TECNOLOGIA NA ESCOLA

 

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Apresentação

Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida 1

De 1 a 5 de outubro de 2001, a TV Escola estará veiculando, no programa Salto para o Futuro, a série Tecnologia na escola. São cinco temas a serem cuidadosamente abordados durante a semana: 1. Prática: eixo da formação; 2. Rede de conhecimentos; 3. Ambientes virtuais de aprendizagem; 4. Formação de professores a distância; 5. Tecnologia e escola inclusiva.

A integração da tecnologia de informação e comunicação - TIC na educação pública brasileira já passou por várias fases e traz em sua trajetória uma perspectiva inovadora, que distingue o Programa Nacional de Informática em educação - ProInfo, da Secretaria de Educação a Distância - SEED, do MEC, das ações correlatas de outros países e respectivas políticas públicas para o setor. Em nosso caso, a característica básica é a inter-relação entre pesquisa, formação e prática com o uso da tecnologia de informação e comunicação. Aprende-se a conhecer, aprendendo a fazer e a refletir sobre esse fazer.

Nos anos 80 e início de 90, do século XX, a versão primeira do Programa Nacional de Informática em Educação visava à preparação de professores para o uso da informática com seus alunos e a criação de centros de informática educativa, CIEDs, localizados nas secretarias estaduais de educação, os quais se dedicavam a preparar professores e a atender aos alunos das escolas públicas no que diz respeito ao uso do computador. Esse programa formou professores em pequena escala e não conseguiu chegar à sala de aula.

O programa atual do MEC, ProInfo, que se desenvolve por meio de parceria com as Secretarias Estaduais de Educação, começa a concretizar nosso sonho de introduzir o computador na escola para ser incorporado à prática pedagógica de diferentes áreas de conhecimento, favorecendo a aprendizagem do aluno. Esse programa prioriza a formação de professores e educadores em um processo que integra o domínio da tecnologia, teorias educacionais e prática pedagógica com o uso dessa tecnologia. Daí decorre o grande impacto não só no sistema educacional, mas também no desenvolvimento humano e na cultura brasileira, de tradição essencialmente oral.

Concordamos com Cury (2001)2, que o acesso de uma camada da população, sobretudo os escravos, à escola foi impedido pelo processo de colonização. Tal fato impediu, ainda, a participação de muitos brasileiros no mundo da leitura e da escrita, bem como a formação de leitores e escritores.

Estamos diante da constatação de que escrever significa registrar, compreender e interferir na história pessoal e na transformação do mundo. Portanto, de acordo com Kramer3 (2001, p. 114) "escrever é deixar-se marcar pelos traços do vivido e da própria escrita, reescrever textos e ser leitor de textos escritos e da história pessoal e coletiva, marcando-a, compartilhando-a, mudando-a, inscrevendo nela novos sentidos".

Com o uso da tecnologia de informação e comunicação, professores e alunos têm a possibilidade de utilizar a escrita para descrever/reescrever suas idéias, comunicar-se, trocar experiências e produzir histórias. Assim, em busca de resolver problemas do contexto, representam e divulgam o próprio pensamento, trocam informações e constroem conhecimento, num movimento de fazer, refletir e refazer, que favorece o desenvolvimento pessoal, profissional e grupal, bem como a compreensão da realidade.

Temos assim a oportunidade de romper com as paredes da sala de aula e da escola, integrando-a à comunidade que a cerca, à sociedade da informação e a outros espaços produtores de conhecimento, aproximando o objeto do estudo escolar da vida cotidiana e, ao mesmo tempo, nos transformando em uma sociedade de aprendizagem e também da escrita.

Para alcançarmos o patamar de uma sociedade da leitura, da escrita e da aprendizagem, precisamos enfrentar inúmeros desafios, vários deles no interior da escola. Entre esses, os mais contundentes são: a dessacralização do laboratório de informática e da senha do computador; o acesso à tecnologia de informação e comunicação; o uso dessa tecnologia para a resolução de problemas do cotidiano que favoreçam a articulação entre as áreas de conhecimento, ao mesmo tempo que propiciam o aprofundamento de conceitos específicos e levam à produção de novos conhecimentos; a flexibilização do uso do espaço da escola e do tempo de aprender; o desenvolvimento da autonomia para a busca e troca de informações significativas em distintas fontes e para a respectiva utilização dos recursos tecnológicos apropriados.

Pode parecer banalidade escrever um texto centrado na potencialidade da produção da escrita na escola através do uso das TIC, uma vez que a ênfase dada pela escola à leitura e à escrita se direciona à elaboração de algo produzido para ser corrigido e muito pouco como prática para despertar o prazer da escrita para a leitura. Porém, com maior freqüência do que gostaríamos, temos ouvido professores reclamarem que seus alunos não sabem escrever. De sua parte, os alunos têm apontado que a escola os leva a ler e a escrever sobre aquilo que não tem significado para a sua realidade ou a fazer cópias e repetir palavras desarticuladas.

Quem de nós não se lembra dos ditados de palavras e das regras gramaticais decoradas sem que soubéssemos em que situação poderíamos empregá-las? Da mesma forma, sem conseguir atribuir significado, memorizamos datas históricas, acidentes geográficos, ossos do corpo humano, fórmulas matemáticas e executamos infindáveis seqüências de exercícios com a justificativa de que um dia isso nos seria útil!

Em seu texto Dígrafos4, Rubem Alves nos faz lembrar que fazer ditados, análise sintática e morfológica e outras análises, consideradas necessárias ao aprimoramento da escrita, não desenvolve o prazer da leitura e a compreensão do texto nem o gosto pela escrita. No entanto, a atividade de sala de aula prima pela exigência das análises gramaticais, textuais e discursivas em detrimento da leitura e interpretação do mundo e do escrever para representar idéias, comunicar-se e registrar a própria história.

Não queremos com isso dizer que o conteúdo perdeu a sua importância, mas salientamos a necessidade premente de mudar a forma de trabalhar conceitos, informações, procedimentos e regras, procurando partir do que é significativo para o aluno, e criar situações que favoreçam transformar os conhecimentos do senso comum em conhecimento científico.

O professor não é culpado por essa situação. Ele foi preparado para cumprir esse papel, cujo desempenho deve voltar-se para o ensino de um conteúdo programático definido fora da sala de aula, para ser seguido da mesma maneira em diferentes contextos.

Não se trata de encontrar bodes expiatórios para jogar toda a culpa pela complexidade de uma situação gerada pelo avanço da ciência, da tecnologia e da sociedade contemporânea. Houve um momento da evolução da sociedade em que a escola, que ainda temos hoje, atendia às suas exigências. Todos somos frutos dessa escola e, apesar de seu rigor e austeridade, temos boas lembranças dos momentos felizes que nela desfrutamos.

De nada adianta saudosismos. Mudaram os tempos e as necessidades. É imperioso mudar a escola e todos nós somos sujeitos dessa mudança. Como dizia Paulo Freire, temos de ser homens e mulheres de nosso tempo e empregar todos os recursos disponíveis para promover a grande mudança que nossa escola está a exigir. Não podemos ser omissos. A neutralidade representa a aceitação da situação atual, a conivência com o que já está posto.

Felizmente, aumenta de forma abrupta o contingente de professores inconformados com essa situação, em busca de alternativas para encontrar novos caminhos em que possam empregar a escrita e outras formas de representação para contar a sua história, registrar o seu cotidiano, a sua escola e o seu mundo, compreendendo o passado para agir no presente e construir o futuro. Esses professores sentem necessidade de levar seus alunos a se tornarem escritores de sua próprias histórias e experiências, sujeitos de suas vidas.

No bojo dessa necessidade, insere-se a tecnologia de informação e comunicação não só como uma ferramenta, mas principalmente como um artefato que propicia representar e comunicar o pensamento, atualizá-lo continuamente, resolver problemas e desenvolver projetos. Outros recursos tecnológicos também permitem o registro de idéias e de visões de mundo. Porém, até o presente, apenas a tecnologia de informação e comunicação tem como característica o fazer e o refazer contínuo, transformando o erro em algo que pode ser revisto e reformulado instantaneamente para produzir novos saberes.

Além disso, o uso da TIC por meio da navegação em sistemas hipermediáticos permite a quem o utiliza percorrer distintos caminhos, criar múltiplas conexões entre informações, textos e imagens; ligar contextos, mídias e recursos. Cada sujeito que explora um sistema hipermídia torna-se receptor e emissor de informações, leitor, escritor e comunicador. Assim, a TIC envolve o sujeito em um mar de informações e, ao mesmo tempo, incita-o à leitura e à expressão através da escrita textual e hipertextual.

No hipertexto cada sujeito define o caminho a seguir entre os distintos caminhos, nós e conexões existentes. Cada nó caracteriza-se como um espaço de referência que pode ser visitado e explorado, e não como local de visita obrigatória. Mesmo que exista da parte dos conceptores do sistema hipermediático uma tentativa de aproximar a estrutura do hipertexto da linearidade (característica do ensino tradicional) e do respectivo controle e direcionamento, a interatividade inerente desse sistema impulsiona o ir e vir pelos nós e ligações, não permitindo aprisionar quem o utiliza. Cada pessoa assume o risco de escolher seus próprios caminhos, de aventurar-se a enveredar pelo desconhecido e de descobrir-se perdido ou de chegar a novas descobertas.

Com o uso de sistemas hipermediáticos, como a Internet, redefine-se o papel do professor que finalmente pode compreender a importância de ser parceiro de seus alunos, aquele que navega junto com os outros, apontando as possibilidades dos novos caminhos sem a preocupação de ter experimentado passar por eles algum dia, provocando a descoberta de novos significados, permitindo aos alunos resolver problemas ou desenvolver projetos que tenham sentido para a sua aprendizagem.

As experiências que temos acompanhado de uso da TIC na educação, numa perspectiva de favorecer a representação do pensamento do aluno, levam o professor a engendrar situações de aprendizagem que exigem investigação, reflexão crítica, aprimoramento e transformação de sua prática. Essa atuação começa a se desprender do livro didático, que deixa de ser o guia da prática do professor e passa a ser mais uma, entre outras fontes de informações.

Assim, o uso da TIC na educação caminha no sentido da produção compartilhada de conhecimento, favorecida pela resolução de problemas ou desenvolvimento de projetos, nos quais a escrita, por meio da TIC, induz à liberdade de expressar e comunicar sentimentos, registrar percepções, idéias, crenças e conceitos, refletir sobre o pensamento representado e reelaborá-lo.

A aprendizagem por projetos ou situações-problema ocorre por meio da interação e articulação entre conhecimentos de distintas áreas, conexões estas que se estabelecem a partir dos conhecimentos cotidianos dos alunos, cujas expectativas, desejos e interesses são mobilizados na construção de conhecimentos científicos. Os conhecimentos cotidianos emergem como um todo unitário da própria situação em estudo, portanto sem fragmentação disciplinar, e são direcionados por uma motivação intrínseca. Cabe ao professor provocar a tomada de consciência sobre os conceitos implícitos nos projetos e sua respectiva formalização, mas é preciso empregar o bom senso para fazer as intervenções no momento apropriado.

O uso da TIC no desenvolvimento de projetos ou na resolução de situações-problema permite o registro desse processo construtivo, funcionando como um recurso de diagnóstico sobre o nível de desenvolvimento dos alunos, suas dificuldades e potencialidades, e, principalmente, favorecendo-lhes a identificação e correção dos erros e a constante reelaboração sem perda do que já foi criado.

Nessa aventura, o professor é desafiado a assumir uma postura de aprendiz ativo, crítico e criativo, constante pesquisador sobre o aluno: seu nível de desenvolvimento cognitivo, emocional e afetivo, sua forma de linguagem, expectativas e necessidades, seu contexto e cultura.

O professor que atua nessa perspectiva, enquanto responsável pela aprendizagem de seus alunos, tem uma intencionalidade, e esta constitui o seu projeto de atuação, elaborado com vistas a respeitar os diferentes estilos e ritmos de trabalho dos alunos, o trabalho colaborativo em sala de aula no que se refere ao planejamento, escolha do tema e respectiva problemática a ser investigada. Não é o professor quem planeja para os alunos executarem, ambos são parceiros e sujeitos de aprendizagem, cada um atuando segundo o seu papel e nível de desenvolvimento.

As questões de investigação são formuladas pelos sujeitos do conhecimento, levando em conta suas dúvidas, curiosidades e indagações e, a partir de seus conhecimentos prévios, valores, crenças, interesses e experiências, interagem com os objetos de conhecimento, definem os caminhos a seguir em suas explorações, descobertas e apropriação de novos conhecimentos.

O professor é o consultor, articulador, mediador e orientador do processo em desenvolvimento pelo aluno. A criação de um clima de confiança, de respeito às diferenças e de reciprocidade encoraja o aluno a reconhecer seus conflitos e a descobrir a potencialidade de aprender a partir dos próprios erros. Da mesma forma, o professor não terá inibições em reconhecer seus próprios conflitos, erros e limitações e em buscar sua depuração, numa atitude de parceria e humildade diante do conhecimento que caracteriza a postura interdisciplinar (Fazenda, 1994).

A partir de uma mudança pessoal e profissional é que se começa a refletir sobre a mudança da escola para uma escola que incentive a imaginação, a leitura prazerosa, a escrita criativa, favoreça a iniciativa, a espontaneidade, o questionamento e a inventividade, promova e vivencie a cooperação, o diálogo, a partilha e a solidariedade.

Mas, para transformar o sistema educacional é preciso que essa reciprocidade extrapole os limites da sala de aula e envolva todos que constituem a comunidade escolar: dirigentes, funcionários administrativos, pais, alunos, professores e a comunidade na qual a escola encontra-se inserida.

Para ajudar o professor a enfrentar esses novos desafios que se tornaram mais contundentes com a chegada da TIC às escolas públicas, o ProInfo promove atividades de formação dos professores, que se desenvolvem por meio de ações presenciais ou a distância.

O uso da tecnologia de informação e comunicação - TIC na escola tem evidenciado a necessidade de repensar questões relacionadas à aprendizagem e à prática do professor. Como lidar com a diversidade, a abrangência e a rapidez de informações e a provisoriedade do conhecimento? Como lidar com o novo conceito de tempo e espaço? Como integrar as diferentes tecnologias ao trabalho pedagógico (computador, Internet, TV, vídeo...)? Para entender estas questões torna-se necessário que os professores possam assumir uma postura de aprendente que compartilha com seus pares, alunos e com a comunidade em geral, a busca de saberes e a construção de redes de conhecimentos, com vistas a resolver os problemas do contexto e melhorar a qualidade de vida.

As propostas de formação devem, portanto, propiciar uma aprendizagem contínua, na qual o professor aprende fazendo, refletindo e reconstruindo sua prática pedagógica no seu contexto de atuação. A educação a distância - EaD assume uma nova dimensão quando ocorre através dos ambientes virtuais de aprendizagem, os quais viabilizam a formação contextualizada, permitindo aos professores ultrapassar as barreiras do tempo e do espaço para reconstruir sua prática pedagógica, a partir de seu contexto e da articulação deste com realidade local e global.

Além de incorporar a TIC à prática pedagógica, o professor enfrenta hoje um novo desafio, relacionado com a inclusão na sala de aula de alunos que vêm sofrendo um processo histórico da exclusão, como os portadores de necessidades especiais de aprendizagem ou oriundos de grupos submetidos a preconceitos de ordem social, étnica e cultural. A TIC pode ser uma grande aliada do professor para promover a integração entre os alunos e para favorecer que o aluno com necessidades especiais possa sobrepujar suas limitações e melhor desenvolver suas potencialidades.

De acordo com as séries anteriores do Salto para o Futuro sobre Informática em Educação, a participação dos especialistas estará voltada à análise de uma problemática relacionada com o vídeo de suporte apresentado, procurando estabelecer articulações com outras experiências e fazendo emergir teorias que explicitem as práticas observadas. Assim, em cada programa, primeiramente será apresentada uma situação concreta, desenvolvida em escola ou em NTE. Em seguida, entram os especialistas, juntamente com um professor/pesquisador e um multiplicador ou professor de escola, para analisar o que foi apresentado, problematizar a situação e encaminhar as discussões a distância com os participantes.

Considerando a caminhada já trilhada pela SEED/ProInfo em relação à inserção do computador na escola, bem como o momento atual de um novo salto na disseminação e no aprofundamento dessa proposta, a presente proposta está focada na articulação teoria-prática, ou seja, pretende-se trabalhar em um mesmo programa experiências de sucesso e conceitos correlatos.

 

notas

 

  1. Mestre e Doutora em Educação, PUC-SP. Professora do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo e do curso de Tecnologias e Mídias Digitais, da PUC-SP. Consultora desta série.
  2. Cury, Carlos Roberto J. Desafios da educação escolar básica no Brasil. PUC-MG, 2001.
  3. Kramer, Sonia. Escrita, experiência e formação - múltiplas possibilidades de criação da escrita. In: Candau, Vera Maria (org.). Linguagens, espaços e tempos no ensinar e aprender. Rio de Janeiro: DP&A. 2a ed., 2001.
  4. Alves, Rubem. (1999). Dígrafo: A literatura, como o corpo da pessoa amada, não é objeto de conhecimento científico; é objeto de prazer. Folha de S. Paulo. Editorial: Opinião, Seção: Tendências/ Debates. Cad. 1, p.