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Apresentação
Flavio Pinheiro

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Na TVE e Rádio MEC

Que livro é este? A pedido de Heloisa Buarque de Hollanda e de Zuenir Ventura, o jornalista Elio Gaspari já respondeu a pergunta. Fez muito mais do que isso. Produziu uma prodigiosa síntese da ditadura militar, balizando o início e o fim da treva política com metáforas exemplares. No artigo "Alice e o camaleão", que separa as inquietações produtivas da personagem de Lewis Carroll das metamorfoses da astúcia, Elio goza da prerrogativa de ver a escuridão do ponto de vista da luz de hoje. Seria engenharia de obra feita se fosse mero exercício de dar à história um aspecto vertebrado. Trata-se, porém, de uma daquelas devassas que faz o passado ficar mais inteligível e inteligente do que talvez realmente tenha sido. Seu ponto de partida é o dia 31 de dezembro de 1978, quando o AI-5 - que já era dado como morto - mereceu isolado obituário numa manchete do Jornal do Brasil, onde Gaspari acumulava as funções de editor de política e titular da coluna "Informe JB". O que expirava ali, sem o devido bota-fora, era a anarquia militar. Ver que por trás do severo decoro regimental da caserna reinava uma tremenda anarquia é dos melhores achados de Elio, o mais aparelhado e documentado exegeta da durindana militar brasileira. Nas palavras dele: "O problema do Exército era a tortura. O problema da tortura era a indisciplina do aparelho de segurança e informações. O problema da indisciplina desse aparelho era a anarquia instalada no Exército". Que não se tome a anarquia por atividade avulsa. Os torturadores eram funcionários públicos, não agiam à margem do Estado. "Se não tinham disciplina, esse era um problema que a ditadura tinha comprado ao supor que poderia resolver um problema político por meio da violência." Das dores da tortura aos impasses ideológicos da esquerda, Elio traça um painel perspicaz do regime e dos impasses ideológicos que dividiram a oposição, intelectuais e artistas.

Traça um quadro tão admiravelmente completo que Heloisa e Zuernir resolveram fazer de "Alice e o camaleão" o capítulo inaugural de Cultura em trânsito, livro que se destinava a ser uma coletânea de artigos que os dois publicaram na imprensa entre 1971 e 1987. O ciclo completo descrito por Elio, aperitivo para o ciclópico e copioso livro que vem preparando há anos sobre a história do regime militar, fornece elos perdidos ao leitor. Zuenir e Heloisa escreveram no calor da hora, apalpando a escuridão. Relê-los agora só aumenta a importância do que escreveram. A originalidade da análise que fizeram passa fagueira pelo teste do tempo. Mesmo no que é irremediavelmente datado há muitos sinais reveladores. O que descobriram num presente tão tumultuado sobreviveu ao futuro. Cultura em trânsito é um formidável guia para entender o que se passou em duas décadas decisivas da vida brasileira.

Começando pelo começo. Em julho de 197, Zuenir cunhou a expressão "Vazio Cultural" na revista Visão. A paisagem cultural era desoladora. "O desaparecimento da temática polêmica e da controvérsia na cultura, a evasão dos melhores cérebros, o êxodo de artistas, o expurgo nas universidades", desfiavam seqüelas do eclipse da liberdade. Mesmo com tantos motivos, evitava atirar toda a culpa na censura. Incitava a reação à pasmaceira com uma metáfora de contorcionismo produzida por Paulo Afonso Grisoli, diretor de teatro. Se o playground está cercado de grades e as crianças proibidas de balançar na gangorra ou descer de escorrega, sempre haverá um menino que com três pedacinhos de pedra saberá "com elas construir um mundo mágico". O mundo mágico não veio e em agosto de 1973 Zuenir escreve "A falta de ar", outro suculento dossiê, que é ao mesmo tempo um contencioso das usurpações da censura com duras estocadas no conformismo. "Uma arte e um jornalismo feitos só de condicionais, advérbios de afirmação, sujeitos ocultos, adjetivos de qualificação positiva, advérbios de bons modos e verbos na voz passiva sofrendo ações mais do que perfeitas, são os sinais mais evidentes de que a cultura está excessiva e temerosamente bem comportada. O que, como na criança, é sinal de doença." Zuenir ainda via os primeiros sinais de desbunde como escapismo. Expiava talvez culpas demais. No calor da hora soava como mal menor que um burocrata qualquer quisesse trocar "a moça é fria, ordinária, ao portador" que Chico Buarque pôs na letra de Bolsa de amores por "a moça é tola, perdulária e sem valor". Vista de hoje a manobra parece só cretina, mas é truculência de regime forte em estado bruto. A censura era cirúrgica. Interditou só 51 (0,4%) dos 13.521 filmes exibidos entre 1971 e 1973. Todos os importantes, que insinuavam algum sortilégio.

Com "Da ilusão do poder a uma nova esperança", publicado em março de 1974, Zuenir fez um barulhão. A malaise da cultura brasileira dava sinais contraditórios. Um pirão que misturava sufoco institucional e indícios sadios e patológicos de incerteza ideológica produzia resultados disparatados. É neste alentado artigo de Zuenir que o ego desabusado de Glauber Rocha faz uma aparição que desafia a gravidade. "Estou certo, inclusive, que os militares são os legítimos representantes do povo", diz. E acrescenta: "Para surpresa geral, li, entendi (o livro Geopolítica do Brasil) e acho o general Golbery um gênio - o mais alto da raça ao lado do professor Darcy (Ribeiro)." Apenas antecipava a geléia geral que vinha pela frente de um mundo que o filósofo francês Andre Glucksman (citado por Elio) resumiu numa frase: "Brejnev é Pinochet." Tirania é tirania, sem distinção.

Glauber funciona como ponte entre Zuenir e Heloisa. Em entrevistas feitas em 1979, Heloisa mete a mão no vespeiro de uma discussão ferozmente autofágica: a das patrulhas ideológicas. O pau come a partir de um artigo publicado por Cacá Diegues no jornal O Estado de S. Paulo. A gota d'água foram as críticas às "alienantes" alegorias do filme Xica da Silva. No artigo Cacá sacudia a esmagadora espessura de dogmas que dividiam o mundo em treva e luz, sem nuances. Glauber alimenta o ventilador. Acusa Fernando Henrique Cardoso, a quem chamara de "príncipe da sociologia", de censurar um artigo de Gustavo Dahl para o jornal Opinião, dizendo que se tratava de uma peça "geiselista". Dizia ainda que os comunistas se corromperam, venderam a alama à Rede Globo. E tome estética do insulto: "Show de Gal Costa, espetáculo de Ney Matogrosso, teatro do Dias Gomes é tudo uma porcaria só."

As entrevistas mostram que as discussões da patrulha não se esgotaram na rinha entre igrejinhas. O debate tratava-se em encruzilhadas reais. Tome-se o depoimento de Caetano Veloso: "O Chico Buarque comete esse erro...a ponto de dizer assim: "eu sou um cidadão, como um cidadão eu acho...', dá a impressão de que fazer música, sambinha, não é tão importante; que o importante é querer fazer justiça social. Mas no Chico Buarque o importante é o sambinha mesmo, o interesse dele por justiça social é uma coisa que pode ou não servir a ele." Caetano tinha sua dose de razão. A insuperável arte de Chico era o que o imortalizava. A militância era contingente que com a derrocada do socialismo real ameaçou empurrá-lo para a obsolescência política. Mas também é verdade que seu brio ideológico ajudou mais do que desserviu a sua integridade artística.

A rigor, a discussão das patrulhas respondia a um incontrolável desejo de desintoxicação ideológica que há tempos ameaçava romper o dique que o represava. A década de 1970 mesmo sufocada pela censura não foi uma década perdida para a cultura brasileira. Ninguém melhor do que Heloisa Buarque de Hollanda enxergou isso. É dela a expressão "vitalidade do silêncio" que orna a geração que fez poesia de mimeógrafo, que percebeu que o cânone ideológico vedava o acesso à modernidade, que constatou que a vida não era só política, embora dela ninguém pudesse escapar. Em "Depois do poemão" Heloisa faz uma síntese do que já tinha condensado na notável coletânea de jovens poetas. "Instala-se a ênfase na importância das questões relativas à prática do cotidiano, à dúvida e à descrença no alcance do projeto revolucionário na arte e, por extensão, nas formas de militância política tal como foram encaminhadas pela geração anterior." Ou nas palavras de Alex Polari, poeta, preso político e hoje desgarrado sacerdote do Santo Daime, transcritas no artigo "Um eu encoberto": "O discurso com o qual transamos política foi o da submissão. Ou seja, um grande discurso de transformação social junto com a pior moral, a pior sexualidade, com uma maneira falida de ver a vida. Acho que a arte, a fantasia, pode criar um tipo de discurso e de relação com as pessoas que abale a sujeição a enunciados como ditadura do proletariado, feminismo, socialismo etc." É reconfortante reencontrar nos artigos de Heloisa personagens deste tempo que não mereciam ficar esquecidos, como o poeta Cacaso. Em "Vida de artista", Cacaso fala dele mesmo e diz como depois de tentar ser filósofo, professor, rendeu-se a sua própria arte: "O que se firmou realmente como profissão para mim foi a disponibilidade." Não é profissão de fé na indolência. Ao contrário. "A intransigência de Cacaso acerca da disponibilidade do artista não se constitui apenas em 'atitude poética', mas em avaliação política da função social do intelectual e do artista nos dias de hoje", avalia Heloisa com precisão. Cacaso não chegaria a esta conclusão sem que o Brasil passasse por tudo o que passou. Cultura em trânsito fecha com reportagens que Zuenir publicou a partir de 1986 no Jornal do Brasil. Neste conjunto há uma peça pequena, que é uma elegia de Zuzu Angel, cujo filho Stuart, barbaramente torturado, morreu numa dependência da Aeronáutica. Zuzu brigou como uma leoa pela memória do filho enfrentando e afrontando poderosos. "Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade." Quem dera fosse verdade a frase de Jorge Luis Borges na História da eternidade. "Em épocas de apogeu, a conjetura de que a existência do homem é uma quantidade constante, invariável, pode entristecer e irritar: em tempos de decadência (como estes), é a promessa de que nenhuma afronta, nenhuma calamidade, nenhum ditadornos poderá empobrecer." Se isso vale para poucas pessoas, valeu para gente como Zuzu.

Fonte: Cultura em Trânsito: Da Repressão à Abertura.
Rio de Janeiro, Aeroplano Editora, 2000, p. 7-11.

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