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Augusto Pinto Boal - biografia
(Rio de Janeiro RJ 1931)

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Autor, diretor e teórico. Um dos importantes nomes do teatro brasileiro a partir da década de 60, ligado ao Teatro de Arena de São Paulo até os anos 70 e criador do teatro do oprimido, internacionalmente conhecida metodologia cênico-pedagógica.

Conclui química na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ e embarca para os Estados Unidos para estudar teatro em Nova York na Universidade de Columbia, onde cursa direção e dramaturgia. É contratado em 1956 para integrar o Teatro de Arena de São Paulo onde, em função de seus conhecimentos especializados, passa a exercer natural liderança, responsabilizando-se pela guinada na orientação do grupo: aprofunda o trabalho de interpretação, aclimatando o método de Stanislavski às condições brasileiras e com isso logrando uma interpretação mais naturalista; além de investir na formação dramatúrgica da equipe. Sua primeira direção na casa é Ratos e Homens, de John Steinbeck, um sucesso em 1956.

Segue-se, no ano seguinte, Marido Magro, Mulher Chata, uma despretensiosa comédia de costumes de sua autoria e, ainda em 1957, a direção de Juno e o Pavão, de Sean O'Casey, orientando o grupo para as preocupações sociais e políticas.

Após o sucesso de Eles Não Usam Black-Tie, texto de Gianfrancesco Guarnieri (1934) dirigido por José Renato (1924), que salva o Arena da insolvência - , Boal sugere a criação de um Seminário de Dramaturgia, empreendimento que galvaniza as atenções sobre a realidade nacional e fornece, nos anos seguintes, o repertório da fase nacionalista do grupo. Sob sua direção estréiam: Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, em 1959; Gente como a Gente, de Roberto Freire, e A Farsa da Esposa Perfeita, de Edy Lima, em 1959; e Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa, em 1960.

Neste mesmo ano, seu texto Revolução na América do Sul, com direção de José Renato (1924), assimila as formas da revista e do musical, absorvidas dos princípios brechtianos na composição dramatúrgica; igualmente exploradas em José do Parto à Sepultura, montagem de Antônio Abujamra (1932) em 1962 para o Teatro Oficina.

Boal ainda dirige, em 1961, Pintado de Alegre, de Flávio Migliaccio, e O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, completando a fase nacionalista. A partir do ano seguinte inicia-se a denominada fase de nacionalização dos clássicos, momento de saída de José Renato (1924) da companhia e efetiva integração de Boal como sócio do empreendimento. Marcam o período as encenações de A Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), 1962; O Noviço, de Martins Pena (1815-1948); O Melhor Juiz, o Rei, de Lope de Vega, e O Tartufo, de Molière (1622-1673), cartaz de 1964, no momento em que eclode o golpe militar.

Boal vai ao Rio e, às pressas, dirige o show Opinião, juntando expressivo número de ex-integrantes do Centro Popular de Cultura, CPC, posto na ilegalidade. Ao voltar ao Arena encontra a equipe envolvida com a proposta de encenar a saga dos quilombolas de Palmares e, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri (1934) e as músicas de Edu Lobo (1943), ajuda a dar forma a Arena Conta Zumbi, encenado em 1965, primeiro experimento com o sistema coringa. A bem-sucedida realização enseja a teorização do método, aplicado à montagem seguinte, Arena Conta Tiradentes, de 1967, repetindo a fórmula criada no grupo.

Em 1966 dirige O Inspetor Geral, comédia de Nikolai Gogol (1809-1852), uma montagem frustrada, O Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht, que não passa da estréia; e La Moschetta, sátira renascentista de Angelo Beolco (1500-1542), que destaca Gianfrancesco Guarnieri (1934) encabeçando o elenco. Em 1968 Boal estrutura e monta a Feira Paulista de Opinião, uma reunião de textos curtos de vários autores, realizada no Teatro Ruth Escobar. Ignorando os cortes impostos pela censura, Boal incita à desobediência civil, atitude provocativa que está em seu texto para a feira A Lua Muito Pequena e a Caminhada Perigosa, sobre a morte de Che Guevara na Bolívia, aprofundando-a em MacBird, sátira de agitação da norte-americana Barbara Garson que estabelece uma correlação entre o assassinato do presidente Kennedy e a ação de Macbeth, texto de Shakespeare.

Em 1969/1970, Boal escreve e dirige Arena Conta Bolivar, apresentada unicamente no exterior, numa longa excursão do grupo por diversos países da América Latina e Europa. Em seu retorno, com uma equipe de jovens, cria o Teatro Jornal - 1ª Edição, experiência de leitura de textos e comentários sobre eles, aproveitando técnicas do agit-prop e do Living Newspaper; equipe que, posteriormente, terá o nome de Teatro Núcleo Independente. Com o elenco estável cria, usando o coringa, A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Bertolt Brecht (1898-1956), outra mal-sucedida experiência. Preso e exilado em 1971, Boal prossegue no exterior sua carreira, inicialmente no Peru e Argentina, onde desenvolve e estrutura teoricamente os procedimentos do teatro do oprimido.

Torquemada, um texto seu sobre a Inquisição, é encenado na Argentina, e Tio Patinhas e a Pílula, em Nova York. Em 1976 emigra para Portugal, onde trabalha com o grupo A Barraca. Escreve Mulheres de Atenas, uma adaptação de Lisístrata, de Aristófanes, com músicas de Chico Buarque (1944), e Tempestade-Calibã, 1976. A partir de 1976 fixa-se em Paris, criando um centro para pesquisar e difundir o teatro do oprimido, o CEDITADE.

Em 1978 ocorre no Brasil a montagem de Murro Em Ponta de Faca, texto onde Boal enfoca a vida dos exilados políticos, direção de Paulo José (1937) para uma produção da Othon Bastos Produções Artísticas, único de seus textos escritos no exterior a conhecer uma montagem nacional. Em 1979 visita o Brasil para um curso no Rio, retornando, no ano seguinte, juntamente com seu grupo francês, para apresentar o teatro do oprimido, já consagrado no exterior.

Somente em 1984, com a anistia, pode retornar ao Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro, mas viajando para todo o mundo, onde ministra cursos e desenvolve atividades ligadas ao oprimido. Entre suas encenações internacionais, ao longo deste período, destacam-se: Candida Erendira, adaptado de Gabriel Garcia Marques, no Theatre de 1'Est Parisien, Paris; Nada mais a Calingasta, de Julio Cortázar; Zumbi, de Boal e Guarnieiri; Murro em Ponta de Faca, de Boal, em Graz, Áustria; El Público, de Federico Garcia Lorca, em Wuppertal, Alemanha Ocidental, 1984; Feira Latino-Americana de Opinião, em Nova York, 1971; Feira Portuguesa de Opinião, em Lisboa; Malasangre, de Griselda Gambaro, em Nuremberg, Alemanha Ocidental, 1987.

No Brasil, após seu regresso, dirige o musical O Corsário do Rei, texto de sua autoria, com músicas de Edu Lobo (1943) e letras de Chico Buarque (1944), em 1985; Fedra, de Jean Racine, com Fernanda Montenegro (1929) no papel-título, em 1986; Malasangre, de Griselda Gambaro, em 1987; Encontro Marcado, de Fernando Sabino, em 1989; e Carmen, de Bizet, "sambópera" de Boal, Marcos Leite e Celso Branco, 1999.

Além de autor de livros de ficção, Boal escreve dois textos auto-biográficos, Milagre no Brasil, em 1977 e Hamlet e o Filho do Padeiro, em 2000. Lança-se candidato a vereador pela cidade do Rio de Janeiro e cumpre legislatura entre 1993 e 1996, momentos em que utiliza o teatro com o importante papel de discutir temas que possam gerar projetos de lei, experiências relatadas no livro Teatro Legislativo. Sua atuação mais recente encontra-se voltada para estas correlações entre o teatro e a cidadania. Entre outros significativos títulos e prêmios angariados por Boal no exterior, destacam-se o Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres, outorgado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da França, em 1981 e a Medalha Pablo Picasso, atribuída pela Unesco em 1994.

Avaliando a abrangência de sua trajetória, o crítico Yan Michalski (1932-1990) destaca: "até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 50 e 60. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país".

Fonte: Itaú Cultural

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