Autor,
diretor e teórico. Um dos importantes nomes do teatro brasileiro
a partir da década de 60, ligado ao Teatro de Arena de São
Paulo até os anos 70 e criador do teatro do oprimido, internacionalmente
conhecida metodologia cênico-pedagógica.
Conclui química na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
UFRJ e embarca para os Estados Unidos para estudar teatro em Nova York
na Universidade de Columbia, onde cursa direção e dramaturgia.
É contratado em 1956 para integrar o Teatro de Arena de São
Paulo onde, em função de seus conhecimentos especializados,
passa a exercer natural liderança, responsabilizando-se pela
guinada na orientação do grupo: aprofunda o trabalho de
interpretação, aclimatando o método de Stanislavski
às condições brasileiras e com isso logrando uma
interpretação mais naturalista; além de investir
na formação dramatúrgica da equipe. Sua primeira
direção na casa é Ratos e Homens, de John Steinbeck,
um sucesso em 1956.
Segue-se, no ano seguinte, Marido Magro, Mulher Chata, uma despretensiosa
comédia de costumes de sua autoria e, ainda em 1957, a direção
de Juno e o Pavão, de Sean O'Casey, orientando o grupo para as
preocupações sociais e políticas.
Após o sucesso de Eles Não Usam Black-Tie, texto de
Gianfrancesco Guarnieri (1934) dirigido por José Renato (1924),
que salva o Arena da insolvência - , Boal sugere a criação
de um Seminário de Dramaturgia, empreendimento que galvaniza
as atenções sobre a realidade nacional e fornece, nos
anos seguintes, o repertório da fase nacionalista do grupo. Sob
sua direção estréiam: Chapetuba Futebol Clube,
de Oduvaldo Vianna Filho, em 1959; Gente como a Gente, de Roberto Freire,
e A Farsa da Esposa Perfeita, de Edy Lima, em 1959; e Fogo Frio, de
Benedito Ruy Barbosa, em 1960.
Neste mesmo ano, seu texto Revolução na América
do Sul, com direção de José Renato (1924), assimila
as formas da revista e do musical, absorvidas dos princípios
brechtianos na composição dramatúrgica; igualmente
exploradas em José do Parto à Sepultura, montagem de Antônio
Abujamra (1932) em 1962 para o Teatro Oficina.
Boal ainda dirige, em 1961, Pintado de Alegre, de Flávio Migliaccio,
e O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, completando a fase
nacionalista. A partir do ano seguinte inicia-se a denominada fase de
nacionalização dos clássicos, momento de saída
de José Renato (1924) da companhia e efetiva integração
de Boal como sócio do empreendimento. Marcam o período
as encenações de A Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527),
1962; O Noviço, de Martins Pena (1815-1948); O Melhor Juiz, o
Rei, de Lope de Vega, e O Tartufo, de Molière (1622-1673), cartaz
de 1964, no momento em que eclode o golpe militar.
Boal vai ao Rio e, às pressas, dirige o show Opinião,
juntando expressivo número de ex-integrantes do Centro Popular
de Cultura, CPC, posto na ilegalidade. Ao voltar ao Arena encontra a
equipe envolvida com a proposta de encenar a saga dos quilombolas de
Palmares e, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri (1934) e as músicas
de Edu Lobo (1943), ajuda a dar forma a Arena Conta Zumbi, encenado
em 1965, primeiro experimento com o sistema coringa. A bem-sucedida
realização enseja a teorização do método,
aplicado à montagem seguinte, Arena Conta Tiradentes, de 1967,
repetindo a fórmula criada no grupo.
Em 1966 dirige O Inspetor Geral, comédia de Nikolai Gogol (1809-1852),
uma montagem frustrada, O Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht,
que não passa da estréia; e La Moschetta, sátira
renascentista de Angelo Beolco (1500-1542), que destaca Gianfrancesco
Guarnieri (1934) encabeçando o elenco. Em 1968 Boal estrutura
e monta a Feira Paulista de Opinião, uma reunião de textos
curtos de vários autores, realizada no Teatro Ruth Escobar. Ignorando
os cortes impostos pela censura, Boal incita à desobediência
civil, atitude provocativa que está em seu texto para a feira
A Lua Muito Pequena e a Caminhada Perigosa, sobre a morte de Che Guevara
na Bolívia, aprofundando-a em MacBird, sátira de agitação
da norte-americana Barbara Garson que estabelece uma correlação
entre o assassinato do presidente Kennedy e a ação de
Macbeth, texto de Shakespeare.
Em 1969/1970, Boal escreve e dirige Arena Conta Bolivar, apresentada
unicamente no exterior, numa longa excursão do grupo por diversos
países da América Latina e Europa. Em seu retorno, com
uma equipe de jovens, cria o Teatro Jornal - 1ª Edição,
experiência de leitura de textos e comentários sobre eles,
aproveitando técnicas do agit-prop e do Living Newspaper; equipe
que, posteriormente, terá o nome de Teatro Núcleo Independente.
Com o elenco estável cria, usando o coringa, A Resistível
Ascensão de Arturo Ui, de Bertolt Brecht (1898-1956), outra mal-sucedida
experiência. Preso e exilado em 1971, Boal prossegue no exterior
sua carreira, inicialmente no Peru e Argentina, onde desenvolve e estrutura
teoricamente os procedimentos do teatro do oprimido.
Torquemada, um texto seu sobre a Inquisição, é
encenado na Argentina, e Tio Patinhas e a Pílula, em Nova York.
Em 1976 emigra para Portugal, onde trabalha com o grupo A Barraca. Escreve
Mulheres de Atenas, uma adaptação de Lisístrata,
de Aristófanes, com músicas de Chico Buarque (1944), e
Tempestade-Calibã, 1976. A partir de 1976 fixa-se em Paris, criando
um centro para pesquisar e difundir o teatro do oprimido, o CEDITADE.
Em 1978 ocorre no Brasil a montagem de Murro Em Ponta de Faca, texto
onde Boal enfoca a vida dos exilados políticos, direção
de Paulo José (1937) para uma produção da Othon
Bastos Produções Artísticas, único de seus
textos escritos no exterior a conhecer uma montagem nacional. Em 1979
visita o Brasil para um curso no Rio, retornando, no ano seguinte, juntamente
com seu grupo francês, para apresentar o teatro do oprimido, já
consagrado no exterior.
Somente em 1984, com a anistia, pode retornar ao Brasil, fixando-se
no Rio de Janeiro, mas viajando para todo o mundo, onde ministra cursos
e desenvolve atividades ligadas ao oprimido. Entre suas encenações
internacionais, ao longo deste período, destacam-se: Candida
Erendira, adaptado de Gabriel Garcia Marques, no Theatre de 1'Est Parisien,
Paris; Nada mais a Calingasta, de Julio Cortázar; Zumbi, de Boal
e Guarnieiri; Murro em Ponta de Faca, de Boal, em Graz, Áustria;
El Público, de Federico Garcia Lorca, em Wuppertal, Alemanha
Ocidental, 1984; Feira Latino-Americana de Opinião, em Nova York,
1971; Feira Portuguesa de Opinião, em Lisboa; Malasangre, de
Griselda Gambaro, em Nuremberg, Alemanha Ocidental, 1987.
No Brasil, após seu regresso, dirige o musical O Corsário
do Rei, texto de sua autoria, com músicas de Edu Lobo (1943)
e letras de Chico Buarque (1944), em 1985; Fedra, de Jean Racine, com
Fernanda Montenegro (1929) no papel-título, em 1986; Malasangre,
de Griselda Gambaro, em 1987; Encontro Marcado, de Fernando Sabino,
em 1989; e Carmen, de Bizet, "sambópera" de Boal, Marcos
Leite e Celso Branco, 1999.
Além de autor de livros de ficção, Boal escreve
dois textos auto-biográficos, Milagre no Brasil, em 1977 e Hamlet
e o Filho do Padeiro, em 2000. Lança-se candidato a vereador
pela cidade do Rio de Janeiro e cumpre legislatura entre 1993 e 1996,
momentos em que utiliza o teatro com o importante papel de discutir
temas que possam gerar projetos de lei, experiências relatadas
no livro Teatro Legislativo. Sua atuação mais recente
encontra-se voltada para estas correlações entre o teatro
e a cidadania. Entre outros significativos títulos e prêmios
angariados por Boal no exterior, destacam-se o Officier de l'Ordre des
Arts et des Lettres, outorgado pelo Ministério da Cultura e da
Comunicação da França, em 1981 e a Medalha Pablo
Picasso, atribuída pela Unesco em 1994.
Avaliando a abrangência de sua trajetória, o crítico
Yan Michalski (1932-1990) destaca: "até o golpe de 1964,
a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de
Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos
que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 50
e 60. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos
especializados e uma visão progressista da função
social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição
de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio,
essa liderança transferiu-se para o campo da resistência
contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação.
No exílio, reciclando a sua ação para um terreno
intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses
e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo
afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e
respeitado fora do seu país".
Fonte: Itaú Cultural