PGM 3 -
Ciências da Natureza, Matemática e Tecnologia
A interação como padrão comum entre
as Ciências da Natureza e a Tecnologia
Texto 2
Beatriz Corso Magdalena *
Introdução
Inúmeras
pesquisas desenvolvidas na Europa, Estados Unidos e América Latina
(principalmente no Brasil) têm exposto problemas metodológicos
e programáticos relacionados à compreensão das Ciências
da Natureza e da Matemática, tanto em escolas de Ensino Fundamental
como nas de Ensino Médio. Esses problemas estão, em sua
grande maioria, relacionados a uma metodologia passível de transmissão,
expositiva e demonstrativa, aliada a um programa obsoleto e não
contextualizado de conteúdos, raramente reutilizável, quer
seja na vida diária quer na vida profissional. Se pensarmos que
vivemos em uma época em que a Ciência e a Tecnologia avançam
velozmente em abundância e renovação, os trabalhos
nas salas de aula ficam ainda mais defasados. Podemos dizer que professores
e alunos estão sendo soterrados por uma massa caudalosa de informações,
em contínua transformação, da qual retiram apenas
porções esparsas e fragmentadas que constituem em suas mentes
uma difusa miscelânea, incapaz de auxiliar nos momentos de confronto
e de tomada de decisão. Uma das conseqüências graves,
constantemente detectada, deste fato é a de dificultar o desenvolvimento,
na medida em que a população não apresenta competências
para compreender e propor alternativas de solução para problemas
tanto de sua realidade local como da universal.
Estes
mesmos estudos anunciam que é necessária uma mudança
radical. Sugerem, para tanto, que: (1) as grades programáticas
sejam rompidas, diminuindo a quantidade e dispersão e aprofundando
a qualidade das informações e conteúdos selecionados;
(2) o trabalho seja centrado em dúvidas e indagações
(interesses e necessidades) dos alunos, em função das hipóteses
que levantam sobre a realidade; (3) o processo de aprendizagem seja desenvolvido
mediante processos ativos e construtivos, tais como: Projetos de Aprendizagem
Cooperativa (entre grupos de uma mesma turma, de diferentes turmas da
escola ou de outras comunidades escolares), Resolução de
Problemas propostos tanto por professores como por alunos e ações
práticas de simulação no ambiente, físico
ou virtual, de laboratório; (4) as diferentes tecnologias sejam
utilizadas como recursos para garantir o desenvolvimento de ações
até então impossíveis; (5) a Internet seja considerada
muito mais como um espaço de comunicação e troca
cooperativa, enriquecida pela diversidade que os grupos humanos apresentam
do que apenas de exposição de trabalhos já avaliados
como prontos; (6) o professor seja um parceiro desafiador do trabalho
dos alunos e um investigador constante do avanço processual do
conhecimento pelos grupos.
No
caso específico das Ciências da Natureza é fundamental
uma mudança radical na forma como estes campos de conhecimento
são encarados. Esta mudança terá que aparecer nas
políticas públicas educacionais, nos trabalhos de pesquisadores
e especialistas, nos cursos de formação de professores,
nos livros didáticos, nas propostas pedagógicas das escolas
e, principalmente nas ações pedagógicas nas salas
de aula.
Para
isso algumas perguntas se impõem:
- Que leitura
de mundo precisa ser feita para termos possibilidades de atuação
local e universal?
- Quais
conhecimentos são funcionais à nossa época e à
futura, em termos de desenvolvimento sustentável da vida na Terra?
- Que tipos
de informações, fatos e fenômenos precisam ser selecionados?
- Que competências
estão atreladas e precisam ser desenvolvidas?
- Como
mediatizar as experiências de vida diária e o desenvolvimento
de uma estrutura de pensamentos, na qual os espaços/ lacunas
de conhecimento vão sendo preenchidos?
- Como
estreitar relações originais e inovadoras entre eventos
e fatos da natureza e da vida das pessoas?
- Como
se apropriar das Ciências para reformular ou aprofundar o conhecimento
popular do seu grupo cultural ou de outros grupos, colocados em contato
cada vez maior pelos meios de comunicação?
- Como
se perceber com um sistema cognitivo que se auto-organiza pela criação
contínua de novas relações em suas redes neuronais?
Como possibilitar a evolução das suas concepções
rumo aos conceitos científicos?
Como
se perceber como uma totalidade - indivíduo e como parte de uma
rede global sistêmica?
Estas
questões e muitas outras vêm inquietando cada vez mais àqueles
que se dedicam ao ato educacional.
Algumas pinceladas
Entre
as Ciências da Natureza, a Biologia foi a pioneira da concepção
sistêmica, a partir do reconhecimento de que os seres vivos eram
totalidades interdependentes entre si e o meio. Para entendermos melhor,
tomemos como exemplo a cobra e a águia que a come. A matéria
e a energia que fluem da presa (cobra) para o predador (águia)
e depois deles para o meio ( CO2, fezes, H2O) e de novo para eles (O2,
H2º) permitem a vida dos dois.
Logo,
fica claro que essas totalidades integradas em rede apresentavam níveis
de vida em complexidade crescente, também organizados em rede,
em que cada um desses níveis apresentava propriedades não
existentes nos anteriores. Se pensarmos em temperatura, ela não
existirá nos níveis de moléculas e átomos,
não servindo como padrão para comparar a cobra e a águia.
Já no nível de funcionalidade de sistemas, a temperatura
é um padrão existente tanto em um como em outro ser. No
entanto, o comportamento funcional de cada um desses seres é diferente:
a águia se caracteriza como homeotermo (temperatura não
varia com a do meio) e a cobra como heterotermo (sua temperatura varia
em função da temperatura do meio). Se os analisarmos, tomando
em consideração outro padrão, podemos ou não
encontrar semelhanças. Se o padrão for alimentar, ambos
são carnívoros. Se for locomoção, um rasteja
e o outro voa. Mas, de qualquer maneira, eles são interdependentes,
pois se o número de águias aumentar, diminuem as cobras.
E, pelo fato de fazerem parte de uma cadeia alimentar, no nível
inferior (presa da cobra), vão aumentar os coelhos e os ratos que,
por sua vez, vão causar diminuição de vegetação
específica.
Destas
nossas incursões, podemos perceber que os padrões e propriedades
mais distintivos estão em todos. Desta forma, quanto mais o mesmo
fato (ou fenômeno) for fragmentado, mais reduzimos a nossa compreensão
de mundo. Enquanto virmos apenas uma floresta de árvores e não
um ecossistema, onde muitos morrem para que muitos possam viver, teremos
dificuldades de entender problemas sérios de sobrevivência
do planeta.
Em
outras palavras, enquanto o estudo da vida for linear, estratificado,
do mais simples para o mais complexo, da parte para o todo, teremos poucas
condições de entendermos o mundo e os diversos movimentos
ecológicos pela sobrevivência, por exemplo, do mico dourado
e da Amazônia. Não compreenderemos que o problema da fome
não é só um problema biológico (ter ou não
ter comida) e sim social, político, econômico (necessidade
de uma distribuição eqüitativa).
É,
então, o momento de nos perguntarmos: por onde começamos,
se há um padrão comum a todos os organismos vivos, o qual
pode ser o eixo de sustentação do nosso trabalho em sala
de aula? Há sim, um padrão: é a rede. Desta forma,
quanto mais compreendermos que há redes de redes (o homem, por
exemplo), que se aninham em redes (meio urbano), migraremos do estudo
dos objetos isolados para o estudo das relações entre eles.
Essa
nova abordagem levanta de imediato uma questão: Se tudo está
relacionado com tudo e tudo é interdependente de tudo, como vamos
poder abarcar tanta informação e construir tanto conhecimento,
durante nossa escolaridade?
Uma
resposta pode ser a de que nas salas de aula, em seus diferentes níveis,
os alunos podem desenvolver conhecimentos relativos e aproximados, em
função de problemas levantados pelos grupos. Assim, a uma
questão acerca do motivo pelo qual a lagartixa se deita no asfalto,
no sol de inverno, um menino do Ensino Fundamental vai dizer que é
para equilibrar a temperatura do seu sangue com a do meio, conseguindo,
dessa forma, "se esquentar". Para um aluno do Ensino Médio
a lagartixa, sendo um ser heterotermo, precisa aumentar sua temperatura
para ter energia suficiente para a manutenção dos seus processos
vitais. Ambos estão certos e ambos estão incompletos. São
construções teóricas em diferentes níveis
de complexidade, nas quais a segunda já completou mais lacunas
do que a primeira. É interessante observar que o saber popular
relaciona o costume do homem de se esquentar ao sol com o comportamento
da lagartixa. Até existe o verbo "lagartear ao sol."
O
mais adequado, portanto, é partirmos desses conhecimentos que os
alunos vão construindo em relação com os outros,
em função de explicações populares. Cabe ao
professor desafiar sempre, para que uma segunda, uma terceira e outras
aproximações sejam construídas. E, a cada construção,
novas variáveis intervenham nos fatos, abrindo novas janela de
inter-relações. Pasteur já dizia que a Ciência
sempre avança por meio de respostas provisórias que se tornam
mais complexas e aprofundam cada vez mais na essência dos fenômenos
naturais.
Uma
outra resposta seria a de que temos que selecionar o que queremos aprender.
Para que essa seleção seja feita com sucesso, é necessário
que os aprendizes (alunos e professores) interajam com o meio físico
e social, para aflorarem os problemas e/ou questões que vão
gerar projetos de aprendizagem.
Em
função dos projetos, a busca se direciona e se organiza,
os dados e informações são coletados e tratados,
voltas sucessivas às questões iniciais são feitas
até que a síntese original seja construída. Para
enriquecer esse processo, podem e devem ser agregados problemas lançados
pelo professor, simulações interativas e não interativas,
software interativos, filmes e vídeos específicos, filmagens
pelos alunos, visitas a instituições de pesquisa, entrevistas
presenciais ou pela Internet de forma síncrona ou assíncrona
(correio eletrônico), enfim, elementos e recursos que, ao invés
de reduzirem o foco da atenção, abram-no, possibilitando
que sejam feitas relações inusitadas que exijam o trânsito
por outros campos de conhecimento, facilitando os processos interdisciplinares
em cada aprendiz.
Ainda
uma outra resposta seria a de utilizar fortemente as redes de comunicação,
nas quais são gerados processos de realimentação,
que possibilitam que também se gerem processos de auto-regulação.
Assim, uma comunidade ativa de aprendizes aprenderá com seus erros,
pois estes, uma vez socializados, serão trabalhados, contra-argumentados,
produzindo um movimento de mudança, tanto na forma de mudança
individual como na de mudança do coletivo.
Consideração
final
Segundo
Piaget, todos os homens são inteligentes e esta inteligência
serve para buscar e encontrar respostas para seguir vivendo. Por isto
mesmo, a inteligência apresenta duas condições inerentes
ao ser vivo: a organização e a adaptação em
um mundo em constante transformação.
Frente
a esta perspectiva, desenvolver a inteligência em suas múltiplas
facetas é tornar mais fácil o processo de viver a vida.
O ser humano pode garantir isto a partir de suas relações
com a natureza, com as outras pessoas, dependendo dos fluxos, cadeias,
redes energéticas, materiais e cognitivas que se estabelecem como
elementos de troca entre eles. Assim, o homem depende necessariamente
da interação.
Nesta
perspectiva, as Ciências da Natureza e a Tecnologia têm papel
primordial. Estas interações, hoje, são intensificadas
pela disponibilização de uma gama crescente de recursos
tecnológicos a faixas mais amplas da sociedade. Possibilitam que
a vida de um e de todos - entendida aqui não só no sentido
biológico, mas nos sentidos social, histórico, cultural,
psicológico, espiritual e outros - siga seus processos, através
de formas construtivas e interdependentes de conhecer e existir, mais
condizentes à condição de seres humanos.
NOTAS:
* Bióloga,
pesquisadora do Laboratório de Estudos Cognitivos -LEC- UFRGS.

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