RESUMO DO PROGRAMA
CATÁSTROFES NATURAIS E MÍDIA
Desde os primeiros dias de 2010 a
população brasileira acompanha um noticiário repleto de sofrimento.
Terremotos, tempestades, nevascas e enchentes assolaram países como o
Haiti, Chile, Portugal, Turquia, França e Brasil, causando a morte de
milhares de pessoas. Nas manchetes de jornais, reportagens de televisão
e fotografias o drama dos que sobreviveram e a luta para recomeçar. Mas
por quanto tempo é possível manter estas tragédias na pauta sem correr o
risco de saturar o leitor? E quem determina quando um assunto já está
esgotado? O que os jornalistas aprendem neste tipo de cobertura e qual
deve ser o tom do trabalho da mídia? O Observatório da Imprensa
exibido na terça-feira (9/3) ao vivo pela TV Brasil discutiu estas e
outras questões que pautam a atuação dos meios de comunicação durante
coberturas de catástrofes naturais.
Para debater este tema, Alberto Dines
recebeu no estúdio de Brasília os jornalistas que participaram da
cobertura do Haiti. O repórter fotográfico Alan Marques, da Folha de
S.Paulo, é pós-graduado em Marketing pela Fundação Getúlio
Vargas. Também trabalhou em O Globo e no Jornal de Brasília.
Luciana Lima, repórter da Agência Brasil, passou pelas redações do SBT e
Portal Terra. Em São Paulo, o convidado foi Renato Janine Ribeiro,
professor titular de Ética e Filosofia Política na USP, na qual se
doutorou após defender mestrado na Sorbonne. Foi diretor de avaliação da
Capes, em Brasília. Seus principais interesses são a construção da
democracia, os direitos humanos e a filosofia política clássica.
Antes do debate no estúdio, na coluna
"A Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a atuação do Conselho
Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) no caso do
comercial da cerveja Devassa protagonizado pela polêmica modelo Paris
Hilton. "Tudo indica que o Conar pretendia lançar no mercado político o
conceito da autorregulação para contrapô-lo às ideias de controle
social, muito em voga", disse. Outro tema da seção foi o fato de o
jornal capixaba A Tribuna não ter publicado a coluna do
jornalista Elio Gaspari de domingo (07/03), que criticava o governador
do Espírito Santo, Paulo Hartung. "A Tribuna é um jornal moderno,
bem equipado e a desculpa de 'falha técnica' é uma balela, inaceitável",
disse.
Notícia velha vende jornal?
Ainda antes do debate, em editorial,
Dines questionou: "O público não fica cansado de tanto horror? A
solidariedade é capaz de resistir à exposição contínua?". Por outro
lado, há a pressão dos editores por alternância de assuntos e os setores
de marketing têm "obsessão" por novas notícias. "Mas o que quer o
público, o que se espera de um veículo jornalístico – espetáculo ou
humanidade, show ou realidade, circo ou compaixão?".
Na reportagem exibida antes do debate
ao vivo, foram mostradas diversas opiniões sobre a atuação da imprensa.
A jornalista Lília Teles, que cobriu a catástrofe no Haiti para a TV
Globo, contou que durante o trabalho é difícil saber se as matérias
estão conseguindo traduzir "todo o horror" que assola o local do
desastre. "É tanta morte, tanta dor, tanto sofrimento, que as palavras
parecem não ser suficientes, nunca", disse. Em muitos momentos, enquanto
o cinegrafista filmava, a jornalista permanecia calada porque as imagens
já eram suficientes para dar ao público a dimensão da situação.
De acordo com a jornalista, era preciso
ter respeito pelo telespectador. Grande parte não gosta de ver os
detalhes. "Eram detalhes muito chocantes que eu acho que não cabiam na
televisão", disse. O grande desafio de um jornalista em uma situação
degradante como aquela é buscar o equilíbrio para não correr o risco de
"perder a mão". "O termômetro para isso é o bom senso." Era preciso que
as pessoas entendessem que a imprensa estava lá para ajudar: "A gente
não estava ali para expor os sofrimentos, virar as costas e ir embora".
O povo haitiano buscou na mídia um aliado confiável. Pedia água, comida
e socorro.
Quem deve colocar o ponto final
Rodrigo Rotzsch, editor da seção
"Mundo" da Folha de S.Paulo, destacou que um assunto se
mantém na primeira página enquanto houver "boas histórias", não há um
prazo preestabelecido. O espaço limitado dos jornais e a impossibilidade
de manter correspondentes nos locais afetados por um período extenso não
permite que a cobertura se alongue. As agências internacionais de
notícias começam a "deixar o tema de lado" com o passar das semanas.
Luiz Alberto Py, psicanalista e
psiquiatra, destacou que tomar conhecimento de uma catástrofe e conviver
com ela são situações distintas. Cada indivíduo escolhe conhecer os
fatos de acordo com sua maneira de ser e sua relação pessoal com a
catástrofe. "Quanto mais próximos os acontecimentos são, mais eles nos
afetam", disse. O psicanalista chamou a atenção para o fato de que a
distância geográfica também gera um distanciamento afetivo.
No debate ao vivo, Dines pediu para
Luciana Lima rememorar os momentos anteriores à viagem para o Haiti. A
jornalista contou que foi tudo "muito rápido". Na manhã seguinte ao
terremoto recebeu um telefonema da Redação perguntando se em cerca de
uma hora teria condições de estar na Base Aérea de Brasília para "pegar
carona" no avião do governo federal que levava autoridades para Porto
Príncipe. Com o tráfego aéreo interrompido, era a única oportunidade de
chegar ao país rapidamente. Foi o tempo de arrumar a mala e pegar o
passaporte. A Agência Brasil foi uma das primeiras equipes brasileiras a
chegar ao local da tragédia.
As primeiras impressões do desastre
Mesmo preparada pelas notícias já
veiculadas, ao sair às ruas pela primeira vez, na manhã seguinte à
chegada, o impacto foi grande. A tragédia era "ainda maior" que o
esperado. Nos primeiros momentos, a grande dificuldade enfrentada pela
imprensa foi em relação à estrutura de comunicações do país, destruída
pelo terremoto. Inicialmente, só foi possível transmitir o áudio das
reportagens e o impedimento técnico causou grande frustração às equipes
de TV presentes no Haiti. Para Luciana, era angustiante porque desejava
transmitir as imagens para sensibilizar os brasileiros sobre a
catástrofe.
Para o repórter fotográfico Alan
Marques, esta cobertura será inesquecível. Durante a estada no Haiti,
Marques contraiu malária. Ao regressar, passou "uma semana ardendo em
febre". Perdeu 5 quilos em cinco dias, ainda está se recuperando mas não
se arrepende. Para ele, o que importa é o impacto que seu trabalho
causará nos leitores do jornal. Marques contou que para esta cobertura
adotou o jargão militar: esta não foi simplesmente uma pauta, foi uma
"missão". A equipe estava disposta a enfrentar todos os riscos e se
entregar inteiramente à cobertura do terremoto. "Faz parte da
profissão", afirmou.
A viagem não foi imposta. "Não tem como
recusar porque é uma pauta tão importante que pode ser a pauta da sua
vida, o momento crucial da sua carreira", disse. Dines questionou como
foi o trabalho de escolha das imagens que seriam publicadas pelo jornal
e se houve a preocupação em evitar o sensacionalismo. O repórter
comentou que toda a equipe trabalhou em harmonia e que sempre evitou
captar imagens grotescas que destoassem do perfil do leitor da Folha.
Dines pediu para Renato Janine fazer
uma reflexão sobre o fato de os profissionais serem "arrancados" de suas
rotinas para cobrir a tragédia e logo depois terem que "desligar os
nervos" de tudo o que viveram porque o assunto não se sustenta por um
longo período no noticiário. Janine comentou que as seguidas catástrofes
naturais ocorridas este ano propiciaram um período de exceção para os
jornalistas. Acostumados a acompanhar setores específicos como Política
e Economia, se depararam com uma situação atípica. Como não existe um
jornalista "especializado em catástrofe" é difícil o profissional estar
preparado para estas situações.
Informação contextualizada
A cobertura do tremor do Haiti, na
opinião do filósofo, saiu prejudicada. Neste caso específico, o trabalho
da imprensa não pode se restringir apenas à destruição causada pelo
tremor. Há necessidade de explicar o contexto econômico, político e
social do país antes da tragédia para mobilizar a ajuda humanitária.
"São placas tectônicas que se deslocam, que se afastam, mas o que
mais?", perguntou. A imprensa deve questionar o que se pode fazer para
evitar ou minimizar dramas humanos como este.
Janine destacou que o abalo do Haiti
foi menos intenso do que o ocorrido no Chile, mas as conseqüências foram
mais severas. Para Renato Janine, a população não deve apenas assistir
ao noticiário de forma passiva. A cobertura da imprensa deve ter como
resultado a mobilização da sociedade. "O que me preocupa academicamente
e humanamente é o que resta disso tudo no dia seguinte. Eu só tenho a
imagem, levo um choque na hora e isso não resulta em nada na minha vida,
na minha ação?", disse.
A mídia como aliada
Outro ponto levantado por Dines no
debate foi o papel da mídia como mensageira, citado na entrevista de
Lília Teles. Luciana Lima relembrou uma das cenas mais marcantes
captadas pelos repórteres brasileiros de televisão presentes em Porto
Príncipe: o resgate de dois irmãos de sete e nove anos, cinco dias após
o terremoto. As equipes da Agência Brasil, da TV Globo e da Rede
Bandeirantes estavam pedindo informações em um posto de gasolina quando
foram abordadas por um haitiano.
O homem contou que havia sinais de
sobreviventes em uma casa próxima, mas o volume de pedidos de resgate
era tão grande que o socorro não havia chegado. Os jornalistas foram ao
local e confirmaram a informação. Por iniciativa do repórter Fabio
Pannunzio, da Band, os repórteres convenceram bombeiros que estavam nas
imediações a realizar o resgate. Em pouco tempo, mais de 50 agentes
foram mobilizados para a tarefa. Na opinião da jornalista, salvar
aquelas vidas dependeu do esforço pessoal das equipes de televisão.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Uma nova questão está sendo
discutida nas redações brasileiras e a mensageira foi a natureza. Ou
melhor: as calamidades ditas naturais. A sucessão de dilúvios e
terremotos obriga os jornalistas a encararem uma questão crucial: o
público não fica cansado de tanto horror? A solidariedade é capaz de
resistir à exposição contínua?
Repórteres que fazem o trabalho
de campo são geralmente os mais sensíveis. Comovidos com o que vêem
gostariam de comover os leitores, ouvintes ou telespectadores. Já os
editores querem movimento e o marketing tem obsessão por novidades.
Mas o que quer o público, o que
se espera de um veículo jornalístico - espetáculo ou humanidade, show ou
realidade, circo ou compaixão?
Este debate já foi bizantino,
acadêmico, remoto. Agora ficou atual. Para sempre.
ARTIGO
Por Alberto Dines
TERRENO
MINADO
Mídia não é campo de
batalha
Alberto Dines
As partes estão excitadas, os
militantes exibem os tacapes. O confronto de 2010 deve obedecer a
limites: não pode ultrapassar o plano eleitoral onde há regras,
monitoramento, órgãos disciplinadores e, sobretudo, magistrados
insuspeitos. A entrevista do ministro Carlos Ayres Brito (Estado de
S.Paulo, domingo, 7/3, pág. A-8), na condição de presidente do
Tribunal Superior Eleitoral, é uma prova disso: desestimula a
truculência e enquadra os eventuais provocadores.
Mas a transferência da disputa para o
precário terreno da imprensa é preocupante. A liberdade de informação
foi há sete meses suspensa pelo Judiciário para proteger o chefe do
Poder Legislativo, a Lei de Imprensa foi indevidamente anulada, as
normas que regulavam o direito de resposta foram irresponsavelmente
dissolvidas, não existem órgãos reguladores nem auto-reguladores. A
única experiência de convívio corporativo dentro da mídia – o Conselho
de Comunicação Social – foi arquivada para atender os interesses comuns
das empresas de mídia e do governo federal.
Como se não bastassem as dificuldades
internas, os exemplos de confrontos midiáticos nos países vizinhos só
ampliam o estresse e o ânimo combatente.
Padrões de exigência
Está na hora de baixar a pressão. O
presidente Lula, aparentemente, já percebeu o perigo e está acionando
seus dotes apaziguadores. Mas é preciso desarmar os detonadores dos dois
lados. Os radicais são radicais porque só assim podem aparecer. Sem
exacerbações, tornam-se inúteis, somem.
A crítica aos meios de comunicação deve
ser feita com competência, conhecimento de causa, sem bandeiras
partidárias, a serviço do esclarecimento. A crise dos meios de
comunicação é hoje abrangente e transversal, visível globalmente, mas o
único setor que deveria abster-se de atuar como crítico da mídia são os
governos e governantes. Com o poder de que dispõem, suas observações,
mesmo pertinentes, transformam-se automaticamente em ameaças.
São justamente as ameaças que neste
momento perturbam o processo eleitoral. Eventos ruidosos não solucionam
disfunções crônicas, sobretudo as situadas nos desvãos das instituições.
O jornalismo é um processo informativo que dispensa os fóruns sobre
jornalismo. A obsessão por comícios é compreensível em políticos,
condenável naqueles que a sociedade escolheu para produzir reflexão e
ponderação.
Há na mídia brasileira áreas imunes ao
radicalismo. Não são melhores nem piores do que os irredentistas, a
diferença é que observam o processo holisticamente e, assim, armados de
um ceticismo suprapartidário, tornam-se aptos a aplicar os mesmos
padrões de exigência em todos os quadrantes.
Debate sobre a imprensa
Antes das comoções que envolveram seus
sistemas midiáticos, tanto a Venezuela como a Argentina não dispunham de
entidades dispostas a identificar as disfunções que comprometiam a
fluência e independência do processo informativo. O debate público sobre
mídia só ocorreu depois da irrupção dos confrontos entre governos e
corporações de comunicação.
O Brasil começou a discutir o
desempenho da mídia décadas antes, mesmo que certos artigos da
Constituição de 1988 tenham ficado sem a necessária regulamentação (caso
do Conselho de Comunicação Social, que esperou 14 anos para
transformar-se em realidade e evaporar-se logo em seguida). Mas fomos
pioneiros em universalizar o debate sobre a imprensa.
Esta é uma vantagem que deveria ser
aproveitada agora, imediatamente, antes que a disputa eleitoral
converta-se em foco de intoxicação permanente.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
IDADE MÍDIA
Credibilidade e a
tentação novidadeira
Washington Araújo
Só pode ser pensamento maniqueísta. Uma
coisa só pode ser se outra não puder. A popularização disso decreta o
fim daquilo. Foi assim com a carta quando o telégrafo foi inventado. Foi
assim com o cinema quando o videocassete veio à existência. Ocorreu com
o long playing (LP) quando surgiu o compact-disc (CD) e
com a fita VHS quando apareceu o DVD. A sedução do novo, quando
potencializada pelos meios de comunicação, serve como epitáfio de nosso
passado recente, tão recente que até bem pouco era imbatível presente,
sempre a melhor época para se viver, época em que nada de novo faltava
inventar.
Atravessamos a primeira década do
século 21 debatendo se falta pouco para o jornal impresso receber o tiro
de misericórdia dos meios virtuais, que conectam, a custos muito baixos,
milhões de pessoas de todo o mundo através da Grande Teia, a onipresente
internet. Impressiona o número de novidades que surgem do dia para a
noite. Muitas são as facilidades providas por leitores RSS, a
diversidade temática dos diários virtuais (os conhecidos blogues) e a
eficiência dos alertas do Google para qualquer assunto, qualquer idéia e
qualquer simples palavra. Ainda assim – e apesar disso tudo – é
imperativo reconhecer a força e poder que desfrutam os meios de
comunicação tradicionais: o rádio, o jornal e a televisão.
É que há toda uma história de
credibilidade por trás do edifício da comunicação dita tradicional,
coisa que ainda não deu tempo – se é que isso acontecerá um dia – para
ser construída em torno das novas mídias. É por isso que encontramos
tanta publicidade veiculada nos meios impressos promovendo bens e
serviços existentes muitas vezes apenas nos meios virtuais. É difícil
encontrar notícia que não forneça ligações (links) na internet. O mundo
da internet se torna extensão de nossos olhos, ouvidos e puxadinho de
nossa mente, essa oficina que trabalha o pensamento. Também desconheço
colunista (de renome, para o bem ou para o mal) que não divulgue seu
endereço virtual – seja um sítio ou blog – no espaço em que antes
reinava até bem pouco.
Consequências constrangedoras
Não nos enganemos. Os meios de
comunicação são ainda muito eficazes para levar sua mensagem ao mundo.
Pode até ser que um suplante ou outro, mas não são antípodas, não são
excludentes e ao menos por enquanto, têm tudo para ser complementares.
Outra constatação: se o meio impresso
tivesse que ser eliminado já teria sido. Não foi assim o declínio e a
queda do império dos discos bolachões ante a crescente onipresença dos
CDs? Importante ponto a favor do meio impresso é que integramos a
civilização da concretude: há que se apalpar, dobrar, amassar, guardar
dentro de livro, recortar com tesoura, colar em algum lugar. Quem não
gasta um bom par de horas buscando aquele texto necessário e guiado
unicamente por sua fé na existência física do texto? Uma voz dentro da
gente nos diz: "O texto existe. Sei que existe. Apenas não lembro onde o
deixei, mas tenho absoluta certeza que o texto do José Castelo passou
por minhas mãos!"
Agora... quem poderia usar tais
palavras, encadear frases como essas, fazer tal profissão de fé quando
tenta encontrar algo existente apenas na tela do computador? Ninguém. É
o embate real versus virtual, existência versus
inexistência. Nas cercanias do virtual tudo está sempre em vias de
inexistir e por isso há que se salvar o texto, a imagem, a música, o
vídeo o quanto antes.
E o verbo salvar passa a substituir
muitos outros como guardar, conservar, recortar, colar etc. Há que se
salvar tudo a todo o momento para que não se perca em meio a milhões de
megabytes e terabytes. Ou simplesmente o portal ou responsável pelo
sítio na internet retire o conteúdo de suas prateleiras virtuais. E se
não retire, efetue algumas podas, suprima determinadas partes. Do
contrário... o que acontece com o que não é salvo? É condenado.
Irremediavelmente condenado ao esquecimento. Porque na internet a
verdadeira luta é sobreviver ao esquecimento e conservar um leve
vislumbre de concretude, nem que seja apenas na memória.
Mas temos mais com que nos preocupar.
Saber qual formato dos meios de comunicação em massa prevalecerá não é a
preocupação mais importante. É inegável que os veículos de comunicação
em massa possuem enorme influência em nossa cultura. E precisamos nos
precaver para os abusos por eles cometidos. E não são poucos. Os
problemas vão do simples ato de não conferir a informação ou não
consultar a fonte primária, até distorcer completamente os fatos para
causar as mais constrangedoras e cruéis conseqüências.
Fogo de palha
E quem não estiver satisfeito? Em vez
do bispo, procure os tribunais. Nesse caso levam vantagem advogados,
juízes, promotores e doutos juristas por saberem se utilizar dos
trâmites e rigores da lei, ao contrário do cidadão comum, duplamente
vítima: não só desconhece os seus direitos, como acaba sendo julgado,
sentenciado e cumprindo a pena que lhe é imposta pelo tribunal-imprensa,
esse que há muito faz uso do rito sumaríssimo: expõe, acusa e esquece.
E quando a imprensa julga e pune
publicamente crimes que não se deu ao trabalho nem mesmo de investigar?
O repertório invocado em sua defesa não comporta variações: a imprensa
vale-se das "fontes" (e do sigilo protetor que lhe é inerente) da mesma
forma como o Santo Ofício mantinha em segredo a identidade dos
informantes e, com gosto, lançava suas vítimas na fogueira.
Na Idade Mídia em que vivemos (acho que
já saímos de sua antes-sala), alguns jornalistas se notabilizam por não
respeitarem a privacidade alheia, e serem inconsequentes na divulgação
de informações infundadas como se não tivessem consciência do sofrimento
que levam a pessoas inocentes. Manipulam denúncias com provas falsas.
Plantam notícias apara influir no debate político e no mercado de ações.
Há um jogo de poder violento e não causa espanto o emergente balcão em
que espaço por uma boa reputação são negociados.
O que podemos fazer? Recomendo quatro
ações simples e ao alcance de qualquer de todos nós:
**
desenvolver o senso crítico – conhecer opiniões divergentes sobre o
mesmo assunto, pesar argumentos de uns e de outros, e se for necessário,
pesquisar mais para então formar a própria opinião;
**
tentar entender melhor como a imprensa manipula a opinião pública e
evitar engrossar massas de manobra;
**
observar a maneira utilizada pelos principais veículos de comunicação
para noticiar determinados fatos. Isto inclui atentar para a cobertura
concedida ao imprescindível "outro lado";
**
acompanhar escândalos-fogo-de-palha, aquelas ondas que prenunciam a
fúria dos tsunamis, mas que nos dias e semanas seguintes mostram ser
simples marolas: foram criados em cativeiro para atender essa ou aquela
demanda editorial... ou político-partidária.
PERGUNTAS
Chat:
Acesse a íntegra do nosso chat em:
http://www.tvbrasil.org.br/INTERATIVIDADE/100309-obstv-catastrofes-nat.asp
E-mails e telefonemas:
Paulo Sérgio, Rio de Janeiro
Luciana, o povo teve espírito de comunidade após a catástrofe? As
pessoas se ajudavam?
Laércio Guimarães, Coronel
Fabriciano / MG
Foi dito que o Haiti foi completamente arrasado, mas no dia seguinte o
país recebeu aviões do mundo todo. A destruição foi menor que a
relatada?
José Geraldo Santiago,
Cruzeiro / SP
Em que condições vivem os jornalistas nessas áreas de risco?
Siderlon Lopes, Bahia
Se houvesse um controle maior da mídia, através de um conselho nacional,
haveria menos espetacularização da tragédia e mais responsabilidade com
a informação?
Jorge Junqueira, Belo
Horizonte / MG
Faltou um técnico da área de engenharia para enriquecer o programa.
Rosina, Recife / PE
A imprensa tem condição de divulgar uma catástrofe a tempo, se a
ocorrência foi prevista?
José Luís, Rio de Janeiro
Até que ponto a cobertura das tragédias acaba ocultando a pauta da
corrupção?
Sérgio da Silva Pinto, Rio de
Janeiro
Eu queria tirar uma foto de pessoas cobertas por poluição em uma praia,
mas elas não me deram permissão. Eu deveria ter tirado a foto para
denunciar ou não?
Maria Luísa, Tocantins
Vocês podem comentar a questão das autoridades que culparam a religião
dos haitianos pela tragédia?
Sebastião Araújo, Paracatu /
MG
Não é uma coisa difícil, no meio de tanta desgraça, ter que registrar o
drama e não poder ajudar?
Walter Alcântara, São Paulo
Como fazer quando os jornalistas não estão preparados para cobrir esse
tipo de tragédia?
Marcelo Adriano, Bom Jesus do
Norte / ES
Existe alguma forma do jornalista se manter distanciado em uma cobertura
como essa? Como fazer para se preservar?
Angélico Nonato, Pará
Alan, como é a vivência do choque de uma calamidade tão grande?
Adriano Moraes, Senhor do
Bonfim / BA
Qual é o papel da imprensa, além de propagar a informação, em um caso
como esse?