...Houve um tempo, diz-nos Roberto Schwarz, em que o país estava
irreconhecivelmente inteligente. "Política externa independente",
"reformas estruturais", "libertação nacional",
"combate ao imperialismo e ao latifúndio": um novo
vocabulário - inegavelmente avançado para uma sociedade
marcada pelo autoritarismo e pelo fantasma da imaturidade de seu povo
- ganhava a cena, expressando um momento de intensa movimentação
na vida brasileira.
Nas grandes cidades, o movimento operário que crescia desde
os anos iniciais da década de 50 levava adiante um vigoroso processo
de lutas, expelindo velhos pelegos do Estado Novo e fortalecendo seus
mecanismos de reivindicação econômica e pressão
política. Articulando-se em pactos sindicais,os trabalhadores
urbanos pareciam dispostos a unificar suas forças. Novas organizações
como a PUA e o CGT se afirmavam, provocando a desconfiança dos
que temiam pelo rompimento dos limites institucionais da negociação
salarial.
No campo, o movimento das Ligas Camponesas avançava,notadamente
nos estados de Pernambuco e da Paraíba,alcançando repercussão
por todo o país. Ampliava-se a sindicalização rural,
e era criada em dezembro de 1963 a Confederação Nacional
dos trabalhadores Agrícolas. O debate político nacional
via brilhar um velho tabu: a Reforma Agrária.
Também a classe média urbana, ainda que dividida pelo
temor da subversão e da instabilidade econômica, comparecia
com amplos setores ao movimento social. Estudantes e intelectuais assumiam
posições favoráveis às reformas estruturais,
desenvolvendo uma intensa atividade de militância política
e cultural. A União Nacional dos Estudantes (UNE), em plena legalidade,
com trânsito livre e franco acesso às instâncias
legítimas do poder, discutia calorosamente as questões
nacionais e as perspectivas de transformação que mobilizavam
o país.
Ligado à UNE, surgia no Rio de Janeiro, em 1961, o primeiro
Centro Popular de Cultura, colocando na ordem do dia a definição
de estratégias para a construção de uma cultura
"nacional", popular e democrática". Atraindo jovens
intelectuais,os CPCs - que aos poucos se organizavam por todo o país
- tratavam de desenvolver uma atividade conscientizadora junto às
classes populares. Um novo tipo de artista, "revolucionário
e conseqüente", ganhava forma. Empolgados pelos ventos da
efervescência política, os CPCs defendiam a opção
pela "arte revolucionária", definida como instrumento
a serviço da revolução social, que deveria abandonar
a "ilusória liberdade abstratizada em telas e obras sem
conteúdo", para voltar-se coletiva e didaticamente ao povo,
restituindo-lhe "a consciência de si mesmo". Trabalhando
o contato direto com as massas, de onde extraíam seu maior interesse
e vigor, encenavam peças em portas de fábricas, favelas
e sindicatos; publicavam cadernos de poesia vendidos a preços
populares e iniciavam a realização pioneira de filmes
autofinanciados. De dezembro de 1961 a dezembro de 1962 o CPC do Rio
produziria as peças Eles não usam black-tie e A Vez da
Recusa; o filme Cinco Vezes Favela, a coleção Cadernos
do Povo e a série Violão de Rua. Promoveria ainda cursos
de teatro, cinema, artes visuais e filosofia e a UNE-volante, uma excursão
que por três meses percorreu todas as capitais do Brasil, para
travar contato com bases universitárias, operárias e camponesas.
A organização de um amplo movimento cultural didático-conscientizador
tomava forma em toda uma série de grupos e pequenas instituições
que surgiam vinculadas a governos estaduais, prefeituras ougeradas pelo
movimento estudantil. Em Pernambuco, com o apoio do governo de Miguel
Arraes, o Movimento de Cultura Popular (MPC) forma núcleos de
alfabetização em favelas e bairros pobres. Um novo método,
criado por Paulo Freire, causava impacto. Contra as infantilizantes
"cartilhas" tradicionais, procurava-se colocar a palavra política
no comando do processo de aprendizado como forma de deflagrar a tomada
de consciência da situação social vivida pelas populações
analfabetas e marginalizadas.
No campo político, a presença no poder de forças
nacionalistas filiadas à tradição de Vargas e,
nesse sentido, sensíveis às demandas populares, favorecia
a emergência das esquerdas, notadamente do Partido Comunista que,
na semilegalidade, desempenhava um papel de crescente importância
na articulação dos setores progressistas. Exercendo uma
influência considerável no meio sindical, estudantil e
intelectual, o PCB constituía-se numa peça estratégica
do jogo de alianças do período Goulart. Sua proximidade
em relação ao Estado e o acesso a alguns aparelhos de
hegemonia permitiam que seu ideário da revolução
"democrática e antiimperialista" circulasse abertamente
no debate nacional.
Brasil, primeiros anos da década de 60: talvez em poucos momentos
da nossa história o que poderíamos chamar de "forças
progressistas" tivessem se visto tão próximas do
poder político.
Fonte: Cultura e participação nos anos 60 - Heloísa
Buarque de Holanda - São Paulo: Editora Brasiliense, 1982,
6ª edição, pp. 8-11