Na
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa
tão cantada em verso em prosa. Acontecia o ano de 1942, ano em
que o Rio perde a praça Onze. No rádio escutava-se o grande
sucesso do saudoso Mário Lago, AI QUE SAUDADE DA AMÉLIA.
Tocava ainda nas rádios carioca, AOS PÉS DA CRUZ, AVE
MARIA NO MORRO, RENÚNCIA e SÓ VENDO QUE BELEZA. Foi embalado
nessas músicas que o Rio de Janeiro, em uma de suas melhores
épocas recebeu a menininha Nara Lofego Leão, um bebê
ainda de colo. Narinha havia nascido em 19 de janeiro daquele mesmo
ano, em Vitória do Espírito Santo. Os pais eram Dr. Jairo
Leão, advogado, e a dona de casa, D. Altina Leão. E ainda
tinha uma irmã, que era nada mais nada menos que Danuza Leão.
Danuza foi uma espécie de "divisão de águas",
da sociedade brasileira.
A menina de classe média carioca nos anos dourados da década
de 50, teve como seu quintal as areias ainda brancas das praias da zona
sul carioca. Nara tentou dança, mais gostava mesmo de fazer gravuras.
Um de seus primeiros namoradinhos foi Roberto Menescal, foi ela quem
apresentou a Menescal o tal " JAZZ". Entediada de estudar
acordeom, o instrumento da moda. Caiu de amores por outro instrumento,
o violão, desprezado por sua irmã Danuza. Nara escolheu
bem, pois o violão foi seu companheiro por toda a vida: "Ele
é como um namorado. Ajuda, aconchega." Falou Nara certa
vez sobre seu violão. Nara e sua turma de praia, insatisfeitos
com a música que escutavam. Começaram a se reunir para
escutarem coisas diferentes, pesquisarem, e até fazer novas músicas.
O grupo começou a aumentar, nomes como Ronaldo Bôscoli,
João Gilberto se juntaram aos demais. A casa de Nara Leão,
foi o principal ponto de encontro dessa turma, mas não era o
único. Tinha a casa do pianista Bené Nunes, entre outros.
O folclore tratou de criar as lendas, que não são poucas
e existem até hoje. Como tudo a Bossa Nova - nome que foi dado
ao que podemos chamar de movimento musical - tinha o seu mentor Ronaldo
Bôscoli, seus "cabeças", como Roberto Menescal,
Carlos Lyra e João Gilberto. E como se tratava de musicas, com
letra, verdadeiras poesias, tinha também sua musa. Assim Nara
Leão ganhou seu eterno apelido de Musa da Bossa Nova. Mas a Bossa
Nova ficou Pequena para as salas dos apartamentos em que se reunia.
Logo começaram os Show´s em escolas, grêmios, faculdades.
Foi nesses shows que aconteceu a estréia de Nara Leão.
Nara muito tímida, foi vítima de uma "armação"
de Silvinha Telles, que antes de chamá-la ao palco, mandou fechar
todas as portas. O nervosismo de Nara foi tamanho, que cantou de costas
para o público. Ai, começaram a surgir os primeiros NARÓLOGOS,
e a fama dos joelhos de Nara. Como os mais belos de nossa música.
A Bossa Nova chega aos teatros e vira mania nacional. Mas com sua plenitude
a bossa, começou a sofrer os seus famosos "rachas".
O primeiro foi o de Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Algum tempo
depois por desencontros da vida, Nara rompe com o articulador da Bossa,
e também seu noivo, Ronaldo Bôscoli. Músicas como
O BARQUINHO, SE E TARDE ME PERDOA, LOBO BOBO, todas foram feitas para
Nara.
Nara faz sua estréia profissional no musical de Vinicius de
Morais e Carlos Lyra, POBRE MENINA RICA. Mas em 1964 Nara surpreende
com seu primeiro disco. Nara resgata o samba de morro, lança
e relança os sambistas do mais puro samba. O incomparável
Cartola, Nelson Cavaquinho, também com musicas de Carlos Lyra
e Vinicius. Mas nada de sorriso, amor e flor. Todas engajadas com temáticas
da realidade brasileira. Nara foi a primeira cantora branca da chamada
zona sul, a fazer esse tipo de valorização dos sambistas
esquecidos, os resgatando em disco. Nara foi aclamada e também
perseguida por esse seu feito. Começou ai, não diria o
melhor momento na carreira de Nara Leão, mas sem sombra de duvidas
o mais importante. Nara se engaja na luta por justiça social,
tendo como principal arma, sua música. Depois do golpe militar,
Nara troca farpas com os militares, chegando quase a ser enquadrada
na lei de segurança Nacional. Só não o foi devido
a mobilização dos intelectuais a seu favor. Carlos Drumont
de Andrade lhe fez um poema, a defendendo dos militares. Nara Leão,
ao lado de João do Vale e Zé Kéti, foi a estrela
do show OPINIÃO. Um dos shows mais importantes dentro da música
popular brasileira. Por motivos de saúde teve de ser substituída,
não só escolheu sua substituta como exigiu a mesma. Colocou
Maria Bethânia em seu lugar no OPINIÃO. Sendo assim responsável
por tabela, pelas vindas da Bahia de Caetano Veloso e Gal Costa. Estreou
um outro show semelhante, LIBERDADE, LIBERDADE. O show passou pouco
tempo em cartaz, foi logo proibido pela ditadura. Nara de musa da Bossa
Nova passa a Diva do protesto. Nara passa a ser uma espécie de
bússola dentro de nossa música, passa a lançar
sempre nomes de compositores que seriam mais tarde os grandes da MPB.
Chico Buarque, Paulinho da Viloa, Sidney Miller entre muitos outros.
Um pouco mais na frente Nara canta com todo o Brasil, A BANDA. Musica
de Chico Buarque que bateu todos os recordes de sua época. E
fez de Nara e Chico os vencedores do II Festival de Música Popular
Brasileira. Na época áurea dos festivais de nossa música.
Nara Leão foi uma das primeiras cantoras consagradas a apoiar
a TROPICALIA, outro movimento musical que chegou para quebrar os preconceitos
de nossa musica. Na década de 60, a fina flor da cultura se entrelaçavam
em todas as suas ramificações. Fossem elas o teatro, a
música, a poesia, o cinema. Nara além da música
que era o seu pedaço, fez teatro e cinema. No cinema estreou
o filme QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia.
Participou ainda dos filmes, GAROTA DE IPANEMA, OS HERDEIROS, O HOMEM
CELEBRE e A LIRA DO DELIRIO.
Os anos de chumbo que a ditadura instaurou no Brasil, começaram
a pesar para o lado de Nara. Nara casada com o cineasta Cacá
Diegues, viaja em um alto exílio. Primeiro para a Itália
e depois França. No seu exílio Nara faz as pazes com a
Bossa Nova e grava um disco propriamente dito do movimento. Também
se especializa em versões, trabalho que gostava de fazer. Uma
dessas versões e JOSÈ, gravada por Rita Lee. Na França
nasce a filha de Nara, Isabel. De volta ao Brasil nasce o segundo filho
de Nara, Francisco. Nara Leão troca a vida de cantora famosa,
pela vida de mãe. Nesse período fez shows e gravou discos
esporadicamente. Faz vestibular para Psicologia, e obtém um dos
primeiros lugares. Nara Leão registra seu lado "mãe"
em disco. Gravou um disco só com músicas que cantava para
seus filhos dormirem. Nara sente saudade de seus amigos e resolve dar
uma festa, em vez de receber seus amigos em sua casa, os recebe em seu
disco. Nara canta todas as faixas acompanhada de um amigo. Fazem parte
dessa turma, Edu Lobo, Chico Buarque, Dominguinhos, Roberto Menescal,
Carlos Lyra, Tom Jobim, Dominguinhos, Caetano Veloso, Gilberto Gil,
Erasmo Carlos e Nelson Rufino. Depois grava um disco só com músicas
de Roberto e Erasmo Carlos. Nara Leão começa a sentir
os primeiros sintomas do enfraquecimento de sua saúde. Mas segue
em frente e grava um disco só com músicas de seu grande
amigo Chico Buarque de Holanda. Nara resolve dar uma nova guinada a
sua carreira, Grava um disco produzido por o também seu amigo
Fagner. O próximo disco de Nara é um disco síntese
de sua carreira. Nara cai de novo no samba, com o disco MEU SAMBA ENCABULADO,
segundo a própria Nara, um samba de sabor brasileiro. Ficha-se
um ciclo e Nara Leão Volta a Bossa Nova, seu últimos cinco
discos são de Bossa Nova, hora em homenagem ao movimento, hora
por encomendas dos japoneses, Nara tem naquele país um grande
público. Nara Leão passa a fazer show´s pelo mundo
inteiro. Canta Bossa Nova em Nova Iorque, Europa, Japão, sempre
ao lado se seu eterno parceiro e amigo Roberto Menescal. Em 07 de junho
de 1989, a tardinha cai, a Narinha vai. Nara Leão morre, mas
nos deixa um legado de valor incalculável.
Nara Leão começou somente como Nara. Opinou. Protestou
com opinião, e cantou livre. Cantou a Bossa com mais quatro.
Exigiu Liberdade, liberdade. Pediu passagem. Raiou com a manhã
de Liberdade. Soprou o vento de maio. Voltou a ser Nara, depois Nara
Leão. Mostrou as coisas do mundo. Reavivou a bossa dez anos depois.
Relembrou os seus primeiros amores. Cantou com seus amigos que eram
um barato. Mandou tudo por inferno. Homenageou um amigo com açúcar
e com afeto. Teve um romance popular com os novos ritmos do nordeste.
Bailou. Sambou encabulada. Novamente cantou em um cantinho e um violão.
Distribuiu abraços, carinhos e beijinhos sem ter fim para seus
fãs. Disse onde foi garota, e nos contou seus sonhos dourados.
E por fim descansou seu coração. A discografia de Nara
Leão é uma das mais perfeitas já deixada para nós,
amantes da MPB. Quem quiser saber o que aconteceu dentro da Música
Popular Brasileira, entre 1964 a 1989, escute os discos de Nara Leão.
Discografia Básica
NARA - 1964
OPINIÃO DE NARA - 1964
SHOW OPINIÃO - 1965
O CANTO LIVRE DE NARA - 1965
5 NA BOSSA - 1965
LIBERDADE, LIBERDADE - 1966
NARA PEDE PASSAGEM - 1966
MANHÃ DE LIBERDADE - 1966
NARA - VENTO DE MAIO - 1967
NARA - 1967
NARA LEÃO - 1968
COISAS DO MUNDO - 1969
DEZ ANOS DEPOIS - 1971
MEU PRIMEIRO AMOR - 1975
NARA LEÃO - MEUS AMIGOS SÃO UM BARATO - 1977
NARA ... E QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO - 1978
COM AÇUCAR E COM AFETO - 1980
ROMANCE POPULAR - 1981
NASCI PARA BAILAR - 1982
MEU SAMBA ENCABULADO - 1983
ABRAÇOS E BEIJINHOS E CARINHOS SEM TER FIM... - 1984
UM CANTINHO, UM VIOLÃO - 1985
GAROTA DE IPANEMA - 1986
MEUS SONHOS DOURADOS - 1987
MY FOOLISH HEART - 1989