(Extraído do livro Os carbonários: memórias da
guerrilha perdida. São Paulo, Global Editora, 1980, 3ª edição,
p. 85-86.)
Recolhi as subversões abagunçadas nas estantes e nos
armários. Papelada do Grêmio Livre do CAp, livros de esquerda.
Fui enfiando tudo numa sacola bege, velhusca.
Puxei o zíper emperrado e levantei um pouco pra sentir o peso.
Depois sentei novamente na cadeira do meu quarto, a cuca buscando
uma explicação.
Era tudo irreal.
- A orientação é todo mundo se picar de casa. Pode
ser pra hoje a noite Indonésia! A "Operação
Jacarta"...
Na saída da formatura, o grupo dirigente do grêmio se
reunira para discutir a situação de segurança.
O golpe dentro do golpe, há meses esperado, estava na televisão.
Nas ruas.
Foi no dia 13 de dezembro de 1968 a formatura-livre dos alunos de 4o
ginasial e 4o colegial, promovida pelo grêmio. Como no ano anterior,
foi realizada no Colégio São Vicente de Paulo, sob a asa
protetora dos padres progressistas.
Padre Dario nos cedeu o salão novamente e com boa cobertura
de imprensa marcamos a cerimônia para o dia do azar, embora não
sexta-feira.
A formatura ia transcorrendo sem maiores confas. Eu presidia a mesa,
representando o grêmio-livre. Falaram os oradores de turma. A
platéia de alunos e pais, uns duzentos no máximo, escutavam
atentos e não sonegavam palmas. Novamente tínhamos Che
Guevara de paraninfo.
Apenas este ano, ao invés do Álvaro, era eu que me atrapalhava
com o microfone.
A grande estrela da noite era o Franklin [Martins], agora presidente
do DCE, que acabava de sair da prisão, por habeas-corpus do STF,
depois de ter dançado, meses antes, no malfadado congresso da
UNE, em lbiúna.
Compridão, a barba por fazer, as pernas longuíssimas
cruzadas debaixo da mesa, fez um discurso eletrizante. A situação
política era braba, sim senhores,
- Podem arrancar uma flor, muitas flores, mas não deterão
a chegada da primavera.
O Franclão tava inspirado.
Eu ouvia atento, quando um companheiro da segurança me veio
cochichar ao ouvido:
- Negão... Pessoal escutando rádio diz que tá tendo
golpe...
Mandei ele saber de detalhes. Voltou dez minutos mais tarde. Dera
no rádio a decretação do Ato lnstitucional nº
5.
Era o golpe do golpe, no golpe. Pela terceira vez faziam tábula
rasa da legalidade por eles próprios imposta para alargar o alcance
do arbítrio.
Não era surpresa. Nas últimas semanas vínhamos
fazendo muitas reuniões para discutir o iminente endurecimento
do regime. Vários alarmes falsos. Mas também alguns informes
fidedignos, provenientes da área militar com a qual alguns tinham
laços familiares.
Uma coisa era certa, Costa e Silva ia abrir as pernas pra "linha
dura" que galgava o poder. Havia versões de que este xeque
ao rei, no Planalto, coincidiria com uma "noite indonésia",
um massacre de lideranças estudantis, jornalistas e oposicionistas
de variada espécie.
Não era uma hipótese a descartar. Sabíamos, de
fonte segura, que durante boa parte do segundo semestre de 68, um grupo
do PARASAR planejava seqüestrar o Vladimir [Palmeira] e outras
lideranças estudantis, e jogar no mar, de helicóptero.
Me surpreendia. Como era possível acontecer, na FAB? Pensava
no meu tio aviador, que morrera sem ver essas coisas. Mas a fonte também
dava outras dicas: havia oficiais que se tinham rebelado contra esse
uso macabro de uma tropa de elite voltada a tarefas humanitárias.
Havia a outra hipótese que indicava apenas muitas prisões
nas lideranças estudantis e invasão dos últimos
bastiões do ME: a PUC no Rio e o CRUSP em São Paulo.
Fosse como fosse, a orientação era "limpar"
tudo e sair de casa.
Concluí a formatura com um discurso confuso e embananado, apelando
pra moral: faz escuro mas eu canto, ousar lutar, ousar vencer, fé
no povo, pé na tábua. Eles tinham dado o golpe final,
se desmascarado definitivamente. A luta continuava e o povo era invencível.
A história na mão.
- Como disse o companheiro: podem arrancar muitas flores, não
podam a primavera!
Fonte: Perseu
Abramo