Nesta perspectiva,
os cinco programas da série Educação e desenvolvimento
infantil, que será apresentada de 2 a 6 de abril no Programa
Salto para o Futuro, da TV Escola, focalizam o desenvolvimento cultural
da criança nos primeiros seis anos de vida em sua relação
com a Educação Infantil compreendida num sentido amplo,
ou seja, tanto a educação no contexto escolar como a educação
no âmbito da vida cotidiana/comunitária.
No contexto
escolar (pré-escolas, creches formais e informais), a Educação
Infantil pressupõe a existência de uma proposta pedagógica
sistematizada que tenha como eixo o brincar, o papel mediador do educador
e a construção do conhecimento em rede.
No âmbito
da vida cotidiana leva-se em consideração a interação
da criança com os bens socioculturais do seu grupo e os conhecimentos
das famílias sobre o processo de desenvolvimento e aprendizagem
de seus filhos. Na série estão contempladas as práticas
cotidianas relacionadas aos cuidados, à educação
e às formas de interação família-comunidade,
no que se refere à criança.
O princípio
norteador da série é que o processo de desenvolvimento
infantil exige oportunidades educativas oferecidas de forma crítica,
criativa e consistente para além dos cuidados assistenciais de
saúde, alimentação, proteção e guarda
da criança. Considera-se, ainda, a perspectiva histórico-cultural
de Vygotsky, na qual desenvolvimento e aprendizagem são processos
dialeticamente relacionados, um influenciando e transformando o outro.
Nessa direção,
são apresentadas algumas experiências brasileiras (creches
comunitárias de Teresina/Piauí; Castelo, Alcântara/Maranhão;
Belém/Pará e Rio de Janeiro/ RJ) nas quais, além
do atendimento às necessidades nutricionais e de saúde
das crianças, está presente o caráter eminentemente
pedagógico articulado às experiências socioculturais
significativas como, por exemplo, aquelas que dizem respeito à
identidade étnica e social.
De um modo
geral, os programas da série procuram enfatizar e articular questões
conceituais e práticas, que se encontram relacionadas ao tema
Desenvolvimento da Criança e Educação Infantil,
tais como:
- o fato
de que a visibilidade social da criança, ou seja, o lugar e
o papel que a criança ocupa na sociedade, bem como a percepção
de suas peculiaridades, decorre do contexto histórico, social
e ideológico e reflete-se no atendimento às suas necessidades
de desenvolvimento e educação;
- o processo
de desenvolvimento e aprendizagem da criança apresenta grande
diversidade em função das diferentes vivências
socioculturais;
- os conhecimentos
e a cultura das diferentes populações fornecem os conteúdos
significativos necessários à apropriação
pela criança dos valores, da linguagem, das habilidades e do
saber de seu grupo social;
- o processo
pedagógico significa o acesso aos conhecimentos acumulados
historicamente pela humanidade, relativo tanto ao saber escolar quanto
à produção cultural literatura, arte, teatro,
música entre outros;
- o desenvolvimento
das funções psíquicas superiores representa um
processo de transformação do biológico pela interação
social. Destaca-se, nesse aspecto, o papel exercido pela linguagem
na organização cerebral;
- o brincar
como forma cultural de atividade e suas repercussões no desenvolvimento
e aprendizagem da criança;
- a capacitação
de recursos humanos (regular e em serviço) nos programas voltados
para a criança tem como objetivo garantir a qualidade do trabalho
realizado, articulando os conhecimentos teóricos e práticos
sobre a criança com a formação cultural e social
dos profissionais de Educação Infantil;
- há
necessidade de articulação do saber técnico e
do saber popular, visando constituir um novo saber sobre o processo
de desenvolvimento e educação da criança. Para
tanto, torna-se necessária a valorização dos
conhecimentos socioculturais das comunidades e a identificação
das suas práticas cotidianas, no que refere aos cuidados, às
interações sócio-afetivas e à educação
dos filhos;
- um dos
grandes desafios que se coloca no quadro atual reside em prover os
programas, as famílias e as comunidades dos recursos materiais,
técnicos e humanos necessários à promoção
do desenvolvimento e educação da criança.
O objetivo
da série também é revelar como as concepções
sobre Infância, Desenvolvimento e Educação, ao demarcarem
propostas pedagógicas e práticas sociais, concretizam
o respeito à cidadania e aos direitos da criança. Os direitos
sociais significam, na prática, acesso à educação
e aos serviços de saúde, bem como alimentação
adequada, moradias com água de boa qualidade e em quantidade
suficiente, com rede de esgoto, em comunidades onde seja feita a coleta
de lixo e existam áreas de lazer.
Quanto
às oportunidades educacionais, por exemplo, os indicadores educacionais
referentes aos estados do Nordeste e Sudeste revelam que apenas 27%
das crianças de zero a seis anos de idade (Pesquisa sobre Padrões
de Vida/1996-1997 Primeira Infância, IBGE, 2000) têm acesso
à Educação Infantil. De zero a quatro anos, essa
taxa cai para 13,1 sendo que destes 36% freqüentam creches e 64
% a pré-escola o que faz supor que a população
de zero a três anos é aquela que tem menos acesso à
educação, principalmente, por falta de infra-estrutura
de creches (mais da metade da oferta de creches é particular).
Assim, apesar das iniciativas existentes em muitos municípios,
é urgente que a criança pequena tenha garantido o acesso
à oportunidade educativa e venha a alcançar maior visibilidade
em relação a todos os seus direitos sociais.
Na série
discute-se como o sentimento de infância e a percepção
do processo de desenvolvimento da criança variam não só
em função do momento histórico, mas também
da classe social e do grupo cultural ao qual a criança pertença.
A criança, portanto, precisa ser considerada como um ser concreto
e não como um ser abstrato e idealizado a partir de um padrão
universal.
Nesse sentido,
o professor e os profissionais que trabalham com essa faixa etária
precisam conhecer as concepções de desenvolvimento infantil
que fundamentam as práticas sociais e os trabalhos realizados
com a criança em creches/pré-escolas, nos serviços
de saúde e na própria família. .
No programa
é destacado, ainda, o desenvolvimento da criança a partir
do modelo e referencial histórico-cultural de Vygotsky, assim
como a repercussão desse modelo nas práticas sociais acima
referidas. Além disso, o modelo de desenvolvimento cultural da
criança permite uma melhor compreensão da importância
das interações da criança na organização
dos processos psíquicos e na promoção da aprendizagem
e da saúde mental.
Mesmo em
comunidades pobres, economicamente falando, quando a criança
participa ativamente da vida familiar e comunitária, ela encontra
as condições necessárias para desenvolver-se adequadamente.
Não obstante, a valorização das oportunidades educativas
no âmbito da vida cotidiana não pretende substituir o acesso
sistemático aos conhecimentos tipicamente escolares, mas tem
como objetivo enfatizar e apoiar as interações sociais
significativas e ampliar o conhecimento das comunidades e grupos sociais
sobre os cuidados e a educação da criança.
Sabe-se,
por exemplo, que a norma padrão, os conhecimentos e as habilidades
escolares não estão contidos, exclusivamente, no contexto
da escola. Entretanto, há reais dificuldades de muitas comunidades
terem acesso a tais conhecimentos. Por outro lado, a escola tem desvalorizado
a linguagem, os conhecimentos e habilidades que a criança traz
do seu grupo social de referência. Daí a importância
de se buscar uma articulação consistente entre o saber
cotidiano e o saber escolar, estabelecendo um rico e complexo processo
chamado bidialetalismo transformador (representa a criação
de um novo conhecimento a partir das trocas significativa entre o dialeto
escolar e o dialeto popular)
A Educação
Infantil no contexto escolar abrange pré-escolas e creches (formais
ou não), pressupondo a existência de uma proposta pedagógica
que contemple: o processo do desenvolvimento e da aprendizagem da criança;
os conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade relativos
ao mundo social e físico; as produções culturais
e artísticas e os conhecimentos socioculturais das diferentes
populações.
O caráter
eminentemente pedagógico da Educação Infantil no
contexto escolar deve estar fundamentado na perspectiva de que a criança
está inserida em determinado contexto social, e portanto, deve
ser considerada em sua história de vida, classe social, cultura
e etnia.
Nesse sentido,
a escola considerada como espaço para a co-construção
de novos conhecimentos sobre o mundo é aquela na qual a sua proposta
pedagógica permite a permanente articulação dos
conteúdos escolares com as vivências e as indagações
da criança sobre a realidade em que vive.
Como as
crianças são constituídas a partir de processos
diversificados de relações sociais, a Educação
Infantil não pode ser homogênea, nem padronizada. Há
de se considerar que a escola esteja preparada para enfrentar e tirar
proveito dessa diversidade de possibilidades de interação
social, utilizando-a para esta co-construção coletiva
de conhecimentos e habilidades.
Outro aspecto
abordado nos programas diz respeito ao Brincar como se dá o surgimento
dessa forma cultural de atividade no processo de desenvolvimento e aprendizagem
da criança; as repercussões do brincar no desenvolvimento
da criança e o seu papel na Educação Infantil (o
brincar e a educação).
Em síntese,
podemos considerar a dialogia, os processos interativos, a cooperação,
o trabalho em grupo, a arte, a imaginação, a brincadeira,
a mediação do professor e a construção do
conhecimento em rede como eixos do trabalho pedagógico voltado
para o Desenvolvimento e a Educação Infantil visando à
constituição do sujeito solidário, criativo, autônomo,
crítico e com estruturas afetivo-cognitivas necessárias
para operar sua realidade social e pessoal.
O professor
tem um importante papel na mediação da relação
epistemológica, ou seja, da relação da criança
com o conhecimento, assim como na constituição da identidade
e da autonomia da criança. O papel mediador do professor também
está associado à idéia da construção
do conhecimento em rede, como orientador do planejamento pedagógico
e da seleção e tratamento dos conteúdos curriculares.
Para tanto,
o professor e os profissionais que trabalham na Educação
Infantil precisam ter assegurados seus próprios direitos a uma
educação que lhes permita serem autônomos e críticos
no exercício da profissão. Baseando-se na produção
atual de conhecimento sobre formação do professor, é
importante que os projetos formativos se estruturem em torno das práticas
escolares concretas e das reais necessidades dos professores no seu
cotidiano. Mais ainda, na formação em serviço,
é preciso valorizar os saberes oriundos da experiência
docente, visando confrontá-los com os saberes acadêmicos.
Nessa perspectiva o professor é visto como um sujeito social
imerso na cultura e não de forma abstrata e deslocado da sua
própria história.
Dessa série,
além da Proposta pedagógica, constam textos de apoio e
reflexão, que estão distribuídos por programas,
mas que apresentam uma intensa correlação com todos os
temas abordados na série.
Convém
salientar que estes textos, apesar de estarem vinculados didaticamente
aos programas, se inter-relacionam e permitem múltiplos olhares
sobre as questões abordadas na série: desenvolvimento
da criança; família; escola; arte e imaginário
e formação do professor.
Assim
como a série não pretende desvincular a educação
escolar da vida comunitária, também os textos estão
voltados para a compreensão da criança na sua totalidade
sócio-histórico-cultural.
*
Educador; Médico/Psiquiatria Infantil; Doutor em Saúde
Mental; Mestre em Educação; Professor responsável
pela disciplina de Neuropsiquiatria Infantil/Desenvolvimento Infantil
da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense; Professor
de Interação Social do Departamento de Educação
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e-mail: jwerne3@attglobal.net