conhecimentos cotidianos dos alunos,
cujas expectativas, desejos e interesses são mobilizados
na construção de conhecimentos científicos.
Os conhecimentos cotidianos emergem como um todo unitário
da própria situação em estudo, portanto sem
fragmentação disciplinar, e são direcionados
por uma motivação intrínseca. Cabe ao professor
provocar a tomada de consciência sobre os conceitos implícitos
nos projetos e sua respectiva formalização, mas é
preciso empregar o bom senso para fazer as intervenções
no momento apropriado.
O uso da TIC no desenvolvimento de projetos ou
na resolução de situações-problema permite
o registro desse processo construtivo, funcionando como um recurso
de diagnóstico sobre o nível de desenvolvimento dos
alunos, suas dificuldades e potencialidades, e, principalmente,
favorecendo-lhes a identificação e correção
dos erros e a constante reelaboração sem perda do
que já foi criado.
Nessa aventura, o professor é desafiado
a assumir uma postura de aprendiz ativo, crítico e criativo,
constante pesquisador sobre o aluno: seu nível de desenvolvimento
cognitivo, emocional e afetivo, sua forma de linguagem, expectativas
e necessidades, seu contexto e cultura.
O professor que atua nessa perspectiva, enquanto
responsável pela aprendizagem de seus alunos, tem uma intencionalidade,
e esta constitui o seu projeto de atuação, elaborado
com vistas a respeitar os diferentes estilos e ritmos de trabalho
dos alunos, o trabalho colaborativo em sala de aula no que se refere
ao planejamento, escolha do tema e respectiva problemática
a ser investigada. Não é o professor quem planeja
para os alunos executarem, ambos são parceiros e sujeitos
de aprendizagem, cada um atuando segundo o seu papel e nível
de desenvolvimento.
As questões de investigação
são formuladas pelos sujeitos do conhecimento, levando em
conta suas dúvidas, curiosidades e indagações
e, a partir de seus conhecimentos prévios, valores, crenças,
interesses e experiências, interagem com os objetos de conhecimento,
definem os caminhos a seguir em suas explorações,
descobertas e apropriação de novos conhecimentos.
O professor é o consultor, articulador,
mediador e orientador do processo em desenvolvimento pelo aluno.
A criação de um clima de confiança, de respeito
às diferenças e de reciprocidade encoraja o aluno
a reconhecer seus conflitos e a descobrir a potencialidade de aprender
a partir dos próprios erros. Da mesma forma, o professor
não terá inibições em reconhecer seus
próprios conflitos, erros e limitações e em
buscar sua depuração, numa atitude de parceria e humildade
diante do conhecimento que caracteriza a postura interdisciplinar
(Fazenda, 1994).
A partir de uma mudança pessoal e profissional
é que se começa a refletir sobre a mudança
da escola para uma escola que incentive a imaginação,
a leitura prazerosa, a escrita criativa, favoreça a iniciativa,
a espontaneidade, o questionamento e a inventividade, promova e
vivencie a cooperação, o diálogo, a partilha
e a solidariedade.
Mas, para transformar o sistema educacional é
preciso que essa reciprocidade extrapole os limites da sala de aula
e envolva todos que constituem a comunidade escolar: dirigentes,
funcionários administrativos, pais, alunos, professores e
a comunidade na qual a escola encontra-se inserida.
Para ajudar o professor a enfrentar esses novos
desafios que se tornaram mais contundentes com a chegada da TIC
às escolas públicas, o ProInfo promove atividades
de formação dos professores, que se desenvolvem por
meio de ações presenciais ou a distância.
O uso da tecnologia de informação
e comunicação - TIC na escola tem evidenciado a necessidade
de repensar questões relacionadas à aprendizagem e
à prática do professor. Como lidar com a diversidade,
a abrangência e a rapidez de informações e a
provisoriedade do conhecimento? Como lidar com o novo conceito de
tempo e espaço? Como integrar as diferentes tecnologias ao
trabalho pedagógico (computador, Internet, TV, vídeo...)?
Para entender estas questões torna-se necessário que
os professores possam assumir uma postura de aprendente que compartilha
com seus pares, alunos e com a comunidade em geral, a busca de saberes
e a construção de redes de conhecimentos, com vistas
a resolver os problemas do contexto e melhorar a qualidade de vida.
As propostas de formação devem, portanto,
propiciar uma aprendizagem contínua, na qual o professor
aprende fazendo, refletindo e reconstruindo sua prática pedagógica
no seu contexto de atuação. A educação
a distância - EaD assume uma nova dimensão quando ocorre
através dos ambientes virtuais de aprendizagem, os quais
viabilizam a formação contextualizada, permitindo
aos professores ultrapassar as barreiras do tempo e do espaço
para reconstruir sua prática pedagógica, a partir
de seu contexto e da articulação deste com realidade
local e global.
Além de incorporar a TIC à prática
pedagógica, o professor enfrenta hoje um novo desafio, relacionado
com a inclusão na sala de aula de alunos que vêm sofrendo
um processo histórico da exclusão, como os portadores
de necessidades especiais de aprendizagem ou oriundos de grupos
submetidos a preconceitos de ordem social, étnica e cultural.
A TIC pode ser uma grande aliada do professor para promover a integração
entre os alunos e para favorecer que o aluno com necessidades especiais
possa sobrepujar suas limitações e melhor desenvolver
suas potencialidades.
De acordo com as séries anteriores do Salto
para o Futuro sobre Informática em Educação,
a participação dos especialistas estará voltada
à análise de uma problemática relacionada com
o vídeo de suporte apresentado, procurando estabelecer articulações
com outras experiências e fazendo emergir teorias que explicitem
as práticas observadas. Assim, em cada programa, primeiramente
será apresentada uma situação concreta, desenvolvida
em escola ou em NTE. Em seguida, entram os especialistas, juntamente
com um professor/pesquisador e um multiplicador ou professor de
escola, para analisar o que foi apresentado, problematizar a situação
e encaminhar as discussões a distância com os participantes.
Considerando a caminhada já trilhada pela
SEED/ProInfo em relação à inserção
do computador na escola, bem como o momento atual de um novo salto
na disseminação e no aprofundamento dessa proposta,
a presente proposta está focada na articulação
teoria-prática, ou seja, pretende-se trabalhar em um mesmo
programa experiências de sucesso e conceitos correlatos.