Texto de
Arnaldo Grizzo Filho e Gustavo Schor
(alunos de Jornalismo - ECA/USP)
Observatório
da Imprensa: "O ápice do meu trabalho"
Algumas
bancas de jornais permaneciam abertas na Vila Madalena e as luminárias
começavam a acender. O trânsito caótico virou doença
crônica da cidade de São Paulo, mas às seis e meia
da tarde é infernal. Isso incomoda muito mais quando se está
nervoso, cheio de insegurança e com medo de perder a hora.
Um Gol verde estaciona em frente aos Jornalistas Associados, na rua
Laboriosa. Descem três garotos. Tensos, fumam um cigarro antes
de bater à porta. Conversam um pouco, acertam os últimos
detalhes e executam o difícil ato de tocar a campainha. Um vulto
passa pela janela da frente da casa. Abre-se a porta. "Vamos entrando".
Um senhor de cabelos grisalhos os recebe cordialmente, mas sem cerimônias,
e aponta uma sala onde estivera trabalhando ao computador. Sentam-se
e começam a tão cobiçada entrevista.
Antes,
pela manhã, contataram o senhor Alberto Dines para confirmar
o horário do encontro. O susto foi grande: "Tá tudo
errado! Esses professores não estão fazendo o trabalho
direito, mandam os alunos fazer entrevista atrás de entrevista.
Aí o jornalismo vira isso: só se reproduz o que o outro
disse. Ninguém mais fica parado num farol observando as coisas.
Estudante não me entrevista mais. Essa vai ser a última
vez. Bom, cheguem por volta das seis e meia". E lá estavam
os três, no horário combinado, sentados em frente a um
jornalista de renome. Não podiam titubear, o tempo concedido
era pouco. Logo começaram, meio engasgados, é verdade.
Mas rapidamente ficaram à vontade.
De repente
toca o telefone, pela primeira vez. Mau sinal. Dines atende e diz que
sairia em pouco tempo. Retomam a conversa. Apressam-se as perguntas.
O maldito toca novamente. Ele torna a dizer que logo sairia, que estava
terminando de dar uma entrevista. Desta vez falava com a irmã.
Faltava abordar alguns pontos. Recomeçaram. O relógio
de parede bate sete. Sete e meia. Oito. "Acho que é isso",
finaliza um dos rapazes. Como Dines mesmo diria, eles vão agora
reproduzir o discurso alheio.
Alberto
Dines, 67 anos, jornalista desde 1952, consagrou-se ao assumir,
na década de 60, a redação do Jornal do Brasil,
quando foi um dos principais responsáveis pela reforma por que
passou o jornal. Depois disso, trabalhou em outras publicações,
incluindo Folha de S. Paulo e Pasquim. Exatamente na Folha, em 1975,
depois de um ano como professor convidado na Universidade de Columbia,
nos Estados Unidos, começou a escrever o "Jornal dos Jornais".
Era a primeira coluna de crítica à imprensa no Brasil
e o início do seu trabalho em media criticism. Por que
o interesse pelo tema? Tudo depende da visão que Dines tem do
trabalho jornalístico. Para ele, o jornalista é um observador
da realidade e deve ter grande capacidade de contestação.
É um analista da sociedade, capaz de ver o que está certo
e o que não está.
Ele continua
criticando. Quem é o alvo? "O sistema". Desde os leitores
até os jornalistas. "Como os jornalistas não alteram
o sistema, os leitores podem ser incentivados a recusar o tipo de mensagem
que estão recebendo". Como esse trabalho está repercutindo?
"Muito bem. Devido ao número de inimigos que consegui...".
Quando começou, em 75, dizia coisas extremamente arrojadas para
a época. Agora virou premissa. "Você vai a um seminário
qualquer e vê jornalistas fazendo críticas à mídia,
o que seria impensável há 24 anos".
Hoje, vive o que chama de "o ápice do meu trabalho".
O Observatório da Imprensa já tem mais de três anos
na internet e, em maio, completou um ano como programa de televisão.
Dines diz que o Observatório é um espaço para reflexões.
E tem motivos reais para se gabar: ninguém tinha feito metajornalismo
com este formato ainda. O site é quinzenal, mas o programa vai
ao ar todas as terças à noite na TV Cultura.
O
Frias disse: "Você vai criar inimigos"
"É,
a gente vai aperfeiçoando... As coisas aconteceram por acaso.
Eu vim com a idéia de tentar desenvolver aquilo que tinha visto
nos Estados Unidos. Quando o Frias me convidou para trabalhar lá
(na Folha de S. Paulo), eu disse: Quero fazer mais uma coisa além
do que a gente combinou, mas não quero ganhar um tostão
a mais. Expliquei meu projeto. Ele retrucou: Isso vai te
dar problema, você vai criar muitos inimigos. Mas insisti.
O Jornal dos Jornais tinha muitos erros. Era a crítica dentro
do próprio veículo e estávamos na época
da auto-censura. Foi muito complicado. Eu estava sozinho, não
tinha acesso a todos os jornais e não via todos os noticiários
na televisão. Naquela época não havia o conceito
de ombudsman. Mas teve um efeito extraordinário. Quando o governo
fez pressão em cima da Folha, o Jornal dos Jornais foi mencionado,
ele incomodava. Eu continuei, mas em 77 a coluna acabou. O jornal não
tinha tradição e eu não estava preparado para fazer
a crítica científica. Intuitivamente fiz algumas coisas.
Aquilo era, sobretudo, uma espécie de tribuna para você
pegar o governo, pegar a censura".
Tudo isso
culminou no Observatório. A idéia surgiu a partir do Labjor,
o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp,
do qual Dines é um dos idealizadores. "O Labjor foi criado
para atuar em três frentes. Uma dentro da universidade, não
para graduar jornalistas, mas para dar cursos de pós-graduação
e especialização. A segunda atividade é voltada
ao mercado de trabalho, fazendo projetos e programas de treinamento.
O terceiro eixo, onde entra o Observatório, é a atuação
junto à sociedade. Então, escrevi um artigo e pusemos
num site. Mas era estático. Pensamos: Não, não
pode, tem que ter periodicidade. Fomos descobrindo sozinhos. Até
que eu decidi que seria quinzenal. Foi todo um processo de evolução".
"Não
ganho nada e perco dois fins de semana"
Dines
é a cara do Observatório. Quer queira, quer não,
é difícil dissociar um do outro. Mas ele diz que não
é o dono da crítica. "O Observatório é
amplo, tem cem pessoas colaborando em cada edição. Esse
é o nosso avanço. Não é personalizado, não
sou eu. Eu dou a minha opinião. Existem dez, vinte, trinta pessoas
fazendo isso também. Não há ninguém que
diga: Eu mandei um comentário e não foi publicado.
Não é publicado quando é ofensivo, ou se é
um comentário que não diz respeito à imprensa.
Isso não sai". Entretanto, no Observatório, não
se adota uma linha única? "A gente tem o maior cuidado com
a nossa postura. Nem no programa, nem no site, há uma linha.
O Observatório está aberto a todos. Quem quiser que diga
o que quiser, desde que não ofenda".
O que ainda
falta no Observatório? Para ele, só dinheiro. "Não
ganho nada e perco dois fins de semana por mês por causa do Observatório.
Só quatro pessoas recebem, e uma miséria. Deveria haver
recursos, não para que eu ganhasse, mas para chamar mais gente,
bons jornalistas que recebessem para escrever. Hoje você tem jornalistas
que estão com a mão na massa, trabalhando em jornal, sem
tempo para se dispor ao idealismo porque precisam sobreviver. Temos
dois anunciantes. No dia em que tivermos pelo menos uns quatro vai dar
para pagar as pessoas". Segundo ele a receita é simples:
"Eu precisava parar uma semana, alguns dias e sair, rodar a bolsinha
e procurar anunciante".
O subtítulo
do Observatório é "Você nunca mais vai ler
jornal do mesmo jeito". E a TV? E o rádio? "Não
teve outra forma. Você nunca mais vai ver a mídia
do mesmo jeito, não ia soar". Mas parece, realmente,
que se privilegia a análise da mídia impressa. "O
jornal impresso dá o formato da mídia. Ele é o
princípio e o fim; ele pauta e é pautado pelos outros.
Trata-se do veículo elementar. Sem dúvida, com mais dinheiro,
contrataríamos sujeitos com televisões em casa para acompanhar
todos os noticiários. Outra idéia seria desenvolver um
programa com as escolas de jornalismo, que fariam comentários
em cima da imprensa eletrônica. Mas precisaria de dinheiro para
pagar um monitor que coordenasse esse trabalho. Por enquanto, o impresso
é mais acessível. Mas também é mais importante".
"É
uma escala de valores revoltante"
Se existe
um modelo ideal de jornalismo, para ele, é o americano. "Chegam
as eleições e, no editorial, eles dizem: Vamos apoiar
o candidato tal por isso e isso. Apoiam no editorial, não
no noticiário. Aqui, os jornais manipulam". Então,
o problema é a falta de isenção? Existe ainda a
trivialidade, a inconseqüência. "É uma escala
de valores revoltante. No domingo seguinte à desvalorização
do Real a Folha deu uma chamada de primeira página dizendo: Olha,
a desvalorização vai afetar o preço dos produtos
importados, então preparem-se, porque o vinho francês e
as viagens ao exterior vão ficar mais caras. Dois exemplos
de Maria Antonieta. Eles acreditam que o leitor é um imbecil".
Um grande
problema do jornalismo não seria a empresa jornalística?
Segundo Dines, não. "O New York Times, melhor jornal do
mundo, dá lucros espetaculares". O lucro é legítimo,
permite o investimento. Entretanto, não se pode esquecer dos
pressupostos da atividade jornalística. "Um serviço
público tem compromissos com a sociedade, com a educação.
Então, o jornal tem que encontrar um meio de ganhar dinheiro
sem se envergonhar disso". Mas não fica muito fácil
cair numa postura tendenciosa e interesseira? É difícil
saber até onde vai a autocrítica e a capacidade que os
jornais têm de se envergonhar de alguma coisa.
"A
imprensa piorou. (...) É o sistema."
"Acho
que a imparcialidade não existe, mas você não
pode se esquecer de que hoje a imprensa exerce um papel político
e que deve tentar a isenção. Para isso, o importante é
criar um conjunto de opiniões diversificadas. Um jornal deve
apresentar estas opiniões e assumir na hora H. Para isso serve
o editorial. Agora, quando começa a se manifestar na manipulação
da informação, numa manchete carregada para um lado ou
para outro, aí eu acho calhorda".
Há
outros problemas. E a falta de maturidade de muitos jornalistas? Também.
"O jornalista deveria se formar e depois ir, por exemplo, para
Presidente Prudente. Trabalharia na Tribuna de Presidente Prudente como
ilustrador, repórter, fotógrafo... Depois de adquirir
experiência, viria para Ribeirão Preto. É assim
nos Estados Unidos. Você vem vindo, vem vindo, até que
chega no New York Times". Há também o ensino acadêmico
neste processo de formação profissional. "Sempre
defendi o diploma obrigatório. Entretanto, as escolas não
aproveitaram a obrigatoriedade para criar um novo padrão de jornalismo.
São um reforçador do mercado. O correto seria se contrapor
a ele, no sentido de preparar gente que viesse com disposição
de mudar". Então o diploma obrigatório não
é essencial? "Não, não é. Eu sou um
jornalista razoável e não tenho o científico. Mas
é melhor que exista a escola, desde que orientada a ajudar na
preparação desse profissional, que tem uma função
muito especial. O jornalismo é também um estado de espírito.
As escolas precisam estimular isso".
Se a crítica
existe é porque as coisas não vão bem. "A
imprensa piorou, ficaram muito visíveis as falhas. Visíveis
a olho nu". De quem deve partir a mudança? "Não
adianta querer personalizar. É o sistema. Deve vir da empresa,
do administrador, do chefe e dos profissionais".
"A
imprensa não pode dar sempre a última palavra"
"Precisa
de incrementos jurídicos". Do jeito que está
não pode ficar. A gente vê muitas aberrações
por aí. Essa história de Escola Base já cansou...
"Que seja no código penal... Sei lá, onde couber.
Isso é obrigatório, tem em todo lugar. Não sei
se deve levar o nome de lei de imprensa. O código penal, ou outro
código qualquer, deve conter mecanismos para regular a imprensa.
É claro que os donos de jornais não querem nenhum tipo
de regulamento. No mundo de hoje, a imprensa, a empresa jornalística,
está se expandindo muito rapidamente em atividades que não
são próprias do jornalismo e transformou-se em um negócio
que não era a sua finalidade".
O ombudsman,
então, não serve? "Serve e tem a maior importância".
Ele afirma que existem vários estágios. Um deles é
a ação jurídica. "Ombudsman não vai
falar em direito de resposta: Não, fulano de tal precisa
ter dois centímetros de resposta. Quem diz é o juiz.
O sistema de contra-poder começa com a sociedade discutindo a
mídia e o ombudsman fazendo a análise dentro do jornal.
Sozinho, nenhum destes elementos funciona. Necessitamos de regulamentos.
A imprensa não pode dar sempre a última palavra. Está
provado que ela não exerce uma atividade insuspeita".
Um jornalismo
coerente é possível. "Basta que o autor da matéria,
quem fez o jornal, questione se está fazendo corretamente. Ao
criar essa pergunta interior, estaremos dando um passo. Claro que tem
muita gente cínica que faz uma manchete destorcida e vai dizer
que foi correto. Mas, se analisarmos nosso trabalho de acordo com valores
éticos, as coisas podem melhorar".
"Há
um filme muito interessante", dizia ele, referindo-se a O Quarto
Poder. Mas Dines não concorda com o apelido: "Decididamente
não é. Não é mesmo. Se os jornais baseiam
todas as suas decisões nas pesquisas de opinião, o quarto
poder não é a imprensa, são os institutos de opinião
pública. Veja, não é o público, porque o
instituto pode manipular. A coisa se diluiu em prejuízo da imprensa.
Ela abriu mão de ser o quarto poder, mas ainda tem condição
de ser o quinto ou o sexto".
Fonte:
www.reescrita.jor.br