Hoje o Brasil sabe muito sobre a censura nos anos de chumbo. Mas agora
poderá saber melhor o que exatamente foi censurado, e mais, com
que humor os censores decidiam seus cortes. Em 1972, o cineasta José
Mojica Marins, o Zé do Caixão, por exemplo, não
foi alvo só da tesoura, mas também da ira de sua censora.
"Se não fugisse à minha alçada, seria o caso
de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à Sétima
Arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente
filme", escreveu a chefe da turma da censura cinematográfica
da época, em seu parecer sobre o filme À meia-noite encarnarei
em teu cadáver.
Trinta anos depois, Mojica Marins é um cult do terror nacional
e sobreviveu para conhecer melhor quem o assombrava. Estes registros
estão disponíveis no Arquivo Nacional, que catalogou e
higienizou filmes examinados pela Censura Federal entre 1968 e 1988.
O trabalho é da equipe da Coordenação de Documentações
Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional, onde está
guardado esse acervo. Os processos com os pareceres dos censores se
encontram na Superintendência Regional do Arquivo Nacional em
Brasília, liberados para consulta.
Até a extinção do Departamento de Censura e Diversões
Públicas da Polícia Federal, em 88, cerca de 25 mil filmes
foram submetidos ao exame da Censura Federal. As curiosidades são
muitas, e o próprio filme de Zé do Caixão chegou
a merecer algumas ressalvas da censora (cujo nome está ilegível
no documento): ela louva "o esforço dos técnicos
que colaboraram neste 'filme', pois em som e imagem são muito
bem apresentados, ao contrário de outras películas nacionais
que vemos aqui neste Serviço de Censura". Mas o aplauso
da censora/cinéfila dura pouco e ela decide pela "não
liberação" do filme: "Nus, cenas de ataques
sexuais, terror, etc. são a constante que, a meu ver, não
possibilitam a liberação da referida película".
Os documentos do Arquivo Nacional mostram que o regime militar não
considerava o cinema o meio mais perigoso para propaganda subversiva.
O ambiente da sala escura é descrito como "estranho ao espectador",
o que acionaria o seu "autocontrole", tornando-o menos "receptivo
às imagens negativas que chegam ao seu subconsciente."
Segundo José Ivan Calou, coordenador substituto da seção
de audiovisuais do Arquivo, nem sempre os pareceres expunham o motivo
da censura. "Os censores seguiam critérios técnicos.
O que tornava a censura ainda mais arbitrária eram as interferências
das camadas superiores." Ivan ilustra o que diz com o filme Queimada,
do italiano Gillo Pontecorvo, que foi liberado pelos censores, mas ao
ser visto por um general no cinema foi imediatamente interditado a pedido
dele. O motivo eram referências ao colonialismo na América
latina e alusões ao Brasil da monocultura.
Sexo, caratê e Tom & Jerry
Cortes feitos em filmes que ficariam famosos, como A Dama do Lotação,
de Neville D'Almeida (1977), podem parecer hoje mais obscenos do que
a cena que se quis esconder. No parecer que determina os 13 minutos
proibidos no filme, assinado pelo diretor da DCDP, o censor Rogério
Nunes, está escrito: "Cena do interior de um ônibus
- cortar desde o momento em que a câmera detalha os movimentos
do homem comprimindo o sexo nas nádegas de Solange, até
que os dois são focalizados da cintura para cima."
Apesar do corte, o filme foi um sucesso. "Com esse filme Deus
me deu de volta tudo o que perdi. Só não recuperei os
10 anos de sofrimento e privação material", diz Neville
D'Almeida, que tem vários produtos inéditos aparecendo
na peneirada do Arquivo Nacional. Um deles é Jardim de Guerra,
de 1967, com roteiro dele e de Jorge Mautner, estrelado por Hugo Carvana,
Antônio Pitanga, Glauce Rocha, Dina Sfat e Nelson Xavier. Nelson
Pereira dos Santos fazia uma ponta.
No filme, um homem é contratado para levar uma mala até
um navio no cais. A valise contém armas e ele é preso,
torturado e enviado a um campo de concentração como uma
pessoa de esquerda. "Quando o filme ficou pronto veio o Ato Institucional
nº 5 e ele foi considerado premonitório, pois antecipou
tudo que estava por vir", conta Neville. "Era um filme político
que falava de Che Guevara, Mao Tse Tung e guerra fria." Piranhas
do Asfalto e Mangue-Bang também permaneceram inéditos
(o segundo ele confessa que nem chegou a mandar para a Censura).
Os censores eram treinados para ler nas entrelinhas. E mesmo que elas
não existissem, eles as encontravam. A exibição
do desenho Tom e Jerry, por exemplo, ensejou longo debate. A polêmica
terminou com o veredito emitido pela censora Lenir de Souza, que em
seu parecer concluiu que a dupla não oferecia maiores ameaças.
"Seu objetivo principal é motivar a criançada a defender
os mais fracos e a repelir a desonestidade."
O bom e velho personagem careca do Kung Fu também não
parecia politicamente inocente para alguns. Em 1974, o general Antônio
Bandeira, então diretor da Polícia Federal, disse numa
palestra que o seriado de TV sobre caratê, estrelado por David
Carradine, poderia criar uma associação subliminar com
o ato de se fazer justiça com as próprias mãos.
Do ponto de vista do risco social o perigo dobrava. Segundo ele, o filme
generalizava a desconfiança no governo/autoridade.
Ainda na TV, outro herói que teve a implicância dos militares
foi o americano Bat Masterson, cuja bengala sempre em riste chegou a
ser entendida como símbolo fálico. No cinema, esse tipo
de sutileza interpretativa barrou artistas como Sam Peckinpah, autor
da obra-prima Meu ódio será tua herança - classificado
pela turma do Departamento de Censura e Diversões Públicas
(DCDP) como "especialista em violência subversiva".
Censor recomenda artigo de Marighela no 'JB'
Na proibição de Guerra dos Pelados, de Silvio Back, em
71, o censor hesita quanto ao real perigo do filme, mas é firme
na agressão à gramática. Roberto Antônio
Coutinho escreveu tratar-se de um filme "de mensagem duvidosa e
conteúdo perigoso, por conter tortura, violência e ainda
talvez de fundo 'subversivo', sem nenhuma solução pacífica".
A paz não parecia ser sua especialidade.
A esta altura, o distribuidor Livio Bruni já havia experimentado
a interdição, em 1968, do documentário do italiano
Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel, sobre a luta pela independência
na colônia francesa. O processo de interdição mostra
que o filme rodou por quartéis e centros de formação
de agentes de todo o país, onde era exibido para ilustrar as
aulas. O censor Wilson de Queiroz Garcia escreveu que o filme, se liberado,
"seria o estopim que falta ser aceso para a luta terrorista no
Brasil". Quem achasse um exagero, que lesse o "JB" da
véspera: "A título de ilustração para
o que dizemos, leia-se 'Algumas Questões Sobre a Guerrilha no
Brasil', do comunista Carlos Marighella, publicada no Jornal do Brasil
de ontem, domingo, dia 15 de setembro de 1968."
Os censores às vezes mostravam seus cacoetes de críticos
de cinema. Com sotaque próprio, evidentemente. José Mojica
teve o seu Quando os Deuses Adormecem liberado em 28 de janeiro de 1972
pelo censor Osmar Fialho, para maiores de 18 anos e com cortes. No parecer,
ele justifica a falta de qualidade: "O filme apresenta imagens
negativas de miséria, favelas, bordéis, traições,
etc., inclusive cenas sexuais excitantes, que o exime da exibição
aos menores de 18 anos. Por conter cenas desprimorosas para o Brasil
e pela ausência de uma técnica mais perfeita (excesso de
representação - falta de autenticidade), opino pela liberação
sem as chancelas de 'boa qualidade' e de 'livre exportação.'
Mais sorte teve Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos. Caiu
nas mãos das censoras Marlene R. Celani e Isabel Maria Martins
de Carvalho, que abrem o parecer classificando-o como "de boa qualidade"
e "livre para exportação", além de tecerem
rasgados elogios: "Um filme que honra a indústria cinematográfica
nacional, tanto pelo enredo como pela técnica e atuação
dos atores." E prosseguem entusiasmadas: "o filme torna-se
uma obra digna de ser vista pelos nossos jovens, considerando-se entretanto,
algumas cenas de cama com pequeno erotismo, assassinato por um policial
sem motivo e alguns palavrões que se encaixam devidamente no
contexto." Levando em conta o valor das "mensagens positivas
da película" elas decidiram pela "liberação
com impropriedade para menores de 16 anos, sem cortes".
Censura vê deboche contra Cristo
Unir sexo e religião era meio caminho para a gaveta. O filme
Sexta-Feira da Paixão, inscrito por Livu Norbert Spiegler no
Festival de Brasília em 1971, categoria curta metragem de 35mm,
sequer chegou ao destino. Foi apreendido no Aeroporto de Congonhas pela
Polícia Federal e, desde então, passou a existir só
para os ofícios e memorandos.
Os censores o descreveram assim: "É deprimente como se
pretende, com este filme, aviltar a religião, denegrir a Igreja,
debochar com as mais caras tradições cristãs. O
autor faz, no filme, o relacionamento da Paixão de Cristo com
a paixão carnal, o ato sexual praticado naquele dia reverenciado
pela Igreja. E como se isso não bastasse, o texto narrado no
curso do filme - durante o qual são mostradas pinturas de atos
sexuais e de nus - é todo ele debochativo, insultuoso. Isto posto,
opino pela interdição deste filme, seja para o VII Festival
do Cinema Brasileiro, seja para o circuito normal, por ferir às
coletividades e à religião." Sexta Feira da Paixão
continua inédito.
Um dos caminhos encontrados no período pelos produtores nacionais
foi a indústria da pornochanchada, que não assustava o
regime. Mas também sofria. Bacanal de colegiais, por exemplo,
produzido por Ruan Bajon, sofreu uma pequena intervenção
cirúrgica da censora Solange Maria Teixeira Hernandes, a severa
D. Solange, em agosto de 83: "Suprimir enfoque do órgão
sexual masculino, eliminando a tomada em que o rapaz carrega a mulher
para a cama, expondo o falo."
Mas mesmo com a tesoura, o bom cinema brasileiro encontrou suas brechas
nesses vinte anos. A produtora Lucy Barreto recorda que ele ocupou,
entre 1968 e 1988, 45% da fatia interna do mercado exibidor, com obras
como: Guerra conjugal e Macunaíma, ambos de Joaquim Pedro de
Andrade; Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos
Santos; A Dama do lotação, de Neville d'Almeida, e Dona
Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto.
"Por um lado foi um momento muito sofrido, quando o Glauber se
exilou, o Cacá Diegues se exilou, o Neville, e outros duramente
atingidos na sua produção. Por outro, tivemos um momento
rico, quando precisávamos buscar uma linguagem cheia de metáforas
para driblar a censura". Lucy diverte-se agora, ao lembrar que
esse exercício era tal, que levou o filme Um Asilo Muito Louco,
de Nelson Pereira dos Santos, "a ficar tão louco a ponto
do espectador não entender nada."
Fonte: no.