Movimento teatral e modelo de prática cênico-pedagógica
criada e desenvolvida por Augusto Boal (1931) nos anos 70. Possui características
de militância e destina-se à mobilização
do público, vinculando-se ao teatro de resistência.
Para fazer frente à censura e à repressão desencadeadas
pelo AI-5, Boal incrementa sua aproximação com as propostas
de Bertolt Brecht (1898-1956). Inspirado na peça didática,
monta Teatro Jornal, 1971, com o Núcleo 2 do Teatro de Arena.
A encenação, aberta ao improviso, utiliza notícias
do dia, comentadas pelos atores sob diversos modos. Outros textos também
são utilizados para polemizar, extrair contradições
e pontos de vista divergentes contidos num mesmo relato. Chega, desse
modo, a uma crítica global das formas narrativas tradicionais,
exposta no texto O Sistema Trágico Coercitivo de Aristóteles,
no qual tece as bases de sua proposta e faz críticas à
Poética.
Em exílio, iniciado em 1971, percorre diversos países
da América Latina. No Peru, em 1973, participa de uma campanha
de alfabetização, ocasião para novas experiências
e aprofundamento conceitual. Seguindo Paulo Freire, que propunha uma
pedagogia elaborada pelos e não para os oprimidos, Augusto Boal
aspira criar uma prática teatral revolucionária, que incite
os oprimidos a lutarem pela sua libertação. Chega então
às formas do teatro invisível e do teatro foro, cujo esquema
dramatúrgico é basicamente o mesmo: uma cena curta contendo
uma situação de opressão é apresentada para,
num momento seguinte, o ator que desempenha o papel de oprimido ser
substituído por um voluntário da platéia. Este
deverá, improvisando, trazer saídas válidas que
contornem ou destruam a fonte opressora.
Em países europeus, onde a repressão dá-se em
níveis mais sutis, Augusto Boal desenvolve o teatro imagem e
o arco íris do desejo, variantes que enfocam aspectos subjetivos
e interpessoais da sociedade (preconceitos raciais ou a opressão
machista, por exemplo), ampliando o perfil psicoterapêutico do
teatro do oprimido e vinculando-o às lutas das minorias.
Nas décadas de 70 e 80 o diretor reside na França e cria
centros de difusão do oprimido em muitos países da Europa
e de outros continentes. Ao voltar para o Brasil, em 1983, difunde o
movimento do oprimido e funda o Centro do Teatro do Oprimido em 1986.
Eleito vereador do Rio de Janeiro em 1992, cria o teatro legislativo,
outra variante de suas propostas. Entre 1993 e 1996 são trabalhados
perto de quarenta projetos, dos quais treze são promulgados e
se transformam em leis.
O teatro do oprimido congrega hoje grupos em todo o Brasil, com ênfase
no Estado do Rio de Janeiro, especialmente vinculados às ações
pela cidadania. Difundido em todo o mundo, estudado por teóricos
de áreas variadas, foi comemorado com a grande exposição
Augusto Boal: Os Próximos 70 Anos, em março de 2001 no
Rio de Janeiro.
Do ponto de vista artístico, o oprimido pode ser alinhado às
experiências militantes das vanguardas russa e alemã dos
anos 30 (a proletkult, o agit-prop e os blusões azuis), e à
atuação da San Francisco Mime Troup e do Teatro Campesino,
nos Estados Unidos dos anos 60. Sociologicamente, representa uma variação
politizada do sociodrama, vertente que nos anos 60 desenvolveu-se como
o equacionamento cênico dos conteúdos sociais, a partir
do psicodrama de Moreno, de 1930. Do ponto de vista ético, como
uma variante mais restrita da peça-didática brechtiana,
uma proposta que une o teatro à pedagogia de ação
direta.
Fonte : Itaú
Cultural