Textos sobre Dines

Observatório da Imprensa: "O ápice do meu trabalho"

Stefan Zweig: um pacifista como Freud

O trabalho no JB - a morte de Allende

Sobre o jornalista

Entrevista ao jornal da ABI - Junho 2009

 

 

Memória da imprensa carioca/UERJ

Entrevista com Alberto Dines
em 21 de agosto de 2002
Entrevistadores: Maria Aparecida Costa e Antony Devalle
Coordenadora geral: Heloisa Frossard
Coordenadora de pesquisa: Jacqueline Luduvice
Pesquisadores: Antony Devalle, Maria Aparecida Costa, Ana Carolina S. Rangel, André Keiji Kunigami e Priscila Serejo

Dines, nós gostaríamos que você nos contasse onde e quando nasceu e que nos falasse um pouco sobre a formação como jornalista.

Alberto Dines - Eu nasci a 19 de fevereiro de 1932, portanto, completei, em fevereiro, 70 anos de idade. Tenho 50 de profissão, o meu registro profissional no Ministério do Trabalho é do dia 25 de agosto, são praticamente 50 anos de trabalho ininterrupto. Praticamente porque, mesmo no período em que eu fui para Portugal, eu continuei trabalhando em jornal. Eu nasci no Rio de Janeiro, na Beneficência Portuguesa, no bairro do Catete. Meus pais moravam no Catete em uma pensão, naquela época era muito comum no Rio de Janeiro as pessoas morarem em pensões. Eu fui criado em Vila Isabel, próximo ao Maracanã, depois me mudei para a rua Pontes Correia e depois para a rua Araújo Lima, a Tijuca está rodeada das minhas memórias. Só mais tarde eu fui morar na Zona Sul. Eu conheço muito bem o Rio de Janeiro, e circulei muito, o Rio de Janeiro está entranhado na minha vida, embora, nos últimos anos, eu tenha morado fora, em São Paulo e em Lisboa. E acho muito bom a gente falar sobre o Rio de Janeiro, o jornalismo carioca, porque está na hora do Rio despertar, para cumprir o compromisso que tem com o passado, o Rio não pode decair dessa maneira. Minha formação é quase nenhuma, formação regular, eu digo. O curso primário eu fiz em Vila Isabel, em uma escola israelita chamada Escola Popular Israelita Brasileira Scholem Aleichem, que era da comunidade judaica, um grupo chamado Obreiro Internacionalista, ligado à esquerda. Essa escola me deu uma base muito interessante, sobretudo porque eles não adotavam o idioma hebraico, adotavam o iídiche, que é uma corruptela do alemão, na verdade é um dialeto do alemão medieval, essa base me deu uma grande facilidade para ler e entender o alemão. Essa era uma escola excelente, com métodos moderníssimos. Naquela época, estou falando dos anos 30, a escola falava em Pestallozzi, o que era realmente uma coisa extraordinária, muito revolucionária, moderna e avançada. E foi nessa escola, embora não tenha nada a ver com Jornalismo, em 1940, em uma festa, em um dia que não houve aula, que chegou um visitante ilustre, o escritor Stefan Zweig, que estava chegando para se instalar no Brasil. E a partir desse momento, eu criei uma relação com o Stefan Zweig que resultou na biografia que eu fiz sobre ele Morte no Paraíso, editada em 1981 e que estou reescrevendo completamente para lançar agora. O curso ginasial eu fiz também em uma escola judaica na Tijuca, mas de outra linha. Meu pai foi muito sábio, me colocou em escolas de linhas diferentes para que eu tivesse uma visão completa. Chamava-se Ginásio Hebreu Brasileiro, que não era de tendência socialista, mas onde se ensinava hebraico e cultura judaica, o foco não era a religião, mas a tradição. Foi uma escola excepcional, eu tive professores que me deram uma excelente base, todos eles eram ligados ao Partido Comunista Brasileiro. E foi lá que eu tive a minha primeira experiência jornalística, durante a Segunda Guerra Mundial. Estávamos no primeiro ano do ginásio, a guerra já tinha começado e havia um grande esforço de guerra no Brasil. Houve dificuldades, bloqueio dos submarinos, não havia comida, ela era racionada. A Legião Brasileira de Assistência (LBA) lançou a idéia das Hortas da Vitória, algo que todo mundo poderia ter no quintal, um lugar para plantar verduras e não ficar dependendo da comida que era muito escassa naquele momento. E o Ginásio onde eu estudava fez uma no terreno ao lado ao da escola, eles forneceram enxadas e sementes e a nossa horta da vitória tinha um jornalzinho, o órgão oficial da horta, e eu e outros colegas fizemos esse jornalzinho. Um deles, que infelizmente morreu prematuramente, foi um excepcional comunicador revolucionando o rádio, Moisés Weltman, fez o “Jerônimo”. A história do rádio moderno brasileiro, moderno eu digo dos anos 50 para cá, passa pelo Moisés Weltman. Nós fizemos esse jornalzinho, ainda mimeografado naqueles mimeógrafos muito precários e essa foi a minha primeira experiência. Depois disso, eu fiz o Científico no Colégio Andrews, em Botafogo, o que era uma dificuldade. Eu saía da Tijuca para estudar em Botafogo, mas foi muito bom. Nós fazíamos uma coisa que era usual, infelizmente hoje não é mais, voltávamos do colégio, íamos comer no bandejão da UNE, e depois íamos estudar na Biblioteca Nacional - esta coisa maravilhosa que nós temos no Rio e da qual ninguém dispõe. Sentávamos lá para estudar, naquelas mesas, não sei se hoje ainda têm, mesas redondas de pesquisa, então sentava o grupo de um colégio e estudava, discutia as coisas mais relevantes etc... Foi uma coisa espontânea daquele grupo de amigos que soube usar o equipamento cultural da cidade e do país. Foi realmente extraordinário, realmente um grande momento. Eu não completei o Científico porque no segundo ano eu me envolvi com o movimento socialista, de novo judeu e antiburguês, atitude que recomendava que se rompessem os vínculos com a burguesia e o primeiro traço da burguesia era o diploma. A maioria não teve essa coragem, eu tive. Então, eu não terminei o Científico, tinha levado bomba e feito segunda época em duas matérias, passei nas duas, voltei na escola e tranquei a matrícula. Em resumo, essa é a minha formação.

Quando você começou profissionalmente como jornalista?

Dines – Já pós-adolescente e tendo despertado o gosto pela cultura, pela música erudita, com a qual eu sempre estive envolvido, vi na cultura uma área na qual eu poderia me inserir. Escolhi o cinema e comecei a me dedicar a ele com um companheiro do Andrews, o Alberto Shatovski, que foi crítico de cinema e um dos fundadores do grupo Estação Botafogo, onde está até hoje. Juntos, começamos a estudar cinema. Como não havia escola de cinema e meu pai tinha um escritório na Praça XV, a gente ia de tarde para lá, pegava uns livros de cinema e começávamos a ler. Discutíamos, fazíamos roteiros, estudávamos enquadramento, tudo isso foi extremamente positivo. Eu estou falando sobre isso porque acho que o processo de educação tem que partir do aluno, o aluno tem que ser estimulado a ter curiosidade, se ele não tiver curiosidade não adiantam todas essas tecnologias de educação, porque tudo vai entrar por aqui e sair por ali. Ninguém nos disse que tínhamos que ir para a Biblioteca Nacional estudar, mas aconteceu, estava ali, fomos lá e a Biblioteca virou uma segunda casa para nós. A mesma coisa estudar cinema, naquela época era impensável se dedicar a isso no Brasil, não havia escolas nessa área, a única escola de cinema conhecida era a da França, o IDEC (Institut d’Etudes Cinématographiques). Então, nós estudávamos entre nós, consegui comprar alguns livros na Argentina, me lembro os títulos até hoje, e a gente estudava neles. Em função do cinema, eu e o Alberto Shatovski conseguimos trabalhar como documentaristas, ajudando o documentarista Isaac Rosenberg que fazia, em sua maioria, jornais cinematográficos para as repartições públicas. Trabalhamos muitos anos, fui assistente de direção de dois, três filmes, sendo que um foi com o Lulu de Barros, um cineasta que fazia um filme a cada quatro meses, sem roteiro...

Como era esse trabalho de documentarista?

Dines – Começamos com o Isaac Rosenberg, ele é tio do baiano Leão Rosenberg, que também é um cineasta importante. Com ele, nós fizemos uma coisa muito interessante, adotando os princípios da montagem do Eisenstein. Um dia ele chegou e falou assim “olha, vocês são jovens e eu quero que vocês façam uma coisa que eu não consegui fazer ao longo da minha vida”. Abriu uma espécie de cofre, lá estavam pendurados negativos que ele tinha colecionado pelo Brasil afora, sobretudo no Nordeste. Como ele era baiano, ia muito à Bahia e ao Nordeste. “Aqui tem esse material em negativo, tem aqui a cópia em positivo, vocês me montem isso”. Mas uma cena não tinha nada a ver com a outra. Ele achava uma coisa bonita, botava o filtro vermelho, sentava embaixo, para pegar de baixo para cima, e fazia uma tomada linda, mas, como é que ia ligar isso com a outra imagem? Então fizemos uma coisa que foi montagem pura. Quer dizer, pegamos aquilo sem unidade de tempo, de espaço, sem história, e fizemos uma história com aquilo que já estava filmado. Fizemos um filme sobre a seca com cerca de 10 a 12 minutos e até que ficou muito bonzinho. Infelizmente, não tenho cópia desse material.

Esse filme chegou a ser exibido?

Dines – Sim, ele foi exibido em um festival comunista que tinha no Rio. Nessa época havia um jornal diário, A Imprensa Popular, que era um jornal muito bem feito. O crítico de cinema do jornal era o Iolandino Maia, um poeta que adorava cinema, ele fez um festival de documentários ou algo assim. A gente exibiu o filme e chegamos a ganhar um prêmio por ele. Lembro-me perfeitamente que história que a gente montou, mas isso é secundário. Bem, eu comecei a me envolver muito com cinema, mas muito mesmo.

Você chegou a pensar em seguir carreira no cinema?

Dines – Claro. Eu queria fazer carreira e estava disposto a isso, fazia bicos aqui e ali. Até que surgiu a oportunidade de eu fazer crítica de filmes. A gente ia ao cinema praticamente toda noite, eu comecei a fazer crítica e aí me convidaram para uma revista semanal sobre cinema que existia na Lapa, era de uma editora grande, Editora Americana, que editava a Revista da Semana e algumas publicações infantis. Ela tinha uma antiga revista de cinema chamada A Cena Muda. O secretário de lá, não sei como ele me descobriu, me convidou para fazer crítica uma vez por semana, eu fazia uma página dupla, a revista tinha um formato grande, com 5 ou 6 críticas de filmes que eu tinha visto no início da semana. Esse foi um período de ouro do cinema mundial, inclusive do norte-americano. Foi época do Elia Kazam, do Dimitri, todo aquele pessoal que estava vindo do Actor’s Studio, com influência do neo-realismo italiano. O cinema norte-americano era ótimo, o italiano maravilhoso, foi justamente em 1950, 1951, 1952, o francês do pós-guerra começava a procurar novos caminhos. Foi um período extremamente interessante e me foi dado o privilégio de ver o filme na tela, criticar a partir daquilo que eu achava, porque a bibliografia era mínima, mas foi extremamente interessante. Em decorrência, me envolvi com atividades, vamos chamar assim “cívicas” do cinema, como o 1º Congresso do Cinema Brasileiro, do qual eu participei, o Cineclube do Brasil, que havia sido fundado pelo Alex Viany e pelo Vinícius de Moraes e do qual nós participávamos. Tinha um outro na Tijuca, na rua Pereira Nunes, o Cineclube do Rio de Janeiro, lá tinha um rapaz formidável, um grande especialista em jazz e cinema, o Paulo Brandão, Paulinho Brandão, era ele quem tocava o Cineclube do Rio de Janeiro. Em suma, a coisa estava começando. Me candidatei a uma bolsa de estudos pela embaixada francesa, para fazer um curso no IDEC (Institut d’Etudes Cinématographiques).

Como era essa bolsa de estudo?

Dines – A seleção não era através de nenhum exame, era necessário ter uma carta de recomendação e eu não a tinha, consegui uma muito precária e fui recusado. Mas também não tive problema com isso não. Continuei fazendo a crítica de cinema. 1952, e aqui entra a imprensa mais fortemente na minha vida, foi o ano de ouro do Jornalismo brasileiro. Quando eu digo 1952, é 1951, esse período... um ano alargado. Mas foi um ano de ouro da imprensa brasileira porque houve a reforma do Diário Carioca, logo depois tinha surgido a Tribuna da Imprensa, do Carlos Lacerda que fazia um excelente jornalismo, muito panfletário, politizado, reacionário, mas de grande padrão, de alto nível. Surgiu a Última Hora e surgiram duas revistas, a Manchete, que começou por volta de 1951, 1952, para enfrentar a O Cruzeiro, que dominava o mercado, e surgiu ainda a primeira revista noticiosa brasileira, em formato Times, que se chamava Visão. Ela, infelizmente, acabou. O nome existe em Portugal, em formato Times mesmo, e é a melhor revista portuguesa de hoje, mas o nome surgiu aqui. E a Visão brasileira era uma revista norte-americana. Naquela época, era permitido a empresas estrangeiras instalarem-se aqui para editar publicações do Brasil. E eles estavam precisando não de um crítico de cinema, mas de um repórter de assuntos culturais e me contrataram. Essa foi a minha primeira experiência jornalística mesmo, de entrar em uma redação, com uma equipe de jornalistas de primeira, todos eles treinados em agências telegráficas, que gerava um pessoal muito bom, muito ágil, muito preocupado com texto sintético. Eu cheguei lá e era o mais novo, tinha 20 ou 21 anos. Lá eu aprendi muito, mas muito mesmo. Fiquei 5 anos e além de repórter cultural passei a cobrir também o Itamaraty, depois fui cobrir outras coisas ainda, depois comecei a viajar pelo Brasil. Então a revista se transferiu para São Paulo, os norte-americanos perceberam que o centro industrial do Brasil passava a ser São Paulo. Isso foi em 1953.

Depois você foi para a Manchete?

Dines – Não, isso foi muito tempo depois. Os norte-americanos decidiram transferir a revista para São Paulo e como eu era solteiro e estava disponível, me perguntaram se eu não queria ir para São Paulo. Pela legislação, eles tinham que aumentar o meu salário em não sei quantos por cento, e me dar mais vantagens, eu topei. Eu conhecia bem São Paulo, desde os meus tempos de militância política, e gostava muito de lá. Naquela época, São Paulo era formidável, então eu fui. Essa foi uma experiência muito interessante. Eu me envolvi muito mais com o meio jornalístico, a Visão era ao lado do Diário de São Paulo, que era dos Diários Associados, então, me meti na corriola, e é sempre bom para você conversar e conhecer bem a profissão. Fiquei ao todo 5 anos na Visão. Realmente, aprendi muito. Fiz capa, fotografava, porque a minha experiência de cinema tinha me permitido pegar um bom traquejo de fotografia, então eu fotografava também e isso é importante porque há uma geração de jornalistas, que hoje já está nos seus 60 e poucos ou 70 anos, e todos eles são fotógrafos, aprenderam a escrever e a fotografar. Não sei se eles praticam ainda, mas o Jânio de Freitas era também fotógrafo, o Luiz Carlos Barreto era fotógrafo e escrevia, hoje é produtor de cinema, o Araújo Neto que vive em Roma há 40 anos era um excelente fotógrafo, o Carlos Lemos, em suma, tinha um grupo de jornalistas que, por necessidade de expandir a sua visão da profissão, operavam com a máquina de escrever e com a fotografia. Eu fiz várias capas para a revista Visão, foi extremamente interessante esse período e vivíamos realmente uma época maravilhosa, foram os anos dourados, 1952 até o fim do governo do Juscelino Kubitschek, foi um período extraordinário.

E a Manchete, como surgiu na sua vida?

Dines – Eu fui convidado para ir para a Manchete, como repórter. E fiquei muito feliz, porque eu podia fotografar e escrever. As matérias eram maiores, porque na Visão era tudo muito curtinho, foi também uma experiência muito boa. Mas a felicidade durou pouco, eu tenho a impressão de que fiquei repórter lá por poucos meses. O diretor da revista, Naum Sirotzky, entrou de licença e me colocou como assistente de direção. O que foi extraordinário porque eu tinha 25 anos e só 5 de profissão e tinha que comandar com o Wilson Figueiredo uma redação com uma média de idade muito superior à minha.

E você chegou a ter algum problema por isso?

Dines – Não, nenhum problema. Porque eu acho que comandar não é só exercer autoridade, é também aprender. E na experiência com o cinema eu aprendi a juntar, eu sabia editar muito bem, peguei rapidamente o jeito de editar a revista, que no fundo se parece um pouco com o cinema. Em francês até é mise-en-scène, mise-enpage, colocar em cena, ou colocar em página, o princípio é o mesmo, o da harmonização. E eu trabalhava muito, tive a colaboração inestimável do meu colega Darwin Brandão, um sujeito de alto nível, ele era baiano e um grande jornalista, morreu muito cedo. Ele era o chefe da reportagem e um pouquinho mais velho do que eu, com um pouco mais de experiência, nós nos dávamos muito bem porque ele produzia, ele era uma máquina, e por isso ele morreu muito cedo, uma máquina de trabalhar e de fazer coisas. E eu paginava e cuidava da edição. Foi ótimo, sobretudo porque nós tínhamos, não digo em cima, mas ao longe, como uma espécie de guru, o Justino Martins, que era o correspondente da Manchete em Paris há muitos anos, que vivia dentro do Paris Match que era a melhor revista do mundo naquela época. O Justino, que era correspondente, sempre mandava críticas sobre a revista que estávamos fazendo, elas vinham por um malote que chegava rapidamente, e essas críticas nos ajudavam muito. Aprendi muita coisa com o Justino, mas muito mesmo, coisas que eu nunca mais esqueci! Além de tudo, ele era uma figura extraordinária! O Justino Martins era gaúcho, veio da Revista do Globo. A Revista do Globo, a gente está falando de jornalismo carioca, mas vou entrar no jornalismo de Porto Alegre. As revistas modernas brasileiras são filhas da Revista do Globo, porque o diretor da O Cruzeiro tinha vindo da Revista do Globo, me escapa o nome dele agora, creio que era José Amado, talvez, não sei ao certo, ele também era gaúcho. E o outro diretor que depois virou diretor da Manchete era o Justino Martins, que também veio da Revista do Globo. A Revista do Globo teve como colaborador o escritor Érico Veríssimo, pai do Luís Fernando, era uma revista realmente muito bem feita e circulava sobretudo no sul do país mas em alguns lugares do Rio ela podia ser encontrada. Fechando o parêntese gaúcho, em suma, o Justino foi um grande mestre.

Desde essa época, com as críticas que chegavam por malotes, você despertou o seu interesse pela crítica à imprensa?

Dines – Não, elas eram críticas técnicas. A minha preocupação e a minha visão crítica vieram muito posteriormente.

Então, você ainda não pensava em analisar a imprensa?

Dines – Ninguém pensava, nem eu nem os mais velhos, ninguém pensava nisso. Aliás, uma pessoa pensava nisso e eu era seu leitor, pode até ter ficado no subconsciente, mas eu não identifico. Mas é uma figura importantíssima do Jornalismo carioca, não sei se nascido no Rio de Janeiro, mas exerceu a profissão aqui, acho que era o Gondim da Fonseca. Eu tenho a impressão de que ele nasceu no Nordeste, mas que foi criado no Rio de Janeiro e exerceu a profissão no Rio. Ele, para mim, foi o primeiro crítico da mídia. Ele escrevia em um jornal peronista que tinha aqui, da pior qualidade, El Mundo. Ele tinha uma coluna política e era ali onde ele fazia enormes críticas aos grandes veículos, os que ele chamava, entre aspas, de a imprensa sadia, eram O Globo, o Correio da Manhã e ainda outros veículos. Ele era um homem de esquerda, mas eu acho que não era do Partidão, mas era um nacionalista, um homem de esquerda muito culto, foi autor de um livro chamado Biografia do Jornalismo Carioca, que está completamente esgotado e que valia a pena ser resgatado. O Edmar Morel, em seu livro de memórias, cita muito o Gondim. E o Marco Morel, filho do Edmar, conhece bem essa figura sobre a qual há poucas referências, mas ele era um crítico, eu não o chamaria de crítico da mídia e muito menos de um crítico do desempenho jornalístico, mas era um crítico do desempenho político dos jornais. Depois dele teve outro, na mesma linha, que foi o Otávio Malta, na Última Hora, que também tinha uma coluna política onde comentava o que saía nos jornais, mas analisava o ângulo político do que os jornais publicavam, o que não era exatamente uma crítica da mídia, do desempenho da mídia.

Você trabalhou na Última Hora, como foi o seu relacionamento com o Samuel Wainer?

Dines – Eu o conheci em uma situação muito engraçada. Eu estava na Manchete, e a glória da Manchete e da O Cruzeiro era o carnaval. Pois bem, durante o carnaval tirava-se não sei quantas edições, vendiam-se não sei quantas centenas de milhares de exemplares, e a redação toda se jogava na cobertura. O evento máximo do carnaval não era a escola de samba, era o baile do Teatro Municipal, esse era o negócio mais fascinante que havia e extremamente difícil de entrar, então, a redação toda ia para lá, com não sei quantos fotógrafos. Eu e o Darwin Brandão, apesar de chefes, fomos ajudar a cobertura. Tinha que vestir summer ou smoking, a gente alugava e ia para lá. E eu me lembro que eu conheci o Samuel nesse baile. Eu estava provavelmente no camarote dele ou próximo ao dele, fotografando as pessoas dos camarotes e lá embaixo com uma teleobjetiva, e ele perguntou quem eu era. Eu sei que depois do carnaval ele me telefona para a Manchete perguntando se eu queria trabalhar lá na Última Hora. Ele tinha gostado de ver um jornalista que vai e fotografa e que ao mesmo tempo dirige uma revista, em suma, esse foi o primeiro contato que eu tive com ele. Eu não pude aceitar porque estava muito envolvido com a revista, não poderia deixá-la naquele momento.

E como você chegou a trabalhar com ele?

Dines – Tempos depois, nós voltamos a nos encontrar e eu fui trabalhar com ele. Eu voltei a me encontrar com o Samuel quando ele estava com um problema na edição matutina, ela não tinha um segundo caderno e o segundo caderno da Última Hora vespertino era excepcional. O jornal saía em duas edições, uma matutina e uma vespertina, ambas com o mesmo nome. Na edição vespertina foram lançados nomes como Vinícius de Moraes, Antonio Maria e Sergio Porto, o segundo caderno era uma referência dentro do jornal. E o matutino não tinha nada, nenhuma atração complementar. Foi aí que nós tivemos a oportunidade de fazer um trabalho para o Samuel que foi muito avançado e interessante para a época: uma tentativa de terceirização, no bom sentido do termo. E ele me propôs que eu fizesse alguma coisa no matutino, naquela época eu era fascinado pelos tablóides ingleses, que apesar do nome faziam um grande jornalismo, pois hoje tablóide virou um termo pejorativo, na época não era, e eu era absolutamente fascinado pelo formato e pelo estilo vivo, então, nós fizemos segundo caderno tablóide para a edição matutina. E ele gostou muito.

E isso foi feito de que forma?

Dines – Ele me chamou mas não me contratou, a Última Hora estava sem dinheiro e não podia contratar ninguém, então ele me pagava um xis e eu chamei um grupo de pessoas que trabalhava comigo e a gente dividia essa quantia, por isso que eu chamei de terceirização. Funcionava quase como uma cooperativa e nós fizemos um trabalho muito bom. Tão bom, que o Samuel falou assim “olha, quer saber de uma coisa, nós vamos botar o tablóide de vocês na vespertina também. Pega alguns colunistas da vespertina, põe no caderno de vocês e vamos fazer um tablóide só”. E assim foi. Aparentemente a resposta foi boa, porque meses depois o Samuel chega para mim, ele era muito irrequieto, muito inventivo, e diz assim “eu quero que você pare de fazer o tablóide, deixa o seu pessoal fazendo isso e vem dirigir o matutino, pois a edição matutina continuava apresentando problema”. Eu nunca havia pisado numa redação de diário, eu tinha vindo de revista, mas aceitei. Foi extremamente arriscado, um grupo de jornalistas prometeu me ajudar, mas na última hora, não puderam. Eu tive que entrar sozinho, com a cara e com a coragem na Última Hora sem nunca ter feito um jornal diário. A primeira edição foi um desastre, eu apliquei o que eu sabia de revista, eu me lembro que a gente deu uma foto em 8 colunas, eram manobras navais, tinha uma foto linda de um navio de guerra que estava no Rio, era uma foto enorme, na verdade eu estava fazendo uma revista diária, coisa que hoje é última palavra, naquela época não era, quer dizer era para mim. O Samuel vivia na boemia, estava casado com a Danuza Leão, ele vinha da boate ou do restaurante em que estava e passava no jornal para pegá-lo rodando, e eu ficava esperando. Então, nesse primeiro dia, ele viu o jornal, ele era muito expansivo nas broncas, mas nesse dia ele se conteve e disse “não, você tem que esquecer um pouco a revista e fazer um jornal”. Foi uma forma delicada de dizer que estava uma porcaria. E evidentemente, no dia seguinte, eu já havia entendido o ritmo e passei a fazer jornal, fazer jornal mesmo e esquecer as revoluções. Comecei a fazer o matutino, depois, ele era tão irrequieto que chegou para mim e disse “olha, o negócio está muito bom, mas o matutino está melhor do que o vespertino, então você vai fazer o seguinte, você vai dirigir os dois”. Aí foi uma loucura.

E como era possível editar dois jornais em um só dia?

Dines – Eu não tinha mais tempo para nada. Eu dormia duas vezes por dia, porque naquela época o vespertino era feito durante a madrugada. Meu dia começava assim: às 5 da manhã, eu acordava, ia para a Última Hora, fazia o jornal em 7 e meia, 8 horas, ficava mais um pouco para ver as coisas para o dia seguinte e então ia para a casa dormir. No fim da tarde eu ia para o jornal fazer o matutino, ficava até às 22h, ia dormir para acordar de madrugada e recomeçar a empreitada. Por sorte, eu tinha 25, 26 anos, tinha condições físicas para agüentar. Mas foi muito puxado e eu estava recém-casado, com um filho pequeno. Esse horário louco atrapalhou muito o meu casamento, muito mesmo. Depois, surgiu uma proposta dos Diários Associados, o Chateaubriand já estava paraplégico, inteiramente paralisado mas inteiramente vivo, e ele queria dar um jeito no Diário da Noite. O Diário da Noite foi um vespertino que, no Rio de Janeiro, chegou a vender 200 mil exemplares, jornal em que o Nelson Rodrigues escreveu aqueles folhetins sob o pseudônimo de Susana Flag, era um jornal de manchetes sensacionalistas. Ele era famoso, digamos assim, pelas manchetes surpreendentes. Tinha grandes repórteres e era um jornal muito ativo. Em alguns momentos suplantava O Globo, jornal que só veio a crescer mesmo mais tarde. E o jornal naquela altura estava vendendo 8 a 10 mil exemplares por dia, isso em 1959, 1960. Quem dirigia os Associados era o João Calmon que me convidou para dar um jeito no Diário da Noite. Eu falei “olha só, nesses casos a gente dá uma injeção de óleo canforado, o doente levanta ou morre. Então, ou a gente muda tudo ou não adianta fazer pequenas alterações”, mesmo porque a empresa não tinha recursos, então tínhamos que fazer coisas de impacto. Eu fiz um jornal inteiramente novo, só ficou o nome, mudei o logotipo, e fiz um tablóide. No modelo do Daily Mirror inglês, que era um tablóide trabalhista. Hoje, a gente tem a idéia de que os tablóides não têm orientação política, mas naquela época, tínhamos o Daily Mirror que era trabalhista, mais à esquerda, e você tinha ainda outros mais à direita. E o meu modelo era o Mirror, que era muito bem feito, era uma revista diária muito alegre, e resolvemos fazê-lo e voltamos a editá-lo como vespertino. A Última Hora rodava às 7 da manhã, mas quase com o mesmo material, apenas as últimas notícias de polícia entravam, o resto, era tudo igual ao jornal matutino. Eu pensei “vamos fazer um vespertino autêntico que é para a gente encontrar um nicho”. Em suma, vendi a idéia e trocamos tudo. Foi uma loucura, talvez até mesmo uma irresponsabilidade, porque não tínhamos recurso técnico para fazer um tablóide. Os Diários Associados eram uma empresa decadente naquela época, não tinha recursos técnicos, de tituleira e das máquinas mesmo, o clichê era feito em vidro, era uma complicação, mas a gente foi inventando coisas. Chegávamos na redação às 4 da manhã para fazer o jornal inteiro, zero, menos algumas coisas que tinham ficado do dia anterior, a página feminina, a parte de cinema e tudo o mais. Eu levei para fazer esse jornal um grupo extremamente interessante, imagine que a página feminina era feita pela Clarice Lispector. Ela não assinava, porque ela não queria assinar, quem assinava era a Ilka Soares, uma vedete da TV Tupi, que era também dos Associados. A Ilka dava o nome e a Clarice fazia as colunas, mas fazia com cola e tesoura, pegava as revistas francesas, recortava e fazia tudo com muito bom gosto. Tem aí uma biografia, um livro sobre a Clarice onde é mencionada essa experiência dela, inclusive as receitas dela. Aproveitávamos um grupo muito bom, sobretudo, o que se chama hoje de ghostwriter, usava-se os nomes e alguém escrevia. A grande cantora Maysa também tinha uma coluna romântica no jornal, mas quem escrevia era um colega nosso o Raul Giudicelli.

Como acabou o Diário da Noite e os vespertinos de um modo geral?

Dines – A cidade mudou. Ela foi crescendo e foi ficando complicado. Acabou, mas eu acho que há uma tendência à volta. Recentemente, foi lançado em Nova York um jornal novo o Sun que é vespertino. Portanto, é necessário se repensar o vespertino na megalópole, ele tem o seu lugar. Mas, o que é importante no Diário da Noite, primeiro é que era um vespertino mesmo, muito alegre, muito bem feito para a época, inclusive muito participativo. Agora, o que marcou o Diário da Noite foi a expressão “imprensa marrom”, que fomos nós que inventamos. Eu conto rapidamente como, isso tem muito a ver com o Rio de Janeiro. Havia na cidade uma imprensa de chantagem. Era um pessoal meio jornalista e meio policial, todos ali na rua da Relação. Lá havia uma concentração de redações de revistas de chantagem que saíam uma vez ou outra. Eles faziam fotografias em boates, em festas de carnaval, depois cobravam para não publicar ou para publicar se fosse a favor. Uma delas se chamava Escândalo. Numa madrugada nós chegamos na redação, com o jornal zero, tinha que começar tudo dali, e o chefe da reportagem, o grande jornalista Calazans Fernandes, do Rio Grande do Norte, disse “olha, não temos muita coisa, mas tem aí o suicídio de um cineasta e talvez isso renda algo”. Começamos a ver, e não era bem cineasta, ele trabalhava em produção de cinema, na realidade ele era assistente de produção e tinha uma produtora no bairro de Laranjeiras, esqueci o seu nome, ele havia se suicidado. O repórter começou a apurar, isso pelo telefone e indo lá pessoalmente, não tinha essa de release não, era jornalismo pauleira. Aí se descobre que ele tinha sido chantageado e ameaçado e que por esta razão tinha se suicidado. Aí começamos a ter um bom caso: o pessoal começou a ir lá. Eu fazia a primeira página, comecei a fazer a primeira página e eu lembro da manchete, era assim: A imprensa amarela provoca suicídio.

Por que imprensa amarela?

Dines – Porque nos Estados Unidos havia a expressão yellow paper, que vem do fim do século XIX, e se referia a uns tablóides que tinham cadernos em páginas amarelas, como algumas revistas em quadrinhos. Quem começou com isso foi o William Hearst, e posteriormente o Joseph Pulitzer. Esses jornais tiveram grande influência em Nova York no fim do século XIX, e o termo que se criou para designar esse jornalismo popular foi yellow press. Outro dia na Espanha, eu vi no El País uma crítica falando sobre a amarelização da imprensa. A expressão “imprensa marrom” é brasileira. Bem, eu fiz a primeira página, era uma aventura fazer a primeira página, porque os tipos tinham que ser desenhados e depois fazer o clichê, era toda uma história, uma tecnologia ainda muito rudimentar, típica da era dos Flinstones. Eu arrumei a primeira página e o Calazans Fernandes entrou na redação fumando um charuto, ele era um garoto mas fumava charuto, e me disse “amarela? mas na minha terra amarelo é uma cor alegre, cor de São João; não, põe marrom, marrom é feio, é merda!”. Então lançamos “Imprensa marrom provoca suicídio”. Começamos uma campanha contra esse tipo de imprensa. O Carlos Lacerda era jornalista e na época governador do estado da Guanabara, adorava jornal e viveu nos Estados Unidos e também foi à Inglaterra, portanto ele conhecia esse gênero de imprensa e viu que a gente estava fazendo uma coisa simpática. Ele deu toda a cobertura, botou um guarda-costas na redação e depois, quando eu fui ameaçado de morte, botou um guarda-costas me acompanhando. Aquilo virou um caso sério, a gente botou os caras na cadeia, fechamos revistas, e o jornal aumentou muito a vendagem, chegou a vender 50 mil exemplares diários.

Você estava falando antes do Edmar Morel. Ele chegou a ser candidato a algum cargo eletivo?

Dines – Sim, ele foi vereador. Mas, se não me engano, já tinha deixado a redação. Foi na eleição em que o Carlos Lacerda foi candidato a governador da Guanabara. Acho que foi aí que o Morel foi candidato a vereador. Mas ele era um repórter na alma.

Ele trabalhava no Diário da Noite?

Dines – Sim, no Diário da Noite. Ele era desse grupinho louco que fez o Diário da Noite. Para dar uma idéia, o colunista social saía do Sasha, que era a maior boate da cidade, saía direto de lá para a redação e faziam as notinhas. Quer dizer, o jornal era realmente muito quente, muito vivo e dinâmico. Os comentários e os editoriais eram em cima do fato do dia, não era para daqui a dois dias, não era jornal de véspera, era jornal do dia. Isto é um dado extremamente importante, porque hoje nós fazemos jornal de antevéspera. O Diário da Noite era ótimo. Estava tão bom que o Chateaubriand, mesmo paraplégico e deitado numa cama, fazia questão de acompanhar. Quando deram para ele a primeira semana do jornal para ser examinado, ele disse para o Calmon “manda esse garoto para Londres”. Esse garoto era eu. Ele queria que eu fizesse um estágio no Daily Mirror, ele era amigo do dono do Daily Mirror, um Lorde, mas não me lembro o nome dele.

E você fez essa experiência?

Dines – Sim, eu passei uma semana no Daily Mirror, mas eu não tinha nada o que aprender. Não que eu soubesse muito, eles realmente tinham recursos fantásticos, faziam várias edições, foi bom para ver como é que eles trabalhavam. O Chateaubriand tinha sacado que eu precisava aprender, ele me deu todo apoio.

Dines, como foi a história do navio português, o Santa Maria?

Dines – Aí nós estamos em 1960, 1961, foi quando aconteceu o primeiro seqüestro político da história moderna. Um grupo de anarquistas espanhóis e portugueses, os portugueses ajudaram os espanhóis, seqüestrou um transatlântico português chamado Santa Maria como uma forma de chamar a atenção do mundo para a ditadura do Salazar. O Calazans que era um superchefe de reportagem, não existem mais como ele, tinha trabalhado no Recife. Pegou o telefone, ligou para o Recife, e olha que não era como hoje, não havia DDD, era necessário pedir à telefonista, uma dificuldade, mas ele sempre conseguia a ligação e arranjou um repórter no Recife, colocou-o em um barco e mandou ele ir, porque o Santa Maria ficou fundeado a talvez umas 100 milhas da costa, não era longe, em uma hora ou duas chegava-se lá. Ele convocou um repórter e ele chegou ao Santa Maria e fotografou. Voltou, mandou o filme por um passageiro de um vôo - era assim que se fazia -, o filme chegou e nós pá! demos na página central do tablóide. A página central do tablóide era o local onde podíamos abrir bem as fotos, na capa e na página central. E saiu a manchete “Repórter do DN junto ao Santa Maria. Entrevista com o comandante, o Capitão Galvão”. Fantástico! Aí vem o recado do Chateaubriand “nem mais uma linha, nem mais uma linha a respeito, nada, nem contra nem a favor”. Ele era amigo do Salazar. Isso, infelizmente, o Fernando Morais não trata em 20 linhas na biografia, esqueceu esse fato. Mas eu mantive a cobertura, eu não ia deixar de dar a notícia, continuei mais dois ou três dias até que eu fui mandado embora e então fui para a Manchete, para fazer um subproduto da editora chamado Fatos & Fotos.

Como você avalia a importância do Assis Chateaubriand para a imprensa brasileira?

Dines – Ele foi muito importante, criou a primeira grande empresa multimídia do país. Hoje esse conceito se vulgarizou, mas, no Brasil, foi ele quem teve essa visão, tinha jornal, revista, agência telegráfica, a primeira agência de notícias brasileira (a Meridional), rádio e implantou a televisão aqui. Ele foi um gênio, e era bom jornalista, embora mais preocupado com a política. Mas é inegável que ele lançou coisas novas, teve idéias formidáveis. Agora, era um homem ligado àquele caudilhismo jornalístico dos anos 30 e 40.

O poder dos Diários Associados poderia ser comparado com o da atual Rede Globo?

Dines – Pode sim, era mais ou menos igual, só que eram outros os pólos da época. Você tinha na oposição um jornal independente como o Correio da Manhã, você tinha o Diário de Notícias que era um jornal mais de formação da UDN, digamos assim, e muito ligado aos militares. Essas eram empresas com um só veículo de comunicação e o Associados não, era uma empresa múltipla com diversos veículos, isso lhe dava muita força. E não só no Rio, mas também em São Paulo. Lá havia também o Diário da Noite e o Diário de São Paulo. E no Nordeste, e este é até o jornal brasileiro mais antigo, havia o Diário de Pernambuco que era Associado. Então ele teve a maior importância e, infelizmente, não é esse o momento para a gente examinar tudo o que ele fez. Mas, O Jornal e o Diário da Noite foram uma grande escola. Os maiores jornalistas, Samuel Wainer, Carlos Lacerda, Carlos Castello Branco, Wilson Figueiredo, acho que até o Otto Lara Resende, os grandes jornalistas de uma geração anterior à minha, todos eles passaram ou pelo O Jornal ou pelo Diário da Noite.

E como foi a sua passagem pela revista Fatos & Fotos?

Dines – Bem, fui fazer a Fatos & Fotos que era um subproduto, um lixo da Manchete. O que a Manchete não usava era enviado para nós. Ela acabou sendo um sucesso, porque era ágil por ser editada em preto e branco, você fechava hoje, rodava de madrugada, não tinha problema de cor, era feita com as sobras da Manchete e a gente podia fazer uma edição dinâmica. Havia na Itália uma revista chamada Bianco e Nero que fazia mais ou menos a mesma coisa, a revista Oggi fazia isso também, era toda realizada em fotogravura em preto e branco e também foi muito bem sucedida.

E o Jornal do Brasil, como entrou na sua vida?

Dines – Pois é, no meio do caminho, surgiu o Jornal do Brasil. Eu ainda estava fazendo a Fatos & Fotos quando o Nascimento Brito, que eu já conhecia, me telefona e pergunta se eu não queria dirigir o Jornal do Brasil. Levei um susto, em primeiro lugar, porque eu tinha 30 anos e depois porque o jornal, após a enorme transformação sofrida a partir de 1956, da passagem do Odylo Costa Filho e de todo um grupo importante de jornalistas, estava trocando de diretor a toda hora. O JB não estava bem e ele me perguntou se eu não podia assumir o jornal, eu topei. Mas, como eu tinha muito amor a Fatos & Fotos, falei “olha, eu não posso largar a Fatos & Fotos agora”. Naquela época era usual você ter dois empregos, às vezes até três ou quatro empregos. Então, falei que eu não poderia deixar a Fatos & Fotos. Então, entramos em um acordo. Pela manhã eu ficava na Fatos & Fotos, eu tinha uma boa equipe lá, gente que até hoje está por aí, o Itamar de Freitas, o Paulo Henrique Amorim que também começou lá e um grupo de jornalistas que estava começando, o Carlos Leonam trabalhou lá, enfim, de manhã eu ia para a Fatos & Fotos e, de tarde, eu ia para o Jornal do Brasil. Fiquei por lá 12 anos, só essa experiência seria um outro depoimento.

Você poderia nos contar algumas passagens importantes suas pelo Jornal do Brasil?

Dines – Apesar de eu sempre ter tido muita energia física, não sei até quando isso vai durar, eu decidi que, apesar de eu trabalhar de manhã, o matutino tinha que começar mais cedo. Isto foi uma novidade muito importante no Jornal do Brasil. A tradição era a de que o jornalismo matutino começasse à tarde, lá pelas 16h ou 17h as pessoas começavam a chegar na redação para começar a trabalhar. Eu mudei isso, comecei a chegar logo depois do almoço, às 14h ou até antes, e o jornal começava a funcionar mais cedo, e era planejado para mais cedo. Então, era um jornal produzido, não ficava recebendo o inesperado. Isso, eu tenho a impressão que foi muito transformador, começamos com as reuniões de pauta, ninguém fazia isso naquela época, fomos nós que começamos a criar esse hábito. Criamos editorias também, isso não existia. Você tinha o Esporte, tinha o pessoal da Polícia, o Turfe, um ou dois sujeitos que liam telegramas internacionais e que faziam colagens, em suma, não havia o conceito de editorias. Mesmo a fotografia não era uma editoria, mas sim um departamento, era o gerente da fotografia quem controlava o uso das câmeras. Nós criamos o conceito de editoria, o que não era apenas uma formalidade administrativa, porque gerava um trabalho colegiado muito intenso e participativo. Se o sujeito é um editor, ele tem que participar e dar palpite. O editor de fotografia já selecionava as fotos que ele achava melhores e não deixava para o sujeito que estava paginando a primeira página. Houve então uma série de avanços no Jornal do Brasil que foram subterrâneos, internos, mas que tiveram uma enorme importância. Quero apenas dizer uma coisa sobre a minha chegada lá, isso eu já escrevi a respeito mas não custa nada enfatizar. Eu assumi o Jornal do Brasil e o meu primeiro dia de trabalho foi o 6 de janeiro de 1962. Era uma segunda-feira e o Nascimento Brito falou “olha Dines, bem-vindo e tal, mas amanhã eu quero um jornal novo”, ele queria mudar aquela experiência fantástica que foi a mais importante evolução gráfica e editorial já feita na imprensa brasileira. E ele queria borrar isso, ele queria tudo novo. E eu falei “não, isso não dá para fazer. O que dá para fazer é ao longo do tempo a gente ir aprimorando uma série de coisas, eu nem saberia fazer um jornal novo e não é necessário fazer um jornal novo. Agora, aprimorar e avançar a gente pode conseguir”. No dia seguinte, saiu o mesmo jornal. Ele queria voltar com o uso dos fios, os fios de paginação. Antigamente, os jornais separavam as colunas com o uso de fios de paginação, a primeira grande inovação do JB em 1956, com o fantástico projeto gráfico feito pelo Amílcar de Castro, foi a retirada dos fios para deixar o jornal respirar a partir dos espaços em branco criados. Apenas um jornal fazia isso nos Estados Unidos. E o Brito falou “ah, eu quero de volta os fios”. Então eu falei “não, não posso, eu não saberia fazer isso, agora, o que posso fazer, se isso o incomoda como leitor, é colocar um fio entre o logotipo e o resto do jornal”. O logotipo ficava solto, sem nada segurando ele no alto da página, decidi colocar um fio e manter o resto igual. E assim foi feito. Agora, 12 anos depois, era um outro jornal, mas conservando o arcabouço, a inspiração, a padronagem, todos os paradigmas do projeto que o transformou.

Você não chegou a participar da reforma gráfica e editorial do Jornal do Brasil?

Dines – Não, a reforma foi feita em 1956, eu entrei no JB alguns anos depois. Não tive participação alguma, acompanhei como leitor e conversei muito sobre a reforma gráfica e editorial com amigos que trabalharam lá. Mas, um dado que eu acho importante lembrar, é que eu me recusei a fazer tabula rasa, eu acho importante muito ressaltar isso. Porque hoje, no Brasil, no JB mesmo, recentemente, entrou um editor novo com uma nova equipe e apagou tudo, mudou a paginação, mudou tudo. O leitor quer encontrar o seu jornal igual, todo dia, o jornal é periódico, ele sai uma vez por dia. Se o jornal muda, o leitor se perde. O segredo de um grande jornal é ele ficar igual todo dia, mantendo sua formatação, e diferente no seu conteúdo. Isso, até hoje, é um vício da imprensa brasileira, apagar tudo e começar da estaca zero. Eu me recusei a fazer isso. Outra recusa que eu fiz, também por opção, foi não trocar a equipe que eu encontrei. Geralmente, quando entra um novo diretor, ele traz toda uma equipe nova. Isso cria uma grande descontinuidade, cria ciúmes, e eu considero injusto. O repórter está lá, fazendo o seu trabalho, ele faz porque lhe mandaram fazer, ele não pode ser dispensado só porque trocou a direção. Eu não levei uma pessoa nova, nem uma pessoa nova. Eu entrei com a cara e a coragem. Tanto que disseram “ah, o Dines vai cair em 3 meses, ele não agüenta, sozinho ele não agüenta, aquilo é um poço de vidro”. Eu fiquei 12 anos. Eu acho que esse é um outro segredo, você aproveitar os funcionários da casa, fazer a equipe participar, comandar não é dar ordem, comandar é aprender, fazer junto, “co-mandar”, o outro também manda, você manda junto. Eu tenho a impressão de que existem dois segredos para a história de sucesso do Jornal do Brasil naquele período. Eu não mudei nada, ou mudei muito devagarzinho, a ponto de ninguém perceber, eu não entrei com gente nova, trabalhei com quem estava na casa. O meu braço direito era o editor de Esportes, Carlos Lemos, eu o coloquei como chefe de reportagem. E assim nós fomos adiante, o Amílcar de Castro continuou conosco mais um ano para manter a “cara” do jornal. Agora, tem uma coisa, é necessário acrescentar a essa continuidade o seu aporte pessoal. Outro dado importante na minha passagem pelo JB foi a clarividência da direção do jornal. Evidentemente, eu não fiquei os 3 meses previstos, fiquei muito mais. O dono do jornal estava satisfeito com o meu trabalho, e achava que eu precisava me aperfeiçoar profissionalmente. Fui enviado aos Estados Unidos para realizar um curso na Columbia University. Um curso de 3 meses na Escola de Jornalismo, destinado a editores de jornais sul-americanos, ministrado pelo World Press Institute. Eu fiz o curso e foi espetacular. Grande parte do que eu sei sobre edição de jornais, eu aprendi lá, na verdade, sistematizei lá. Tive grandes professores e o convívio e a troca de experiências com um colombiano, um argentino, um uruguaio, um chileno, vindos de países que tinham tradição de grandes imprensas, foi extremamente importante. Depois dos estágios, a gente corria os Estados Unidos visitando e permanecendo 1, 2, 3 ou 4 dias em grandes jornais norte-americanos. Essa experiência foi extremamente interessante. Até hoje tenho as anotações desse curso, eu fiz uma pasta com tudo o que eu anotei nessas aulas, porque esse curso me abriu os olhos.

E a volta para o Jornal do Brasil, como foi?

Dines – Eu voltei com mil idéias. Antes da minha viagem, nós já havíamos criado um Departamento de Documentação, o jornal não possuía nenhum arquivo, nem mesmo o fotográfico. Criamos uma biblioteca de referência, começamos a guardar os negativos e a fazer os contatos das fotos. O jornal não tinha nada disso. Quando eu voltei dos Estados Unidos, eu resolvi fazer daquela documentação um Departamento de Research, como eles chamavam, que nada mais era do que a pesquisa. Eu tinha visitado o departamento do The New York Times, que eu creio ser um dos melhores que existe até hoje. Eu vi como eles funcionavam e decidi fazer da Documentação um Departamento de Pesquisa mesmo, ou melhor, uma Editoria de Pesquisa. Grande parte das coisas que eu realizei no JB de 1965 até 1973 veio das anotações que eu fiz ao longo desse curso. O Departamento de Pesquisa foi muito importante, e eu quero me referir a ele porque logo depois, em 1965, surgiu a TV Globo. Ela era uma joint venture do Roberto Marinho com os americanos do grupo Time-Life. As emissões começaram e assumiu a direção de jornalismo o Mauro Salles, jornalista muito competente que vinha do jornal O Globo. Hoje ele está mais ligado à publicidade, mas nessa época ele era um jornalista de redação, e muito bom. Eu pensei “agora nós vamos ter um competidor na televisão”.

Então, as emissoras de televisão não encaravam o telejornalismo com seriedade?

Dines – Até então, a televisão não competia com os jornais. Ela tinha o seu noticiário, mas não era um noticiário muito profundo, era muito rápido, meio radiofônico, usavam algumas filmagens mas não se usava câmera móvel, era tudo feito como o cinema. Eu antevi o que eles fariam, pensei “com a experiência do Time-Life, com a tradição do jornal O Globo, com a equipe do O Globo que se transferiu para a TV, nós vamos ter agora uma televisão jornalisticamente competitiva”. Eu fiz um memorando de dez laudas, eu tenho uma cópia dele guardada, dizendo o que teria que ser o jornalismo diário dali para frente: tem que ser mais profundo, mais seletivo, com mais referência e com mais contexto. Então, eu propus construtivamente o que o Jornal do Brasil tinha que ser: e foi. O Departamento de Pesquisas transformou-se em uma verdadeira Editoria, produtora de matérias. Até então, o repórter saía para rua, antes passava lá na pesquisa, pegava o material, lia para não sair ignorante sobre a matéria e pronto. A partir daquele momento o Departamento de Pesquisa começou a produzir matérias, a ser uma produtora de matérias contextualizadas, referenciadas, e chamamos as melhores pessoas. O Fernando Gabeira foi o editor de pesquisa desse período, o Murilo Felisberto, que depois foi dirigir o Jornal da Tarde, um grupo extraordinário, também era da Pesquisa; aquilo se transformou realmente em uma central de referências. Nisso nós fomos pioneiros no Brasil, depois, veio todo mundo atrás. A Editora Abril criou o Dedoc, que hoje talvez seja o mais importante que nós temos no país. Os primeiros estagiários que nós tivemos foram os futuros estagiários do Dedoc, foram estagiar no Jornal do Brasil para aprender como é que a gente fazia para fazerem igual. O Juca Kfouri foi um desses, foi estagiar no Jornal do Brasil, na Editoria de Pesquisa, para depois criar o Dedoc da Editora Abril. Aquilo foi uma coisa extraordinária, e deu um status ao jornal, lhe deu um peso e consistência. As matérias não eram vazias: elas podiam ter vinte linhas, mas não podiam ser superficiais, porque o repórter ou o próprio Departamento de Pesquisa fornecia subsídios para encorpar a matéria. Essa mentalidade, infelizmente, acho que se perdeu até no próprio Jornal do Brasil, talvez até sobretudo nele.

Como foi a criação dos Cadernos de Jornalismo do JB?

Dines – Isso foi outra inspiração que me veio dessa experiência nos Estados Unidos. E que era uma novidade. Nós inauguramos no jornal o que era chamado no The New York Times de Winners and Sinners, o que em português corresponderia a Ganhadores e Pecadores. Era uma estratégia para circulação interna em que eles discutiam em forma de crítica e de gozação os erros que tinham saído no jornal, as gafes cometidas e demais brincadeiras. O que às vezes gerava uma pequena discussão sobre aquele assunto. Eu achei muito interessante e o Gabeira que era o editor de Pesquisa também gostou da idéia. Ele havia trabalhado no Diário da Noite e desde o primeiro momento foi um dos poucos jornalistas que parava na esquina para discutir Jornalismo. Naquela época, você sentava e escrevia, poucos escreviam e depois iam discutir o que havia sido feito. O Gabeira era um desses poucos, era então um garoto, praticamente um menino, tinha vindo de Juiz de Fora com passagem por Belo Horizonte. Então eu falei para ele “você vai fazer um caderno parecido com esse do The New York Times”. E ele respondeu “mas vamos fazer melhor, vamos chamar de Cadernos de Jornalismo”. Demorou algum tempo para sair o número um, levou não sei quantos meses, ninguém escrevia; eu escrevi um texto, ele escreveu outro mas ninguém mais se apresentava. Imprimimos em uma máquina do Jornal do Brasil muito precária. Saiu o primeiro e, afinal, de 1965 a 1973 nós resistimos, depois o caderno trocou de nome: Cadernos de Jornalismo e Comunicação. Isso devido à criação da Disciplina, a ciência da Comunicação, então, ele cresceu um pouco no seu escopo. Mas, essa também foi uma criação decorrente da primeira, manteve-se o mesmo espírito que havia no jornal – discutir, e descobrir os talentos capazes de querer tocar as coisas para a frente.

Os Cadernos eram divulgados de que forma?

Dines – Em primeiro lugar, ele era todo assinado, distribuído em escolas e vendido em livrarias.

Uma outra característica do Jornal do Brasil e sua também é a criatividade. Duas edições do JB ficaram muito famosas nesse sentido. A edição logo após o anúncio do AI-5, em 1968, e a de 1973, logo após a queda do presidente do Chile, Salvador Allende. Você poderia nos contar a história dessas duas primeiras páginas?

Dines – Em 1968 o que aconteceu foi uma decisão minha. O chamado golpe de 1964 não mudou muito a vida de ninguém, os jornais eram feitos do mesmo jeito que antes do 31 de março. Quem mandava era o dono, o dono dava a linha editorial, quem não concordasse, saía do jornal. Assim era o funcionamento. Hoje, de certa forma, ainda é um pouco assim. Então, não havia mudado nada. Mudaram as circunstâncias do país, as eleições que não aconteceram em 1965, acabou tendo só uma eleição em 1966, depois não teve mais. Mas, para fazer Jornalismo nada havia sido alterado. Nada, nada, nada. A pauta tinha mudado alguma coisa com a inclusão de assuntos militares e sobre a repressão, mas não havia mudado muita coisa. Em 1968, no dia em que nós ouvimos pelo rádio, na Hora do Brasil, a leitura do AI-5, a gente tinha na redação uma conexão direta com a rádio Jornal do Brasil, que era ouvida direto na redação, com vários alto-falantes instalados. Quando ouvimos a notícia sobre o AI-5, a redação toda parou e pensamos “esse negócio aí é sério, agora vem a censura!”. E cerca de uma hora depois da edição da Hora do Brasil, alguém liga da portaria do prédio dizendo que tinham chegado alguns militares fardados para falar comigo, se não me engano eram cinco majores. Eu era o editor-chefe do jornal, eu os recebi, os coloquei na sala de reuniões e pedi para trazerem água, ou qualquer coisa assim. Subi para a direção do jornal e disse “olha, tem um fato novo e eu acho que agora nós temos uma obrigação, parece que isso vai durar muito tempo, temos uma censura instalada aqui, pelo menos uma vez, e tem que ser amanhã, precisamos avisar ao leitor que estamos sob censura, basta uma vez só; e não pode ser depois de amanhã, tem que ser amanhã, depois de amanhã a gente não sabe o que é que vai acontecer”. Aí o Nascimento Brito me falou “Dines, se você assumir a responsabilidade desse ato, você faz, mas faça do seu jeito.” Respondi “deixa comigo!” Desci, e os caras continuaram sentados na minha sala, na mesa de reuniões. Foram solicitadas as provas de páginas para eles verem, e nós as trouxemos, eles viram e começaram “corta isso, corta aquilo”. Mas, lá embaixo, a gente refez o jornal, que nessa época era feito na oficina, hoje em dia é diferente. O jornal era montado no chumbo e na oficina. Para o nosso secretário gráfico, que ficava na oficina, a gente disse “olha, deixa isso aqui, mantém aquilo ali”. Foi feito um outro jornal lá embaixo. O resultado foi que a edição que a gente fez foi para avisar o leitor, uma edição até muito estranha.

Por que, foi muito metafórica?

Dines – Sim, metafórica. Toda ela era cheia de coisa do tempo. Eu me lembro a quem eu pedi para redigir, e ele a fez como eu pedi, tudo cheio de malícia. O jornal rodou muito tarde porque eles atrasaram, eles viram as provas finais e foram embora para casa.

Tem uma foto do Garrincha sendo expulso de campo, não é?

Dines – Sim, também teve essa foto. Fizemos tudo para dizer ao leitor “preste atenção, alguma coisa aconteceu”. A manchete eles mantiveram, porque era uma manchete noticiosa, algo como “Instalada ... o AI-5 muda ...”, eu não me lembro bem qual foi a manchete, mas era noticiosa e eles a deixaram como estava. O resto todo nós fomos fazendo a despeito deles. No dia seguinte, eles tiveram um choque. Devem ter levado uma bronca do comandante deles porque eles chegaram furiosos na minha sala. Eu quase me atraquei com um deles, um gaúcho, porque ele me disse “você me fez de palhaço!” e eu respondi “você me chama de senhor, porque você está aqui como meu hóspede” e partimos um para agredir o outro, aí um segurou aqui, um outro segurou ali, dessa vez eles eram sete e não cinco. Eles perceberam como é que podiam controlar o jornal: controlavam onde eu estava, na redação, e lá embaixo, na gráfica. Essa foi a capa a qual você se referiu. Em janeiro, o jornal e os demais jornais brasileiros deram uma recuada, passaram a admitir a censura, e a autocensura. Infelizmente, na noite em que isso ocorreu, eu estava preso, e acho que há uma relação de causa e efeito entre eu estar preso e nesta noite o jornal ter sido feito sem censores, mas já dentro do espírito da autocensura. Eu não posso acusar ninguém, mas tenho essa impressão. Foi muita coincidência e, na vida, diante das coincidências, a gente deve sempre examinar bem. Mas, o jornal passou a desenvolver a autocensura, o Jornal do Brasil e todos os outros, inclusive o Estado de S. Paulo, só mais tarde é que eles começaram a botar o Camões e as receitas. Sobre a outra capa que você mencionou, a de 1973, aconteceu o seguinte: nós tínhamos fechado o jornal com a matéria sobre o golpe militar e a morte do Allende. Fui para casa, naquela época já tínhamos uma equipe grande, um chefe de redação e dois subsecretários, o que significava que eu já não precisava ficar no jornal até a meia-noite ou uma hora, às nove e meia ou dez horas eu já estava em casa. Eis que me telefonaram do Jornal do Brasil dizendo “Dines, chegou uma ordem dizendo que o golpe do Chile e a morte do Allende não podem ser manchete.” Tinha sido criada uma rotina, o inspetor da Polícia Federal telefonava dizendo o que era proibido e o que era passível de publicação. Nós criamos uma coleção de ordens da censura, porque eram tantas, que eu pensei “vamos botar isso no papel”. Esse é um material muito precioso, eu tenho uma cópia dele. É o retrato da censura de 1971, 1972 e 1973. Veio a ordem de um inspetor, não me lembro o seu nome, acho que era Borges, dizendo que o Allende não podia dar manchete. Pode noticiar mas não pode dar manchete. Eu fiquei muito chateado, tínhamos armado uma página bonita, o Jornal do Brasil sempre foi um jornal muito bonito, eu falei “não, eu vou e vou voltar”. Voltei para o jornal, e falei “não pode dar manchete? Então está bom, vamos fazer um jornal sem manchete, mas vamos fazer um negócio tão forte que seja a própria manchete”. Aí eu decidi “vamos fazer uma matéria com a história toda em letras grandes e em três colunas”. Aí o nosso diagramador, que era o Carlos Avelar, se não me engano, fez aquele trabalho brilhante que foi de um impacto brutal. De novo, coincidência ou não, três meses depois eu fui demitido do Jornal do Brasil.

Quando é que você teve a idéia de criar o Observatório da Imprensa?

Dines – Foi de estalo. Eu sempre me preocupei em discutir Jornalismo. Quando eu cheguei no Jornal do Brasil em 1962, no ano seguinte, em 1963, já com 10 ou 11 anos de profissão, eu aceitei dar aulas na PUC. Isso porque eu achava que para mim era importante sistematizar a minha experiência e eu realmente tinha uma experiência para passar para as novas gerações também. Aceitei, e durante esses anos todos, de 1963 até 1973, mais ou menos, eu fui professor da PUC do Rio de Janeiro. Criei uma cadeira, Jornalismo Comparado, que ainda não existia. E era importante para mim, era a forma que eu tinha de estudar, sobretudo levando em consideração que eu não tinha uma formação e uma educação formal. Com a minha saída do Jornal do Brasil, as portas se fecharam imediatamente. Antes, pelo menos uma vez por mês, eu tinha algum grande dono de jornal me convidando para sair do Jornal do Brasil e para ir dirigir jornais, revistas e tudo. De repente, fechou-se tudo. Eu pensei “vou ter que me virar, pode ser até que tenha que mudar de profissão; então, eu vou escrever um livro contando o que foi essa experiência do Jornal do Brasil, contando o que for possível contar”. Havia uma crise de papel, vivíamos a guerra do petróleo, no Golfo, houve uma alta de preços geral e os jornais estavam começando a tomar medidas restritivas de espaço. Eu pensei em aproveitar essa ocasião e em fazer um pacote onde poderia colocar as minhas idéias sobre Jornalismo no papel. Eu saí do JB em dezembro, em janeiro, fevereiro e março eu escrevi O papel do jornal. O curioso foi o seguinte: eu tirei esse título do meu último artigo no Caderno de Jornalismo. O último artigo que eu havia escrito era um jogo de palavras que começava assim “O papel do jornal e o jornal do papel”, o jornal é feito de papel e por aí eu seguia começando uma discussão sobre como é que tinha que se fazer o jornal diante dessa crise econômica. Ele não podia perder qualidade mas tinha que ser mais substancioso, mais seletivo, mais contextualizado, em suma, era a continuação de todas as minhas idéias. O título eu não consigo me lembrar, mas era algo semelhante. Para fazer o título do livro, não dá para usar esta frase tão grande, em uma revista, você pode. Aí eu peguei só a primeira parte do título e lancei o livro O papel do jornal. Eu pensei que ia ser um livro que não ia passar da primeira edição, já saiu a sétima, e eu já quis parar esse livro pois ele está inteiramente superado, pelas realidades tecnológicas, e o editor diz “não, enquanto tiver gente comprando, a gente tem que manter o livro vivo”. Mas esse livro foi importante pois foi a partir dele que começou a ser sistematizada a minha visão crítica sobre a imprensa. Na verdade, eu diria que foi no artigo e não no livro que deu início a sistematização dessa visão crítica. No entanto, o artigo não saiu pois a direção do Jornal do Brasil, ao me demitir, acabou com os Cadernos de Jornalismo. Alguém tinha lido e não tinha gostado. Foi por isso que eu pude aproveitar o título e o contexto para o livro.

E essa sua experiência de professor foi além da PUC?

Dines – Bom, quando as coisas se fecharam para mim, amigos da Universidade de Columbia, aos quais eu era muito chegado, souberam que eu estava impedido de trabalhar no Brasil em uma espécie de exílio profissional. Então, chegou um convite para eu ser professor visitante na Universidade de Columbia, eu aceitei e fui para os Estados Unidos. Essa foi uma outra experiência extraordinária, foi no período imediatamente após o Watergate, quando a mídia começou a discutir a si própria, quando eu vi pela primeira vez esta expressão media criticism, era no ambiente acadêmico que se discutia a mídia. Os jornais estavam discutindo os métodos empregados na investigação do Watergate, deep throat, a compra de depoimentos, o pagamento para um ex-juiz escrever, era o que eles chamam de “Jornalismo de talão de cheques”, você compra um depoimento de alguém que esteve, teve uma função pública. Criou-se uma celeuma, porque é realmente uma grande falta de ética. Em suma, aquilo mexeu comigo, porque eu, seis meses antes, tinha escrito o meu livro crítico. Crítico e muito intuitivo. No fim do meu contrato, eu não sabia o que ia fazer, foi então que apareceu o Cláudio Abramo, um famoso jornalista de São Paulo, e muito inventivo. Ele foi aos Estados Unidos e me disse “olha, a Folha está mudando, o jornal é uma grande empresa e expandiu-se, mas não tem o que ler, mas, agora o dono do jornal quer fazer um jornal para ser lido. Então, se você voltar ao Brasil e voltar para o Jornalismo, você me procura, porque eu acho que a gente pode conversar”. Evidentemente, eu decidi voltar. Não queria ficar no exterior e também tinha problemas familiares, eu estava lá sozinho, o meu casamento já estava bem atrapalhado e eu resolvi voltar. Com quatro filhos pequenos, eu tinha que ficar perto deles, voltei para o Brasil e, imediatamente, liguei para o Cláudio Abramo. Fui falar com ele e com o Frias em São Paulo. Imediatamente, o Frias me convidou para ser o chefe do bureau, o chefe da sucursal da Folha no Rio de Janeiro. Além disso, ele queria que eu escrevesse uma folha diária sobre política. Coisa que eu nunca havia feito, eu era um editor, mandava fazer, minhas melhores idéias eu mandava fazer. Poucas vezes eu fiz reportagem, em geral quando viajei, então fiz várias matérias grandes, mas não era habitual.

E como foi trabalhar como colunista?

Dines – Na Folha, queriam que eu fizesse uma coluna diária de política, para pôr uma coluna diária era preciso ter uma página e o jornal não tinha uma página de opinião e isso era muito importante. A Folha não tinha artigos, com exceção de um, um colunista de Brasília cujo artigo saía em páginas variadas, dependendo da paginação do jornal. Já que eu ia sair todo dia, o jornal tinha que ter uma página de opinião porque um jornal sem opinião não existe. Quando eu conversei sobre isso com o Frias, eu reparei que os olhos do Cláudio Abramo brilhavam, já que essa era uma antiga idéia dele. Sobretudo, nós estávamos em um período em que a ditadura começava a falar em distensão, então o Frias concordou. Eu fui com o Cláudio na paginação, além de um brilhante jornalista ele era um grande desenhista, era artista plástico. Bem, ele desenhou uma página, eu acabei dando uns palpites, e então comecei. Quando eu acertei com o Frias, salário e essas coisas, eu combinei o seguinte “eu quero fazer uma coisa no jornal e você não vai me pagar um tostão a mais. Você vai me dar duas colunas de alto a baixo na segunda-feira, no segundo caderno, onde eu quero fazer uma coluna para discutir a imprensa.” Não se falava em mídia naquela época. Ele me advertiu “não se meta nisso, você só vai ganhar inimizades, não faça isso, eu quero te poupar”. E eu falei “me deixa fazer, se houver problema eu paro”. E ele “olha, eu te avisei!”. E, qual não foi a minha surpresa quando eu mandei a primeira coluna, o Cláudio Abramo convenceu o Frias falando “não, isso não pode ficar no segundo caderno e na segunda-feira, esse é o pior dia, isso vai ficar no primeiro caderno, na página seis”. E lançou o Jornal dos Jornais. O título eu já tinha na minha cabeça, era algo até mais amplo do que é o ombudsman, que é na mesma página seis até hoje.

A figura do ombudsman nos jornais é coisa recente, não é mesmo?

Dines – Sim, nem o conceito e nem a palavra existiam. E por aí foi, eu faço a minha autocrítica, cometi erros, eventualmente até injustiças, mas eu estava ali cobrando da imprensa o que ela estava deixando de cobrir em um período de autocensura. Fiz cobranças, como quando da morte da Zuzu Angel, que ninguém deu, eu falei “escuta, morreu uma mulher famosa e ninguém está noticiando! Por quê? O que é isso?” E foi assim em todas as edições. Antes do Wladimir Herzog morrer, eu já estava denunciando que ele estava sendo perseguido por um jornaleco de São Paulo, ligado à Polícia. Isso chegou a repercutir, teve uma grande importância. Em 1977, o jornal foi obrigado a retroceder porque o governo militar deu um aperto na Folha. O Frias, provavelmente, aceitou a sugestão das autoridades e acabou com essa seção. Eu continuei no jornal, escrevendo minha coluna política, às vezes, eu escrevia sobre jornal, algumas vezes, mas quase sempre escrevia sobre política mesmo. Fiquei na Folha até 1980. Neste ano, ocorreu um incidente entre o jornal e eu, não quiseram publicar um artigo meu sobre o Maluf e eu saí do jornal.

A coluna Jornal dos Jornais foi depois para O Pasquim, não é?

Dines – Exatamente, e essa história foi o pivô da minha saída da Folha. O Pasquim já estava sofrendo um pouco as injunções da perseguição política, e eu era muito amigo do Ziraldo e do Jaguar. O Ziraldo trabalhou comigo no JB, o Jaguar, na Manchete. Eles me convidaram para colaborar com o jornal, e eu topei. Quando o meu primeiro artigo sobre o Maluf foi vetado, eu liguei para o Ziraldo e combinei de fazer uma seção chamada Jornal da Cesta, que reuniria tudo o que não era publicado, e decidimos imitar o layout da minha coluna diária. Em cima vinha o título Jornal da Cesta. A essa altura, eu já tinha feito três artigos que tinham sido recusados pela Folha, sobre o mesmo assunto, Paulo Maluf. Quando alguém da direção da Folha, o Boris Casoy era o diretor, viu a brincadeira que eu havia feito com a minha própria coluna em O Pasquim, mandou me demitir. Eu aproveitei o FGTS para desenvolver um velho projeto e aí eu remonto à escola onde estudei em Vila Isabel – eu resolvi fazer a biografia do escritor que foi visitar a minha escola quando eu tinha 10 anos, o Stefan Zweig. Ele havia se suicidado no Brasil e inventado o mito do “país do futuro”. Eu escrevi Morte no Paraíso e estou agora, vinte anos depois, reescrevendo a sua história. E assim fecha-se o capítulo Folha.

Você acha importante para o jornalista a experiência como biógrafo?

Dines – Para mim foi extremamente importante, e não significou um corte na minha carreira, eu não interrompi a minha atividade jornalística, eu continuei através de um gênero da historiografia que é a biografia. No Brasil daquela época, esse gênero era quase desprezado. Havia alguns acadêmicos como o Luiz Viana e o Raimundo Magalhães que faziam biografias, mas as novas gerações achavam o gênero antiquado e não se dedicavam a ele. Já eu, vi na biografia uma forma de dar continuidade ao meu trabalho de jornalista, uma chance de crescer e sobretudo, de navegar pela historiografia. Esse foi um trabalho extremamente prazeroso e enriquecedor, e trabalhei sozinho um ano e pouco, depois o pessoal de O Pasquim praticamente me convocou para assumir a edição do jornal, porque ele estava em uma situação ruim. Mas essa função me tomava só um dia por semana, e dava para fazer tranqüilamente, mas foi uma experiência muito interessante. Depois de Morte no Paraíso, e já que eu não tinha meios de trabalhar aqui no Rio de Janeiro em função do rancor que os jornalistas tinham por mim devido ao fato de eu ter ousado criticá-los através do Jornal dos Jornais, a Editora Abril de São Paulo me convidou a dar uma assessoria para eles uma vez por semana, depois dois dias por semana, depois três até que comecei a passar a semana inteira lá. Eu me liguei na Abril, em uma função extremamente criativa, através das publicações da Editora. Fizemos algumas coisas interessantes, o primeiro curso de estagiários em Jornalismo foi feito pela Editora Abril, em 1983 se não me falha a memória. Fizemos muitas coisas no campo da formação profissional, na área de coordenação de revistas, eu realizava um trabalho de bastidor, mas era bastante interessante. Contudo, a sementinha da biografia estava lançada, da biografia e também da historiografia. Eu queria fazer uma outra biografia, mas só de uma personagem em especial, que embora nascido no Brasil, tinha crescido, vivido e morrido assassinado em Lisboa – Antonio José da Silva, conhecido como o Judeu. Ele fora autor de comédias e foi pego pela Inquisição e morto no século XVIII. Eu queria fazer essa biografia porque não havia nada sistematizado sobre ele. Comecei a ler tudo a respeito, tive acesso a uma bibliografia vastíssima, mas achei que, enquanto eu não fosse para Lisboa, enquanto não sentasse no arquivo da Torre do Tombo e começasse a pegar as fontes primárias, eu não ia fazer um trabalho novo. Podia ser até um trabalho inteligente, mas novo só colocando a mão na poeira; sem colocar a mão na poeira você não faz um trabalho de pesquisa historiográfica verdadeiro e decente. Então eu resolvi ir para Portugal.

Como foi possível realizar essa viagem?

Dines – Bem, eu fiz um projeto para a Fundação Vitae e consegui um pequeno estipêndio que me daria para viver, com a minha mulher, um ano em Lisboa. Eu pensei que em um ano eu poderia fazer a pesquisa toda e talvez até escrever o livro e voltar. Acontece que, quando eu tomei contato com aquele material fabuloso, eu descobri a maravilhosa sensação que deve ter o mergulhador: quanto mais ele vai descendo, mais ele vai vendo coisas bonitas e então ele esquece de voltar e morre. Foi um pouco assim comigo, só que eu não morri. Eu comecei a me meter no passado e descobri cada vez documentos mais preciosos do que o anterior, que eu não conseguia parar, eu não conseguia me controlar e dizer “bem, vou parar por aqui”. Creio que aí funcionou mais o lado jornalista e menos o acadêmico. Eu pensava “eu tenho que continuar”. Embora eu não seja religioso, pelo contrário, eu sou agnóstico, alguma coisa providencial aconteceu comigo. Eu estava com uma brutal vontade de continuar em Portugal, e aconteceu a Editora Abril, com quem eu tinha excelentes vínculos profissionais me consultou sobre a possibilidade de eu continuar em Portugal para lançar as revistas dela no país. Queriam lançar revistas de bom nível, até então só tinha as da Disney, essas revistinhas infantis, e queriam entrar na linha adulta. Resumindo, eu continuei em Lisboa e em vez de um ano quase cheguei a completar oito de Lisboa.

Isso chegou a fazer com que você se desligasse do Brasil?

Dines – Não, eu nunca perdi de vista o jornalismo brasileiro e o meu senso crítico. Porque de longe, eu lia os jornais brasileiros praticamente todos os dias, eu podia ver mais claramente que alguma coisa séria estava acontecendo com a imprensa brasileira. E eu fico muito feliz com a minha capacidade de perceber isso, porque foi durante os anos 90, que foram os mais desastrosos para o jornalismo brasileiro. Ninguém ainda sentou para escrever o que foram esses famigerados anos 90. Foi quando a Folha começou a fazer as maiores loucuras, quando a idéia do marketing tomou conta da mentalidade jornalística, o bom jornalista era aquele que conhecia marketing, as piores coisas que podem acontecer em um jornal estavam acontecendo em todos os jornais do Brasil. E todos se tornaram iguais, pela influência de consultores que atendiam aos mesmos jornais, em resumo, aconteceu na imprensa brasileira uma coisa desastrosa. Eu vinha muito ao Brasil e um dia, em uma dessas vindas, até por um problema de saúde, eu tive a idéia, conversando com amigos jornalistas, “temos que fazer um centro de estudos, para discutir o Jornalismo, porque assim não pode continuar”. Não vou contar os detalhes, mas sei que eu fui parar nas mãos do reitor da Universidade de Campinas, Carlos Vogt. Aqui, é importante registrar o seguinte: a Universidade de Campinas (Unicamp), nunca teve escola de graduação em Jornalismo, sempre se recusou. Colocava o Jornalismo e a Comunicação em Pós-graduação. E aí tinha uma curiosidade. Em 1985, quando eu ainda estava morando em São Paulo e trabalhando na Editora Abril, o Cláudio Abramo, muito infeliz na Folha, porque tinham encostado ele, me perguntou se eu não queria ajudá-lo a montar um projeto para a Unicamp de Pós-graduação, o Paulo Renato, ministro da educação do governo Fernando Henrique Cardoso, era o reitor da universidade naquele período e queria fazer um curso de Pós-graduação em Comunicação e havia chamado o Cláudio Abramo para conversar. O Cláudio não tinha paciência para ir lá todo dia ou mesmo uma vez por semana, ele não era dado a isso, ele era um jornalista e gostava de ensinar, mas não era um professor. Nós conversamos e ele perguntou “você quer bolar o negócio?” Então, eu comecei a pensar o que seria uma Pós-graduação em Jornalismo e infelizmente, nessa ocasião, Cláudio Abramo faleceu. Isso foi em 1985 ou 1986. Bem, durante os anos 90, mais precisamente em 1993, estou eu de volta à Unicamp, com o reitor que sucedeu o Paulo Renato, o Carlos Vogt, e disse “escuta, vamos criar um centro de estudos na universidade, uma área de estudos avançados” – até me lembrei da Universidade de Princeton e do Centro de Estudos Avançados que o Einstein tinha criado durante a guerra – “para discutir, para tentar ampliar a visão sobre o Jornalismo ou alguma coisa por aí”, e ele achou formidável. Ele conhecia os projetos de seu antecessor e, então, lançamos o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), eu ainda em Portugal, mas vim para o lançamento. Foi um grande evento. Fizemos vários cursos: Jornalismo e Medicina, Jornalismo Esportivo, Jornalismo no Cinema. Foram feitas várias coisas, mas sempre cursos restritos e limitados. E eu, ainda em Portugal. Quando eu voltei para o Brasil, em 1995, eu achei que agora dava para entrar de corpo e alma – eu morava em São Paulo – no Labjor. Por coincidência, e isso eu tenho que citar para fazer justiça, fui sondado por amigos portugueses, muito bons jornalistas, que hoje são quase meus irmãos, sobre a criação de uma modalidade qualquer para discutir a imprensa. Falei “maravilhosa coincidência! Eu acabo de lançar no Brasil o Labjor, um laboratório que funciona assim e tal. Podemos fazer um em Lisboa e depois a gente faz a conexão entre os dois.” Eles acharam a idéia excelente mas eles não queriam ter o mesmo nome. Aí entra o orgulho português. “Em Portugal não vai ser laboratório”, falou o Joaquim Vieira “será observatório, Observatório da Imprensa”. Eu achei uma grande idéia. Então, constituímos uma sociedade da qual eu sou fundador, ela existe até hoje, tem vida própria e fizemos lá algumas coisas, depois fizemos coisas conjuntas como um congresso de Jornalismo em Quito. O Labjor decolou, fizemos cursos de extensão na UERJ, curso de Mestrado e outros projetos.

E o programa de TV, como surgiu?

Dines – A coisa começou muito bem lá e eu pensei que estava faltando uma atuação junto à sociedade. Porque quando eu, no memorando que eu mandei para o Vogt, dizia “nós vamos atuar em três frentes: na frente acadêmica, que é a da formação, vamos atuar dentro da universidade; na frente do mercado, junto às empresas e a outras instituições; e junto à sociedade também, para lembrá-la de exigir mais dos seus veículos de comunicação.” Em três frentes de trabalho estávamos realizando duas. Faltava a terceira. Tínhamos que fazer alguma coisa. As idéias começaram a surgir, fazer uma revista? Custa caro e não tínhamos dinheiro para isso. Até que um colega nosso carioca que trabalhou comigo no Jornal do Brasil e que estava morando em São Paulo, o Mauro Malin, que, por coincidência, estava na Unicamp, fazendo um trabalho específico, no Núcleo de Estudos Estratégicos, deu a idéia da internet. Então, vamos fazer na rede, ela estava começando. Isso era em 1995 ou 1996, era o início mesmo. Eu mal sabia exatamente o que era, já tinha visto alguma coisa , mas não sabia de suas possibilidades. Mas, começamos a fazer porque não tínhamos despesa. Ao escolher o nome me ocorreu Observatório da Imprensa. Liguei para Lisboa e eles, evidentemente, nos autorizaram a utilizar o nome e foi assim que nós criamos o Observatório da Imprensa, ainda na internet. Ele existia sem periodicidade, depois passou a ser quinzenal e agora é semanal. Dois anos depois, em 1997, em São Paulo, fui procurado por um jornalista paulista que estava no Rio, era o diretor de Jornalismo da TVE, o Alexandre Machado. E ele me propôs “você não quer fazer um programa para a TV, algo parecido com esse negócio que você faz na internet, isso é muito bom!”. Eu topei na hora, a única coisa é que eu exigia era que se chamasse Observatório da Imprensa, porque eu queria ligar uma coisa com a outra. Fazer a interatividade, expressão que se usava na época. Demorou um pouco até que em maio de 1998, nós começamos o Observatório da Imprensa e até agora estamos no ar com o programa. Hoje, o programa é uma instituição. O conceito foi lançado, e o conceito é de que a crítica da mídia só se legitima quando ela é feita voltada para o público que consome a informação, para o cidadão que lê, que precisa ser informado corretamente. Porque, caso contrário, vira conversa de botequim entre profissionais.

E você acha que o leitor realmente começou a ler o jornal diferente?

Dines – Esse é o slogan do programa, e ele surgiu em um papo informal. A gente ia para Campinas uma vez por semana, nós íamos num carro só, o meu, por ser o único que tinha ar condicionado. Íamos falando por duas horas na ida e duas horas na volta, era um brainstorming fantástico. Numa dessas viagens, o Mauro Malin disse sobre o programa que um amigo seu havia dito uma frase genial: eu nunca mais vou ler jornal do mesmo jeito!. Imediatamente eu disse para o Mauro “é o nosso slogan”. Porque era exatamente isso o que nós queríamos. Criar o ceticismo criativo, quer dizer, fazer com que o leitor ficasse com o pé atrás, soubesse exigir do jornal, para não ser induzido por ele e sim aprender a cobrar posições e opiniões dele. Isso é fundamental, essa é a diferença. E isso não se faz com facilidade, até hoje é muito raro, poucos são os países que o estão fazendo. Os Estados Unidos têm o Media Watching, mas é voltado para o círculo profissional e acadêmico. Na França, descobri agora em um seminário em Lisboa, organizado pelo Observatório de lá, um francês que tem um programa que discute a televisão na televisão, discute criticamente. É realizado pelo Daniel Schneiderman, ele é tradutor de livros, um rapaz jovem e muito interessante. Mas ele faz isso há pouco tempo e só para a televisão, ele não discute a mídia impressa. No Brasil, nós discutimos mais esse tipo de mídia porque, para mim, ela é a que dá sustentação ao resto. Ela é que fica, ela é a referência histórica, ela dá a densidade para os formadores de opinião, ela tem um registro. Enfim, eu acho que nós conseguimos alguma coisa, porque é um conceito que já existe pela repetição. Eu estou cansado de ser parado na rua para ouvir “olha, eu nunca mais vou ler jornal do mesmo jeito.” O Observatório é um programa para pessoas de todas as idades, evidentemente, não é um programa popular, mas é um programa que faz pensar. Faz refletir sobre a mídia, e é isso o que nós queremos, não fazer pensar sobre a estética, sobre a arte, sobre a cultura, sobre a política, a economia, fazer pensar sobre a imprensa.

Como é que se formou a equipe do Observatório na TV?

Dines – A da TV foi basicamente fornecida pela TVE, como sempre, eu nunca levo equipes prontas, eu acho bom usar a prata da casa. Trocamos duas ou três vezes equipe, até de apresentadora, agora, eu acho que já estamos fechados. A única pessoa que eu levei foi o Augusto Nunes que estava meio afastado da profissão, então, como o programa é feito no Rio, ele aparecia como o interlocutor de São Paulo. Isso durou os primeiros seis ou oito meses no programa, ele vinha toda semana e participava. A experiência é essa, mas na verdade tudo começa nos Cadernos de Jornalismo. O artigo que foi o primeiro no Cadernos de Jornalismo virou um livro, o livro gerou toda uma atitude crítica minha, o Jornal dos Jornais, o Jornal da Cesta de O Pasquim, há um encadeamento que faz bastante sentido, pelo menos para mim, quando olho para trás. Quando eu estava em Portugal, eu colaborei com a revista Imprensa, na fase em que ela era uma revista de imprensa mesmo, eu colaborei e até criei uma seção o Circo da Notícia, que nós utilizamos até hoje no Observatório. Eu me lembro que na edição de número um, eu fiz a árvore genealógica do circo da notícia. Então, começando uma brincadeira genealógica, sabe, uma árvore, que começava com o Caderno de Jornalismo e ia botando todas essas minhas vicissitudes, para fazer uma conexão entre uma coisa e outra.

Você faz o Observatório da Imprensa criticando a mídia e você escreve no Jornal do Brasil, como funciona a sua relação com os veículos de imprensa? Você ainda cria inimizades em função disso?

Dines – Não, eu acho que as relações são boas. Quer dizer, há sempre algumas inimizades, portas que são fechadas pelas coisas que a gente diz e que eu, sobretudo, digo, há no Brasil uma coisa de “vendetismo”, não é? Quer dizer, do italiano “vendeta”, vingança, revanchismo, isso há. Certos jornais adorariam republicar o meu artigo e não o fazem porque eu já os desagradei um dia. Mas, de uma forma geral, há uma abertura. Há pouco tempo, e eu estou me referindo ao programa do dia 20 de agosto de 2002, participou Ali Kamel, da TV Globo, e depois ele entrou com o telefone para se corrigir e até criticar o repórter que o entrevistou, o que é legítimo da parte dele, embora não muito ético. Mas, de qualquer forma, entra. Nós estamos fazendo um programa inteiro sobre a Folha de S. Paulo, com todas as brigas que eu tive, já fui demitido de lá tantas vezes... Mas nesse programa sobre a Folha, tem uma entrevista com o Otávio Frias de Oliveira, o pai, e quem foi fazer fui eu, no prédio do jornal mesmo e eles tiveram que engolir o Observatório da Imprensa, essa é a grande verdade. Não a mim, mas à idéia. Há alguns anos atrás, no ano de 1998, eu fui convidado para um seminário no BNDES, organizado pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Veloso. Ele realiza um fórum anual, um negócio sério, porque ele é muito aplicado e muito profundo. E, no décimo aniversário desse fórum, ele resolveu discutir a mídia e me convidou. O programa já tinha começado e chamou todos os donos ou representantes das empresas jornalísticas e os críticos: eu e o Artur da Távola, então senador, que é um crítico, um grande observador da mídia, com uma profundidade extraordinária. E foi curioso o que cada um dos representantes das empresas falou, pessoas de altíssimo nível. E eu comecei a ouvir eles falarem – isso em 1998 – e eu me lembrava do que eu escrevia em 1975, no Jornal dos Jornais, só que agora eu estava ouvindo as mesmas coisas ditas pelos donos das empresas. Quer dizer, no espaço de tempo entre 1975 e 1998, aquilo que era marginal e que era subversivo tinha sido incorporado ao olhar crítico dos próprios representantes das empresas. E eu, quando eu fui falar, eu disse “olha, estou tendo nesse momento uma das maiores alegrias da minha vida, ouvir vocês que foram os criticados, incorporando as críticas que eu fiz há tantos anos atrás”. Então, essas coisas vão ficando. Hoje, há uma noção no Brasil, pelo menos na classe dirigente, de que a imprensa tem que ser observada, como a política, como a magistratura, como a academia.

Você é um jornalista que se preocupa com a pesquisa e com o estudo da História. Qual a importância que você vê nisso na formação dos jornalistas?

Dines – É definitivo. Eu acho que o jornalista tem que ter a formação do historiador. Só que ele, o ritmo dele vai ser diferente e a metodologia também. Mas, a atitude perante os fatos é a mesma. Eu acho que todo jornalista tinha que, em algum momento, fazer um trabalho de pesquisa histórica. Para ele sentir, inclusive, as diferenças, para ele, inclusive, saber que o que ele está escrevendo no jornal vai ficar, vai ser consultado daqui a trinta anos como referência histórica. Quero só terminar isso para prestar uma homenagem ao pai da imprensa brasileira porque ele teve essa percepção. O Hipólito da Costa não foi apenas o primeiro jornalista brasileiro, ele foi o primeiro jornalista brasileiro que preparou o seu veículo para ser uma referência histórica. Ele organizou de tal forma o Correio Braziliense, que nós estamos reeditando agora, que ele virou uma referência do período extraordinária, pelo menos durante os quatorze anos em que ele o editou. Não é só uma referência do que se passava no Brasil, ou em Londres, referência mundial. Era a visão de um brasileiro, como ele via o Napoleão, como ele via a Catarina II, como ele via o mundo. Nós estamos trabalhando já no 15º volume, agora falta pouco para acabar e quando eu leio, eu penso “meu Deus, que material fantástico tem aí!”. O que é que ele fez? Ele fez Jornalismo e História. E organizou com índice. Uma preciosidade. Esse é o padrão de Jornalismo que ele criou para nós e que podemos utilizar duzentos anos depois ou quase duzentos anos depois.

Você é judeu e tem uma trajetória ligada aos temas da cultura judaica, como você analisa a cobertura que tem sido feita do conflito entre Israel e Palestina?

Dines – Há desconfortos de ambos os lados. Aliás, esse é o primeiro conflito mundial em que a observação da mídia faz parte do conflito. Há grupos na Europa e nos Estados Unidos que olham, examinam a imprensa, seja com o olhar de Israel ou seja com o olhar árabe. E é muito curioso. Até já propus que alguém pegasse o mesmo fato e visse como é que um grupo observa e como o grupo oposto observa. Hoje, a observação do conflito passa pela observação da mídia, porque a mídia faz parte do conflito. Na era da informação, evidentemente ela é uma arma. Então, você tem descontentamentos de um lado e de outro e eu acho que a minha preocupação não é essa. Esse é um problema dramático, uma utopia, a de Israel, que, de certa forma, está sendo e foi desperdiçada, porque surgiu como uma idéia de gente, que eu seria um desses que largou tudo para trabalhar na terra, não é, e hoje virou algo que não tem quase nada a ver com o projeto inicial. E, por outro lado, metade dos árabes que não querem aceitar a presença daqueles que conviveram com eles por tanto tempo. Bom, então, esse é o conflito e eu não tenho a dizer sobre ele na mídia. Acho apenas que a mídia, mas isso ela faz em todos os campos, não consegue ser imparcial. Ou ela puxa para cá ou ela puxa para lá. Hoje mesmo, eu vi em O Globo um artigo de um jornalista que voltou de Israel agora, e, evidentemente, que é parcial. E, amanhã, se for um palestino que for lá, vai escrever também de forma parcial. Quer dizer, não se consegue ainda. O jornalista ainda – e, sobretudo, vê-se aqui – ele ainda torce por um time. E eu acho que chegamos em um momento em que os times estão tão indistintos, inclusive na sucessão presidencial, é tudo praticamente a mesma coisa com outras caras. Isso vai fazer parte da nossa vida daqui pra frente. O mundo vai ser muito homogeneizado, as diferenças serão muito sutis. Então, o jornalista tem que se preparar para isso, para ele saber que não é preto e branco. Na Segunda Guerra Mundial era preto e branco. Ou você era nazi-fascista ou você não era nazi-fascista. Podia ser comunista ou podia ser democrata, mas você era anti-nazi-fascista, isso era muito claro. Daí pra frente as coisas foram ficando tênues e hoje a tendência é ficar mais tênue ainda, mais homogêneo, porque um não se adapta ao outro. Então, o jornalista tem que saber se preparar para distinguir as coisas. E ele não pode ser preto ou branco. Ele tem que ser as duas coisas, preto e branco.

Fonte: www.uerj.br