Grupo
carioca que centraliza, nos anos 60, o teatro
de protesto e de resistência, centro de estudos e difusão
da dramaturgia nacional e popular.
Imediatamente após o golpe militar de 1964, um grupo de artistas
ligados ao Centro Popular de Cultura, CPC (posto na ilegalidade) reúne-se
com o intuito de criar um foco de resistência à situação.
É então produzido o show musical Opinião, com Zé
Keti, João do Vale e Nara Leão (depois substituída
por Maria Bethânia), cabendo a direção a Augusto
Boal (1931), do Teatro de Arena paulistano, um sucesso instantâneo
que contagia diversos outros setores artísticos (uma exposição
de artes plásticas no Museu de Arte Moderna, MAM/RJ, denominada
Opinião 65, surgirá em decorrência), e aglutina
artistas dispersos ligados aos movimentos de arte popular. O grupo,
bem como sua casa de espetáculos, passam a se chamar Opinião.
No ano seguinte, organizando um roteiro com cenas de peças,
poemas e canções, Millôr Fernandes (1924) e Flávio
Rangel (1934-1988) criam Liberdade, Liberdade, destacando no elenco
Paulo Autran (1922), Thereza Raquel, Oduvaldo Vianna Filho e Nara Leão,
montagem que aproveita o impulso do show anterior e torna-se, também
esta, fulminante sucesso.
Oficialmente estruturado como empresa em 1966, por Ferreira Gullar,
Oduvaldo Vianna Filho, Tereza Aragão, Paulo Pontes, Pichin Plá,
João das Neves, Armando Costa e Denoy de Oliveira, o Opinião
lança Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come. Espetáculo
farsesco e irreverente, baseado na tradicional cultura nordestina, tem
direção Gianni Ratto (1916) e conta no elenco, entre outros,
com Agildo Ribeiro, Odete Lara, Oswaldo Loureiro, Jofre Soares e Marieta
Severo. Enfoca a situação de impasse das classes sociais,
enfatizando a falibilidade ética de todas elas.
Desde sua fundação, o Opinião privilegia a arte
popular, abrindo espaço para shows com compositores das escolas
de samba carioca, influindo não apenas para a mudança
de gosto do público como, através desta mescla de espaços,
facilitar a disseminação da cultura periférica
aos grandes centros de divulgação. Assembléias,
reuniões e demais manifestações de protesto da
categoria teatral faziam do Opinião seu epicentro, nestes primeiros
anos após o golpe militar.
A montagem seguinte, A Saída, Onde Fica a Saída, em
1967, trata da guerra do Vietnã. O diretor João das Neves
nele emprega o esquema do Coringa, criado pelo Arena de São Paulo,
para colocar em cena as perplexidades e expectativas criadas frente
ao conflito no Extremo Oriente. Célia Helena e Oduvaldo Vianna
Filho destacam-se no elenco.
Entre 1966 e 67 o grupo dedica-se à um seminário interno
de dramaturgia, na tentativa de encontrar novos modelos dramatúrgicos
para flagrar a mutante realidade pós-regime militar. Nele foram
discutidas obras como Moço em Estado de Sítio, de Oduvaldo
Vianna Filho, Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória, de Ferreira
Gullar e Dias Gomes (1922-1999) e O Último Carro, de João
das Neves, posteriormente montadas em contextos diversos.
Em 1967 ocorre um fundo desentendimento interno e Vianinnha e Paulo
Pontes desligam-se do grupo, para fundarem o Teatro do Autor; enquanto
outros integrantes vão, aos poucos, igualmente se afastando.
Os cinco anos de fundação são comemorados, em
1968, com uma discreta montagem de Antígone, de Sófocles
(496 AC-406 AC), em iniciativa de João das Neves.
Com o esfacelamento do coletivo de artistas, em 1969, resta a sala
de espetáculos, alugada, para produções independentes
e shows musicais. Em 1970 ocorre um Concurso de Dramaturgia, vencido
por Aldomar Conrado com O Sol Sob o Pântano, em discreta montagem
no ano seguinte. Leituras dramáticas e novos shows musicais,
com destaque para Milton Nascimento e MPB-4 ocupam a sala, para arrecadar
fundos e mantê-la em funcionamento. Se Eu Tivesse Meu Mundo, um
show-espetáculo de Sérgio Ricardo, é montado por
João, em 1973.
Esta precária sobrevivência mantêm-se até
1976, quando João das Neves, com uma surpreendente cenografia
de Germano Blum e trilha sonora de Rufo Herrera, monta seu texto O Último
Carro.
Após grande sucesso no Rio, a montagem é deslocada para
a Bienal de São Paulo, onde repete o êxito carioca e amealha
o Grande Prêmio da Bienal, em 1977. Para a encenação
foram construídas réplicas de três vagões
de subúrbio, colocados um em cada parede, alojando a platéia
no espaço vazio formado no centro. É possível assim
se acompanhar a ação, muitas vezes simultânea nos
três vagões, que reúne uma população
de personagens pobres, anônimos, sofridos, embarcados na composição
que perdeu o maquinista e ruma, sem esperança, para algum incógnito
destino.
João das Neves viaja para a Alemanha onde desenvolve projetos
ligados à peça radiofônica e novos formatos dramatúrgicos.
Já no Brasil, após uma ampla pesquisa junto a populações
carentes reúne o material e dá-lhe forma cênica,
em Mural Mulher, em 1979. As atividades tornam-se, nos anos seguintes,
cada vez mais fugazes. O diretor, último remanescente dentre
os fundadores do Opinião, desfaz-se do teatro em 1983.
Em seu período de auge, o Opinião não apenas
centralizou a generalizada indignação da classe artística
contra a Censura e a ditadura como lutou, pelos meios disponíveis,
para implantar uma nova consciência cênica brasileira, especialmente
quanto à dramaturgia que registra as classes populares e suas
condições de existência.
Fonte: Itaú
Cultural