PGM 5 - Em cada sentido moram outros sentidos

Manifestações populares: o patrimônio imaterial e o encontro das linguagens

Célia Maria Corsino*

Em cada sentido moram outros sentidos. Os olhos, os ouvidos, a boca o nariz, a pele, o corpo todo está inserido na cultura. Sentimos o mundo e construímos os sentidos a partir do que vivemos. Danças, músicas, histórias, objetos, roupas, utensílios, comidas, remédios, crenças, valores - as linguagens através das quais registramos, expressamos e transmitimos o que pensamos, o que sentimos e tudo o mais que diz respeito à nossa vida -pertencem a um acervo revelador: o patrimônio cultural, tradição, herança de outros tempos que se junta ao presente, ganhando o futuro.

Neste texto, inicialmente, discutimos a noção de patrimônio cultural, fruto das inter-relações entre pessoas, grupos, natureza e crenças. Depois trazemos as manifestações populares - o patrimônio imaterial - como expressão da cultura e da arte popular, analisamos a palavra folclore e seus significados construídos ao longo da história e, por fim, damos ênfase à importância da escola como lugar de vivência e de valorização das manifestações populares: acervo cultural de todos nós, que cada um deve procurar preservar nas fontes vivas, e também que deve ser preservado pelos museus e centros culturais. Discutimos também as "referências culturais" como possibilidade de compartilhar um universo de significações, de comunicação, e, simbolicamente, de coesão entre diferentes sujeitos e grupos.

Patrimônio cultural: herança de todos nós

Façamos, pois, com que a mocidade da nossa terra conheça, ao menos nos bancos escolares, aquilo que deveria ter bebido com o leite materno para que, conhecendo, ame e, amando, proteja e conserve o nosso tão amado patrimônio espiritual. (Fernando Correa de Azevedo,1948)

Discutir e entender a noção de patrimônio cultural no cenário atual é essencial para entendermos o desenvolvimento e permanência das manifestações populares.

A raiz da palavra patrimônio é herança paterna. Quando se trata de patrimônio cultural, seu significado está associado à construção e acumulação de bens e à sua permanência, no tempo e no espaço. Está associado, portanto, à História e à sua continuidade e trajetória. São os testemunhos da história e da cultura, produzidos pelos grupos sociais, que permitem conhecer o modo de vida de pessoas que viveram em outras épocas e lugares, em situações diferentes das nossas, mas que como nós, trabalharam, lutaram, amaram, sofreram, foram felizes ou tristes. Tudo isto nos dá consciência de que fazemos parte de um todo maior, que continua nos dias de hoje e se estenderá para o futuro.

A caminhada permite acumular uma bagagem com todo o acervo das coisas que fomos produzindo e aprendendo. Assim, por exemplo, além das coisas que podemos chamar de materiais, como um machado de pedra, um vaso de cerâmica, documentos, fotografias, igrejas, conjuntos urbanos, esculturas, pinturas etc., existem também os valores e saberes que são chamados imateriais, porque são oralmente transmitidos de geração em geração, de pai para filho, como o sistema de crenças e valores éticos e espirituais, como as tecnologias patrimoniais de produção de cachaça, da farinha, do queijo de Minas, das panelas de barro, como o conhecimento sobre a melhor maneira de se usar a natureza e organizar a produção, como aperfeiçoar técnicas de produção e dividir o trabalho.

Além disso, os valores, as crenças, os símbolos, as linguagens através dos quais as pessoas registram, expressam e transmitem o que pensam, o que sentem e tudo o mais que diz respeito às suas vidas também pertencem a este acervo revelador daquilo que fomos, do que somos e do que poderão vir a ser as futuras gerações. Tudo isto constitui o patrimônio cultural dos diferentes grupos formadores da sociedade, isto é, um conjunto de bens, valores e manifestações que as pessoas vão produzindo e que é transmitido às gerações.

O patrimônio cultural pode ser entendido como tudo que está à nossa volta. Tudo o que aconteceu, desde milhares de anos, e que continua acontecendo, faz parte da dinâmica de cada cultura. Não diz respeito somente aos grandes monumentos históricos, aos vestígios arqueológicos, aos quadros dos pintores famosos, às obras clássicas da literatura. Refere-se também a tudo aquilo que nos cerca, a todas as atividades que realizamos em nosso dia-a-dia, à forma pela qual entendemos o mundo e nele interferimos.

Todo o longo processo de fazer história, de construir e atualizar cultura, acontece através de três relações fundamentais:

  • A relação das pessoas e do seu grupo social com a natureza;
  • As relações das pessoas e dos grupos entre si;
  • As relações das pessoas e de seus grupos sociais com seu sistema de crenças.

O patrimônio cultural é produto dessas três relações fundamentais, pois elas estruturam as tradições e, portanto, as diversas maneiras de ser de grupos humanos e as diferentes maneiras com que se apropriam da natureza.

Patrimônio imaterial, folclore e escola

Entre as manifestações do patrimônio imaterial, são nos folguedos que, melhor do que qualquer outra manifestação, podemos perceber a cultura popular como um todo integrado e dinâmico, inseparável da vida cotidiana. É o objeto em ação, aberto e contraditório, ligado ao passado e continuamente adaptado ao presente.

"Não é à toa que com ele emerge também, e fortemente, a questão da autenticidade, tão cara à tradição romântica. Os folguedos corresponderiam ainda a uma exigência crítica da construção simbólica de identidade: um caminho para captar a originalidade de formação da cultura brasileira e sua dinâmica". 1 (Vilhena, 1997,p.14-15)

Na linguagem dos cantos, danças, fantasias e comidas, o brasileiro fala sobre a sociedade em que vive, seus valores e crenças. Nas festas e por meio delas, são permanentemente construídas maneiras de viver e ver o mundo. São Bumbas-meu-boi juninos, Maracatus carnavalescos, Folias de Reis e Pastorinhas, Cavalhadas e Festas do Divino, candomblés e festas de Iemanjá que fazem a alegria do povo brasileiro e determinam um calendário que ainda é muito pouco explorado por professores e escolas. São instrumentos que podem instigar o olhar, ultrapassando a barreira do somente estético para agregar a percepção dos contextos originais em que as manifestações se desenvolvem e desenrolam de corpo e alma.

Se a prática ainda é tímida, a preocupação é antiga, pois já no final da década de 40 discutia-se em Seminários qual a integração possível entre Educação e Folclore. Coube a Cecília Meireles preparar o tema, no qual ela muito bem coloca que o folclore não deve entrar no processo educativo como um conteúdo curricular, mas sim orientando a ação pedagógica dos professores.

O Folclore deve ser vivido cada dia em sua realidade justamente para assegurar a sua permanência e prosseguir na sua evolução (...) o Folclore deve constituir a atmosfera da criança.(Meireles, Cecília)

A escola não deve ser apenas um meio para a divulgação do folclore e sim um lugar de valorização das tradições. As manifestações culturais, ditas da cultura popular, não devem ser somente aprendidas nos bancos escolares e sim vividas.

Cecília Meireles ainda destaca a importância dos museus como parte importante do programa de apoio ao estudo do folclore nas escolas. E estávamos em 1948!

A utilização da palavra folclore nos remete para outra discussão: sua associação com alguma coisa menor, de outro grupo ao qual não pertencemos, ou como comportamento ou coisa exótica, alegórica.

Folclore e cultura popular são palavras e noções surgidas a partir do ideário romântico europeu do século XIX. São expressões utilizadas para designar visões do mundo, práticas e produtos sociais considerados diferentes daqueles próprios do grupo hegemônico da sociedade. Muitas vezes são utilizadas para enfatizar a diferenciação entre elite e povo e sua condição de existência decorre da presença de formas eruditas de cultura e expressão.

No Brasil a polarização em torno das noções de povo e elite determina duas visões distintas: a que entende a arte popular como forma de contracultura em relação à arte erudita, uma forma de resistência a dominação de classe, e aquela para qual o popular nada mais é do que uma imitação rústica e deteriorada dos modelos da tradição acadêmica, uma cópia empobrecida de expressões eruditas de arte." 2 (Soares, 1984)

É ai que se revela a importância e o papel que a escola pode e deve assumir. Não só trabalhar com a cultura erudita, mas valorizar a cultura local e regional, aumentando a auto-estima do aluno e desenvolvendo nele o sentimento de pertencimento àquela cultura e a universos culturais mais amplos. O professor, levando a arte e a sabedoria popular para sala de aula, trabalha tanto a percepção estética do aluno, quanto o conjunto de relações sócio-históricas que estão presentes naqueles objetos culturais.

Retomando as colocações de Cecília Meireles, na Mesa Redonda citada, outra dimensão do caráter educativo do folclore que se destaca é a valorização do papel dos museus, já que nas cidades, entre as escolas urbanas, "torna-se mais difícil o conhecimento das fontes vivas de informações" 3.

Já em 1951 a preocupação com a criação e manutenção de museus se expressa de forma contundente na "Carta do folclore brasileiro", documento final do I Congresso Nacional de Folclore.

É inadiável a necessidade de preservar os produtos da inventiva popular, tanto os de caráter lúdico e religioso como os de caráter ergológico. A guarda desses objetos deve ficar a cargo de instituições apropriadas, e sob a direção de órgãos ligados à pesquisa e ao estudo de folclore, devido tanto ao caráter coletivo dessa tarefa como ao longo tempo indispensável à coleta e classificação dos dados para lhes dar interesse didático." 4 (Carta do folclore brasileiro,1951)

A década de 60 viu o aparecimento de diversos museus de folclore e de cultura popular nos diversos estados brasileiros, atendendo às sugestões da Carta do Folclore Brasileiro. O mais importante deles, Museu de Folclore Edison Carneiro, hoje vinculado à Fundação Nacional de Arte do Ministério da Cultura, está localizado no Rio de Janeiro e constituiu-se num centro de irradiação da cultura popular brasileira e de seu patrimônio imaterial, tendo consolidado um trabalho de preservação, difusão e educação nesta área.

Também no Rio de Janeiro, encontramos a Casa do Pontal, que abriga uma das maiores coleções de arte e cultura populares do Brasil. É uma instituição particular, nascida da coleção de Jacques Van de Beuque, que atualmente desenvolve amplo trabalho educativo com alunos das redes estadual e municipal de ensino do Estado do Rio de Janeiro.

A Casa do Pontal, suas histórias e coleções, lembram que no sistema arte/cultura as interações entre grupos e pessoas são fundamentais. É através dessas interações, conflituosas ou não, que se articulam interesses convergentes ou divergentes que resultam na criação de novas categorias e conceitos para o entendimento da realidade. O reconhecimento e a legitimação da Casa do Pontal e de suas coleções mostram que o interesse pela expressão plástica popular tem uma trajetória que vem sendo tecida por grupos e pessoas pertencentes a diferentes segmentos socioculturais. E também que, nesta trama, legitimação e criação caminham juntas e se influenciam mutuamente."5 (Mascelani,1999)

Retomando as questões específicas das manifestações do patrimônio imaterial e suas múltiplas linguagens e, primordialmente, retomando os versos de Bartolomeu Campos de Queirós, podemos dizer que "por meio dos sentidos suspeitamos o mundo", pleno de nossas referências culturais.

A expressão referência cultural tem sido utilizada, sobretudo, em textos que têm como base uma concepção antropológica de cultura, e que enfatizam a diversidade não só da produção material, como também dos sentidos e valores atribuídos pelos diferentes sujeitos a bens e práticas sociais. Compartilhar um universo de significações - ou de "referências" - propicia a comunicação e, simbolicamente, a coesão entre diferentes sujeitos. Apesar de ainda se encontrar no campo dos "direitos difusos", as referências culturais de grupos antes sem voz ativa começam a ser reconhecidas.

O mês de agosto é tradicionalmente conhecido como mês do Folclore, já que em 22 de agosto é comemorado o Dia Nacional do Folclore. Embora a presença da arte e das manifestações populares na escola não deva ser datada, este dia pode ser uma ocasião propícia para professores e alunos fazerem uma releitura das práticas educativas que pouco utilizam o patrimônio cultural como tema transversal. É hora de buscar o sentimento de inclusão, pertencimento, de cidadania, rompendo a dicotomia entre popular e erudito, que tem segregado o nosso patrimônio imaterial colocando-o, muitas vezes, num lugar menor e de pouco prestígio. A data também pode instigar professores e alunos a pesquisarem sobre estas manifestações, visitando sites, museus, contando histórias, passando filmes, expondo objetos, cantando e dançando, mas sempre de forma contextualizada, compartilhando os diferentes universos de significações.

A qualidade de vida, a proteção ao meio ambiente e a preservação de referências culturais, que não só aquelas de valor excepcional e hegemônico, recentemente, passaram a ser entendidas como direitos do cidadão. Qual lugar seria melhor do que a escola para colocar este discurso em prática?

Bibliografia

AZEVEDO, Thales de. Mesa Redonda Sobre Folclore e Ciências Sociais. Documentos da CNFL. Rio de Janeiro: IBECC, 1957.

BRASIL. Ministério da Cultura. O Registro do Patrimônio Imaterial - Dossiê final das atividades da Comissão e do Grupo de Trabalho Patrimônio Imaterial. Brasília, Ministério da Cultura, 2000.

BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Carta do Folclore Brasileiro. In: Anais do Congresso Brasileiro de Folclore (1:1951). Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1952,v. I.

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna -Europa, 1500-1800. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

LIMA, Ricardo Gomes & FERREIRA, Cláudia Márcia. "O Museu do Folclore e as Artes Populares". Revista do Patrimônio Histórico e Artístico, Rio de Janeiro, IPHAN, p.100-119, 1999.

MASCELANI, Maria Angela. A Casa do Pontal e suas Coleções de Arte Popular Brasileira. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico, Rio de Janeiro, IPHAN, p.120-155, 1999.

VILHENA, Luís Rodolfo. Projeto e Missão - O Movimento Folclórico Brasileiro (1947-1964). Rio de Janeiro: Funarte/ Fundação Getulio Vargas, 1997.

SOARES, Lélia Gontinjo. Produção do Artesanato Popular e Identidade Cultural. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico, Rio de Janeiro, IPHAN, nš 19, 1984.

Sites:

www.museudoindio.org.br

www.museudofolclore.com.br

 

NOTAS

 

* Diretora do Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN.

1 VILHENA, Luís Rodolfo. Projeto e Missão: o movimento folclórico brasileiro (1947-1964). Rio de Janeiro: Funarte/Fundação Getulio Vargas,1997.

2 SOARES, Lélia Gontijo. Produção de Artesanato Popular e identidade cultural. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, IPHAN, 1984, nš19.

3 MEIRELES, Cecília.

4 CARTA do Folclore Brasileiro. In: Anais do Congresso Brasileiro de Folclore (1:1951). Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1952, v.l. p.79.

5 MASCELANI, Angela. A Casa do Pontal. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, nš 28, p. 153, 1999.