Autor e ator. Participante ativo do Teatro de Arena, fundador do Centro
Popular de Cultura e do Grupo Opinião, Vianinha personifica a
trajetória de uma luta contra o imperialismo cultural. Sua dramaturgia
coloca em cena a realidade brasileira através do homem simples
e trabalhador, sendo unanimente considerada a mais profícua de
sua geração, com textos como Chapetuba Futebol Clube,
Papa Highirte e Rasga Coração.
As primeiras experiências como ator são no Teatro Paulista
do Estudante, dirigido por Ruggero Jacobbi, em 1955, atuando em várias
produções - entre elas Rua da Igreja, de Lennox Robinson,
O Rapto das Cebolinhas, de Maria Clara Machado (1921-2001), Escola de
Maridos, de Molière (1622-1673). Em 1956 ingressa no Teatro de
Arena de São Paulo e atua em Ratos e Homens, de Steinbeck, À
Margem da Vida , de Tennessee Williams (1911-1983), Só o Faraó
Tem Alma, de Silveira Sampaio, Marido Gordo, Mulher Chata, de Augusto
Boal (1931), e Juno, o Pavão, de Sean O'Casey. Em 1957 escreve
a peça Bilbao, via Copacabana. Em 1958 atua em Eles Não
Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri (1934).
O espetáculo, que marcaria o encerramento das atividades do
Teatro de Arena, se vê diante de um sucesso tão inesperado
que o grupo decide apostar na linha inaugurada pelo texto de Guarnieri.
No mesmo ano abre-se o Seminário de Dramaturgia, para incentivo
da criação de textos voltados à realidade brasileira.
Ao mesmo tempo em que participa do Seminário, Vianinha trabalha
nos espetáculos produzidos pelo grupo. No ano seguinte estréia
Chapetuba Futebol Clube, a primeira peça originada das discussões
do Seminário.
Com diálogos diretos e ágeis, Vianinha se serve das relações
entre os jogadores de futebol tratados como mercadoria para falar da
realidade brasileira e do problema da solidariedade social diante da
busca de sucesso individual. Driblando o didatismo ideológico
do Seminário, o autor dá vida e verossimilhança
aos personagens e à trama. Com esse texto recebe os primeiros
prêmios de dramaturgia. Identificado com o movimento operário
que, em todo o país, faz surgir organizações sindicais
na cidade e no campo, com reivindicações econômicas
e políticas, Vianinha cria um elenco para percorrer sindicatos,
escolas, favelas e organizações de bairro. Para esse elenco
escreve, em 1961, A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, que marca a estréia
do Teatro Jovem.
O texto mostra ao público a lógica da exploração
capitalista. Dessas atividades surge o CPC, órgão cultural
da União Nacional dos Estudantes, UNE, que, com o objetivo de
conscientizar o público por meio do "teatro revolucionário",
acaba estendendo suas atividades a outras áreas artísticas.
Vianinha se afasta do Arena, entusiasmado com a capacidade de o CPC
mobilizar grande número de ativistas, intelectuais e estudantes,
e alcançar um grande público. Escreve várias peças
curtas, entre elas Brasil Versão Brasileira.
Em 1962 atua no filme Cinco Vezes Favela, também produzido pelo
CPC, no episódio dirigido por Cacá Diegues (1940). Em
1963 escreve Quartos Quadras da Terra, pelo qual recebe o Prêmio
Latino Americano de Teatro da Casa de Las Américas, de Havana.
Em 1964, com o golpe militar e a extinção do CPC, participa
da fundação do Grupo Opinião, que se dedicará
à arte de protesto.
Escreve, com Armando Costa e Paulo Pontes, o show Opinião, encenado
no mesmo ano. Paralelamente começa a escrever para teleteatro.
Em 1965 atua em Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes (1924)
e Flávio Rangel (1934-1988). Escreve Se Correr o Bicho Pega,
Se Ficar o Bicho Come, com Ferreira Gullar, participando também
como ator. O Bicho, resultado dos debates internos do grupo, recorre
à fantasia da literatura popular, à festa e à vitalidade
para tentar "desenhar o impasse entre o ser real e a vontade de
ser das pessoas da realidade brasileira". A peça recebe
o Prêmio Molière, no Rio de Janeiro, e os Prêmios
Saci e Governador do Estado, em São Paulo. Em 1967, Vianinha
vence o concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro,
SNT, com Os Azeredo mais os Benevides, que aborda o problema dos trabalhadores
rurais sem terra. Desliga-se, com Paulo Pontes, do Grupo Opinião
e funda, com outros autores cariocas, o Teatro do Autor que, sem ser
um grupo formal, subsiste até 1973, com certa independência
em relação a grupos de produção.
Em 1968 escreve o artigo Um Pouco de Pessedismo Não Faz Mal
a Ninguém, em que conclama os artistas e intelectuais de teatro
a relevar divergências estéticas e se unir contra o inimigo
político. No período de maior repressão política,
Vianinha se afasta do teatro popular e começa a escrever peças
em que o protagonista de classe média - um jornalista, como em
A Longa Noite de Cristal, ou um publicitário, como em Corpo a
Corpo - se vê encurralado pela situação social.
Ao ser encenada, um ano depois, A Longa Noite de Cristal recebe o Prêmio
Molière. O monólogo Corpo a Corpo é encenado por
Antunes Filho (1929) (que dirige também Em Família, em
1972), com o ator Gracindo Júnior. Produz teleteatro e adaptações
de peças para a TV, como Medéia, Noites Brancas, A Dama
das Camélias (com Gilberto Braga), Mirandolina e Ano Novo, Vida
Nova.
Em 1973 escreve o seriado para a TV A Grande Família, com Armando
Costa. Aos 38 anos, Oduvaldo Vianna Filho morre sem ver encenadas suas
duas obras-primas censuradas. Papa Highirte, escrita em 1968, só
é montada onze anos depois. A peça humaniza um herói
negativo, um ditador, abordando-o, no fim da vida, exilado, e com esperanças
de voltar ao poder. As últimas páginas de Rasga Coração
são ditadas no leito de morte. A peça, que, como Papa
Highirte, ganha o primeiro prêmio no concurso do SNT, e é
imediatamente censurada, trabalha com uma multiplicidade de planos,
que alternam tempos, espaços e personagens distintos, para falar
da psicologia e das relações familiares de três
gerações, de Getúlio ao Golpe Militar. Em 1984,
Aderbal Freire Filho (1941) encena Mão na Luva, apaixonado relato
de amor, escrito em 1966, só descoberto anos após sua
morte. Parceiro e amigo de Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes escreve
sobre a importância do pensamento e da ação de Vianinha
para a década de 60:
"... toda a vastíssima produção cultural
saída desse período particularmente feliz da cultura brasileira,
quando a melhor energia criadora do país se unia aos interesses
sociais mais legítimos do povo, recebeu, de alguma forma, o sopro
da inteligência criadora de Oduvaldo Vianna Filho. Eram dezenas
de peças, peças curtas, filmes, espetáculos de
rua, shows, debates e conferências nascidos da perspectiva de
que o intelectual do país subdesenvolvido tem que refletir e
criar sobre as condições reais da existência do
povo. E, sem dúvida, Vianna foi o grande arquiteto dessa perspectiva,
em sua geração, pensando e criando, discutindo e organizando,
prevendo e estimulando".
Fonte: http://www.itaucultural.org.br/
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