Textos sobre Dines

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Sobre o jornalista

Entrevista ao jornal da ABI - Junho 2009

Memória da imprensa carioca

 

 

Texto de Arnaldo Grizzo Filho e Gustavo Schor
(alunos de Jornalismo - ECA/USP)

Observatório da Imprensa: "O ápice do meu trabalho"

Algumas bancas de jornais permaneciam abertas na Vila Madalena e as luminárias começavam a acender. O trânsito caótico virou doença crônica da cidade de São Paulo, mas às seis e meia da tarde é infernal. Isso incomoda muito mais quando se está nervoso, cheio de insegurança e com medo de perder a hora.
Um Gol verde estaciona em frente aos Jornalistas Associados, na rua Laboriosa. Descem três garotos. Tensos, fumam um cigarro antes de bater à porta. Conversam um pouco, acertam os últimos detalhes e executam o difícil ato de tocar a campainha. Um vulto passa pela janela da frente da casa. Abre-se a porta. "Vamos entrando". Um senhor de cabelos grisalhos os recebe cordialmente, mas sem cerimônias, e aponta uma sala onde estivera trabalhando ao computador. Sentam-se e começam a tão cobiçada entrevista.

Antes, pela manhã, contataram o senhor Alberto Dines para confirmar o horário do encontro. O susto foi grande: "Tá tudo errado! Esses professores não estão fazendo o trabalho direito, mandam os alunos fazer entrevista atrás de entrevista. Aí o jornalismo vira isso: só se reproduz o que o outro disse. Ninguém mais fica parado num farol observando as coisas. Estudante não me entrevista mais. Essa vai ser a última vez. Bom, cheguem por volta das seis e meia". E lá estavam os três, no horário combinado, sentados em frente a um jornalista de renome. Não podiam titubear, o tempo concedido era pouco. Logo começaram, meio engasgados, é verdade. Mas rapidamente ficaram à vontade.

De repente toca o telefone, pela primeira vez. Mau sinal. Dines atende e diz que sairia em pouco tempo. Retomam a conversa. Apressam-se as perguntas. O maldito toca novamente. Ele torna a dizer que logo sairia, que estava terminando de dar uma entrevista. Desta vez falava com a irmã. Faltava abordar alguns pontos. Recomeçaram. O relógio de parede bate sete. Sete e meia. Oito. "Acho que é isso", finaliza um dos rapazes. Como Dines mesmo diria, eles vão agora reproduzir o discurso alheio.

Alberto Dines, 67 anos, jornalista desde 1952, consagrou-se ao assumir, na década de 60, a redação do Jornal do Brasil, quando foi um dos principais responsáveis pela reforma por que passou o jornal. Depois disso, trabalhou em outras publicações, incluindo Folha de S. Paulo e Pasquim. Exatamente na Folha, em 1975, depois de um ano como professor convidado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, começou a escrever o "Jornal dos Jornais". Era a primeira coluna de crítica à imprensa no Brasil e o início do seu trabalho em media criticism. Por que o interesse pelo tema? Tudo depende da visão que Dines tem do trabalho jornalístico. Para ele, o jornalista é um observador da realidade e deve ter grande capacidade de contestação. É um analista da sociedade, capaz de ver o que está certo e o que não está.

Ele continua criticando. Quem é o alvo? "O sistema". Desde os leitores até os jornalistas. "Como os jornalistas não alteram o sistema, os leitores podem ser incentivados a recusar o tipo de mensagem que estão recebendo". Como esse trabalho está repercutindo? "Muito bem. Devido ao número de inimigos que consegui...". Quando começou, em 75, dizia coisas extremamente arrojadas para a época. Agora virou premissa. "Você vai a um seminário qualquer e vê jornalistas fazendo críticas à mídia, o que seria impensável há 24 anos".
Hoje, vive o que chama de "o ápice do meu trabalho". O Observatório da Imprensa já tem mais de três anos na internet e, em maio, completou um ano como programa de televisão. Dines diz que o Observatório é um espaço para reflexões. E tem motivos reais para se gabar: ninguém tinha feito metajornalismo com este formato ainda. O site é quinzenal, mas o programa vai ao ar todas as terças à noite na TV Cultura.

O Frias disse: "Você vai criar inimigos"

"É, a gente vai aperfeiçoando... As coisas aconteceram por acaso. Eu vim com a idéia de tentar desenvolver aquilo que tinha visto nos Estados Unidos. Quando o Frias me convidou para trabalhar lá (na Folha de S. Paulo), eu disse: ‘Quero fazer mais uma coisa além do que a gente combinou, mas não quero ganhar um tostão a mais’. Expliquei meu projeto. Ele retrucou: ‘Isso vai te dar problema, você vai criar muitos inimigos’. Mas insisti. O Jornal dos Jornais tinha muitos erros. Era a crítica dentro do próprio veículo e estávamos na época da auto-censura. Foi muito complicado. Eu estava sozinho, não tinha acesso a todos os jornais e não via todos os noticiários na televisão. Naquela época não havia o conceito de ombudsman. Mas teve um efeito extraordinário. Quando o governo fez pressão em cima da Folha, o Jornal dos Jornais foi mencionado, ele incomodava. Eu continuei, mas em 77 a coluna acabou. O jornal não tinha tradição e eu não estava preparado para fazer a crítica científica. Intuitivamente fiz algumas coisas. Aquilo era, sobretudo, uma espécie de tribuna para você pegar o governo, pegar a censura".

Tudo isso culminou no Observatório. A idéia surgiu a partir do Labjor, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, do qual Dines é um dos idealizadores. "O Labjor foi criado para atuar em três frentes. Uma dentro da universidade, não para graduar jornalistas, mas para dar cursos de pós-graduação e especialização. A segunda atividade é voltada ao mercado de trabalho, fazendo projetos e programas de treinamento. O terceiro eixo, onde entra o Observatório, é a atuação junto à sociedade. Então, escrevi um artigo e pusemos num site. Mas era estático. Pensamos: ‘Não, não pode, tem que ter periodicidade’. Fomos descobrindo sozinhos. Até que eu decidi que seria quinzenal. Foi todo um processo de evolução".

"Não ganho nada e perco dois fins de semana"

Dines é a cara do Observatório. Quer queira, quer não, é difícil dissociar um do outro. Mas ele diz que não é o dono da crítica. "O Observatório é amplo, tem cem pessoas colaborando em cada edição. Esse é o nosso avanço. Não é personalizado, não sou eu. Eu dou a minha opinião. Existem dez, vinte, trinta pessoas fazendo isso também. Não há ninguém que diga: ‘Eu mandei um comentário e não foi publicado’. Não é publicado quando é ofensivo, ou se é um comentário que não diz respeito à imprensa. Isso não sai". Entretanto, no Observatório, não se adota uma linha única? "A gente tem o maior cuidado com a nossa postura. Nem no programa, nem no site, há uma linha. O Observatório está aberto a todos. Quem quiser que diga o que quiser, desde que não ofenda".

O que ainda falta no Observatório? Para ele, só dinheiro. "Não ganho nada e perco dois fins de semana por mês por causa do Observatório. Só quatro pessoas recebem, e uma miséria. Deveria haver recursos, não para que eu ganhasse, mas para chamar mais gente, bons jornalistas que recebessem para escrever. Hoje você tem jornalistas que estão com a mão na massa, trabalhando em jornal, sem tempo para se dispor ao idealismo porque precisam sobreviver. Temos dois anunciantes. No dia em que tivermos pelo menos uns quatro vai dar para pagar as pessoas". Segundo ele a receita é simples: "Eu precisava parar uma semana, alguns dias e sair, rodar a bolsinha e procurar anunciante".

O subtítulo do Observatório é "Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito". E a TV? E o rádio? "Não teve outra forma. ‘Você nunca mais vai ver a mídia do mesmo jeito’, não ia soar". Mas parece, realmente, que se privilegia a análise da mídia impressa. "O jornal impresso dá o formato da mídia. Ele é o princípio e o fim; ele pauta e é pautado pelos outros. Trata-se do veículo elementar. Sem dúvida, com mais dinheiro, contrataríamos sujeitos com televisões em casa para acompanhar todos os noticiários. Outra idéia seria desenvolver um programa com as escolas de jornalismo, que fariam comentários em cima da imprensa eletrônica. Mas precisaria de dinheiro para pagar um monitor que coordenasse esse trabalho. Por enquanto, o impresso é mais acessível. Mas também é mais importante".

"É uma escala de valores revoltante"

Se existe um modelo ideal de jornalismo, para ele, é o americano. "Chegam as eleições e, no editorial, eles dizem: ‘Vamos apoiar o candidato tal por isso e isso’. Apoiam no editorial, não no noticiário. Aqui, os jornais manipulam". Então, o problema é a falta de isenção? Existe ainda a trivialidade, a inconseqüência. "É uma escala de valores revoltante. No domingo seguinte à desvalorização do Real a Folha deu uma chamada de primeira página dizendo: ‘Olha, a desvalorização vai afetar o preço dos produtos importados, então preparem-se, porque o vinho francês e as viagens ao exterior vão ficar mais caras’. Dois exemplos de Maria Antonieta. Eles acreditam que o leitor é um imbecil".

Um grande problema do jornalismo não seria a empresa jornalística? Segundo Dines, não. "O New York Times, melhor jornal do mundo, dá lucros espetaculares". O lucro é legítimo, permite o investimento. Entretanto, não se pode esquecer dos pressupostos da atividade jornalística. "Um serviço público tem compromissos com a sociedade, com a educação. Então, o jornal tem que encontrar um meio de ganhar dinheiro sem se envergonhar disso". Mas não fica muito fácil cair numa postura tendenciosa e interesseira? É difícil saber até onde vai a autocrítica e a capacidade que os jornais têm de se envergonhar de alguma coisa.

"A imprensa piorou. (...) É o sistema."

"Acho que a imparcialidade não existe, mas você não pode se esquecer de que hoje a imprensa exerce um papel político e que deve tentar a isenção. Para isso, o importante é criar um conjunto de opiniões diversificadas. Um jornal deve apresentar estas opiniões e assumir na hora H. Para isso serve o editorial. Agora, quando começa a se manifestar na manipulação da informação, numa manchete carregada para um lado ou para outro, aí eu acho calhorda".

Há outros problemas. E a falta de maturidade de muitos jornalistas? Também. "O jornalista deveria se formar e depois ir, por exemplo, para Presidente Prudente. Trabalharia na Tribuna de Presidente Prudente como ilustrador, repórter, fotógrafo... Depois de adquirir experiência, viria para Ribeirão Preto. É assim nos Estados Unidos. Você vem vindo, vem vindo, até que chega no New York Times". Há também o ensino acadêmico neste processo de formação profissional. "Sempre defendi o diploma obrigatório. Entretanto, as escolas não aproveitaram a obrigatoriedade para criar um novo padrão de jornalismo. São um reforçador do mercado. O correto seria se contrapor a ele, no sentido de preparar gente que viesse com disposição de mudar". Então o diploma obrigatório não é essencial? "Não, não é. Eu sou um jornalista razoável e não tenho o científico. Mas é melhor que exista a escola, desde que orientada a ajudar na preparação desse profissional, que tem uma função muito especial. O jornalismo é também um estado de espírito. As escolas precisam estimular isso".

Se a crítica existe é porque as coisas não vão bem. "A imprensa piorou, ficaram muito visíveis as falhas. Visíveis a olho nu". De quem deve partir a mudança? "Não adianta querer personalizar. É o sistema. Deve vir da empresa, do administrador, do chefe e dos profissionais".

"A imprensa não pode dar sempre a última palavra"

"Precisa de incrementos jurídicos". Do jeito que está não pode ficar. A gente vê muitas aberrações por aí. Essa história de Escola Base já cansou... "Que seja no código penal... Sei lá, onde couber. Isso é obrigatório, tem em todo lugar. Não sei se deve levar o nome de lei de imprensa. O código penal, ou outro código qualquer, deve conter mecanismos para regular a imprensa. É claro que os donos de jornais não querem nenhum tipo de regulamento. No mundo de hoje, a imprensa, a empresa jornalística, está se expandindo muito rapidamente em atividades que não são próprias do jornalismo e transformou-se em um negócio que não era a sua finalidade".

O ombudsman, então, não serve? "Serve e tem a maior importância". Ele afirma que existem vários estágios. Um deles é a ação jurídica. "Ombudsman não vai falar em direito de resposta: ‘Não, fulano de tal precisa ter dois centímetros de resposta’. Quem diz é o juiz. O sistema de contra-poder começa com a sociedade discutindo a mídia e o ombudsman fazendo a análise dentro do jornal. Sozinho, nenhum destes elementos funciona. Necessitamos de regulamentos. A imprensa não pode dar sempre a última palavra. Está provado que ela não exerce uma atividade insuspeita".

Um jornalismo coerente é possível. "Basta que o autor da matéria, quem fez o jornal, questione se está fazendo corretamente. Ao criar essa pergunta interior, estaremos dando um passo. Claro que tem muita gente cínica que faz uma manchete destorcida e vai dizer que foi correto. Mas, se analisarmos nosso trabalho de acordo com valores éticos, as coisas podem melhorar".

"Há um filme muito interessante", dizia ele, referindo-se a O Quarto Poder. Mas Dines não concorda com o apelido: "Decididamente não é. Não é mesmo. Se os jornais baseiam todas as suas decisões nas pesquisas de opinião, o quarto poder não é a imprensa, são os institutos de opinião pública. Veja, não é o público, porque o instituto pode manipular. A coisa se diluiu em prejuízo da imprensa. Ela abriu mão de ser o quarto poder, mas ainda tem condição de ser o quinto ou o sexto".

Fonte: www.reescrita.jor.br