Geraldo
Vandré foi o primogênito do médico José
Vandregísilo e de D. Maria Eugenia. Seu gênio irriquieto
fez com que seu pai o internasse no Colégio São José,
em Nazaré da Mata, no interior do Pernambuco, ainda criança,
preocupado com sua educação. Desde cedo, já manifestava
seu desejo de ser cantor de rádio, participando dos festivais
de canto do colégio.
Em 1951, a família se muda para o Rio de Janeiro, o que, sem
dúvida, fez crescer sua intenção de participar
do mundo artístico. Chegou a representar a Paraíba no
Programa César de Alencar, com o nome de Carlos Dias (Carlos
de seu ídolo Carlos José e Dias, seu sobrenome). Em 1955,
com o pseudônimo, defendeu a canção Menina (Carlos
Lyra) num concurso musical promovido pela TV-Rio. Percorria as rádios
do Rio, o disco, que com o patrocinio de sua mãe, havia gravado.
Nessa procissão conheceu e tornou-se amigo de Valdemar Henrique,
compositor e folclorista que comandava um programa na rádio Roquette
Pinto e vários artistas como Ed Lincoln, Luís Eça
e Baden Powell. Quando foi prestar o vestibular para o curso de Direito,
na então Universidade do Distrito Federal, já havia surgido
Geraldo Vandré. Aprovado, começou a participar do movimento
estudantil da época, integrando rapidamente o Centro Popular
de Cultura da UNE. Foi lá que conheceu Carlos Lyra.
Suas primeiras composições foram parcerias com Carlinhos
Lyra: "Quem quiser encontrar o amor" e "Aruanda",
que foram gravadas pelo parceiro. A primeira seria incluída no
episódio "Couro de gato" do filme Cinco vezes favela,
trabalho produzido pelo Centro Popular de Cultura. Após diplomar-se
passou a dedicar-se de corpo e alma à música. Gravou "Samba
em prelúdio" (Vinícius de Moraes/Baden Powell) com
a cantora Ana Lúcia e quando parecia que sua ligação
com a bossa-nova era definitiva, selada em "Pequeno Concerto que
virou canção", Vandré decidiu que a música
que abraçaria tinha muito mais a ver com suas raízes,
e em 1963 compõe "Canção nordestina",
uma toada como as que tanto ouviu na infância. A música
"estreou", causando impacto num show de bossa-nova, no colégio
Mackenzie.
Casa-se, pela primeira vez, em 1964, com Nilce Tranjan, que seria importante
apoio no início de sua carreira. No início do ano, havia
sido lançado o primeiro LP, Geraldo Vandré, que continha
músicas como "Fica mal com Deus". O trabalho não
tem o reconhecimento que Vandré esperava. É chamado pelo
cineasta Roberto Santos, em 1965, para compor a trilha sonora de A Hora
e a Vez de Augusto Matraga, e o faz com maestria. É nesse ano
que interpreta a composição de Chico Buarque, "Sonho
de um Carnaval", no I Festival de Música Popular Brasileira
da extinta TV Excelsior, conseguindo o 6º lugar. Seu 2º LP,
Hora de Lutar, é desse ano. Nesse trabalho, entre outras jóias,
está a canção "Ladainha", uma antevisão
da criação do MST e contém a participação
especial de Baden Powell.
Em 1966, participa e vence o II Festival da TV Excelsior, com uma marcha-rancho
composta em parceria com Fernando Lona: "Porta-Estandarte".
Essa vitória propicia a realização de uma tournée
pelo Nordeste do Brasil, onde é acompanhado pelo Trio Novo, formado
por Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira, tres dos maiores
instrumentistas brasileiros de todos os tempos, a quem se agregou, no
fim da tournée, Hermeto Paschoal, transformando-se em Quarteto
Novo. Com Theo de Barros compõe "Disparada", 1º
lugar no Festival da TV Record de 1966, empatada com A Banda de Chico
Buarque. Com Tuca, compõe "O Cavaleiro" que atinge
o 2º lugar no I Festival Internacional da Canção,
no Rio. Finalmente, esse desempenho fez com que algumas portas fossem
abertas para Vandré. Comanda, em 1967, os programas: Disparada,
na TV Record, Canto Geral (depois Canto Permitido), na TV Bandeirantes
e Caminhando, na TV Globo. Não consegue repetir os sucessos nos
festivais desse ano. Nem "Ventania" ou "De como um homem
perdeu seu cavalo e continuou andando", na Record, nem "Da
serra, da terra e do mar", no FIC, foram classificadas.
Em 1968, o casamento de Vandré chega ao fim. Compõe "Caminhando"
("Prá não dizer que não falei das flores"),
que chega ao 2º lugar no Festival da TV Globo desse ano, perdendo
para Sabiá (Chico Buarque/Tom Jobim), apesar de ser a preferida
do público, que a canta em uníssono no Maracanãzinho,
proporcionando um dos momentos mais emocionantes da MPB.O ambiente político
carregado da época ( o AI-5 estava se aproximando), tornou a
música proibida e seu autor "persona non grata" pelos
donos do poder. Apesar de nunca ter sido preso ou torturado fisicamente,
pela ditadura militar, as limitações e pressões
impostas ao seu processo de criação o levaram para o exílio
no Chile. Passaria ainda pela França, Argélia, Alemanha,
Austria, Grécia e Bulgária, nos 4 anos que precisou ficar
fora do país. No Chile (1978) compôs a música "Desacordonar",
com que venceu um concurso.
Em 1970, na França, remontou com um grupo de artistas brasileiros
a Paixão segundo Cristino, na igreja de Saint-Germain des Prés,
na Páscoa de 1970. Trabalhou com um novo tipo de composição,
montada apenas com assobios e sons de violão, com forte ritmo
nordestino. Grava com o Quinteto Violado, o LP Terras do Benvirá,
que só seria lançado no Brasil em fins de 1973. Casa-se
em 1971, com a socióloga Ana Clara Fabrino Batista, com quem
viveria até 1974. Em julho de 1973, havia voltado ao Brasil,
apesar de continuar a ser "observado de perto" pelos militares
e impedido de exercer sua atividade de cantor e compositor, ficando
fora da mídia até a anistia.
Foi nessa época que conhecí Vandré pessoalmente.
Eu estudava medicina na Unicamp e participava do movimento estudantil
como membro da diretoria do Centro Acadêmico da Faculdade, que
ficava no centro de Campinas. Um dia, de imprevisto, Vandré apareceu
no Centro Acadêmico. Então, perguntou para mim se poderia
usar o piano que havia na sede. A surpresa, afinal ele era um mito para
qualquer um que participasse dos movimentos de resistência da
época, só me fez dizer que sim. Ele sentou-se ao piano
e ficou horas pesquisando sonoridades. Nesse primeiro dia, não
conversamos nada. Vandré voltou muitas vezes ao CA e refeito
do impacto, procurei o diálogo. E, apesar dele não estar
acessível no início, com o tempo se abriu um pouco. Eu
me lembro de suas opiniões sobre a cultura (ele dizia que ela
se manteria viva em qualquer circunstância) e sobre o tempo (dizia
que cada um tinha o seu tempo e que eu não poderia deixar o meu
passar). Nunca tive coragem de perguntar sobre seu passado imediato,
mas acho que ele não me reponderia nada. Assim como apareceu,
sem nenhum aviso ou adeus, ele deixou de ir tocar o piano do Centro
Acadêmico. Não sei se ele ainda se lembra disso, mas esses
contatos ficaram marcados na minha memória.
Depois da anistia, Vandré se apresentou duas vezes, em 82 e
85, no Paraguai e em 94 lançou a música "Fabiana",
em homenagem à FAB. Voltou a se tornar notícia, em entrevista
concedida em 1991 ao Jornal Mural da Paraíba. Em março
de 1995 apresentou-se no Memorial da América Latina, em São
Paulo, no concerto realizado pelo IV Comando Regional (CONAR), em comemoração
à Semana da Asa. Na ocasião, um coral de cadetes cantou
sua música Fabiana. Em 1996, é lançado um CD duplo,
com 21 faixas, dando um apanhado geral da obra de Geraldo Vandré.
Em 2000, fazendo parte da coleção Enciclopédia
Musical Brasileira, o cd de Geraldo Vandré apresenta todas as
faixas de Hora de Lutar (de 1965) acrescidas de duas faixas bonus: "Disparada"
(em gravação ao vivo de 1968) e "Prá não
dizer que não falei das flores" (em gravação
de estúdio).