Para que serve a escola ou para que tem servido? Qual a relação entre a escola e o mundo em que vivemos? Que conteúdos e questões devem ser trabalhados na formação de uma criança ou de um jovem de hoje? Qual o perfil do profissional do século XXI?
Neste final de século, inúmeras mudanças (como a nova ordem mundial, a revolução tecnológica e a midiatização, e também o esfacelamento de instituições, práticas e paradigmas de análise) parecem ter colocado novas exigências para a educação. Assim, surgiram no Brasil vários documentos: a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as Diretrizes Curriculares para todos os níveis de ensino e os Parâmetros Curriculares Nacionais, orientações metodológicas elaboradas pelo MEC, que se pretendem um auxílio para o trabalho pedagógico, visando à concretização das Diretrizes Curriculares.
Em razão de tantas mudanças, ao repensar o que significa ensinar hoje, perguntamos: seria interessante que o jovens soubessem utilizar os conhecimentos da Física, Química, Biologia, História para resolver os seus problemas diários, como consertar um aparelho eletrodoméstico, fazer um orçamento familiar, resolver problemas na ausência dos pais ou mesmo ajudá-los a solucionar problemas e, ainda, conhecendo os seus direitos, saber redigir um pedido de esclarecimento junto ao INSS? Enfim, dominar elementos que lhes possibilitem entender o mundo em que vivem e terem competências para nele interagirem de forma mais conseqüente.
As questões de vida e da morte, as histórias vividas invadiram o nosso cotidiano escolar, mas a escola que temos não foi criada para isso e nossa formação foi estruturada no paradigma disciplinar. O século XXI traz consigo uma nova forma de pensar, estamos num momento crítico do processo de mudanças das práticas educativas. As dificuldades são talvez maiores do que as soluções. Para superá-las, precisamos começar a pensar e agir pelo princípio da inter/transdisciplinaridade, ligado à idéia de uma interação - negociação ética e política entre as diferentes áreas de conhecimento - e não a uma mera justaposição de conteúdos disciplinares.
Atualmente, o enfoque inter/transdisciplinar é redescoberto em decorrência dos desafios sem precedentes do nosso conturbado mundo em que, há não muito tempo, proclamava-se a morte do homem e o fim da História. Ampliar os horizontes disciplinares nos auxilia a reencontrar o sujeito e a traduzir um novo momento da história frente à necessidade indispensável de interligações entre as áreas do conhecimento.
De acordo com Kurzweil, o avanço tecnológico da humanidade está, atualmente, dobrando a cada dez anos. Isso significa que o desenvolvimento científico no século XXI será, numa visão linear, equivalente ao de dezenas de séculos prévios. Isso poderia nos levar a pensar que o ser humano, em alguns momentos das próximas décadas, será incapaz de acompanhar esse processo se não passar pela incorporação das novas tecnologias.
Os Parâmetros Curriculares do Ensino Médio desenham um novo perfil do currículo buscando dar significado ao conhecimento escolar, mediante a contextualização (algo que reconstruo criticamente a partir do presente), evitando a compartimentalização, pela interdisciplinaridade e incentivando o raciocínio e a capacidade de aprender. Os PCN cumprem um duplo papel: difundir princípios da reforma curricular e orientar o professor, na busca de novas abordagens e metodologias. A urgência de repensar as diretrizes do Ensino Médio relaciona-se por um lado, com as mudanças estruturais decorrentes da chamada revolução do conhecimento, alterando o modo de organização do trabalho e as relações sociais; e por outro, a expansão da rede pública que deverá atender a padrões de qualidade exigidos pela sociedade.
Nas décadas de 60 e 70, considerando o nível de desenvolvimento da industrialização na América Latina, a política educacional vigente priorizou, como finalidade para esse grau de ensino, a formação de especialistas capazes de dominar a utilização de maquinarias ou de dirigir processos de produção. Na década de 90, enfrentamos um desafio de outra natureza: o volume de informações produzido em função das novas tecnologias. A questão não está no acúmulo destes conhecimentos, mas na capacidade de selecionar, na formação do aluno, nos conteúdos básicos e em como desenvolver uma prática pedagógica consistente que possa permitir ao jovem ser capaz de pesquisar informações substantivas para resolver um problema, analisar, entre as possíveis soluções, a(s) mais adequada(s) ao seu contexto e ter a capacidade de utilizar diferentes tecnologias relativas às áreas de atuação.
O novo paradigma é fruto da compreensão de que as competências desejáveis ao pleno desenvolvimento humano aproximam-se das competências necessárias à inserção no processo produtivo, recolocando o papel da educação como elemento de desenvolvimento social. Há, entretanto, uma tensão na sociedade atual, pois a aproximação entre as competências desejáveis em cada uma das dimensões sociais não garante uma homogeneização das oportunidades sociais. A garantia de que todos desenvolvam e ampliem suas capacidades é indispensável para se combater a dualização da sociedade, que gera desigualdades cada vez maiores.
É preciso analisar a globalização de uma perspectiva crítica pois, em relação à aproximação das competências aos processos produtivos, não estaremos restringindo as competências à produção? O ajuste do aluno ao mercado de trabalho? Ou seja, flexibilidade, rapidez de raciocínio e resolução de problemas para a empresa ou para o mercado e não para uma sociedade mais justa e com menos contradições sociais. Os PCN permitem várias leituras, inclusive uma leitura restrita, dogmática, não crítica.
"A revolução tecnológica, por sua
vez, cria novas formas de socialização, processos de produção
e, até mesmo, novas definições de identidade individual
e coletiva. Diante desse mundo globalizado, que apresenta múltiplos
desafios para o homem, a educação surge como uma utopia
necessária indispensável à humanidade na sua construção
da paz, da liberdade e da justiça social." (PCN-EM, Brasília,
1999, p. 25). O fundamental é que os alunos desenvolvam competências
básicas que lhes permitam desenvolver a capacidade de continuar
aprendendo.
Vamos precisar alguns conceitos e analisá-los em sua interação.
Humanidades engloba as línguas e culturas
clássicas, a língua e a literatura vernáculas, as
principais línguas estrangeiras modernas e suas literaturas, a
Filosofia, a História e as Artes. A finalidade educacional inscrita
nesse humanismo respondia por uma formação moral e cultural
de caráter elitista.
Ao longo do processo de desenvolvimento das Ciências Humanas, as humanidades foram progressivamente superadas na cultura escolar. Em sua constituição, voltaram-se para o homem, não com a preocupação de formá-lo, mas de compreendê-lo. Acabaram por circundar em torno de um mesmo objeto principal: o humano, explorado em todas as suas vertentes. A caracterização desses estudos como ciências está intimamente ligada às transformações sofridas pelas sociedades modernas, a partir das chamadas "revoluções burguesas" (séculos XVIII e XIX), que introduziram novos paradigmas no campo da produção - a indústria - e no convívio social - a democracia representativa. No entanto, sabemos o quanto este discurso de representatividade política afastou, pelo menos no Brasil, as instituições da realidade concreta das pessoas e suas múltiplas necessidades sociais.
As "Ciências Humanas, seguindo a mesma direção das Ciências Naturais e, em decorrência das importantes transformações políticas e sociais ocorridas no século XIX, desenvolveram-se inicialmente para criar instrumentos de controle social. Seguindo a inspiração positivista, transpunham para o campo da cultura os mesmos pressupostas aplicáveis ao estudo da natureza." (PCN-EM, p.282)
No século XX, sob a influência do marxismo, novos estudos visavam possibilitar aos homens instrumentais de controle sobre a vida em sociedade, na perspectiva de se direcionar a própria história. No Brasil, com o autoritarismo de pós-64, houve a tentativa de atualização para as massas de uma educação de caráter moral, sem o componente cultural próprio às humanidades. O currículo oficial dava a impressão de que as disciplinas das Ciências Humanas, "absolutamente inúteis" do ponto de vista da vida prática, roubavam tempo ao aprendizado da Língua Portuguesa e das Ciências Exatas.
Hoje é fundamental estruturar um currículo em que o estudo das ciências e o das humanidades sejam complementares e não excludentes. Buscar "uma síntese entre humanismo, ciência e tecnologia, que implique a superação do paradigma positivista, referindo-se à ciência, à cultura e à história. Destituído de neutralidade diante da cultura, o discurso científico revela-se enquanto representação sobre o real, sem se confundir com ele." (PCN-EM, p.284)
É preciso redescobrir a educação humanista, através de uma organização escolar e curricular baseada em princípios estéticos, políticos e éticos, traduzidos nos princípios: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Estes princípios ampliam o significado dos conteúdos, entendidos como conceituais, procedimentais e atitudinais. Os dois primeiros, aprender a conhecer e aprender a fazer, são entendidos como dois momentos da mesma experiência humana, superando a falsa divisão entre teoria e prática.
A política da igualdade está corporificada no aprender a conviver, na construção de uma sociedade solidária através da ação cooperativa. "A ética da identidade, exigida pelo desafio de uma educação voltada para a constituição de identidades responsáveis e solidárias, compromissadas com a inserção em seu tempo e em seu espaço, pressupõe o aprender a ser, objetivo máximo da ação humana que educa e não se limita apenas a transmitir conhecimentos prontos." (PCN-EM,p.286)
Estes princípios embasam e dão sentido à área de Ciências Humanas e suas tecnologias. Os temas desenvolvidos na área, tais como o trabalho e a produção, a organização e o convívio sociais, a construção do "eu" e do "outro", a diversidade cultural no tempo e no espaço apontam, por sua própria natureza, para uma organização interdisciplinar.
Tecnologias, na área de Ciências Humanas,
implica entendê-las na sua complexidade, tanto como produto quanto
como processo. Se, enquanto produto, as tecnologias apontam mais diretamente
para as Ciências da Natureza e a Matemática, enquanto processo
remetem ao uso e às reflexões que sobre elas fazem as três
áreas de conhecimento.
Significa compreender a tecnologia como fenômeno social, analisando o desenvolvimento de processos tecnológicos diversos, amparados nos conhecimentos das Ciências Humanas, e atribuir a estas tecnologias significados sociais que permitam vislumbrar os conflitos vividos e as alternativas sociais e propostas por uma diversidade de sujeitos.
É fundamental ressaltar a distinção que os PCN fazem entre as tecnologias das Ciências Naturais e a das Humanas. Enquanto as primeiras produzem tecnologias "duras" isto é, configuradas em ferramentas e instrumentos materiais, as Ciências Humanas produzem tecnologias "ideais", isto é, referidas mais diretamente ao pensamento, tais como as que envolvem processos de gestão, seleção e tratamento de informações, embasadas em recortes sociológicos. Esta dualidade leva à constituição de produtos tecnológicos que dificilmente dialogam entre si, podendo reatualizar velhas formas de conceber as ciências. Esta "nova" divisão que procura uma harmonia entre as ciências não mascara, ainda, um velho preconceito? Antes de responder a esta pergunta, todos nós devemos pensar sobre ela. As ciências humanas contribuem para a dimensão política da tecnologia, pois esta pode ser um veículo de libertação ou de submissão do ser humano.
Podemos, portanto identificar diferentes aspectos que permitem associar as tecnologias às Ciências Humanas: as que dizem respeito às idéias, ao uso que estas fazem das tecnologias originárias de outro campos de conhecimento (como o recurso aos satélites e à fotografia aérea na cartografia), e a reflexão sobre as relações entre a tecnologia e a totalidade cultural em que está inserida, redimensionando tanto a produção quanto a vivência cotidiana dos homens. Inclui-se aqui o papel da tecnologia nos processos econômicos e sociais e os impactos causados pelas tecnologias sobre os homens, nas diferentes sociedades, em contextos concretos através dos tempos.
Na organização curricular das escolas, a tecnologia, enquanto tema ou aplicação, produto ou processo, poderá constituir um excelente recurso para o tratamento contextualizado dos conhecimentos da área.