LEITURAS
DO ECONOMIST
Diagnóstico inútil, o
paciente está morto
Alberto Dines
Clinicamente morto. Nosso paciente é a
mídia (conjunto de meios de comunicação), a intermediária entre
sociedade e realidade.
Enquanto a realidade muda com
velocidade cada vez maior, a sociedade brasileira oferece claros
indícios de entorpecimento. Não se surpreende, não enxerga o insólito,
não se importa, não se indigna nem se deixa convocar para coisa alguma.
Só se mexe movida por lances passionais, condicionada há décadas pela
estrutura narrativa dos folhetins televisivos.
Nossa mídia não discute a mídia e, com
isto, descumpre sua obrigação maior de servir à sociedade porque a
discussão sobre a mídia é essencial para definir os seus padrões de
discernimento.
Preço das mudanças
Nossa sociedade participa das eleições
porque é obrigada a votar, de outra forma abdicaria completamente da
faculdade de questionar ou intervir. Prefere ser conduzida por
narradores medíocres e tramas banais do que experimentar enredos
diferenciados. Entusiasmou-se com a vitória de Barack Obama porque esta
não se deu aqui, não precisará bancar o preço das mudanças.
Desde os tempos da autocensura não se
vê tamanha letargia, tamanho tartufismo: a sociedade finge que precisa
da mídia e a mídia finge que serve a sociedade. O resultado é esta
geléia cívica baseada em meias verdades, meias mentiras e uma colossal
hipocrisia.
Nossa mídia não media, enrola e se
enrola. Como não se sente cobrada nem exigida, como se considera livre
de responsabilidades e compromissos, ajeita-se a uma pauta sabidamente
neutra, composta de "ondas" rigorosamente inofensivas para vender a
imagem de arauto da transformação.
Há cerca de um mês, o influente
semanário Economist (edição de 23/10) colocou o Brasil na
berlinda ao denunciar a existência de duas falhas na nossa mídia. Errou:
são três. A omitida é mais importante: considerar-se acima do bem e do
mal, desobrigada de discutir-se e prestar contas.
Crítica de mídia é tabu
A Folha tem, em média, doze
colunas assinadas nas edições dos dias úteis, o Estadão e o
Globo têm dez – são mais de trinta profissionais, recrutados entre
os melhores, altamente remunerados e que, não obstante, resignam-se às
imposições empresariais sobre o que podem ou não podem escrever. E
escrever sobre mídia na grande imprensa é tabu. Trata-se do único setor
da vida brasileira proibido de buscar excelência porque só pode fazê-lo
na clandestinidade. Ou no circo.
O Economist identificou duas
grandes falhas na mídia e na sociedade brasileira: a obrigatoriedade do
diploma para o exercício profissional do jornalismo e a farta
distribuição aos congressistas de concessões de radiodifusão.
Ao tratar do diploma nomeia os
sindicalistas como os maiores interessados na reserva do mercado
profissional. Errou novamente: a maior interessada em manter a
obrigatoriedade do diploma é a própria indústria do diploma – as
universidades privadas, nelas compreendidos seus donos, hoje
milionários, e os corpos docente e discente, ingenuamente a seu serviço.
Mas quem sustenta esta pretensão é a
própria mídia, que jamais tentou policiar efetivamente a qualidade do
ensino superior privado, temerosa de perder seus anúncios. Apenas com os
rankings anuais dos melhores e piores cursos não se corrige uma
aberração destas proporções.
As empresas jornalísticas, aferradas à
balela de que são as únicas autorizadas a empunhar a bandeira da
liberdade de expressão, consideram a obrigatoriedade do diploma como um
impedimento ao acesso à informação, mas não querem arriscar o seu
faturamento.
O redator da Economist elogia a
qualidade do jornalismo brasileiro (se comparado com o mexicano e
argentino), mas não consegue perceber as nuances e sutilezas dos
problemas que apontou. A questão não é linear – ser a favor ou contra o
licenciamento de jornalistas ou a obrigatoriedade do diploma –, o
simplismo aqui será sempre pernicioso, qualquer que seja a posição
assumida.
A sociedade brasileira precisa de uma
mídia capaz de manter-se como assunto de um debate nacional. Isso requer
humildade, decência, transparência e, principalmente, espírito público.
Os mini Berlusconis
O redator do Economist acertou
ao constatar que o maior defeito (the biggest flaw) da mídia
brasileira é a concessão de canais de radiodifusão a parlamentares. Tem
razão: é o pecado original, nele embutem-se todas as distorções e
desvios que comprometem a mídia brasileira.
Mas os culpados não são esses "mini
Berlusconis", como os designa a revista. A mídia os aceita e convive com
eles, legitima-os ao resignar-se à flagrante ilegalidade. Com exceção da
Folha de S.Paulo, que há anos acompanha o aumento destas
concessões.
Então, por que se cala o resto da mídia
impressa? Porque mídia impressa e mídia eletrônica no Brasil não são
entidades separadas, com interesses divergentes, estão interligadas,
reforçam-se, fazem parte do mesmo sistema.
O senador José Sarney (PMDB-AP) é um
desses "mini Berlusconis": tem emissoras de rádio, TV e tem jornal. Em
cada estado e região do território brasileiro há sub-Sarneys, mini-mini
Berlusconis que nenhum governo teria a coragem de enfrentar.
O Economist está teoricamente
certo, Na prática, seu diagnóstico é deletério porque ignora os
desdobramentos do problema. Basta lembrar que em 25 de outubro de 2005,
o Instituto Projor (mantenedor do projeto Observatório da Imprensa)
entregou à Procuradoria Geral da República (PGR) um minucioso cruzamento
de dados comprovando que mesmo integrantes da Comissão de Ciência e
Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados (CCTCI),
encarregada de verificar as concessões, são concessionários de
radiodifusão. A Procuradoria recebeu a contribuição, agradeceu, examinou
o estudo ao longo de dois anos e... arquivou. Promete usá-lo
oportunamente.
Quando? O Economist não sabe.