A partir de uma dimensão dialética,
pensamos uma educação inclusiva considerando a educação
como prática de inclusão social. Não podemos
falar em educação especial, sem pensar na educação
de todos. O paradigma da inclusão serve de parâmetro
à gestão educacional e para a efetivação
de projetos políticos pedagógicos que privilegiem o
respeito às diferenças, numa transformação
histórica para os processos de exclusão, presentes na
educação brasileira.
A pedagogia da exclusão tem origens remotas,
condizentes com o modo como estão sendo constituídas
as relações humanas. Pessoas portadoras de deficiência,
aquelas com necessidades especiais, sempre foram consideradas como
"doentes" e incapazes frente aos padrões de normalidade. As
situações sociais sempre lhes proporcionaram desvantagens
no que se refere às interações sociais, ocupando
o espaço da caridade, da filantropia e da assistência
social.
Diante dos processos socialmente constituídos,
pensarmos em uma sociedade inclusiva é de fundamental importância
para o desenvolvimento e a manutenção de nossos discursos
e para a concretude de nossas ações democráticas.
Entendemos que a inclusão é a garantia, a todos, do
acesso contínuo ao espaço comum da vida em sociedade,
uma sociedade mais justa mais igualitária e respeitosa, orientada
para o acolhimento à diversidade humana e pautada em ações
coletivas que visem à equiparação das oportunidades
de desenvolvimento das dimensões humanas.
Quanto à educação especial,
um longo caminho foi percorrido entre a exclusão e a inclusão
escolar e social. Até bem pouco tempo, a teoria e a prática
dominante quanto ao atendimento às necessidades educacionais
especiais de crianças, jovens e adultos ressaltavam apenas
o que neles era a falta e quais seriam os recursos para a reparação
dessas faltas. Vygotsky (1989), no entanto, nos lembra que "a deficiência
não é só impossibilidade, mas também é
força. Nesta verdade psicológica se encontra o início
e o fim da educação social dos alunos com deficiência."
Considerados pelo que lhes falta, aos alunos eram
reservados espaços segregados, que supostamente lhes garantiriam
adequados atendimentos. Em muitos casos, a escola especial desenvolvia
um regime residencial e, conseqüentemente, a criança,
o adolescente e o jovem eram afastados da família e da comunidade.
Evidenciava-se então uma proteção, beneficiando
muito mais à sociedade do que aquele que foi excluído.
Embora esse fosse o espaço de acolhimento, no qual crianças
e jovens tinham a oportunidade de aprender, como ficassem limitadas
as interações múltiplas da vida em sociedade,
todos saíam perdendo. Todos perdiam, inclusive os não
deficientes. Um processo, no entanto, se aprofundava: o preconceito.
Essa tendência, que já foi senso comum,
reforçava a segregação e o preconceito sobre
as pessoas, agravando-se pela irresponsabilidade dos sistemas de ensino
com esta população, bem como pela insuficiência
de informações sobre esses alunos aos professores, porque
em seus cursos a diferença não era apresentada. Falamos
de um aluno abstrato, quando não falamos sobre a diversidade,
classificamos sem contextualizar, numa intenção que,
por mais que se queira, não será atingida: homogeneizar.
Então, pouco conhecemos, aprendemos ou refletimos sobre a diferença
e, assim, não sabemos lidar com ela. É algo presente
desde a nossa colonização. São quinhentos anos
de história.
Na tentativa de eliminar os preconceitos, oportunizar
inserções, integrar os alunos com deficiências
nas escolas comuns do ensino regular, surgiu o movimento de integração
escolar (predominante nos anos 60, 70, 80). Essa prática caracterizou-se,
de início, pela utilização das classes especiais
como um sistema de integração parcial, ou seja, um espaço
específico dentro da escola, muitas vezes destacado no espaço
físico e destinado a uma possível preparação
para a "integração total" na classe comum. Embora muitos
alunos passem toda a sua vida escolar na mesma classe especial.
Como espaço das diferenças, nem sempre
as classes especiais serviram (ou servem) aos alunos portadores de
deficiências mais evidentes e constituíram o espaço
daqueles alunos que, como nos diz Jannuzzi (1985), foram considerados
"os anormais de escola". Muitos encaminhamentos indevidos procuram
nesse espaço atendimentos para outros alunos, que não
apresentam deficiência e que, conseqüentemente, lá
aprendem a ser deficientes. Na classe especial não se repete,
não se sai, na maior parte das vezes, se fica.
Para Skliar (1997), há uma falta de reflexão
educativa sobre a educação especial e é preciso
pôr em relevo uma necessidade específica: incluir a análise
dos fatos dentro dos problemas educativos gerais e não, como
se faz habitualmente, fora deles, ou seja, "quanto mais longe melhor".
No processo de integração, o aluno
tinha de se adequar à escola, que se mantinha inalterada e,
na verdade, dividida em dois grandes blocos: a educação
regular e a educação especial. Destaca-se o fato de
que na educação especial, constituída à
parte do todo, as atenções recaíam mais no que
era especial do que no que era necessário à educação
de todo e qualquer aluno. O processo pedagógico detinha-se
em patologias e pensava-se em reabilitar: aquele que não fala,
não anda, aquele que apresenta uma outra lógica. O compromisso
era preparar alguém para vir a ser. A integração
total só ocorria quando o aluno conseguisse acompanhar o currículo
desenvolvido no ensino regular. A maioria dos alunos, percorrendo
um currículo especial, não conseguia atingir os níveis
mais elevados de ensino. O tempo de vida na escola não acompanhava
o tempo de vida fora dela.
No momento atual, quando entendemos que estamos na
era dos direitos, pensa-se diferentemente acerca das necessidades
especiais. A ruptura com a ideologia da exclusão visa à
implementação de uma política de inclusão,
que vem sendo debatida e exercitada em vários países,
entre eles o Brasil, respaldada pela Constituição Brasileira
(1988), pela Conferência Mundial de Educação para
Todos, em Jontiem (1990), pela declaração de Salamanca
(1994) e a LDBEN, que preconiza o atendimento dos alunos com necessidades
educacionais especiais preferencialmente em classes comuns
das escolas, em todos os níveis, etapas e modalidades de educação
e ensino.
Certamente, a educação tem hoje o grande
desafio de ressignificar suas práticas frente a uma realidade
social e educacional excludente. A educação das crianças
especiais é um problema, como é também o da educação
das classes populares, a educação rural, a das crianças
de rua, a dos presos, dos indígenas, dos analfabetos etc. Em
todos esses grupos há uma especificidade que os diferencia,
mas há também um fator comum que os torna semelhantes:
trata-se daqueles grupos que, com certa displicência, são
tidos como minorias; minorias que sofrem de um processo semelhante
de exclusão da educação.
Alguns dados sobre a situação da educação
em nosso país são significativos para pensarmos essa
dimensão:
- Os/as alunos/as brasileiros/as passam, em média,
apenas cinco anos na escola e os que concluem o Ensino Fundamental
levam mais de 11 anos para concluir as oito séries.
- Em 1997, apenas 9,3% dos jovens entre 18 e 24 anos
terminaram o Ensino Médio.
- Quase três milhões de crianças
e jovens em idade escolar, de 7 a 17 anos, estão fora da escola.
Apesar da campanha "Toda a criança na escola" (1998).
- Em 1998, o número de crianças de
5 a 14 de idade trabalhando era de 2,9 milhões, sendo que a
maior parte estava na atividade agrícola.
Esses são fatos que nos levam a pensar a educação
inclusiva como um movimento de toda a educação e não
da educação especial. Os sistemas educacionais devem
garantir o acesso aos conteúdos básicos que a escolarização
deve proporcionar a todos os alunos, inclusive àqueles com
necessidades especiais, particularmente os alunos com altas habilidades,
condutas típicas de síndromes, quadros psicológicos,
neurológicos ou psiquiátricos, alunos com deficiências:
aqueles que apresentam significativas diferenças físicas,
sensoriais ou intelectuais, decorrentes de fatores genéticos,
inatos ou ambientais, de caráter temporário ou permanente
e que, na interação dinâmica com fatores socioambientais,
resultam em necessidades muito diferentes da maioria das pessoas.
Sendo uma questão de respeito ao direito à
educação, a educação de alunos com necessidades
especiais deve estar baseada em princípios como:
- A preservação da dignidade humana;
- A busca de identidade;
- O exercício da cidadania.
Esses princípios podem ser sintetizados pela
fala de Boaventura Santos (1997), quando afirma: "temos o direito
de ser iguais sempre que as diferenças nos inferiorizem; temos
o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracterize".
Esse direito deve ser analisado, avaliado e planificado conjuntamente
a partir de uma concepção de uma educação
plena, significativa, justa, participativa; sem as restrições
impostas pela beneficência e a caridade; sem a obsessão
curativa (normalizadora), através da qual se apagam as singularidades.
Para a organização da educação
pautada em direitos, que preservem a eqüidade, mas que respeitem
a diferença, a proposta pedagógica deve assegurar um
conjunto de recursos e serviços educacionais, organizados institucionalmente
para apoiar, complementar, suplementar e até substituir os
serviços educacionais comuns, garantindo o atendimento às
diferenças dentro da diversidade humana. Todo o compromisso
dos educadores deve estar voltado para garantir a educação
escolar e promover o desenvolvimento pleno do indivíduo, em
todos os níveis, etapas e modalidades da educação.
Como política de educação, a
inclusão de alunos que apresentam necessidades educacionais
especiais na rede regular demanda não apenas a matrícula
do aluno ou a permanência física junto com aqueles considerados
normais, mas representa a possibilidades de revermos concepções
e paradigmas, num profundo respeito pelas suas diferenças.
Conviver com as diferenças - não será esta uma
das maiores dificuldades da humanidade e, portanto, da escola?
Atender às diferenças, atender às
necessidades especiais, ressignificar, mudar o olhar da escola, pensando
não a adaptação do aluno, mas a adaptação
do contexto escolar aos alunos. Isso significa torná-lo múltiplo,
rico de experiências e possibilidades, pronto para viver, (con)viver
com o diferente, rompendo barreiras humanas e arquitetônicas,
criando novos conceitos, dando novos sentidos, RESSIGNIFICANDO a aprendizagem
e, conseqüentemente, o desenvolvimento humano. Se o processo
de inclusão atingir este feito - repensar a escola - ele é
muito bem-vindo. Como nos fala Marcel Proust: "uma verdadeira viagem
de descoberta não é procurar novas terras, mas ter um
olhar novo".
Nesse processo, ressalta-se a função
social da escola que, através de ações diversas,
favorece interações múltiplas, definindo em seu
currículo práticas heterogêneas e inclusivas que
garantam o acesso e a permanência dos alunos. Esse ensino na
diversidade exigirá:
I - Perceber as necessidades especiais; observar;
registrar;
II- Flexibilidade nas ações pedagógicas;
II- Avaliação contínua sobre
a eficácia do processo educativo;
IV- Atuar em equipe ( relações entre
a educação especial e a regular)
A educação inclusiva, em vez de focalizar
a deficiência, enfatiza o ensino e a escola, bem como as formas
e as condições de aprendizagem. O professor é
o profissional da aprendizagem - alguém que aprende quando
ensina, porque pode observar o processo de desenvolvimento de seus
alunos, sempre desejosos de aprender - fome de pão e de beleza
- nos lembra Frei Betto; fome de ser e de conhecer (incluo, concluo).
Nessa dimensão, os problemas não estão no aluno,
mas no tipo de resposta educativa e de recursos e apoios que a escola
possa propiciar, que venham de encontro à deficiência,
que minimizem a incapacidade, caso ela exista, e que não coloquem
o aluno em desvantagem. Não é o aluno que se adapta
à escola, aos padrões esperados, para ser aceito como
aprendente, porque ele já o é. O projeto político
pedagógico de cada escola, que se faz inclusiva, deverá
atender ao princípio da flexibilidade em seu currículo,
respeitando seu caminhar próprio e favorecendo seu progresso
escolar. Trata-se de romper a cultura (pré) determinada da
escola, ressignificando suas práticas.
É preciso identificar barreiras que estejam
impedindo ou dificultando o processo educativo. A avaliação
educacional, ao contrário do modelo clínico, tradicional,
classificatório, deverá sinalizar o processo de desenvolvimento
e aprendizagem - o potencial do aluno, os conhecimentos já
adquiridos e aqueles que estão em processo. Dentro da perspectiva
de Vygotsky, temos de estar atentos aos conhecimentos que, através
das interações, vão se construindo. Quais são
a barreiras a remover para a inclusão do aluno no processo
pedagógico?
As atitudes dos professores podem ser barreiras para
a inclusão. Para Carvalho (2000), a realidade em nossas escolas
tem se mostrado muito contraditória a esse respeito, porque,
ao lado de muitos educadores que se mostram receptivos e interessados
na presença de alunos com deficiência em suas salas,
há os que a temem, outros que a toleram e muitos que a rejeitam.
Os que temem afirmam sentir-se despreparados para
lidar com as dificuldades de aprendizagem. Muitos, impregnados pelo
modelo médico, sugerem a ação de especialistas,
supostamente os mais indicados para atender a alunos com deficiências.
Os que toleram, em geral, cumprem ordens superiores
e transformam a presença do aluno em algo penoso, que pode
ficar mais segregado ou excluído do que se estivesse em espaços
especiais.
Os que rejeitam alunos com deficiência em suas
turmas defendem-se, afirmando que em seus cursos de formação
não foram preparados e que não dão conta nem
dos alunos ditos normais. Soma-se a isso uma série de descontentamentos
com a situação do magistério.
Tais considerações remetem a questionarmos
a formação acadêmica e a formação
continuada em relação ao trabalho com a diversidade.
Como analisar estas questões? Que apoios serão necessários?
Cabe a cada unidade escolar avaliar ou diagnosticar
sua realidade educacional e implementar as alternativas de serviços
e a sistemática de funcionamento de serviços, preferencialmente,
dentro da escola, na comunidade, e que venham a favorecer a aprendizagem
dos alunos. São consideradas possíveis alternativas
de apoio à inclusão:
- A sala de recursos: atuação de professor
especializado, que suplementa ou complementa o atendimento educacional
às necessidades educacionais dos alunos, no contexto da própria
escola ou em escola próxima àquela na qual o aluno freqüenta
a turma de ensino regular.
- Atendimento com professor itinerante (intra e interescolar):
serviços de orientação e supervisão para
professores e alunos, para apoios necessários à aprendizagem,
à locomoção e à comunicação.
- Atendimento com professores intérpretes
(língua de sinais e código Braille): para alunos surdos
e para alunos cegos, respectivamente.
- Adaptações curriculares:
Novas alternativas implementadas pela escola, de
acordo com seu projeto político-pedagógico: trata-se
de uma proposta planejada coletivamente, podendo contar com os serviços
de apoio existentes na comunidade escolar.
Há também atendimentos implementados
fora do ambiente escolar:
- A classe hospitalar; para atendimento a alunos
impossibilitados de freqüentar a escola em razão de tratamento
de saúde, que implique tratamentos prolongados.
- Atendimento educacional em ambiente domiciliar:
para atender o aluno impossibilitado de freqüentar as aulas em
razão de tratamentos domiciliares.
Torna-se importante a integração da
educação com os serviços de saúde, trabalho,
assistência social para que seja dado um atendimento integral
e exercida a cidadania da pessoa com deficiência.
Aos alunos surdos deve ser garantido o acesso à
língua de sinais, sem prejuízo do aprendizado da Língua
Portuguesa. Aos cegos, acesso ao Braille como um código de
sinais diferenciado para a leitura e escrita. Para assegurar esses
processos, os sistemas de ensino precisam prover as escolas de recursos
humanos e materiais necessários. Os alunos com altas habilidades
devem receber desafios suplementares em suas classes e em salas de
recursos, podendo concluir, em menor tempo, a série ou etapa
escolar, incluindo no histórico escolar as especificações.
Além disso, deve ser afirmado e ampliado o
compromisso político com a educação inclusiva,
organizando encontros, atividades comunitárias para:
- fomentar o envolvimento das famílias e comunidade
escolar e em
geral;
- superar os obstáculos da ignorância,
do medo e do preconceito;
- divulgar os serviços e recursos educacionais
existentes;
- difundir as experiências bem sucedidas de
educação inclusiva;
- estimular o trabalho voluntariado no apoio à
inclusão escolar.
Todas essas práticas nos encaminham a definições
para questões propostas por Carvalho (2001):
- Que escola temos e que escola queremos?
- Que sociedade idealizamos e como podemos trabalhar,
na condição de educadores, para que esta sociedade se
torne realidade?
- Que competências precisamos desenvolver nos
aprendizes e para o nosso ofício de professores?
- Que princípios devem constituir o eixo vertebrador
de nossa prática pedagógica?
- Que valores devem ser introjetados pelos alunos,
neste mundo pós-moderno, que nos coloca perplexos diante de
tantas e tão velozes mudanças?
Acredito que a inclusão também nos
faça refletir, como nos ensina Maturana e Varela (1995, p.
50), que a proposta maior da educação é pensarmos
na "condição humana como uma natureza cuja evolução
e realização está no encontro do ser individual
com sua natureza última que é ser social. Portanto,
se o desenvolvimento individual depende da interação
social, a própria formação, o próprio
mundo de significados em que se existe, é função
do viver com os outros. A aceitação do outro é,
então, o fundamento para que o ser observador ou autoconsciente
possa aceitar-se plenamente a si mesmo." Com base nesse princípio
filosófico, acreditamos que uma proposta de Educação
Inclusiva possa contribuir para a constituição de uma
sociedade mais igualitária, mais solidária e, portanto,
comprometida com o seu propósito mais significativo: humanizar.
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Secretaria de Educação Fundamental.
Parâmetros Curriculares Nacionais: Adaptações
Curriculares -
estratégias para a educação
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NOTAS
Mestre em Educação, Professora da PUC-Rio,
Psicóloga Educacional da Secretaria Municipal de Educação
de Duque de Caxias.
