Diretor
e autor. Durante doze anos cria espetáculos para o Grupo Opinião,
um dos principais focos de resistência político-cultural
das décadas de 60 e 70, onde escreve e monta O Último
Carro, metáfora do Brasil em um trem desgovernado.
João das Neves começa a carreira profissional no Opinião.
Afinado com as propostas artísticas e ideológicas do grupo,
o diretor monta textos que enfocam a situação política
do Brasil nos anos da ditadura. Plínio Marcos, Aldomar Conrado,
Sófocles (496 AC-406 AC), Bertolt Brecht (1898-1956) são
os autores escolhidos. Ao escrever o próprio texto, por meio
de um processo de pesquisa e criação em grupo, monta seu
maior sucesso de público e crítica, O Último Carro,
no qual a ação se dá quase inteiramente nos vagões
de um trem. De um casal de mendigos em briga conjugal aos assaltantes
que procuram se aproveitar da situação, as personagens
são apresentados no seu contexto social e conflito particular.
O espetáculo é premiado no Rio de Janeiro, São
Paulo e em Brasília.
No fim da década de 80, muda-se para Rio Branco, onde funda
o Grupo Poronga que, formado por atores amadores vindos de grupos de
periferia, realiza Tributo a Chico Mendes, baseado na história
do líder dos seringueiros assassinado por fazendeiros do Acre.
O espetáculo é apresentado nas principais capitais do
país.
Em 1990, ganha Bolsa Vitae de Artes para pesquisar a história
da Nação Kaxinawá, grupo indígena do Acre,
que resulta no texto Yuraiá - o Rio do Nosso Corpo. Nessa década
estabelece-se em Belo Horizonte, onde adapta e encena o espetáculo
Primeiras Estórias, baseado no livro de Guimarães Rosa,
1992, remontando-o com formandos da Universidade Estadual de Campinas,
sucesso de público e crítica.
A trajetória de João das Neves revela coerência.
Um diretor empenhado em buscar no teatro uma via de reflexão
sobre as incongruências da sociedade brasileira. Na apresentação
do texto Yuraiá - o Rio do Nosso Corpo, a crítica e ensaísta
Ilka Marinho Zanotto, traça um perfil do artista: "João
das Neves é um homem de teatro total. Como provam seus trabalhos
anteriores, sua escritura cênica é sumamente original;
compete a ele transformar em realidade as virtualidades de um texto
que exige a recriação de um clima especialíssimo,
no qual o espaço oscila entre a concretude de uma aldeia caxi
e as paragens brumosas dos mitos imemoriais, e o tempo ziguezagueia
entre presente e passado histórico e a atemporalidade das lendas
e dos mitos.(...) João das Neves, afeito às reivindicações
factuais de justiça e de igualdade, assume nesta obra uma dimensão
mais ampla ao justificar quase que panteisticamente o direito inalienável
à liberdade".
Fonte Itaú Cultural