MILÍCIAS X IMPRENSA - O DIA

Seis anos após a morte do jornalista Tim Lopes por traficantes do Rio de Janeiro, o Observatório da Imprensa na TV, exibido na terça-feira (3/6), voltou a discutir os limites do jornalismo na busca pela denúncia, pelo furo de reportagem. Até que ponto o profissional de imprensa deve arriscar-se para cumprir o papel de manter a sociedade informada?

O programa da TV Brasil debateu o seqüestro e tortura sofridos por uma equipe do jornal O Dia, ocorridos em meados de maio e divulgados no sábado (31/05). A atitude dos criminosos revoltou associações de classe e de defesa dos direitos humanos. O grupo passou 15 dias infiltrado na favela do Batan, no Rio, para produzir uma reportagem investigativa sobre a atuação das milícias na comunidade. Descobertos, repórter, fotógrafo e motorista ficaram cerca de sete horas em poder da milícia.

Participaram do debate ao vivo, no Rio de Janeiro, o diretor de Redação de O Dia, Alexandre Freeland; Maurício Azêdo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Angelina Nunes, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O convidado de São Paulo foi o coronel José Vicente da Silva, ex-secretário Nacional de Segurança Pública.

Alberto Dines abriu o programa comentando os assuntos de destaque da semana. A atividade do jornalista Armênio Guedes, que completou 90 anos de idade, foi o primeiro tópico. Para Dines, o elixir da longevidade de Armênio é a liberdade. O outro tema da seção foi a iniciativa da família do repórter político Carlos Castello Branco de colocar as oito mil edições da coluna do jornalista disponíveis em um site.

O tema do Observatório na TV desta semana seria o bicentenário do jornal Correio Braziliense, o primeiro periódico brasileiro, mas o assunto foi adiado para a próxima edição (10/6) devido à urgência em tratar do ataque aos jornalistas no Rio de Janeiro. Dines criticou a pouca cobertura dos 200 anos do Correio. O jornalista afirmou no editorial que a agressão sofrida pela equipe de O Dia confronta a Constituição e cria no Rio de Janeiro um foco de subversão da ordem pública.

O jornalista como investigador

A reportagem exibida antes do debate ao vivo mostrou opiniões de autoridades e entidades de classe. Para Wadih Damous, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, é preciso apurar o paradeiro do morador da comunidade que foi capturado junto com a equipe e que ainda está desaparecido. O jornalista Aziz Filho afirmou que as milícias impedem a circulação da imprensa nas comunidades para esconder o drama que estas vivem.

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, avaliou que a reportagem que o jornal produzia era, no mínimo, arriscada. O chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Gilberto Ribeiro, disse que o jornalista é, por excelência, um investigador, mas que não se pode negligenciar a segurança dos profissionais que se infiltram em áreas de risco.

Suzana Blass, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, contou que o órgão solicitou a formação de comissões de segurança dentro das redações, mas que encontra resistências. A proposta estaria sendo caracterizada como uma "intromissão no trabalho". Para ela, é necessário impor limites à atuação da imprensa em áreas de risco. As vidas de jornalistas não poderiam ser colocadas em risco. Ali Kamel, diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo, relatou, em entrevista concedida em 2002, uma das frases do jornalista Claudio Abramo que Tim Lopes tinha em sua mesa de trabalho: "Nenhuma notícia vale uma vida".

Os riscos da proximidade com o crime

No debate ao vivo, Dines perguntou ao diretor de Redação de O Dia se os riscos da infiltração na comunidade foram bem avaliados. Alexandre Freeland prestou solidariedade à equipe do jornal e explicou que a idéia inicial não era uma infiltração na milícia, mas sim mostrar como vivem os moradores de áreas pobres dominadas por bandidos.

O jornalista contou que houve um levantamento inicial e uma aproximação com a comunidade. Destacou os momentos da descoberta da equipe na favela e da captura do grupo como essenciais para que se defina o que aconteceu de errado na operação. E comenta que o caso não teve um desfecho pior porque envolvia jornalistas. "Mesmo a milícia teve medo da reação da opinião pública e não foi até o fim."

O coronel José Vicente da Silva considera que a polícia deve preservar a integridade física dos jornalistas que acompanham as operações de segurança pública e até impedir que profissionais de imprensa participem de situações de confronto. Para ele, foi arriscado a equipe inflitrar-se na comunidade. O coronel afirmou que antes de a imprensa ser intimidada e agredida, a população já vinha sofrendo nas mãos dos milicianos.

O ex-secretário nacional de Segurança alertou que as autoridades policiais devem presidir todas as áreas onde a sociedade está instalada. "Essa situação mostra como está desarticulada a estratégia de segurança do governo porque não está assegurando uma vida decente a essas populações, inclusive criando dificuldades para a imprensa poder entrar. Onde a imprensa não pode entrar, alguma coisa ruim está acontecendo", avaliou.

Desde a morte de Tim Lopes as redações estão traumatizadas, na opinião da presidente da Abraji. Por meio de cursos e treinamentos, a associação orienta jornalistas a antecipar-se ao perigo e ter sempre um "plano B" para situações de confronto. Angelina Nunes comentou que a estratégia de O Globo para produzir matérias sobre milícias é conversar com os moradores fora da comunidade. Para ela, é preciso "desglamourizar" a profissão: "O repórter não é herói, não é Super-homem, não é um Sherlock (Holmes). Ele precisa relatar o que viu e para relatar ele precisa estar vivo".

Segurança em primeiro lugar?

O presidente da ABI rememorou a advertência de Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, ao jornalista Joel Silveira ao enviá-lo para cobrir a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial: "Você está proibido de morrer". Para Azêdo, jornalista não deve morrer na cobertura de áreas de risco mas, por outro lado, não deve "capitular".

Cursos de segurança e outros mecanismos de proteção são necessários para este tipo de reportagem. "O jornalista não pode colocar em primeiro plano, como um valor absoluto que se sobrepõe aos demais, a questão da segurança", disse. Azêdo discordou da posição defendida pela presidente do Sindicado dos Jornalistas: "Ela é a advogada da capitulação em relação à obrigação dos jornalistas de procurar a verdade e noticiá-la onde quer que ela se encontre".

Dines questionou Freeland sobre o motivo de os milicianos terem reagido de forma tão violenta à reportagem. O jornalista explicou que além da cobrança de impostos para segurança clandestina, fornecimento de gás e de TV a cabo pirata, a reportagem deveria relatar o projeto de poder das milícias. Por isso a matéria tinha como título "Política do Terror"; segundo ele, o envolvimento entre parlamentares e milicianos é uma constante.

Para Angelina Nunes, está cada vez mais claro que as milícias estão trabalhando em favor de políticos. A jornalista comentou que alguns nomes de parlamentares envolvidos já vieram a público e nada foi feito. O perfil dos milicianos já foi traçado (em geral ex-agentes da segurança pública), as atrocidades que cometem foram divulgadas. O problema teria começado há cerca de quatro anos, crescido a partir de então e, até agora, poucas providências foram tomadas.

A presença da imprensa na favela e no asfalto foi avaliada no programa. Para Angelina Nunes, a mídia cobre todas as áreas da cidade mesmo após o caso Tim Lopes: "Nós continuamos cobrindo todas as áreas, principalmente as de maior conflito". Os veículos de comunicação cobrem de áreas de risco a condomínios de luxo, com as precauções necessárias.

A presença da imprensa nas áreas de risco

Alexandre Freeland discorda e propõe que a imprensa faça mea culpa. Ele avalia que a mídia não está presente em boa parte das áreas conflagradas e da periferia, apesar do impulso de cobrir essas regiões. Para Freeland, a imprensa não tem uma presença tão eficaz quanto poderia ter. "O que não significa que nós não estamos presentes. Nós não deixamos de entrar nessas áreas mas, se instalar, é uma outra discussão", rebateu Angelina.

Para o diretor de redação de O Dia, a posição da mídia não foi contundente o suficiente para promover uma transformação e levar a sociedade a pressionar as autoridades. Alberto Dines cobrou maior participação de jornais como a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo: "Esse não é um caso local, é um caso nacional".

Freeland comentou a coluna da jornalista Míriam Leitão sobre o caso, publicada na segunda-feira (2/6), no Globo. Num dos trechos, a jornalista diz que "não se pode defender que fiquemos longe dos fatos. Se o jornalismo capitular, eles (criminosos) terão tido uma vitória decisiva". O jornalista comentou que algumas das outras considerações sobre o fato veiculadas recentemente não têm "um viés bem intencionado". Ele criticou órgãos de imprensa que permitem que jornalistas testemunhem julgamentos do "tribunal do tráfico" e enviam repórteres disfarçados a comunidades dominadas pelo crime, que garantem ter mecanismos de segurança. "Se aí tem mecanismo de segurança então me explica qual é. Não tem. Se o traficante quiser, se estiver mais ou menos cheirado, mete bala na cabeça do repórter", disse.